Fim à vista
Ao longo dos tempos, têm sido publicados muitos livros que incluem a correspondência trocada por famosos ou ilustres, sejam eles políticos ou escritores. Essas cartas permitem normalmente perceber a posteriori tomadas de posição ou decisões que passaram a fazer parte da História (as de Churchill, por exemplo) ou são «tão-só» belíssimas peças literárias que têm ainda o condão de satisfazer a nossa curiosidade sobre a vida pessoal ou as ideias dos seus autores. E, contudo, com o desenvolvimento das novas tecnologias, as pessoas deixaram positivamente de se corresponder, aproveitando as numerosas vantagens do correio electrónico, entre elas a rapidez com que chega ao destino. Mas isso mudou profundamente o uso da linguagem, tornando as nossas actuais mensagens, na generalidade, bastante pobres em estilo e vocabulário e fazendo desaparecer as velhas cartas e postais que trocávamos com a família, os amigos e os namorados. Não creio, enfim, que se possam vir a publicar os e-mails e SMS dos grandes homens e mulheres do mundo em substituição da antiga correspondência. Talvez os romancistas se dediquem então à epistolografia nas suas obras, mas as cartas ficcionadas não terão o mesmo interesse histórico e dificilmente satisfarão a nossa curiosidade relativamente ao carácter e às posições dos «remetentes»... Bem sei que a velocidade a que vivemos hoje nos obriga a um certo pragmatismo, mas tenho pena de que nada fique para a posteridade que valha realmente a pena reler.
Olha se, naquela altura, já houvesse e'mail como é que eu conheceria esta confissão de um grande escritor para um seu amigo: Sou feio, desajeitado, pouco asseado e sem verniz.Sou irritadiço, desagradável para os outros, pretensioso, intolerante e tímido como uma criança. Sou ignorante...confessava-o Tolstoi (por carta a um amigo) quando tinha 26 anos
ResponderEliminarSeverino
EliminarNem é de admirar essa faceta de Tolstoi com 26 anos, altura em que era soldado, briguento, quase sempre embriago e frequentador dos prostíbulos.
Só se emendou quando casou com a Sophia.
Benditas mulheres!
Oh amigo Joca e como o saberíamos nós se na altura já houvesse e'mails e a correspondência já tivesse em desuso?
EliminarDe facto, amigo Severino, pouco ou nada saberíamos. Daí a razão do post da Rosário e do comentário de alguns visitantes. O progresso torna volúvel (ou volátil) o que se troca como correspondência digital e o papel escrito é marca indelével dessa troca.
EliminarFaçamos - ou façam os que ficam na História das Artes e das Ciências, pelo menos - o seguinte: imprima-se o que se endereça e o que se recebe e guarde-se em arquivo adequado. O progresso também nos dá essa faculdade.
Um bom fim-de-semana.
Na verdade, só conseguimos pensar o futuro a partir de hoje.
ResponderEliminarSurgirão outras formas de "guardar" as "confissões" dos autores?
Será "tudo" tornado tão imediatamente público, que a procura de alimento para a curiosidade ou até a própria curiosidade serão desnecessárias? Confirmar-se-á a tendência de desinteresse pelo passado dos "curiosos" que hão de vir depois de nós?
Do passarinho diria: cantei ao nada sei. Curioso. Mas os tempos que outros e o existe um fim a vista a forma afim de vista ao fim em andamento, anda e desanda e remenda a demanda.
ResponderEliminarTem muita razão - infelizmente!
ResponderEliminarSe calhar nem ninguém havia pensado nisso!
Na forma como se hão-de recolher as idéias , palavras ou pensamentos dessas pessoas ilustres e que valha a pena preservar...
É um desafio, mas acredito que surgirá!
E, porque estamos um blog de leitura, gostaria de referir dois em especial, para vossa reflexão durante o fim de semana que se avizinha, que se me afiguram oportunos tanto quanto ao tema como adequados no que tange às citações com conteúdo:
1-"Breve história do progresso" - Donald Wright (Dom Quixote). Aconselho vivamente!
Nele em determinada altura é apresentado um conceito que acho extraordinário e me pôs a pensar:
"Evolução é uma mudança, mas não significa necessáriamente que seja para melhor" (sic).
Creio que todos o Extraordinários entenderão a sua profundidade e significado!
2- "A arte da viagem" - Paul Theroux (Quetzal)
Acabado de ler ontem de madrugada... é entre outra coisas um repositório de citações e frases de viajantes célebres, notável! Cheio de uma sabedoria universal e intemporal. Permito-me citar duas em particular pelo efeito que em mim causaram:
"A viagem é fatal para o preconceito, a intolerância e a estreiteza de espírito, e muitos dos nossos precisam urgentemente dela por causa dessas coisas. Visões largas, sadias e benevolentes de homens e coisas não se podem adquirir vegetando toda a vida num cantinho da Terra". Mark Twain )
Absolutamente fantástico pelo que de verdade contém!
"E estar aqui neste local, agora, vale a viagem de mil milhas e tudo o que isso nos custou. Talvez tenhamos vivido para estar aqui agora!"
Rockwell Kent )
Quem já tenha visto o mar no Cabo Sardão, uma serra no da Cumeeira, o deserto desde uma colina pedregosa em Moçâmedes, os rochedos de Pungo Andongo ou o Huúmo , sobrevoado os Andes, experimentará uma comoção que pode não conseguir identificar imediatamente, mas é isto!
São algumas das palavras que exprimem exactamente aquilo que penso e sinto! Em particular a última afirmação, do explorador Polar, pois que a bebi como o entendimento final daquilo que somos e para que existimos, o que nunca encontrei nos livros negros e deprimentes, e talvez explique a minha aversão a eles e aos seus autores.
Um bom fim de semana para todos!
