Profissão: escritor

Não passaria pela cabeça de ninguém esperar que um pintor fizesse um desenho ou pintasse uma tela gratuitamente – a menos, claro, que se tratasse de um acto beneficente. Quando se convida um economista ou um político para fazer uma palestra, o pagamento combina-se previamente e há muito boa gente que recebe pela tarefa mais do que vários dos meus salários mensais. (Diz-se que Clinton vive actualmente de fazer conferências, por exemplo, mas há muitos outros na mesma situação.) Se quisermos um cantor para animar um qualquer acontecimento, é bom prever um cachet jeitoso, ou ele não se dará ao trabalho de lá pôr os pés. Ora, vem esta introdução a propósito de um interessante artigo da jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho (ALC) no Público sobre o facto de em Portugal se partir do princípio de que um escritor não cobra senão os direitos de autor dos seus livros: se o querem num encontro, pagam-lhe, quando muito, as despesas de deslocação e, salvaguardadas as excepções (pouquíssimas), tudo o mais é por sua conta e risco, isentando-se quem encomenda o «serviço» de perguntar sequer quantos dias andou o pobre à volta do tema sobre o qual tem de dissertar ou escrever. O hábito instituiu-se e não é fácil corrigir a situação de uma hora para a outra, até porque, se um autor exigir ser pago por uma intervenção, haverá, diz ALC, uma dezena de outros que a farão de graça. Porém, numa altura em que cada vez há mais escritores a tempo inteiro, seria simpático pensar que a produção de um texto rouba se calhar tanto ou mais tempo do que um ensaio de meia dúzia de temas batidos a um cantor – e que por isso deve ser objecto de uma justa retribuição. De acordo com ALC, no Brasil o procedimento é já este. Está, pois, na hora de aprendermos com o lado de lá e batermos o pé.

Comentários

  1. Perfeitamente de acordo -o seu a seu dono-!
    Aliás, todas as pessoas que trabalham têm que ser justamente recompensadas o que, infelizmente, não acontece (à grande maioria) em parte nenhuma do planeta.

    ResponderEliminar
  2. MRP:

    Como sabe, a tendência em muitas profissões tem sido essa ao longo dos tempos.
    Mais tarde ou mais cedo acontecerá o mesmo com os escritores.
    Mas é preciso que eles façam a sua parte, o tempo de cada um se queixar apenas dos outros (esquecendo-se de si) está a passar de moda.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Já não me lembro bem da frase, mas nos pensamentos de Pascal rezava qualquer coisa nestes termos: Em tempos idos, os magistrados e os médicos mascaravam-se para exercer a sua profissão, actualmente os médicos já não necessitam de se fantasiar pois a sua ciência vale por si própria.

      Eliminar
  3. António Luiz Pacheco9 de abril de 2012 às 04:01

    Julgo que a idéia é a de que o escritor estará a participar para se promover e à sua obra... logo há quem pense que seja um investimento do próprio. Sim, em parte... mas ninguém pensa no facto de que essa intervenção é trabalho, e que obriga a trabalho e tempo. Logo ser paga é de toda a justiça.

    Também julgo que se o convite for feito a um escritor por razões de solidariedade ou para um evento sem fins lucrativos (uma associação de estudantes por exemplo) fica bem ao próprio convidado fazê-lo de graça.

    Porém se a sua presença for palestrar para uma plateia com fins profissionais, numa feira ou um evento do género, deve ser encarada como uma
    actividade normal de trabalho.

    Depois é fazer uma escolha, porque há aqueles que só escrevendo comunicam...

