Fim em beleza

Só recentemente pude meter a mão no vencedor do Man Booker Prize do ano passado, que alguns dos leitores deste blogue, mais sortudos do que eu, já tiveram ocasião de ler. Trata-se de O Sentido do Fim, de Julian Barnes, um romance absolutamente imperdível que, por qualquer razão, me fez lembrar também A Praia de Chesil, de Ian McEwan, galardoado, julgo, com o mesmo prémio (talvez as restrições à prática sexual antes do casamento, mas seguramente outras coisas mais). Para além do facto de os ingleses escreverem muito bem (a sua narração é tão fluida que somos arrastados do princípio ao fim sem darmos conta), Barnes é um ás a descrever sensações com poucas palavras, neste caso as de um homem que já foi rapaz, já teve um amigo que admirava, já teve uma namorada que desprezou com uma carta que nem era para ela, mas para esse amigo que se suicidou exactamente pelas mesmas razões que um outro colega de ambos o fez uns anos antes – e que não se podem aqui contar. Notável entre todas, a relação do protagonista com a ex-mulher, um desses amores que duram toda a vida sem sofrerem a mácula da separação e da troca. Com um fim algo trágico, mas extremamente belo, este O Sentido do Fim faz-nos compreender como um relacionamento de juventude, ainda por cima curto, pode minar a vida de um sexagenário até que alguém o leve a entender que é mesmo preciso que certas coisas terminem. Excelente leitura.

Comentários

  1. Este senhor Julian Barnes é um manhoso... já o tinha dito e reafirmo-o! Não tenho qualquer curiosidade em especial em saber quem matou o Kennedy, mas gostava de ler o diário de Adrian com que ele nos acena em o Sentido do Fim, e... não posso dizer mais nada...

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    1. «A partir de agora estás por tua conta, leitor», parafraseando Margaret, a ex-mulher do narrador

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  2. Com relação a fluidez e a tônica de ingleses escreverem "muito bem" ligeiramente discordo, pois em tratando-se do Reino Unido, propriamente da actualidade, pesa-lhes a histórica literatura; e que (convenhamos) são águas de outra estação... tanto por assim, que o restricto mercado livreiro britânico tem proporcionado espaço, ou de melhor dizer, tem permeado literatura estrangeira por característica em oxigenar novas idéias!

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  3. Adorei esse livro!
    É um verdadeiro tratado de filosofia, romanceado. Tenho-o todo sublinhado e anotado. Impossível emprestá-lo, como é "filosoficamente evidente"...:)
    Foi um dos livros que mais gostei de ler, nos últimos tempos. Soberbo!

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  4. Atendendo ao número de páginas, se este romance pertencesse a um autor português, logo seria rotulado de "livrinho" ou "romancezito". Sobre a narração fluida (que inscreve ideias profundas), logo seria sublinhada a simplicidade do estilo.
    Romance português que se preze tem de ter mais de 300 páginas e ser de leitura difícil.

    Barrius

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    1. Não concordo totalmente. Isto è, concordo com uma parte: que se valoriza os livros pelo tamanho de pàginas. Mas acho que se aqui, como no estrangeiro, os autores estabelecidos, mais 'velhos', tiveram e mantêm sucesso escrevendo dificil o mesmo não se passa com os mais novos. Com meia dùzia de excepções (Por exemplo, Luìs Caminha, Rui Vieira, Antònio Canteiro, que têm uma sintaxe bastante rica) todos os outros novos escritores têm uma escrita fàcil e são esses os que têm sucesso (veja-se valter hugo mãe, gonçalo m.tavares, etc., etc., cuja sintaxe è muito, muito simples).

      PS: peço desculpa pelos acentos graves, o teclado teima em não gostar dos agudos...

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    2. Concordo. Reconheço que fui redutor, mas conscientemente provocatório -- para suscitar a reflexão.

      Barrius

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  5. Desculpem-me, não virá a propósito, mas é urgente.

    "Aproximação do fim do prazo de validade"

    Saí do supermercado, arrumei as compras na bagageira, sentei-me ao volante e accionei a chave. Na Antena 2 alguém tocava Schumann ao piano. As “Cenas Infantis”. Há ali uma parte que sempre me emociona. Fiquei um minuto com o carro parado, reclinado com a cabeça encostada ao vidro, a ouvir aquilo por entre os erráticos pensamentos que, como sempre me acontece, corriam desordenadamente num segundo plano tentando sobrepor-se à música.

    Acabara de comprar algumas coisas por metade do preço, porque se aproxima o fim do seu prazo de validade. Mas não apenas por essa razão. Também porque se aproxima o fim da possibilidade de comprar as mesmas coisas por um preço mais distante do prazo de validade do ordenado. Engatei a marcha-atrás . É este o balanço dos últimos 38 anos. Foi a isto que me levaram as “Cenas Infantis”.

    Um homem idoso bateu-me discretamente no vidro. Fiz ponto-morto , desci o vidro. Pediu-me alguma coisa para comer.

    Desliguei o motor, saí do carro. Ele é claramente uma pessoa sóbria, discreta, que procura manter a dignidade apesar da vergonha da situação – olha-me nos olhos. Apoia-se numa espécie de cajado, move-se com alguma dificuldade, mas enfrenta-me. Pede-me de comer. Pergunto-lhe de onde é. Vive ali para os lados da Serrinha, é só, não tem familiares, os vizinhos também têm dificuldades. O que faz? Não pode fazer mais nada – evidencia-me o seu físico periclitante, apoiado no cajado. Trabalhou setenta anos para os outros, não teve um patrão, teve muitos, ora um, ora outro, cavou-lhes os campos, fez-lhes brotar da terra as couves, as batatas, cenouras… “Não tive um patrão, não descontei, não tenho nada…” Não pode fazer mais nada. Chegou ao fim o seu prazo de validade.

    Voltei à mala do carro e dei-lhe uma embalagem de queijo em fatias, próxima do fim do prazo de validade. Ele não tem frigorífico, mas aquilo, ora, não lhe vai durar mais do que um dia. Dei-lhe também uma garrafa de tinto alentejano, de um euro e dezanove, o mais baratinho, que é o que eu bebo – achei que o confortaria, e ele confirmou com um discreto sorriso de gratidão.

    Isto aconteceu-me ao fim da tarde de ontem, 26 de Abril de 2012.

    Voltei para o carro, accionei a chave, o rádio estava a dar qualquer coisa de Tchaikovsky. Encostei a cabeça ao vidro. O homem afastava-se. Há trinta e nove, quarenta anos atrás, teria agarrado nele e, à porta do supermercado, trataria de obrigar todos os clientes a voltar lá dentro e trazer qualquer coisa para lhe dar. Fiz coisas assim nesse tempo, embora na altura tivesse a noção de que não era por essa via que se ia resolver o problema concreto, muito menos os inúmeros problemas semelhantes.

    Mas fez ontem trinta e oito anos que, de súbito, me pareceu que, afinal, estas coisas se iriam resolver. E, nesse dia, senti-me pleno, válido.

    Porém, trinta e oito anos depois, isto do Tchaikovsky e do Schumann continua a não dizer nada ao homem do cajado.

    Tomara que o rádio voltasse a tocar as “Cenas Infantis”, para justificar as lágrimas que não contive ao engatar, de novo, a marcha-atrás .

    Depois meti a primeira, e arranquei – com a sensação de ir a caminho do fim do meu prazo de validade.

    Joaquim Jordão, Amarante

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  6. Da finalidade em beleza, horas extraordinárias!

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  7. Da finalidade em beleza a saudade!

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  8. Enfim, em beleza a finalidade!

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    1. António Luiz Pacheco28 de abril de 2012 às 12:10

      O nosso prazo de validade expira todos os dias de um ou outro modo. Nem nos apercebemos disso, mas de vez em quando acontecem coisas destas que no-lo recordam.
      Por cá, pessoas com prazo de validade vencido permanecem a assombrar-nos, em África não, porque morrem sem ter tempo para isso.
      Será que por cá isso vai também acontecer? Para já morrem escondidos nas suas casas, mas e à medida que as forem perdendo? Começarão a morrer nos parques de estacionamento dos hipermercados? Á vez, e em bicha, enquanto esperam por um donativo daqueles a quem assombram? Ou como em África, passarão a sentar-se debaixo de uma árvore e apenas morrem?

      Saudações chuvosas do campo.

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  9. Um livro belíssimo.

    PLFF

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  10. Está ali na «pilha de espera» há um mês... cheira-me que será o próximo. :)

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  11. É sem dúvida uma excelente obra. Com este livro Barnes prova que um livro pequeno pode ser uma grande obra

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