"Evolução é uma mudança, mas não significa necessariamente que seja para melhor" ; claro que será para melhor para alguns, para alguns, repito; porque quem manda actualmente em Portugal, na Europa e até no mundo são alguns (sem rosto)...
EliminarSegura a pluma o universo! Diga-nos quem foi o nome do boi?!
EliminarUm pensamento vos alcança em mais – esta nova geração quer sentir, sua carência é de sentimentos. Por fora cheios de tudo, por dentro, o nada. A inversão de idéias distanciou o homem de todos os valores que norteiam sua estabilidade emocional. Mas, do que nunca a humanidade vive sua fase de angústia primitiva. “Remete ao começo dos tempos onde o nada é o tudo”.
ResponderEliminarAprendemos a dominar as paixões, os valores, as razões, as proporções. Aprendemos a existência de partículas e que o mundo pode estender-se ao infinito. Mas, esquecemos de aprender a comportar, educar e cultivar nossos sentidos, abalos, medos, e de como mensurar esta necessidade. Ganhamos a igualdade nos gêneros, mas perdemos com a individualidade o valor da humildade. Já que os padrões de competição ditam regras para atualidade. Este sentimento de impotência e não compreensão do momento é algo que reside entre o idealismo e realismo como um fantasma de nossos dias. E para maiores esclarecimentos antes de Deus nos abandonar, nós é que o abandonamos.
A sociedade está condicionada a repensar estes paradigmas se, quiser consertar a bússola. Nossa fração de conhecimentos tem a distância de nossa incompetência. Quando o homem pensa que domina e é vencido pela inconseqüência de seu aprendizado. Porque ainda estamos na contramão dos tempos, marchando sob uma luz que enfraquece nosso otimismo.
Bom fim de semana portugueses.
Sou já um veterano semiabsoluto , mas não me consigo rever nestas tiradas - tudo por fora, nada por dentro... - com que se apodam as novas gerações. No "nosso tempo" era tudo tão perfeito que já quase nenhum de nós consegue imaginar-se a viver aí, sem net ou email ou outras coisas. E não acredito de todo que não sejam literariamente aproveitáveis muitos dos testemunhos que ficarão consagrados nestas novas formas de expressão.
ResponderEliminarOh Paulo efectivamente, como já foi referido anteriormente, "Evolução é uma mudança, mas não significa necessariamente que seja para melhor"; não se trata de no meu tempo é que era bom, simplesmente é diferente; agora temos tudo no Google...é só pôrmo-nos de cócoras...
Eliminarcara Rosário, penso que é um género que já está em decadência há muito tempo.
ResponderEliminara correspondência fazia sentido e era importante antes de Abril, quando havia muita gente ligada às artes e letras, "exilada", dentro e fora do país. era a forma mais directa de se trocarem opiniões e de "pintar" a manta (muitas vezes com nomes e moradas falsas, para fintar a censura...
além de quase não existirem as colunas de opinião, nos diários, havia muito escritor "proscrito", sem possibilidade de escrever para jornais...
acho mesmo que a correspondência era uma das formas existentes para se desabafar, para dizer mal do outro, para se "cronicar"...
Caríssimo Luís
EliminarGeralmente os autores das cartas são os únicos que não as vêem publicadas; provavelmente, muitos nem as queriam publicadas.
Já vi de tudo, até as cartas de amor de Fernando Pessoa.
é verdade, "Jocamartinho".
Eliminaralguns até se devem interrogar: «fui eu que escrevi isto?» :)
MR , olha que também publicaram cada coisa!Comprei corrpondencia entre o Stefan Zweig e o Freud e era uma miséria.Eram só bilhetes a marcar encontros em cafés. Dali só tirei um roteiro, muito giro, em Viena , dos cafés onde as criaturas se encontravam,mas senti-me burlada com o livro. Mas se alguém encontrar as cartas do Nietsche com o Wagner quando ambos viveram em Basileia valem a pena.
ResponderEliminarMas oh Teresa sentiu-se burlada com o livro ou com o teor das cartas? Caros amigos este tipo de correspondência que, infelizmente, se está a perder será assim, mal comparado, como desenhos das pedras nos séculos vindouros. E se até se deixam de fazer barragens por causa de uma simples gravura numa pedra que tesouro não seriam estas cartas nesse futuro...
EliminarEncontra uma obra com a publicação das cartas entre as duas importantes figuras das artes, Nietzsche e Wagner, numa edição da Guimarães Editores, à venda na FNAc por cerca de 12 euros.
EliminarTambém encontra um "cheirinho" aqui:
http://ofiodaspalavras.blogspot.pt/2005/04/missivas-entre-nietzsche-e-wagner.html
"Não creio, enfim, que se possam vir a publicar os e-mails e SMS dos grandes homens e mulheres do mundo em substituição da antiga correspondência" - porque não? É um facto que a linguagem se tornou mais pobre, mas porque não se há de marcar a diferença, mesmo em emails e SMS? Com certeza que há quem o faça. Há (quase) sempre uma marca pessoal, como nos postais e nas cartas, antigamente. E o inverso também pode acontecer. Tenho uma cunhada que adora escrever postais dos locais onde faz férias, escreve a uma data de gente. E todos eles, todos os anos, seja para quem for, começam da mesma maneira: "saúdo-te/saúdo-vos da maravilhosa (segue-se o nome da cidade ou do local)". Se isto não é pobreza de linguagem... Decerto que haverá emails muito mais originais.
ResponderEliminarMas.... o facto de já não existirem em papel, não significa que não existam. Apenas existem noutro suporte :)
ResponderEliminarEsse fascínio pelo papel ultrapassa os livros, e estende-se também á correspondência.
As coisas não deixam de existir, apenas os suportes são outros :)