    ResponderEliminar
  4. Uma das minhas funções é organizar eventos científicos. Nota-se uma grande diferença entre os convidados portugueses e os estrangeiros: os primeiros perguntam, a medo, se lhes pagamos as deslocações e uma noite de hotel; os segundos consideram que o convite tem as deslocações e a estadia incluídas e enviam a folha de pagamento. Ou aceitamos ou ‘fica para uma próxima oportunidade…’
    O trabalho gratuito pode pressupor uma certa desresponsabilização mútua, nossa e deles: dos investigadores, que darão mais importância a quem lhes dá verdadeiro valor; e nossa que queremos sol na eira e água no nabal…
    Assim, antes das conferencias e/ou congressos já os estrangeiros estão a mandar os abstracts e os textos para as actas, ao contrário dos portugueses que passam por ser uns atrasadinhos. Serão? Não me parece, mas esta ‘poupança’, a política de usar a prata da casa, casa esta com feitio de rectângulo à beira mar plantado, como se fosse prata de segunda qualidade, logo, com valor mais baixo não necessitando de pagamentos, ainda nos leva à falência.

    ResponderEliminar
  5. Também temos o reverso da medalha, o escritor que ganhou o prémio Leya o ano passado. Agora, em vez de promoverem o livro e o talento do homem, querem ir pela via de "uma história de vida", de desempregado a premiado, from zero to hero... Nem Van Gogh nem mini Dan Brown. Depois queixem-se de falta de seriedade em relação à profissão de escritor. «No primeiro dia em que se viu sem emprego, João Ricardo Pedro sentou-se à mesa a escrever. Nem chegou a ser uma decisão racional ou a concretização de um plano há muito acalentado. Foi o instinto que lhe indicou o caminho. E não parou.» E sobre o livro temos BOLA!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Soa-me a inveja, Courinha... a um desconhecido vai-se por onde, pelo livro? Pelas críticas boas que já foram publicadas? E temos de admitir que a história dele é soberba.

      Eliminar
    2. Não percebo onde é que pode haver inveja naquilo que eu disse. Só acho que deviam dizer "um livro tão bom que é de um individuo se rebolar em caramelo" e ao invés de "foi escrito... in the streets of Philadelfia... tu tu tu ru... tu tu tu ru ru...".

      Eliminar
    3. Em relação ao autor em causa. Nem sempre é fácil separar o autor (ou o percurso) da obra. Percebo o que diz, mas não vejo algum mal nisso.

      Além do mais: in the streets of Philadelfia " é uma grande música e letra.
      Penso eu de que.

      Eliminar
    4. Eu também gosto da música, mas serve-me sempre de ilustração sonora para quando imagino um individuo na fossa, cabisbaixo, à chuva, a arrastar os pés por uma cidade cinzenta enquanto pensa na vida.

      Eliminar
  6. António Luiz Pacheco9 de abril de 2012 às 05:18

    Concordo inteiramente com o que diz a nossa Extraordinária Areia.
    Há essa falta de profissionalismo, porque nunca terá sido visto como "prática profissional" esse acto e segundo parece por parte dos escritores portugueses. Para se ser pago, há de facto que encarar o acto com o rigor profissional.
    Se calhar, os escritores terão de ser eles a começar por dar esse passo... porque a idéia é que sendo convidado não se paga!

    Da minha experiência quase todas as profissões ou actividades, fossem médicos ou fotógrafos, historiadores, investigadores de ciência ou outros conferencistas, são muitas vezes pagos!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caríssimo:

      Nem pense tal coisa! Eu sou médica e já participei em algumas conferências e congressos, como oradora, e nunca recebi um cêntimo! O melhor que consegui foi a deslocação paga, quando o evento é fora de Lisboa, claro. Porque quando é cá recebi: ZERO! Até aulas na faculdade para cursos de formação de internos, eu já fiz à borla.
      Não quero com isso dizer que não concorde que os escritores devam ser pagos pelas conferências. Acho, sinceramente, que sim. Aliás, ainda há dias comentei isso mesmo aqui, a propósito do cancelamento de um festival literário. Acho que se valoriza muito pouco o trabalho do escritor. Mas para isso também é preciso mudar a mentalidade da população que está habituada a que tudo que seja literário é à borla.

      Eliminar
    2. António Luiz Pacheco9 de abril de 2012 às 10:04

      Caríssima Ana B. falei em médicos como podia ter falado em veterinários... e repare que eu disse que da minha experiência são muitas vezes pagos, isto é, não falei no absoluto nem nos médicos em particular - embora seja moda cascar neles!
      Porque se há quem esteja disponível para ser benévolo - e Graças a Deus há muitos - há os que não o são... até porque não podem! Já alguém fez as contas de ir p.e . de Santarém fazer uma palestra na associação dos estudantes da Escola Profissional em Alter do Chão? Ou em Moura, Faro, Vila Real... que muitas vezes se fazem por puro amor à arte, por carolice...
      O que eu pretendia dizer, era exactamente que se deveria perceber que não se pode dispor do tempo, das idéias e do esforço, enfim do trabalho dos outros, sem que estes sejam compensados... é essa mentalidade que eu me referia e que tem de ser alterada.
      Eu mesmo já abusei muitas vezes da boa vontade daqueles que "engato" para coisas do género, como compensação acedo depois a ser eu próprio "engatado"...
      Isto é uma espécie de bola de neve...

      Saudações de Boa-Vontade , sinceras.

      Eliminar
  7. Uma vez, o provedor de uma Misericórdia convidou-me para eu escrever (gratuitamente) uma monografia sobre a instituição. Para reforçar a minha motivação, acrescentou: «Tu até tens vagar para estas coisas.»

    Conclusão: os escritores escrevem porque não sabem fazer mais nada, não têm outras responsabilidades mais sérias. Escrever, em Portugal, não é trabalho.

    Outra vez, uma colega admirou-se, cinicamente, de eu ainda ter tempo para escrever. Estava implícita a acusação de que me baldava na profissão. Quando confrontei as suas noites e os seus fins de semana com a minha vida, percebeu onde eu ia roubar o tempo para escrever.

    Conclusão: a mesquinhez é o mal crónico deste país.

    Barrius

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco9 de abril de 2012 às 10:13

      Meu Caro Barrius

      Talvez não seja mesquinhez... creio que é mais uma espécie de ingenuidade e a nossa tendência nacional para sermos generosos! Não tenho a menor dúvida que somos um povo muitíssimo generoso e que acode aos que estão em dificuldades com uma surpreendente facilidade.

      Quem já foi alguma vez dirigente desportivo de uma modalidade amadora? Ou de uma colectividade, de um clube... já exerceu algum cargo de forma benévola? Esses sabem do que falo.

      Na minha modesta opinião é por isso que se você mesmo amanhã for "convidado" para ir participar num evento ligado a algo que você goste e em que se tenha reconhecidamente destacado, puramente amador ou por interesse, vai dizer que só vai se lhe pagarem?
      Olhe que não acredito em si...

      Um abraço

      Eliminar
    2. Caríssimo Pacheco:

      Pois faz muito bem em não acreditar em mim porque acertou em cheio.

      Eu alimento-me da cultura por prazer e divertimento. Todas as monografias que escrevi até hoje foram oferecidas a instituições locais para obtenção de fundos através da venda das publicações. A minha forma de ser benemérito. Assim como nunca recebi um tostão (nunca o pedi) por ser colaborador regular de um jornal local. Até a assinatura pago. Talvez eles (os do jornal) pensem que me fazem um favor por me publicar (eheheh). Será mesquinhez minha? Escrevo porque gosto de escrever como gosto de viver.

      A nível nacional o assunto é mais complexo. O interesse é mútuo: da parte da entidade que organiza e difunde eventos, e da parte do autor que quer aproveitar todas as oportunidades para ser divulgado. Só um autor que venda bem e que não precise de canais de divulgação é que se pode dar ao luxo de exigir condições. Muitas vezes como forma de filtrar os convites, caso contrário não faria outra coisa. Generalizando, julgo que a solução mais consensual será a participação do autor convidado de forma a que este não tenha prejuizo... nem lucro.

      Quanto às outras situações (as de gente que vive profissionalmente da escrita, escrevendo para jornais, revistas e outros quejandos, e de escritores que têm uma chancela editorial), penso que o trabalho deve ser pago porque estão a prestar um serviço para empresas cujo objetivo é o negócio.

      Barrius

      Eliminar
    3. Se fosse no Facebook colocava um grande LIKE nesse seu comentário.

      Eliminar
    4. Quando disse que se fosse o Facebook colocava um grande LIKE no comentário, referia-me e este do António Luís Pacheco. Peço desculpa pela confusão.

      Eliminar
    5. Por vezes sinto falta de um botão qualquer aqui onde se pudesse colocar um LIKE. Nem sempre apetece "comentar" quando gostámos deste ou daquele texto.
      Isabel

      Eliminar
  8. Pois eu sou empregadora de escritores e estou de acordo. Como os encomendo para televisão não me passa pela cabeça não pagar cachet mas também gosto que cumpram os prazos combinados e não gosto de andar a fazer baby-sitting para ter a certeza que tenho as coisas a horas . E há muito quem não cumpra. Seria excelente se ficássemos todos mais profissionais.
    Teresa

    ResponderEliminar
  9. "E romantismo, sim, mas devagar..."

    Álvaro de Campos

    ResponderEliminar
  10. não estive a ler todos os comentários, pelo é possível que alguém possa ter dito o que vou dizer.

    ou seja, o grande problema, é que em Portugal sempre houve poucos escritores profissionais. para muitos deles, a escrita era mais prazer e arte, que fonte de rendimentos.

    hoje as coisas são diferentes, mas as pessoas continuam mal habituados, principalmente nas escolas, onde não há dinheiro para esses "luxos"...

    ResponderEliminar
  11. Escrever é atitude elucidativa, educativa e ética. O compromisso profissional deve ser remunerado, o desocupado não.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ganhar dinheiro com a actividade de outrem que para o efeito não é remunerado, chama-se oportunismo e/ou exploração. Em qualquer parte do mundo e em qualquer actividade...

      Eliminar
  12. Vale sempre a pena pensar nos problemas e questionar responsabilidades.
    Tenho no meu blogue uma reflexão sobre esse artigo: http://bom-texto.blogspot.pt/2012/03/escrita-dinheiro.html

    PS: Achei curioso o que disse a comentadora médica; afinal parece que coisas destas não se passam apenas nos meios culturais.

    ResponderEliminar
  13. Maria do Rosário, antes de mais, parabéns pelo post, tem a minha total solidariedade. Como cantora, devo acrescentar que, infelizmente, o problema estende-se aos que vivem (ou tentam viver) da música: há muitos músicos e cantores profissionais - e não de carreira ou "estrelato" - que passam pelo mesmo problema, ou seja, o mesmo argumento é utilizado na música original, na altura de ir a um programa de televisão: "É promoção, não há cachet..." - é promoção de quê? Do nosso trabalho? É com dinheiro que se pagam as contas e não com a vaidade de aparecermos na TV. E muitas vezes os músicos ou cantores (coros) que vão acompanhar artistas tiveram trabalho preparatório, em casa, dias de ensaios com os restantes elementos, decorar músicas e letras, despesas com transportes, etc., e nem fazem parte desse projecto. E lá está, se essa pessoa se recusa, a "estrela" chama outro, que os há às dezenas, mortinhos para aparecerem na televisão...Há 20 anos ganhava-se bem para ir interpretar um tema ou dois à RTP, como convidado; desde o Big Show Sic e o aparecimento dos canais privados, instaurou-se a ideia cómoda de que os artistas não precisam de remuneração! E mais! Por cada retransmissão na RTP Memória, onde já apareci centenas de vezes, nunca vi um tostão de direitos conexos, porque, para gravar, somos obrigados a assinar um papel onde prescindimos deles. Senão, nada de gravação. É o país que temos. E tal como os escritores, seria necessário os cantores e músicos baterem o pé, para que esta mentalidade mudasse: não pagam? Não vou! Isso é que era... Ponhamos, pois, os olhos no Brasil e sigamos os melhores exemplos. O TRABALHO DEVE SER PAGO. É simples.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório