Literatura e desemprego
Li uma interessante entrevista dada ao DN Magazine por dois vencedores de Prémios Literários com romances de estreia: João Ricardo Pedro, que arrecadou o Prémio LeYa com O Teu Rosto Será o Último, já em terceira edição, e Tiago Patrício, que ganhou o Prémio Agustina Bessa-Luís, da Sociedade Estoril-Sol, com o romance Trás-os-Montes (ignoro se já está publicado e por quem). O primeiro é engenheiro e o segundo farmacêutico – nenhum portanto homem de letras, embora ambos provavelmente leitores experimentados. Tradicionalmente, embora com excepções (Namora, Torga...), o grosso dos autores portugueses vinha da chamada formação humanista (sobretudo de Filosofia e Literatura, embora também de Direito). Hoje, porém, quando olho para as badanas dos livros que tenho vindo a publicar, descubro vários com formação na área das ciências: David Machado, por exemplo, licenciou-se em Economia, e Nuno Camarneiro em Engenharia Física. Dizem-me alguns professores das Faculdades de Letras de Lisboa e do Porto que são cada vez menos os alunos inscritos nos seus cursos (e é bem possível que a falta de vagas para professor tenha alguma coisa que ver com isto). Será, no entanto, que fogem para os cursos mais técnicos alunos que seriam tendencialmente de Humanidades, apenas porque lhes parece mais fácil arranjar emprego? Espero que não. A verdade é que os dois autores premiados que referi no início estão actualmente desempregados...
como há desemprego em todas as áreas, é difícil fazer estatisticas.
ResponderEliminarmas é natural (e racional...), que quem tira um curso, pense no futuro, olhe à sua volta.
e como se tem desvalorizado tanto o papel do professor nos últimos anos, continua a ser uma profissão de recurso...
Luis Eme, optimizando:
Eliminar(é natural ou selecção natural...)
Trás-os-Montes, como aconteceu com os restantes romances ganhadores do Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís, será publicado pela Gradiva. Penso que estará disponível no final deste mês.
ResponderEliminarAo ler este post teria caído da cadeira, caso não estivesse deitado na cama. Fugido de humanidades para ciências?? A única fuga que existe no ensino secundário é à matemática. Sabe porque é que antigamente "humanidades" era forte em literatura? Compare os curriculums escolares da altura com os de agora. Humanidades hoje em dia é um preludio para direito.
ResponderEliminarJulgo que quando se refere formação humanística não quer dizer "humanidades" mas "letras". O meu currículo de ciências agrárias (1977-82)inclui uma cadeira de história contemporânea , estilística prática, metodologia das ciências sociais, e sociologia rural (em que fui orgulhosamente o melhor do meu curso com 17, e aluno de Maria José Stock que motivou a criação da Tertúlia dos Admiradores da Professora de S.R . eheheh !).
ResponderEliminarEm 1976 frequentei a Faculdade de Ciências de Lisboa, inscrito nas cadeiras de Antropologia Cultural e de Antropologia Física, de que não perdi uma!
Ou seja, ao contrário do que se pensa, há por vezes
uma ligação das ciências ditas puras ou exactas, a campos da humanidade.
Julgo que actualmente, e por força de uma muito maior divulgação de tudo e sobretudo das fontes de informação, o alargamento dos campos de interesse e o contacto com eles, para quem desperte para eles e queira, existem mais oportunidades e até atractivos de escrever...
Penso eu...
O que explica que a escrita tenha deixado de ser campo exclusivo das letras, se é que alguma vez foi!
Qualquer estudo, seja ele em que área for e sendo honesto, como dizia Camões, obriga a escrever bem.
ResponderEliminarNão creio que, comparativamente, haja muito mais gente fora da área de Humanidades a publicar. O que há, é, simplesmente, e por várias razões, muito mais gente a publicar. Claro que, sendo assim, também há muito mais gente fora de Humanidades a publicar, o que chama mais a atenção a quem é... de Humanidades, como a autora do blogue. É o que se chama um enviesamento (não é uma crítica, ninguém vive sem enviesamentos).
Já agora, um grande escritor a juntar à lista (que já aqui referi num outro comentário) e que até já publicou na Leya : Luís Caminha, formado em Química e em Psicologia, como se pode ver na badana do seu "Um Pinguim na Garagem".
Resumo da ópera:
ResponderEliminar1 - A identidade nem sempre corresponde ao facto a vocação.
2 - A regra é mercado (variável) não faz excecção.
3 - A ciência exacta constrói o potencial cognitivo de percepção que reflecti na literatura.
4 - O conhecimento (tendência) regenera na origem da lógica.
5 - A Literatura que questiona do padrão não desenvolve estilo.
a) resta saber se caiba independência de estilo na literatura e o mercado a comporta ou torna-se-á insustentável, cujo literatura da atualidade impõe também da regra.
Quando comecei o meu percurso universitário, num curso de letras, queria ser um escritor. No 2º ano, já pensava que a melhor saída seria o ensino e, consequentemente, queria ser professor. Agora que estou no último ano, desempregado há três, só quero acabar isto e ir para a construção civil. Decididamente, uma pessoa formada em letras, não tem utilidade no actual contexto económico, a não ser para dar aulas. Mas eu continuo a preferir a construção...
ResponderEliminarDar aulas é muito parecido com a construção... só que os tijolos estão vivos.
EliminarEstamos talvez a esquecer-nos dum exemplo grande, o do laureado da viúva da bronca de ontem, que tinha apenas o curso de serralheiro mecânico, salvo erro.
ResponderEliminaràs vezes vale mais a pena estar no sitio certo, que ter um curso do que quer que seja, Paulo.
Eliminare se tivermos alguém a "indicar-nos" a porta certa, ainda melhor...
o Saramago trabalhou anos e anos numa editora e não numa oficina de serralharia. e casou com uma escritora que lhe foi abrindo portas...
o acaso é quase sempre um tipo mentiroso.
Bem sei, bem sei, e não estamos a falar da viúva. Segundo li, teve um forte papel no início da carreira de Saramago. Ainda bem.
EliminarMesmo que eu trabalhe o resto de minha vida numa editora jamais saberei escrever um livro.
Eliminarj' amais saber...ei escrever um livro.
Eliminarjá mais, palavras são: há penas palavras.
Aprenda.
Este comentário foi o mais burrinho que já aqui li.
EliminarVou arranjar um emprego numa editora (na limpeza) e quem sabe ainda chego ao Nobel ...
Como o nosso estimadíssimo escritor, só me apetece soltar um sonoro PORRA ... não o faço por educação e por respeito aos demais.
JAMAIS (advérbio) : em tempo algum.
EliminarAprenda você antes de dizer asneiras!
Anónimo (que não é o do comentário visado)
Totalmente de acordo! E mais lhe digo: eu nem que casasse com a " Mourinho da Literatura" , perdão, com Maria do Rosário Pereira, nossa Extraordinária Anfitriã conseguiria. Eheheheh .
EliminarPara que alguém aprenda é necessário que haja alguém que saiba ensinar.
EliminarNasce-se Escritor, não se aprende a ser escritor.
Não é por se ter livro publicado que se é "Escritor". Hoje qualquer bicho careto tem livro publicado mas está a anos-luz de ser escritor.
Hei-de perguntar à nossa caríssima Maria do Rosário quantos funcionários tem a editora onde ela trabalha ... todos futuros escritores .... teremos mais escritores do que leitores ...
Deixa-me rir, para não chorar ....
Oh Anónimo dite-o em Inglês, é mais fino e todos irão gostar...
EliminarOs cursos de ciências têm muito mais saídas profissionais, é um facto. No entanto, não me parece que seja esse, o único motivo : a desvalorização social da figura do professor também ajuda. Reconheço que não deve ser nada fácil ser-se professor, nos dias de hoje. Acho que dava em maluca... Mas tenho muita pena que assim seja: para mim, continua a ser das profissões mais bonitas e importantes no desenvolvimento de uma sociedade. E lamento profundamente que tenha perdido o respeito e a áurea que a caracterizava.
ResponderEliminarGostaria ainda de realçar que me parece muito precoce a escolha definitiva que o aluno faz, entre a área de ciência e de humanísticas.´É uma escolha muito radical numa fase ainda de grande imaturidade. Eu, confesso, tive imensa dificuldade em escolher: gostava de ambas. E reconheço que a decisão tomada na véspera , quando já não havia mais hipótese de a adiar , teve por base a ideia que as ciências têm mais saídas profissionais. Foi a minha primeira crise existencial :) O que não quer dizer que, se a escolha fosse mais tardia, o impasse não surgisse. Na realidade, eu gostava de ambas as áreas. E ainda hoje gosto.
Concordo com ana b.: referente do precoce a escolha.
EliminarPara além de ser a base fundamental da existência de uma cultura, a literatura é um entretenimento e como tal, torna-se atraente.
ResponderEliminarAcredito que existam muitas pessoas a exercer áreas científicas com gosto, mas que têm mais prazer a ler um livro e por isso, é normal que seja o sonho de muitas pessoas.
No entanto, como ser escritor é muito instável, todas as pessoas que estudaram na área de humanidades acabam por se ver obrigados a ser professores visto que não existe outra aplicação prática. Além do mais, penso que são mais felizes assim. Não pertencer a um grupo de trabalho pode tornar-nos mais solitários, o que não ajuda nestas áreas.
Acredito que a escrita é algo natural. É a nossa vida que nos desenvolve esse bichinho e não aquilo que aprendemos. Não existem fórmulas para escrever romances e se existem não vale a pena serem reaplicadas. Aliás, por vezes a investigação excessiva filtra a nossa identidade como artistas!
Inteiramente de acordo! Bem visto e apresentado!
EliminarQuando se criam os "bancos de horas" e se baixa o valor do pagamento das horas extraordinárias aos trabalhadores; quando os trabalhos disponíveis são tão escassos: ESTÁ-SE A FAZER O CONTRÁRIO: A LIMITAR O ACESSO AO TRABALHO DOS DESEMPREGADOS!
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