O perigo das metades

Costumo acompanhar a produção poética nacional e tento, na medida do possível, estar em dia com os poetas mais novos; porém, como as nossas livrarias têm prateleiras cada vez mais vazias ou pequenas no que toca ao género – e muitas das editoras de poesia são empresas quase domésticas que não conseguem chegar aos grandes livreiros –, nem sempre é fácil andar a par de tudo, tornando-se, por isso, fundamental a leitura das páginas de livros na imprensa para nos informarmos do que não devemos deixar passar em branco. Foi assim, de resto, que no dia 16 de Março último fui atraída para a leitura de uma crítica que tinha como subtítulo «É urgente conhecer e reconhecer a poesia de X» (o X substitui o nome do poeta). Como não conhecia X (mea culpa) e sei que quase sempre os críticos incluem no seu texto excertos da obra sobre a qual escrevem, corri as colunas à procura de aspas, mas as primeiras que encontrei deixaram-me algo perplexa. Os versos citados eram: «Gosto de foder: gosto muito de foder. Gosto mais mais de foder do que a maioria das pessoas.» Na coluna anterior, achei outro excerto de um poema chamado para foder que rezava assim: «Quartos. Salas, Cozinhas, Casas de banho. Terraços. Jardins. [...] Etc. Urgente, não importa onde.» Não costumo ter ideias feitas em poesia, mas a verdade é que não percebi pelas amostras lidas a urgência de conhecer ou reconhecer X (não estava assim tão carente). Nada daquilo me pareceu ir além de uma simples provocação e senti que devia estar a ficar velha ou, pior, que perdera definitivamente a sensibilidade poética. Porém, a minha incredulidade levou-me a ler toda a crítica e, pelo meio, encontrei um poema inteirinho onde a ironia era mais apetecível; ora, como detesto falar das coisas pela metade, espero encontrar a obra de X por aí um dia destes, lê-la com atenção e voltar a falar dela com conhecimento de causa – às vezes, as metades não chegam para se sentir o sabor.

Comentários

  1. É uma tristeza, pela amostra tá tudo dito!
    Quem sabe se algum iluminado, daqueles que só nos aconselham livros em Inglês, o irá considerar uma obra-prima e a carneirada vá toda atrás a mugir...é o que temos.
    E claro lá estarão estes iluminados a tratarem-me por ignorante, retrógrado, etc. etc.

    ResponderEliminar
  2. No modernismo ou pós-modernismo cabe tudo.
    A Maria do Rosário Pedreira teve a delicadeza de não mencionar o autor, mas fiquei curioso...
    Bem dizem que a má publicidade é melhor do que nenhuma.

    ResponderEliminar
  3. há realmente uma grande confusão por aí, entre poesia e actividade panfletária, que é sobretudo provocação, com o objectivo de se fazer notar, dizendo: estou aqui.

    ResponderEliminar
  4. Talvez a escolha dos excertos tenha servido apenas para chamar a atenção para a crítica (do tipo "sex sells"). Há frases/expressões que retiradas do contexto, ou nos deixam perplexos, ou nos dão a entender o contrário daquilo que se pretendeu dizer.

    Nada como ir confirmar, concordo. É que, assim, nem lendo nas entrelinhas...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Uma boquinha?!! vá lá...não havia nechechidade...
      c.f

      Eliminar
    2. Um pouco de ironia (incluindo auto-ironia) não faz mal a ninguém...

      Eliminar
  5. O indelével é hálito, e palavras cheiram a condição de sê-las.

    ResponderEliminar
  6. Não resisto a transcrever um pequeno poema de um autor que conheci através dos comentários neste blogue e que mostra como se pode usar o verbo 'foder' e fazer poesia, ao contrário do que, na minha opinião acontece no caso descrito neste post (e estou nisso totalmente de acordo com a Maria do Rosário Pedreira):


    METADE EM MEIA CASA

    É tão cheio o nosso catre
    da mulher que nele entravas,
    que faço e não faço parte
    do homem que nele se guarda.

    E o meu tugúrio vazio
    a meio em quartos de lua
    é uma espécie de frio
    nesta ausência que é tua.

    Já não quero mais que nada
    pois que para nada presto:
    – sou metade em meia casa,
    que se foda tudo o resto.

    (no blogue ocasos, de Luís Caminha: http://ocasosluiscaminha.blogspot.pt/2008/08/metade-em-meia-casa.html):

    O problema nos dias de hoje é, precisamente, o de achar que provocação é sinónimo de poesia. Mas ainda há gente que escreve contra a corrente, como, por exemplo, o autor acima citado e a autora deste blogue.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Epa lá...novamente o recurso gramatical, a mais que breve diferença em:

      "que se foda" das coisas

      "gosto de foder" nas coisas

      De mais a mais, orientar-se em termos de corrente, presunção por força de expressão.

