Literatura e jogo

Já trabalhava na edição há uns tempos quando assisti à fantástica campanha de lançamento de um livro infantil (mas com o qual muitos adultos se divertiram) chamado Onde Está o Wally? Tratava-se de um livro-jogo no qual, entre densas multidões em vários contextos, tínhamos de encontrar o Wally, um rapaz de óculos, barrete e camisola às riscas. Conheci na Feira de Frankfurt o editor canadiano, que me contou que em Montréal puseram um Wally em tamanho natural à porta das livrarias com a seguinte inscrição: «Vai lá dentro à minha procura!» Foi, ao que parece, um êxito – e a esse primeiro livro sucederam-se muitos outros, que se venderam como pãezinhos quentes por todo o mundo. Vem isto a propósito de ter recentemente descoberto que a literatura também não está isenta de jogo. O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro, agraciado com o Prémio LeYa, inclui um episódio em que, num determinado museu austríaco, uma personagem feminina copia de um quadro de Brueghel (e os quadros deste pintor têm por vezes semelhanças com os livros do Wally no caos de figuras) uma mulher de muletas com um lenço na cabeça. Ora, aqui no blogue apareceu um leitor que já tinha andado à procura dessa senhora em muitas das telas do pintor e andava meio perdido, de tal forma que o autor lhe propôs um encontro na Feira do Livro para o esclarecer (e ele foi). Uns dias mais tarde, foi a vez de o jornalista Manuel Jorge Marmelo escrever no Público que estava convencido de que a figura mencionada no romance tinha transitado para um outro quadro de Brueghel que não o que o autor referia. Também no Facebook, uma leitora confessou, depois de ler esse artigo no jornal, ter procurado em vão a tal mulher de lenço e muletas naquele quadro, mas estar desconfiada de que a encontrara noutro (afirmando, porém, que esse não se encontrava num museu austríaco). Enfim, a menção de um pequeno detalhe acabou por levar uma data de gente a perder tempo com a pintura de Brueghel, o que é muito positivo, já que não é todos os dias que observamos uma obra de arte ao pormenor e com atenção redobrada. Provavelmente, por muito que cresçamos, nunca deixaremos de gostar de brincar – e a literatura é, pelos vistos, uma forma excelente de não nos esquecermos de como se brinca.

Comentários

  1. Francisco Souza-Urtiga25 de maio de 2012 às 01:41

    Óculos, barrete, camisola às riscas e sobretudo a inseparável e carismática bengala.

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  2. Fui eu que lá fui, e o encontro foi breve mas foi esclarecedor de como pode ocorrer, por vezes, o ato de criar: de algo que o autor lê sobre alguém que, sempre que podia, ia àquele Museu ver aqueles quadros, até os seus olhos se fixarem naquela mulher(?)-wally de muletas foi um não pequeno passo de criação que o levou, e a nós com ele, à procura dum rosto que não saberemos nunca se foi ou será o último.

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  3. Também eu passei muitas e agradáveis horas à procura do Wally com os meus filhos. E agora também eu fui à procura dessa figura no quadro de Brueghel. Mais uma vez os livros a proporcionarem partilha e conhecimento...

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  4. Bem, mas o autor deu uma informação certa, ou quis apenas brincar? Não entendi. Ou este "post" faz também parte da brincadeira?

    P.S. Desculpem, mas já sabem que, às vezes, me custa a ler nas entrelinhas.

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    Respostas
    1. Cristina, é Literatura e jogo.

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    2. Cristina Torrão
      Não se preocupe que já sabemos que lhe custa ler nas entrelinhas, já fomos informados (essa ficou entalada, hein?)

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    3. É tudo um jogo, caro Anónimo, "nunca deixaremos de gostar de brincar".

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  5. Sempre achei que podíamos abordar o mundo de duas maneiras. De uma maneira arrastada, arrastando as nossas botas e tentando evitar os obstáculos que se colocam diariamente no nosso caminho. Ou vivendo numa outra dimensão, através de uma capacidade muito nossa de nos duplicarmos. Pairando sobre o mundo, já há muito esta nossa capacidade em 3D é nosso apanágio e apanágio dos nossos amiguinhos de papel. Fora destes, estamos contidos. Nestes, o nosso palco é o mundo. E o mundo é jogo, liberdade, desprendimento, catarse ou apenas uma loucura momentânea que nos guia a mão, agora o teclado, levado por uma força que nos imobiliza quase os membros - com excepção do objecto que nos sustenta o esqueleto - num tudo igual à síndrome da classe económica. É curioso MRP falar do Onde Está O Wally ?, no preciso momento em que pouso mais um original com verosimilhança tão radical. Romance, sequela obviamente própria de um original de grande sucesso a quem quis homenagear, naquilo que é uma procura de todos, comprovando mais uma vez que neste mundo há muito mais que coincidências. E desta vez o jogo que sempre joguei irá ter um destino colectivo!

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  6. Boa tarde a todos.

    Este post, no tocante está bem divertido! É que a sensibilidade por vezes do escritor levanta em diferente(s) perspectiva(s), (não esquecendo obviamente a imaginação) e como recurso o leitor embarca na aventura (jogo) sentindo-se privilegiado ou não, pela cumplicidade ou não, a qual da regra literária "ler" insercção, em transferir "digamos desta sinergia" a que o escritor dispõe enquanto realidade formulada frente a memória ou imaginação; assim sendo de similar ou como o queira, pois toda literatura é proporcinal ao limite de captação ou não, inteligível.
    Segundo a MRP do intangível "perda de tempo"...

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  7. Sou uma leitora compulsiva, e há tantos e tantos livros para ler que no tempo que posso dedicar à leitura não o desperdiço. Contudo, o que ontem me aconteceu com o livro do João Ricardo Pedro foi inédito: faltavam-me meia dúzia de páginas para o terminar, então para adiar a separação com as personagens a que o fim da leitura me obrigaria nem li (um suplício)! Mas enfim a separação é inevitável e só hoje me vou despedir delas...Sempre ganhei um dia. Há personagens que vivem ou convivem connosco, não?
    Os meus cumprimentos a todos.
    ICVP

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