Geografia do gosto

Há muitos anos, quando comecei a trabalhar na edição, recebíamos na Gradiva, entre outras publicações, a New York Times Review of Books. Hoje é fácil ter acesso a ela com uns meros cliques no teclado do computador ou, simplesmente, comprando-a num quiosque (aquele onde consumo jornais, pelo menos); mas nessa altura ela vinha pelo correio dobrada com uma tira de papel mais grosso a envolvê-la e era todo um ritual esticá-la e lê-la de ponta a ponta. Porém, o País era mais analfabeto e o mundo menos globalizado, e nem sempre o que constava dos Top de vendas da NYTRB funcionava cá, como o provaram, de resto, umas quantas experiências que fizemos e se revelaram verdadeiros flops. Ninguém nesse tempo parecia apreciar verdadeiramente os thrillers ou as obras de auto-ajuda e as séries que acompanhávamos então na televisão raramente eram as que os norte-americanos produziam, não se vendendo, pois, como hoje acontece, os romances que lhes haviam servido de base. As coisas mudaram bastante nesse sentido e, nos tempos que correm, somos todos cada vez mais iguais em qualquer parte do mundo dito civilizado. É, no entanto, curioso verificar que, sem o apoio do cinema ou da televisão, alguns autores continuam a ser vítimas de uma certa geografia do gosto e, se em Portugal podem ser extremamente bem-sucedidos, em Espanha registam vendas diminutas e, no Reino Unido, são ilustres desconhecidos. Quando, por vezes, falamos de um autor de sucesso em Portugal a um amigo leitor que vem do país donde esse é oriundo, podemos inclusivamente levar com a frase surpreendente: «Nunca ouvi falar.»

Comentários

  1. Joao Tomas Castro e Melo26 de abril de 2012 às 02:13

    Bom dia Rosário!
    É impressão minha, ou o último parágrafo deste seu post está escrito de uma forma quase incompreensível? É que nao entendi bem qual era a sua tese... Primeiro diz-nos que num mundo globalizado estamos cada vez mais iguais, e que a tv e o cinema servem o propósito de criar sucessos literários. Dá depois o exemplo de que por vezes os livros vendem bem na sua geografia de origem, mas nao conseguem ir além fronteiras, talvez por nao se transformarem em séries ou filmes de sucesso a nível global. Depois acaba com o tal parágrafo que ainda nao entendi. Vou exemplificar a ver se compreendi bem. Eu encontro um inglês a passar férias cá em Portugal, meto conversa, e a certan altura pergunto-lhe se conhece o Hanif Kureishi, e ele (inglês turista em Portugal) responde-me que nunca ouviu falar em tal nome. Parece que o seu último parágrafo funciona como contraposição ao resto do texto, numa espécie de contradição à regra que está a tentar demonstrar. É isso que prentendia?

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    1. Tem razão, a coisa ficou um pouco empastada, com a feira do livro nem tive tempo para rever... O que quero dizer é que, mesmo com a globalização, há autores que podem ser best-sellers num sítio e completamente desconhecidos noutro. Por exemplo, os livros de Sveva Casati Modignani vendem mais de 40 000 exemplares em Portugal e em Espanha os editores desistiram de a publicar porque não vendiam nada que se visse. Por outro lado, há imensos autores que fazem imenso sucesso em Portugal - fazendo crer que são grandes autores nos seus países de origem, e na verdade são praticamente desconhecidos lá. Vou exagerar, claro, mas Luís Sepúlveda é muito menos apreciado no Chile do que em França, Itália e Portugal; mesmo em Espanha, onde mora, não tem uma reputação por aí além...

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    2. Joao Tomas Castro e Melo26 de abril de 2012 às 02:33

      Entendido... eu é que fiz uma leitura demasiado redutora do seu texto, demasiado lógica :-))

      Já agora, será que também existem escritores portugueses que são mais conhecidos fora de Portugal, do que cá dentro? Já teve esse experiência?

      obrigado

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    3. Desculpe intrometer-me, mas eu posso falar da minha experiência alemã (vivo, há quase vinte anos, na Alemanha). Não conheço nenhum caso desses, os escritores portugueses mais conhecidos por aqui são o Saramago e o Lobo Antunes. Acho mesmo que nunca vi livros de outros autores portugueses nas livrarias. E mesmo estes dois são difíceis de encontrar...

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    4. J. Rentes de Carvalho é muito mais cxonhecido na Holanda, onde viveu muitos anos, do que em Portugal, onde só agora começou a ser publicada a sua obra de forma sistemática.

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    5. É verdade! Lembrei-me dele já depois de ter desligado o computador (embora ele não seja conhecido na Alemanha). Sigo com muito interesse o seu blogue:

      http://tempocontado.blogspot.de/

      E, se o João Tomas estiver interessado, aqui vai igualmente o seu website:

      http://jrentesdecarvalho.com/

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    6. Joao Tomas Castro e Melo27 de abril de 2012 às 06:30

      Obrigado pelas sugestões... irei espreitar assim que puder.
      Mas voltando a Rentes de Carvalho, nao poderemos dizer que ele é um excepção à regra? Pois bem vistas as coisas ele esteve um grande período de tempo fora de Portugal... eu queria um exemplo de um escritor português, que nunca tenha vivido fora de Portugal, e que no entanto seja mais conhecido fora do que dentro... Será que existe algum assim?
      obrigado

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    7. Rentes de Carvalho foi, realmente, ainda muito novo para o estrangeiro e, pelo que eu me apercebo, ainda vive na Holanda, embora passe temporadas em Portugal. E é ele próprio que escreve em holandês.

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    8. Joao Tomas Castro e Melo27 de abril de 2012 às 12:35

      Era o que eu pensava... eu queria era um exemplo de um escritor português, contemporâneo, que tenha sempre vivido em Portugal, e que seja mais conhecido no exterior da pátria do que cá dentro. Será que existe algum assim?

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  2. Joao Tomas Castro e Melo26 de abril de 2012 às 02:17

    Se tivesse submetido o meu comentário ao corrector ortográfico teria evitado o "typo" certan, onde queria escrever certa... Detesto este tipo de erro!

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  3. Não sou particularmente uma apreciadora de thrillers, acontece que a minha irmã, levada quiçá pelo título do livro, ofereceu-me um intitulado "Irmã" de Rosamund Lupton. Este policial/thriller intenso prendeu-me de uma maneira que não descansei enquanto não chegasse ao fim. Viciante!
    Isabel

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    1. Caríssima Isabel:

      Não perca, por nada, o Expresso desta semana. O suplemento Atual foi-nos dedicado:) Eheheheh . E mais não digo, para não estragar a surpresa... Depois verá porquê...:)

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    2. Cara Ana B.
      Continua minha amiguinha, bem vejo! Tenho em casa o expresso, ainda não lido, pois a minha filha fez anos e achou que um aniversário tinha de ser comemorado durante 48 horas, o que incluiu uma festa do pijama com pré-adolescentes a "tentar fazerem uma directa!". Ontem à noite após a entrega da última convidada já só queria dormir!!! Mas quando chegar a casa logo à noite irei ver o suplemento, será que vou ver o nosso Mia? Tcharan, tcharan...!
      Isabel

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    3. Acertou na mouche !
      Quando vir, vai-se passar.. Eheheheh

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  4. Com relação a geografia do gosto podemos compreender que faça sentido ou funcione da seguinte forma: cada lugar tem específica orientação de conhecimento e cultura sendo que os escritores quando identificam-se com o padrão de prosa e contexto, eis que similares de inteligência; a informação responde do estímulo e difusão da obra.

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    1. boa, Cláudia.

      estava a pensar em algo quase assim.

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    2. Sabe, o interessante é que seja possível da distribuição ao longo do planeta, considerando a mescla cultural, pode-se cruzar informações e levantar variáveis, segundo escritor e literatura, o que definiria uma geografia literária e que possivelmente determinaria tendências. Aliás, o que seja possível sob perspectiva de informação e projecto.

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  5. Não vem muito ao caso, mas Mário Benedetti tem um livrinho delicioso intitulado precisamente: "Geografias".

    Cristina

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  6. António Luiz Pacheco26 de abril de 2012 às 09:53

    Interessantíssimo conceito, este da geografia do gosto, no caso, aplicado à literatura!

    A minha dúvida é se é mais fácil promover o autor ou o livro?
    O livro... bom depende do género, um policial é sempre um policial, aqui ou na China, e quem goste do género lê-o por isso!
    Já o autor... é capaz de ser mais complicado, porque julgo que precisa de ter uma reputação e obra que o sustentem!
    Por isso vejo constantemente naquela página de publicidade a que também se chama capa, um exaustivo rol de prémios e recomendações da Oprah , etc. onde se promove o autor.

    Julgo que funciona e eu não serei excepção
    pois compro de tudo!
    Tenho um variado leque de interesses e hábito de ler sobre eles. Mas, fundamentalmente gosto de ter livros! A par de uma enorme curiosidade sobre aquilo que os outros pensam, o que me leva a comprar seja o que for... hoje foi poesia, imaginem! Aliás comprei dois exemplares, pois enviei um à nossa Extraordinária Anfitriã!
    Devo ser o sonho do livreiro...

    Saudações de uma tarde chuvosa!

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