      Eliminar
  7. António Luiz Pacheco5 de abril de 2012 às 06:28

    Na minha assumidíssima ignorância de barrão e falta de entendimento daquilo que o conceito de arte abarca, desisti de a tentar perceber!
    Porque me parece que o conceito de arte é totalmente abstracto e demasiado abrangente. E esta nem sequer é uma discussão ou dúvida original, tem mesmo séculos...
    E afinal o que é arte? Alguém me consegue definir claramente? Não me parece...
    Os parâmetros e conceitos associados variam demasiado e mais ainda o gosto ou sentido estético... A arte, seja qual for, estará sempre dividida em grupos daqueles que a entendem e apreciam, na sua multiplicidade e ainda bem, Deus nos livre da "arte única"!
    Por isso para mim, e artísticamente falando, há
    "gosto" e "não gosto", se bem que tente perceber o que está por detrás daquilo que não gosto, por pura curiosidade e desejo de entender o ser humano, coisa que jamais conseguirei como é óbvio. Mas acho que isso faz parte do gozo de existir, como haver coisas de que não gosto faz parte da minha própria liberdade, pois seria mau se eu tivesse o poder de decidir o que é arte e o que não é! E imagino como seria, se tal poder fosse detido por certas pessoas...

    Uma Santa Páscoa

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ora, Pacheco mais simples impossível:

      se"gosto de foder" o sensibiliza é arte.

      se"gosto de foder" o excita ou por identidade expressiva de instinto, creio que não seja arte.

      ou se da expressão, desejas que fora arte, por vossa afirmação, aquela parcela que julga além da prioridade educativa...

      Em tratatndo-se que "foder" além do verbo, para uns é arte e para outros mau gosto, a diferença é que, há esferas mais, outras menos sensíveis e que a política de alusão de termos que incidem em má formação pela impossibilidade e considerando do mau gosto, é pertinente de causa.

      Saudações de um lugar distante, mas sensível pela causa d'arte.

      Eliminar
    2. Aliás, devo citar que a arte poderia ser tudo menos: promíscua.

      Eliminar
  8. Ocultar o nome do autor mas citar versos faz tanto sentido quanto um gato escondido com o rabo de fora.
    É a OctávioMachadização da Maria do Rosário. Vocês sabem do que estou a falar.

    ResponderEliminar
  9. António Luiz Pacheco5 de abril de 2012 às 09:34

    Hum... eu parece-me que percebi a angústia da nossa Hospedeira!
    No fundo e se me permite, sim, pode ser porque estando mais... madura... já não tenha paciência para gramar coisas ruins travestidas de arte só porque chocam ou de algum modo provocam mal-estar! O ir a todas, arte incluído, creio que é próprio da imaturidade que normalmente ocorre num estado mais jovem do indivíduo. Com a idade começa-se a ver de outra maneira e a ser bem mais selectivo.

    Eu, como barrão ígnaro e campónio assumido, posso encolher os ombros a uma qualquer manifestação de arte e dizer sem que isso pareça mal: "Gosto!" ou "não gosto!". E pronto!
    Mas quem tenha o peso da sua responsabilidade porque é pessoa da cultura, já assim não é, não pode fazer a figura que eu faço!

    Penso que é esse o grande problema...

    E é até simples... os outros é que complicam!


    ResponderEliminar

  10. Aos olhos teus, o mar seria
    querer-me em verdade nua
    o meu seio de sereia, és lua
    oh' saudade, seria teu corpo
    nu, cobrindo meu peito de sal
    ao cobrir o meu sol, a escurião,
    arte do eclipse é hora, do adeus...




    Bom descanso a todos.

    ResponderEliminar
  11. Sim, e não me venham dizer que foder não é um rico poema ... pelo menos assim deveria ser ....
    Poema que geralmente se escreve na cama, a dois, e com privacidade.
    Agora, foder no papel é mais difícil. Se o fodilhão tão tiver engenho e arte para fazê-lo, aí sim, fode e bem fodido, o poema todo. Parece ser o caso ...

    ResponderEliminar
  12. Gostei bastanta da ironia, porque quem a tomar como tal acaba por concordar consigo indiretamente, visto que não temos acesso ao tom de voz.
    Como dizia Ana Luísa Amaral, "o poema impõe-se" e por isso, submete-lo a uma métrica padronizada retira-lhe espaço para ser ele mesmo e corrompe sua autenticidade. No entanto, penso que a poesia contemporânea está a atingir os limites. Aceito que o genuíno tenha valor, mas nem tudo o que se possa dizer é poesia. Ela tem de ser intemporal, divinamente superior a nós, sonhadora, intocável e, assumo, também provocadora. Agora dizer coisas, como o caso que referiu, que aparecem em qualquer série televisiva e qualquer pessoa diz no seu quotidiano, não trás nada de novo, nem me parece que perdure no passar dos séculos, a não ser como um infeliz documento histórico do século XXI. Concluo, portanto, que a poesia está em crise!

    ResponderEliminar
  13. António Luiz Pacheco5 de abril de 2012 às 14:35

    Confesso que esta me apanhou em cheio!
    Gostei...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco5 de abril de 2012 às 14:47

      Refiro-me é claro ao post da Cláudia S. Tomazi.
      Com mil raios...

      Eliminar
  14. Este post faz-me lembrar uma música d'os mutantes:

    O senhor F
    Vive a querer
    Ser o senhor X
    Mas tem medo de nunca voltar
    A ser o senhor F outra vez
    (...)

    Mas ao contrário desta música d'os mutantes este senhor X tem nome, chama-se Miguel Martins e tem um blog, que na minha opinião merece ser acompanhado (assim como este, que também acompanho diariamente):

    http://ounicoverdadeirodeusvivo.blogspot.pt/

    Lamento ter lido o seu post tardiamente, porque confesso que me dava um certo gozo ter visto os comentários depois de consultado o blog e lidos alguns textos que o Miguel Martins lá publica, tanto da autoria dele como da de outros autores.

    De qualquer maneira não podia deixar de "fazer publicidade" a um autor jovem que considero muito talentoso.

    ResponderEliminar
  15. Que porcaria... Tem piada encherem livros e filmes de palavrões com o pretexto do realismo e ao mesmo tempo nunca se ver vinte minutos de um gajo à procura de lugar para estacionar... Odeio palavrões por dá cá aquela palha.

    ResponderEliminar
  16. Respeitinho, pessoal, que estamos no auge da semana santa. Aproveitemos o fim-de-semana prolongado que nos concede Maria do Rosário, nossa Senhora, para descontrair.
    Eu podia enriquecer (abandalhar?) ainda mais este debate sobre os limites (existem?) da poesia, trazendo-vos um ou dois escatológicos sonetos do meu rabugento vizinho Paulino António Cabral. Mas, ainda mais tratando-se do Abade de Jazente, a época não me parece propícia.
    Talvez esta minha intervenção, por tardia, seja irrelevante. Paulino, já no séc. XVIII, bem me advertia:
    «Letrado que atrasa a causa
    Com mui enredos astutos,
    Que lê feitos circundutos,
    E se passeia com pausa,
    Falando só no escritório: Farelório .»
    Pronto, para não atrasar mais a causa, vou deixar-me de enredos astutos.
    Se nossa Senhora me permite, ressuscito um ficheiro que, valham-me todos os santos, por aqui deixara esquecido desde o natal.
    Ainda assim, por causa do limite de caracteres, a ressurreição vai ser feita com calma, em duas partes.
    Aleluia.
    Joaquim Jordão, Amarante
    + + +
    DESPERTADOR
    Desde há muitos anos, todas as manhãs de segunda sábado, pontualmente às sete e vinte passa-me aqui à porta uma velha motorizada, daquelas estridentes que só têm três mudanças.
    Se calho de acordar uns minutos antes dessa hora, estando o tempo de feição abro a janela e fico ali à espera, não vale a pena fazer mais nada porque só naquele regular momento começa a minha contagem do dia, é por aquele padrão que a minha vida está afinada.
    O homem é gordo, já de certa idade, aparenta só fazer a barba aos fins-de-semana, e usa um capacete dos antigos, chamados “cabeça de giz”, que leva sempre com a fivela solta e as protecções das orelhas a abanar. De certeza trabalhador agrícola, à diagonal do tiracolo leva uma daquelas sacolas que havia antes das mochilas, igual à que eu usava nos tempos do liceu para levar as sapatilhas da ginástica. Ele leva ali, está visto, o farnel para a hora do meio-dia.
    Logo aqui abaixo começa a subida, que se estende por ali acima uns bons quatrocentos metros. Ele entra aqui na rua com a terceira no máximo, mas vai perdendo força e, infalivelmente aqui à porta, dá as duas aceleradelas da praxe para reduzir para a segunda, e depois, até lá ao cimo da ladeira, faz a barulheira que habitualmente me desperta.
    È nesse momento, pois, que regra geral me levanto e vou ao quarto de banho fazer o que é urgente. Ao descer para o pequeno-almoço, ele volta a meter a terceira e deixa de se ouvir. Pelos meus cálculos, lá no cimo de Penedo Pinto toma a direcção norte, onde o caminho é mais plano durante uns trezentos metros, até eu começar a beber o sumo de laranja. Pela janela da cozinha só volto a ouvir a segunda lá mais para diante, durante uns cem metros, que será naquela subida até ao entroncamento com a estrada da Lomba. Eu a escorrer o mel para o iogurte e ele ali parado a dar umas aceleradelas enquanto espera uma aberta no trânsito para entrar e acelerar uns metros em primeira para o nascente, até eu ter descascada a maçã. Logo depois pára, dá duas aceleradelas em ponto morto e desliga.
    Quando pousa o capacete no selim, avalia o estado do tempo e entra no tasco que ali existe, mesmo no enfiamento da estrada que vai para o Padronelo , estou eu a tirar a cafeteira do lume.
    Sete e meia, volto ao quarto de banho para fumar um cigarro e restantes necessidades, enquanto ele, nas calmas, bebe um café e um bagaço.
    Às oito menos dez, eu já de novo no quarto, a vestir-me, põe ele o motor a trabalhar, dá umas aceleradelas enquanto espera uma aberta para atravessar e seguir por ali abaixo, afastando-se em direcção ao Padronelo .
    Pelo tempo que demoro até ao momento de ligar o telemóvel e pôr o relógio no pulso, calculo que aquela segunda que ouço ao longe é na curva apertada mesmo antes de iniciar a longa descida acentuada até à ponte sobre o rio Ovelha.
    Nos dias de feição, aí pelas oito e cinco ouço de novo, ao longe, o esforço de uma segunda, que será naquelas curvas a subir

    ResponderEliminar
  17. (…)
    Demoro sempre a acender um cigarro antes de entrar no carro, para me certificar que ele vai agora na estrada paralela ao rio, na direcção sul, a caminho da igreja. Daqui até lá, em linha recta a distância não é grande, a aragem que vem do nascente traz-me nítidas as aceleradelas que ele faz antes de desligar e encostar a motorizada debaixo da oliveira, às oito e um quarto.
    Às vezes, antes de pôr o motor a trabalhar, desço o vidro do lado do passageiro e chegam-me os resmungos do Abade de Jazente, que isto não são horas de pegar ao trabalho. O homem tira o capacete e fica com ele nas mãos, em respeito, olhando para o chão, a biqueira da bota a esgravatar uma desculpa, que a motorizada é velha, não dá mais…
    O Abade olha-o, severo, alça no ar a mão que tem dobradas as folhas dos versos, mas, de súbito voltando-lhe as costas, suspende o gesto que seria com eles punir-lhe na cara o regular atraso.
    Pendurada a sacola no guiador, o capacete pousado no selim, o homem afasta-se na direcção oposta à tomada pelo Abade, que, cenho carregado, vai postar-se junto ao muro do adro, mãos atrás das costas, abanando uma perna a acalmar a rabugice.
    E é ali que, desdobradas as folhas, mas sem as ler, com elas descreve largos gestos voltado aqui para o poente, onde eu, pelas oito e vinte e cinco, antes de arrancar posso escutá-lo a recitar uma última revisão do soneto que tem andado a compor desde o início da Primavera:

    A Manhã fresca está, sereno o vento,
    O monte verde, o rio transparente,
    O bosque ameno; e o prado florescente
    Fragâncias exalando cento a cento.

    O Peixe, a Ave, o Bruto, o branco Armento,
    Tudo se alegra; e até sair a gente
    Dos rústicos casais se vê contente,
    E discorrer com vário movimento.

    Este cava, outro ceifa e aquele o gado
    Traz no campo a pastar de posto em posto;
    Outro pega na fouce, outro no arado.

    Tudo alegre se mostra: e só disposto
    Tem contra mim o indispensável fado,
    Que em nada encontre alívio, em nada gosto.


    São nove menos vinte, vou chegar atrasado ao meu emprego.
    Ainda se, ao menos, o meu patrão fosse poeta…

    Joaquim Jordão

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. e teu patrão não é poeta,
      não daqueles que o ajuste
      pois vos se fora português
      cobrariam-lhe o antitruste.

      Eliminar
  18. curiosa pela metade não fiquei.

    (mas fiquei em pulgas que a encontres e venhas contar) :-)

    ResponderEliminar
  19. E como não tenho/sei outra forma de a contactar, será possível dizer-me onde poderei adquirir "O Canto do Vento nos Ciprestes"?

    ResponderEliminar

  20. Se eu fosse poeta e tivesse um editor , seria ele a "aconselhar-me" a rever um verso, uma palavra?

    Como leitora ,não gosto dessa parte de X.

    Mas como editor/a, teria todas as dúvidas.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório