As leituras dos escritores

Tenho a sensação de que quase toda a gente acha que os escritores lêem muito mais do que as outras pessoas. É lógico que se pense que a maioria dos escritores se apaixonou primeiro pela leitura e que foi essa paixão que, muito provavelmente, os conduziu à escrita. Mas daí a pensar-se que são os que mais lêem e que leram todos os livros fundamentais, bem... quanto a isso, já não tenho tanta certeza. Sei de leitores vorazes que paparam todos os clássicos sonantes e andam sempre actualizados sobre a literatura mundial, parecendo-me bastante mais lidos do que muitos escritores que conheço (e não estou a falar dos mais jovens), que «cumpriram» a sua quota-parte de leituras até terem começado a escrever mas depois passaram a ler apenas os grandes autores, ignorando todos os que vão aparecendo depois deles, excepto se se tornam célebres ou ganham prémios chorudos. Há, de resto, uma coisa que sempre me fez muita confusão e que tem que ver com o facto de um escritor dizer que, quando está a escrever, não lê nada (ou lê apenas jornais, revistas ou livros de receitas) para não se deixar influenciar. Até já apanhei uma vez um grande escritor a hesitar e a ficar nervoso quando lhe perguntaram o que andava a ler; permaneceu calado tanto tempo para se lembrar do título do livro que se tornou evidente que não lia nada há que tempos. Não generalizo, evidentemente, até porque sei de alguns que não adormecem sem ler umas páginas e de outros que andam tão bem informados sobre os autores novos que, de facto, os devem conhecer de ter lido, e não apenas de ter ouvido falar. Percebo também que, enquanto se está a escrever um livro, a paixão por ele deve ser tão grande que não deixa muito espaço a leituras (a não ser das páginas do próprio livro, lidas e relidas até à exaustão). Mesmo assim, tenho quase a certeza de que há gente que nunca escreveu uma linha que leu muito mais do que alguns escritores.

Comentários

  1. Já se questionou sobre o tempo que a escrita consome a um escritor? Excluindo aqueles que são escritores "full-time" (uma minoria), todos os outros têm profissões e vidas comuns que lhes deixam muito pouco tempo livre para leituras.

    Se tivesse dedicado o tempo que escrevi ao acto de ler, tinha já lido o triplo do que consegui ler até hoje.

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  2. Como já tenho dito neste extraordinário blogue, tenho seguido alguns dos novos escritores que ultimamente têm surgido. Curiosamente, um deles focou há tempos no seu blogue este tema que a MRP aborda agora, sendo de opinião que não existe relação entre muita leitura e a qualidade da escrita. Tenho tendência para concordar, eu que leio tanto e que nunca consegui escrever nada de jeito. O link:

    http://ocasosluiscaminha.blogspot.pt/2012/03/balelas-de-escritores.html

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  3. Um bom exemplo de um escritor que não nutria uma paixão intensa pela leitura, nem sequer cresceu com o hábito de ler foi, segundo o seu próprio testemunho, o João Ricardo Pedro (prémio Leya). E segundo o que entendi das suas palavras enquanto escrevia, lia imenso outros autores. Conclui-se que há autores de todos os tipos, mas eu ainda penso que o facto de ter lido muito tem algum contributo positivo na vontade de escrever um livro. Não chega, é certo, eu que o diga, que não passei de uns quantos poemas quando tinha 15 anos (muito piegas, por sinal!!!)
    Isabel

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  4. João J. A. Madeira24 de maio de 2012 às 03:19

    Creio não ser o receio de influências a razão de não se ler, ou se ler menos, quando se escreve. Quanto a mim, essa razão prende-se mais com falta de concentração naquilo que outro autor escreveu. Recordo aqui uma minha história enquanto leitor e escrevinhador em simultâneo. Andava a ler os Emigrantes de Ferreira de Castro (a crise tem o condão de nos fazer visitar livros adiados) e por várias vezes tinha de recuar parágrafos porque o pensamento se transportava automaticamente para aquilo que então escrevinhava. Cheguei a pensar que a minha capacidade de absorção literária estaria a ficar afectada porque, obviamente, a culpa nunca poderia ser do Sr. Castro. Subitamente, sem saber precisar quando, dei por mim a literalmente apagar mais de 20 páginas escritas e a escrevê-las com um rumo diferente. Razoavelmente - e sublinho esta palavra - satisfeito, retomei a leitura e reparei que mesmo com os recuos de parágrafos, tive voltar 20 páginas atrás. A minha mente pairara sobre as páginas mas constantemente levando as asas para outros céus. Não tinha lido nada.

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  5. Interessante... Li algures uma entrevista de Vargas Llosa que dizia precisamente o contrário. Se não me falha a memória, dizia ele que quando escreve lê muito, vorazmente, e "canibaliza" tudo o que lê, vê, sente, etc..., para obter material de trabalho. Também me faz muita confusão o escritor que não lê (ou afirma que não lê) enquanto escreve, para não ser influenciado. Então, por absurdo, nunca deveria ter lido nada para que o que leu não o influenciasse... Em segundo lugar, porque é impossível fugir a todas as "influências" que nos assoberbam diariamente... E porque se existe o receio de ser influenciado talvez então não se esteja muito seguro de si mesmo, da força da sua personalidade e da sua "voz"... Mas claro que cada um tem os seus métodos e manias. E, por último, para mim, que não sou escritora, a leitura vem SEMPRE primeiro: dá muito menos trabalho e muito mais prazer e ainda funciona como "alavancagem"! Quanto ao tempo, para ler, escrever (e trabalhar), parece-me que só não o arranja quem não tem paixão pelo que faz e não quer arranjá-lo (pelo menos, comigo funciona assim).
    Cristina

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  6. A falta de tempo é uma desculpa de mau pagador, será assim (mal comparado) como a pontualidade só nota a falta dela quem é pontual.

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    1. Nem mais. Partilho completamente da sua opinião.

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  7. "Mesmo assim, tenho quase a certeza de que há gente que nunca escreveu uma linha que leu muito mais do que alguns escritores" - e depois? Porque é que um escritor tem de andar em palpos de aranha à procura de uma justificação para o facto de ler "pouco"? Principalmente, se for bom.

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    1. Houve um jogador de futebol em Portugal nos anos 80 do século passado, que, se treinasse como treinam o Ronaldo, o Messi , o Eusébio, seria o melhor deles todos, mas a grande distância...era um génio, que fumava mais de dois maços de cigarros por dia, entrava no Elefante Branco à meia-noite e ia directamente para o treino as sete e tal da matina...(isto mal comparado, outra vez)

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    2. Só andará em "palpos de aranha" se não for bom!

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    3. Grande bigode...

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    4. Bem, percebi que o meu comentário anterior poderia prestar-se a equívocos. O que queria dizer é que o jogador a que se refere, na minha opinião, é o Carlos Manuel, que marcou aquele golâo à Alemanha, que foi um grande bigode... Além de usar um grande bigode na altura, claro. Era moda.

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    5. Carlos Manuel não será, porque nunca foi um génio.

      o génio da sua geração foi o Chalana, que também cresceu com os bons ares do Barreiro...

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    6. Depende. É claro que a leitura ajuda, quanto mais se ler, melhor. Mas isso é a regra. E há sempre exceções.
      O que eu quero dizer é que não deve ser obrigatório que um escritor com provas dadas se ponha a debitar nomes sonantes da literatura, quando perguntado sobre os seus hábitos de leitura. Não se deve sentir pressionado nesse sentido. Nem deve ser olhado de lado, quando diz que não nadou em livros, na infância e na juventude.
      A meu ver, têm até mais valor aqueles que, apesar de terem nascido e crescido num lar sem hábitos de leitura, conseguem ser bons escritores.

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    7. Qual Carlos Manuel (nem nome de craque tem...), o Carlos Manuel era um jogador vulgaríssimo, tipo "foguete" da CP

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    8. Pensei logo no Chalana, mas não imaginava que fumasse assim e o Carlos Manuel sei que fumava como uma chaminé. Não acho que o Carlos Manuel tivesse sido um jogador vulgar, nada disso; para mim até foi um grande jogador e lembro-me de grandes golos e jogadas no Benfica que tiveram a sua assinatura. O Chalana foi genial, sim, mas não se podia contar com ele. Terá jogado bem durante dois, três anos no máximo...

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  8. Bom, saberia comentar em distância o gosto por enciclopédias, biografias e pensamentos... porém, ao longo da trajetória e talvez, leituras apáticas, percebo o escritor(a) quase um novelo peregrino, frágil e autônomo; claro! Que popular, alienado ou viceral... mas, comum estudioso, audacioso e pertinaz de sublime olhar explorador e consciente, desta natureza por fragmentar e orientar o sentido das coisas, das causas... e transportando-as no verbo, coisas e causas semelhantes a nós, que percebemos e completam o mundo; a história uma ordem crescente as letras, palavras.

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  9. poderão não ler ou estar a ler, mas leram muito antes (ou durante) de começarem a escrever.

    não acredito que exista um bom escritor que não tenha lido muito (sem precisarem de ser os tais mil livros, que um estúpido qualquer uma vez "decretou", serem necessários para um individuo se tornar escritor...), na adolescência e começo da idade adulta.

    depois é andar por aí de ouvido atento, ver cinema, ler jornais... e escrever, escrever.

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    1. e esqueci-.me de falar no essencial, o talento, essa coisa que não se vende em farmácias ou dorgarias. :)

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    2. Tal como não se aprende a jogar à bola nas Escolinhas do Ronaldo - o talento nasce!

      (mal acomparado (assim diz o povo), hoje estou virado prá bola...coisas do fim de semana e da azia dos melões comprados na promoção de domingo do Pingo Doce)

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    3. Deixe lá, Severino, à conta disso há tipos, como eu, que ainda não conseguiram descer das nuvens. Abraço

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    4. nem mais, Severino.

      mas para se chegar aos calacanhares do Ronaldo, tem de se treinar, e muito.

      por isso é que, voltando aos livros, custa-me a acreditar em génios da literatura que nunca foram leitores...

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  10. Vou começar o comentário por dizer que provavelmente vocês todos, os extraordinários, gostam muito mais de literatura do que eu. Aborrecem-me os temas recorrentes, ainda que inclusivos. Gostava de continuar dizendo que o número de livros que se lêem pouco ou nada têm a ver com o conhecimento que se adquire, uma vez que memory is a bitch and so are all cognitive faculties. Ah! mas "enquanto se está a escrever um livro, a paixão por ele deve ser tão grande que não deixa muito espaço a leituras", a paixão, o tempo, o medo das comparações, o pânico de inserções subconscientes, etc... Ah! mas "lidas e relidas até à exaustão" -

    exaustão |z|
    (latim exhaustio, -onis, esgotamento)
    s. f.
    1. Acto ou efeito de exaurir. = ACABAMENTO, ESGOTAMENTO, EXAUSTAÇÃO
    2. Estado de grande cansaço físico ou mental (ex.: trabalhou até à exaustão). = ESGOTAMENTO, FADIGA, PROSTRAÇÃO
    3. Consumo ou utilização por inteiro de algo, até ao seu desaparecimento (ex.: exaustão de recursos hídricos).

    Qual exaustão qual quê... lá estamos nós outra vez a confundir arte com artesanato, os livros e os escritores não têm que ser nem assim nem assado, eles existem porque para cada um existe um leitores que se sente tocado, entretido e talvez esclarecido por eles.

    Hoje não me apetece compor as coisas, por isso vai assim e pronto!

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    1. Sem ler, nem reler - nem exaustão, portanto. Mas com arte. Será?

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    2. Seja como for, desde que entretenha e o leitor pense "ora aí está, este livro só pode ser de fulano!". Mas de qualquer maneira não tenho certezas nenhumas do que estou para aqui a dizer.

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  11. Interessante questão. Existe um ditado chinês que diz algo como: ' Não escrevas um livro, sem antes ler mil '.
    Parece-me que ler bastante, principalmente antes do passo no desconhecido que será a escrita de um primeiro livro, ler bastante, dizia, trará ao autor um mundo fantástico por onde poderá deambular enquanto acende a luz do seu próprio caminho. Pode transportar para a escrita a digestão que tenha feito de centenas, de milhares ou mais ainda, de trejeitos e labirintos por onde se tenha perdido e encontrado noutras leituras. Numa fase posterior, encontrado um caminho próprio, a leitura permanente de outros livros trará sem dúvida, ainda que talvez de um modo sub-reptício, o equilíbrio natural na maturidade que se vai alcançando.
    Na perspectiva do leitor, e apenas nesta, parece-me claro que nem uma leitura ininterrupta de obras e obras poderá significar uma aptidão ou um garante para se lançar nessa aventura de criar e escrever.
    Creio no entanto que, onde possa existir algum dom ou inspiração, eles se reflictam no modo como se lê. Porque lê-se vivendo, absorvendo e simultâneamente criando, o que redobra, triplica, ou por aí fora, o prazer da leitura.
    Nesta relação autor/escritor acaba por não haver uma relação tão linear, entre o que possa influenciar ambas as atitudes. Talvez um elo as una e simultâneamente as fortaleça: a LIBERDADE com que se exerça cada uma.

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    1. Absolutamente fenomenal! Acha que para demonstrar tamanha beleza é preciso ler muitos livros ou surge naturalmente?

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    2. António Luiz Pacheco25 de maio de 2012 às 12:55

      Extraordinário!
      Olhe... comprei esta tarde e comecei a ler o Manolo , enquanto me mudavam os pneus do carro e alinhavam a direcção. Por agora, pus de lado a Praia... o tempo também está chocho!

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  12. Francisco Souza-Urtiga24 de maio de 2012 às 06:34

    Comento, pois mais que qualquer outro, este post não me é indiferente.
    Acabei de lançar o meu primeiro romance ( http://www.bertrand.pt/ficha/benigno?id=13000523 ) e tenho debatido este tema nas apresentações do mesmo.
    No meu caso aconteceu algo relativamente diferente. Nunca fui habituado a ler e praticamente nunca o fiz até ter escrito o "Benigno". Decidi começar o romance pois naquela precoce idade (16 anos) apercebi-me que tinha uma mensagem a transmitir, uma crença (que desvaneceu ligeiramente depois de ler "Nova Teoria do Mal" de Miguel Real, autor do prefácio deste meu romance).
    Ao início, a escrita era um mal necessário para esse objectivo. Depois metamorfoseou-se num bem necessário. Só após o término do livro é que nasceu o meu gosto pela leitura.
    Deste modo, creio que segui a máxima do não ler antes, não só com o propósito da não-influência, mas também.

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    1. Mergulho é tipo assim... espanto! Relativo.

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    2. Francisco Souza-Urtiga24 de maio de 2012 às 06:50

      Perdoe-me o facto de a minha ingénua open-mind não ser suficientemente open para entender o seu comentário. Humildemente lhe peço que reformule.

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    3. Ora, ao que fora relativo é que permite do confronto aprensentar-se; é da jóia "Benígno" fora tão íntima quanto preservada ao que tocara por verdade em instantâneo respondera a investida vossa intenligência:"a escrita era um mal necessário para esse objetivo"
      Espero ter colaborado, no mais.

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    4. Quando digo confronto, significa que existia você e o nada, e perante o "nada" você cria "Begnígno" emuldura idéias, expressa sua razão de ser, de agir, de conhecer e de crer... tateia algo imaginário e torna-o legível; enfrentamento é mergulho.

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    5. Fico feliz por poder confirmar as suas palavras. Tal mostra que a minha expressão se aliou à sua astuta compreensão.

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    6. Permita em modesta o detalhe de encontro ao post de MRP, primeiro parágrafo; e da generosa participação de Francisco Souza-Urtiga, apresentar-nos um novo ciclo em partilhas e actos que não esgota-se a provocação. Creio que seja possível despertar o talento através do objetivo. Parabéns a obra em ter alcançado o sentido significativo da escrita. Espero aos brasileiros e a outros leitores, do breve a compartilharem vossa expressão.

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    7. Francisco Souza-Urtiga24 de maio de 2012 às 10:47

      Fico agradecido. Apercebo-me agora de uma coincidência tão óbvia que me faz corar da demora na consciencialização: recordo-me de já ter tido a oportunidade de privar com a extraordinária anfitriã deste blog e de ter abordado precisamente este assunto. Um privilégio que jamais esquecerei.

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    8. Afinal sou mais ignorante do que eu pensava: é que ainda não consegui perceber patavina desta conversa; se calhar é escrita muito fina para a minha camioneta...

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    9. Francisco Souza-Urtiga25 de maio de 2012 às 01:08

      Lamento ASeverino. Escrever é uma matreira forma de expressão. Tentarei melhorar na eficácia.

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    10. Pela parte que me toca, a sua prosa Francisco Souza-Urtiga não carece de explicação. Quem não compreendo é a Cláudia, lê-la é um exercício que põe à prova todas as certezas sobre o conhecimento razoável que julgava ter da lingua portuguesa.
      Em suma, ler a Cláudia é sempre um desafio. Cumprimentos à Claudia

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    11. Também eu lamento, mas a escrita até poderá efectivamente ser matreira mas terá que ser clara, caso contrário será a chamada conversa de ervanária!

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    12. Francisco Souza-Urtiga26 de maio de 2012 às 08:43

      Muita claridade também pode provocar cegueira. Mas sim, concordo consigo.

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  13. Nos nossos primórdios de escrita aquilo que lemos influencia-nos inevitavelmente. Quando começamos a amadurecer ganhamos segurança em nós mesmos e os livros já não nos influenciam da mesma forma. No entanto, mesmo que não nos influenciem em termos de estilo, parece que não conseguimos entrar dentro deles. Já é difícil suportar a realidade e a fantasia ao mesmo tempo, quanto mais suportar duas fantasias. Diria até que é perigoso. Por isso, caros escritores, enquanto escreverem tentem não se esquecer da vossa realidade, nem que isso implique não ler durante uns tempos.

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  14. António Luiz Pacheco24 de maio de 2012 às 11:15

    É claro que só posso falar por mim... que nem sou escritor! E creio que quanto a cultura literária serei do mais básico que por aqui navega.
    Mas, parece-me que há por aí quem pense igual!
    O que me anima e tranquiliza... é o lado melhor deste espaço Extraordinário!

    Pessoalmente, não acredito que um escritor de qualidade, se faça por geração espontânea!
    Não acredito que Camões não tenha lido - e a erudição que transparece da sua obra prova-o!
    Ou Pessoa, Gedeão... nem Saramago, Aquilino nem Hemingway !
    Torga e Lobo Antunes viveram, muito! Mas seria isso bastante para o sucesso da sua escrita?
    De modo algum... tiveram modelos!

    Para se escrever é preciso tanto ter arte como engenho, e este só pode vir da leitura de outros bons escritores. A não ser num caso genial, que é a excepção, não faz a regra!

    Desde logo ao ler os mestres, o iniciado além de aprender a usar a palavra escrita - o que não significa ser condicionado nem copiar - ainda vai identificar-se com o seu estilo!
    Lendo os mestres (e por isso são ditos, mestres) saberemos sobretudo se gostamos da maneira como escrevem! Podemos dizer para nós: é isto que eu quero ler! É assim que eu quero escrever.

    Seguidores? Bom e daí? Para mim tem tanto valor aquele que segue uma corrente ou uma escola, um género, um estilo e faz dentro dela, como aquele que inova!
    E digo mais, na minha ignorância atrevida: Há mais imbecis a quererem ser diferentes e inovadores, a produzirem porcarias, do que a seguirem uma corrente!
    É preciso bem mais carácter, personalidade e saber, para se criar dentro de uma corrente ou escola, e afirmar-se, do que para ser inovador!
    Sempre haverá conservadores ou inovadores!

    E ainda bem! Digo eu na minha ignorância mas não insensibilidade, porque assim tanto se conserva o que de belo existe, como se procuram novas formas de exprimir beleza.

    Aceito que pensem que não, é evidente... mas nem me convencem, como um dia o saberão!

    Belo tema este!!!!

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    1. É por isso que gosto de o encontrar neste espaço: é sempre muito claro na exposição das suas ideias. Atrevo-me a dizer que quem escreve assim, só pode ter lido muito...eh!eh!eh!
      Isabel

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    2. Estava a dirigir-me ao amigo Pacheco (mas confesso que também gosto de ler outros frequentadores deste espaço que acaba por ser para mim um local de convívio virtual).
      Isabel

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  15. António Luiz Pacheco24 de maio de 2012 às 11:31

    Belo tema este! (II)

    Quanto a ler enquanto se escreve... acredito que será difícil fazer a conciliação, salvo no aspecto da consulta, agora ler pelo gosto de ler, fora daquilo em que se trabalha, parece-me mesmo só para gente Extraordinária!

    Eu (que não sou escritor!) dediquei três anos a escrever uma coisa que me atrevi a chamar romance de fundo histórico. Práticamente só escrevi durante este período, também porque em período de falta de trabalho profissional, achei que era então ou nunca!
    No entanto, pelo meio das suas 750 páginas de A4, fui fazendo artigos para revistas, até onde tinha responsabilidade e de onde me vinham proveitos, mas com dificuldade, confesso!
    Pelo tema, tive de fazer muitíssima pesquisa e aproveitei para ler ou reler os livros onde a fazia.
    E descobri coisas tão fantásticas como "Nos caminhos de África" ou "Os portugueses no Faroeste "... O que me ajudou a compensar, porque nunca li tão pouco daquilo que não tivesse a ver com o trabalho a que me dediquei!

    Os poucos escritores-romancistas-mesmo ou consagrados, que conheço (na verdade apenas dois) e que vendem bem, confessam e sei que lêem muito pouco a partir do momento em que começaram a escrever e a ter sucesso! Tendem a ler-se a eles e nada os outros.

    Conheço ensaístas ou autores que escrevem não-romances , e esses sim lêem... têm de o fazer, são as fontes! Fazem consulta.
    Pelo que sei também se passa o mesmo para quem escreve dentro do género histórico, mas isso a Cristina T. e o Paulo Moreiras que digam de sua justiça...

    Interessantíssimo tema, espero que não fique esgotado e apareçam aí mais opiniões e outras experiências!

    Saudações do campo!

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  16. Um das primeiras observações que o Rodrigo ... me fez, quando comecei a escrever num dos títulos da empresa Jornal de Notícias, foi «jornalismo não é literatura!». Nessa altura vinha muito cheio de mim, com o assombramento próprio dos jovens pós universitários, porque entrava num lugar onde a relação entre chefe de redacção e colaboradores media-se por uma hierarquia quase militar. Além desse diploma de economista que me granjeava alguma superioridade mental, arrogava-me também o facto de ser um leitor voraz de clássicos e não clássicos que me recheava a estante filial, para além de uma cadência diária de mudança de terras e lugares que confirmava aquilo que o nosso autor dizia da nossa pátria ser a língua Portuguesa. Mas a minha era já muito mais que isso. Era o chão que pisava, os colegas novos que se faziam e desfaziam quase ao passar do calendário e uma estranha devoção às letras e às artes mas também às ciências.
    Mas nada disto seria suficiente, pensava, não fosse uma relação de prazer com a escrita que me foi sempre fazendo atirar originais para o baú. Já nessa altura, desportista, que era, percebia que havia poucos desportistas e muitos treinadores de bancada. Relação de prazer e insatisfação permanente que marcou, claramente, a arca de Noé que todos temos em nós. Ao longo dos anos mudei de lugares e empregos, invadi por prazer outras áreas de formação que me iam dando novas visões dos pontos, tornando-me um actor multifacetado do meu destino, sempre vergado à relatividade das coisas.
    Quando escrevia, era essa arca de Noé que transportava. Era eu e todas as coisas que tinham vindo dar à costa que transportava. E como é bom emocionarmo-nos e aos outros através de uma síntese daquilo que somos e daquilo que gostaríamos de ser. E é por isso que saber se é a leitura que faz o escritor ou o escritor que faz a leitura é desafiador e eventualmente nada despiciendo. Mas será que tem resposta universal?
    O que sei é que, quando colaborei num título especializado da mesma empresa, o Rodrigo tinha antecipado a pergunta, «o menino não lê jornais desportivos?».

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    1. António Luiz Pacheco25 de maio de 2012 às 01:50

      Aqui está, se me permitem, o tal continuar do tema que eu desejei, através de um excelente naco de prosa que mais do que relato de uma experiência pessoal rica é uma interessante reflexão, que trás a este espaço mais um momento extraordinário!
      Sinto eu...

      Aquilo porque gosto de aqui vir é por poder ler estes posts feitos de modo informal por quem óbviamente possui aquilo que admiro e invejo!
      Pedro Sande , ajudou-me a identificar algo que sentia mas não sabia expressar:
      - A arca de Noé de que temos em nós!

      Aprendi mais uma coisa e dei um passo na evolução, o que lhe agradeço sinceramente!

      Saudações do campo, e desta minha arca!

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    2. É curioso como o Rodrigo que já está no céu me enviou uma seta revisionista. Ele tinha essa horrível tendência de se querer imiscuir nos textos como um paterfamílias de redacção e mesmo morto continua a fazer parte daquilo que leio e escrevo. Disse-me ele que nunca perguntem a um autor, mesmo que seja apenas um autor da sua própria vida, quais as suas influências. Porque há em todos os autores um lado negro onde ele misturará sempre a ficção com a não ficção, como foi o facto desse apregoado diploma de economista que me granjeava alguma superioridade mental ser ainda um quase, mesmo que um quase – quase, que não é a mesma coisa que um ser definitivo perfeito. Fiquei assim a matutar, que tudo o que leio e tudo o que escrevo tem esse efeito em mim e concluí que se me perguntassem o que li ultimamente iria ser uma enorme salada. É que eu leio tudo o que os meus olhos apanham, mas mesmo os meus olhos são pequenos para perceber se o que por eles entram são ingredientes daquilo que sai pela ponta dos meus dedos. E se morressem os teus olhos, perguntaria o Rodrigo. Ah, aí sim, responderia eu. Escreveria com a língua, que foi para isso que Deus me deu cinco sentidos.

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  17. Em geral: escrever é trabalho, ler é entretenimento. Uma coisa é necessária, a outra é desejável.
    Disciplinadamente.

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  18. Eu sei que o ano é 2022 e só vi isto hoje, mas sofro de um bloqueio de leitura à 8 anos. Comecei por devorar livros aos 15 anos, nas longas férias de Verão, essa influência me levou a escrever um livro de fantasia baseado em outro. Certo, influência extrema ao ponto de encontrarem semelhanças enormes, parecia que escrevia a versão do que li com outra voz. Entrei num estado de revolta comigo mesma, dei por mim a odiar o livro que amei antes. A inspiração me levou a que o primeiro fosse a influência, mas o segundo se tornasse algo completamente diferente. E nesse momento, eu tinha parado de ler. Por obrigação escolar, Fernando Pessoa e Saramago se tornaram referências, embora nunca entrassem num estado de influência, apenas me moralizavam.
    Com des livros feitos e dois romances, 8 anos se passaram num estado de não leitura com receio de influência porque isso acaba por ser eminente. Reescrevo os primeiros livros com uma maturidade suberba. A mente cansada transborda de frases sentidas, parece que leio poesia, embora não toque em nenhuma obra além da minha.
    Consequente, sairá o meu livro para o ano, depois de 8 anos a tentar publicar. Mas hoje, alguém me disse que devia de ter vergonha de ser escritora por não ler. Brasileiros me ofenderam por não conseguir ler, sem entender que às vezes o nosso bloqueio é para manter as nossas ideias firmes sem influência. E me senti triste. Quase como se os meus 8 anos de maturidade na escrita, tivessem sido ocas.
    Obrigado por me darem uma visão diferente, por mostrarem que há um pouco de tudo no mercado literário, uns são bons, outros lutam para ser e isso não significa ler mais ou menos. O amor pela escrita se tornou uma cegueira às prateleiras das bibliotecas, embora eu sempre dê valor aos livros.
    Obrigado.

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