Estranheza

No dia 29 de Março, realizou-se o funeral do escritor mais português de todos os italianos: Antonio Tabucchi, o autor de livros de ficção como A Mulher de Porto Pim, Nocturno Indiano, O Fio do Horizonte ou Afirma Pereira, mas também um grande estudioso e apaixonado de Pessoa, com ensaios publicados sobre a matéria. Não concordo com a hipocrisia dos que, só porque uma pessoa morre, lhe tecem elogios rasgados que nunca lhe expressaram em vida. Mas não posso deixar de confessar que foi com alguma estranheza que li os comentários de Zita Seabra (que trabalhou na Quetzal quando Maria da Piedade Ferreira publicava as obras do romancista nessa chancela) no dia seguinte à morte de Tabucchi. Pois dizia coisas como «era o autor que nenhum de nós gostaria de ter» ou «quando chegava a Lisboa e não funcionava o aspirador... era insuportável de feitio». Acredito que Tabucchi não fosse um santo (já não há disso, e muito menos entre escritores), mas no dia da morte de um senhor autor em qualquer parte do mundo brindar a família, os amigos e os admiradores que lêem jornais com afirmações como estas parece-me simplesmente excessivo. Claro que há gente de quem não podemos esperar nada de sensato. Mas mesmo assim...

Comentários

  1. Cara MRP, mas era de esperar uma atitude diferente de uma pessoa que assume-se e muda radicalmente de partido e orientação política, assim como o cata ventos muda de direcção?

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  2. as duas últimas linhas dizem tudo...

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  3. Chega a dar arrepios da frieza. Por vezes, condenam pessoas como trocam de roupa...estranheza.

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  4. António Luiz Pacheco11 de abril de 2012 às 04:47

    Trata-se apenas de prova da habitual falta de educação, de sensibilidade e de princípios presente em muita da gente dita da cultura.

    A pessoa António T. é uma... lá estarão os seus amigos e conhecidos ou inimigos para o avaliar e até falar disso.
    O autor A.T . é outra pessoa... e só é conhecido pelo seu trabalho. O que fica é a sua obra e não o que ele era na intimidade, e é sobre aquela que estas análises têm de recair.

    Todos sabemos que os artistas não são pessoas comuns, vulgares, muitos têm comportamentos estranhos, próprios, que têm a ver com a sua visão e integra a genialidade.

    Fazer acertos de contas nestas ocasiões e pelo motivo que é comum nesta qualidade de pessoas - como parece ser o caso - só fica mal a quem o faz, e tão mais quanto quem o faz tenha como ela tem, responsabilidades, e sobretudo quando o seu percurso não é linear, nem coerente, para não dizer que é desonesto.

    Afinal quem tem telhados de vidro, não lance pedras ao vizinho!

    Enfim... penso eu, se me é permitido e até estou benevolente porque tem chovido.
    Pessoalmente gostava muito da escrita de A.T. e do facto de ter gostado de Portugal, que ele viu e sentiu não ser feito de pessoas como a Zita Seabra, Graças a Deus!

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  5. Vocês não percebem nada de horta! Se a mulher dissesse que ele era bonzinho, bom escritor, andava sempre de barbinha feita, dava a sua esmola ocasional, ostentava sapato de bom cabedal, punha o filho às cavalitas, etc... o artigo versava sobre o tal senhor e ninguém dava atenção à mulherzinha. Assim, até já tem direito a um post num blog.

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    1. António Luiz Pacheco11 de abril de 2012 às 06:01

      Camarada Hortelão Courinha :

      A lógica batatal é que quando morre o escritor, fala-se do escritor.
      Sobretudo se quem fala é pessoa do canteiro dele, deixando falar sobre o cidadão, o padre, a vizinha, etc.
      Que importa para o caso se o escritor AT era um benemérito ou um mau-carácter ? Importa sim que escrevia e bem, sobre o povo onde se acolheu.
      E importa que uma pessoa de passado nebuloso fale da pessoa e não do escritor, pois ao fazê-lo, dá uma prova de estupidez... ou de desespero?

      Enfim quem semeia ventos colhe tempestades!
      (Hoje estou muito proverbial...)

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    2. Eu estava a querer dizer que ela não tinha nem interesse em falar do escritor nem do homem, mas apenas em chamar a atenção sobre a sua própria pessoa.

      Saudações do Alentejo, o verdadeiro campo

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  6. Isto hoje tem ar de mexerico...

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  7. Da estranheza: posto que diria, Pero Vaz Caminha fora o mais brasileiro dos escritores, enquanto galaico-português e navegador por audácia! Então o rei castelhano Afonso X o Sábio escreveu as suas Cantigas de Santa Maria em galego-português. A sua importância foi tal que é considerada a segunda literatura mais importante durante a Idade Média europeia, só perdendo para o occitano. A língua occitana, também chamada occitânica, langue d'oc, occitano ou provençal (em francês, langue d'oc; em occitano, lenga d'òc), é uma língua românica falada ao sul da França (ao sul do rio Loire), assim como em alguns vales alpinos na Itália e no Val d'Aran, na Espanha.
    Afinal das contas o dito pelo não dito faz diferença!

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    1. O galaico-português era a língua usada na lírica medieval ibérica (fossem cantigas de amigo, de amor, ou de escárnio e mal-dizer). Por isso, também Afonso X usou o galaico-português para os seus poemas. De resto, instituiu o castelhano como língua oficial da sua corte, como D. Dinis fez com o português (aliás, Afonso X era seu avô).

      Quanto a Pero Vaz Caminha, não sei se ainda se pode falar em galaico-português, pois viveu mais tarde, numa altura em que já existia o português como língua. Tenho, porém, poucos conhecimentos da era das Descobertas.

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    2. Do galego terá saído o português, sim, ficando aquele a falar sozinho. O mesmo nos acontecerá um dia face aos diversos Brasis , em especial se nos armarmos em esquisitos, com desacordos e tal. O provençal será já uma recordação histórica, ao contrário do seu irmão catalão que resiste.

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    3. A propósito de línguas que desaparecem: há dias, li um artigo sobre um padre alemão que se dedica à investigação de línguas faladas por cada vez menos gente, acabando por desaparecer. Ele lamentava que os idiomas dos índios brasileiros, ricos em palavras/expressões relacionadas com a flora amazónica, estão a desaparecer por causa do avanço do... português!

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    4. Exatamente! Em terras de Brasil e américa central, etnias extraviadas, perdem-se por desaparecer, pois apenas das falas, sem registros, compõe línguas de ancentrais, na expressão comunicar-se em milhares de dialetos. E não somente o padre alemão, mas outros estrangeiros que por aqui percebem.

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    5. Apenas em complemento, hoje do interesse, estudiosos avançam ao povo indígena no continente americano e fora em distante passado descrito na época das descobertas, inclusive dicionário por traduzir do linguajar, caso raro em solo brasileiro e anotações, que encontran-se na Universidade de Coimbra, através da Alma Mater, raridades que resgatam da expressão, além de história em dado momento.

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    6. Estou agora em condições de esclarecer melhor este caso, que não tem a ver com o post, mas, todos sabemos, as conversas são como as cerejas...

      Fui à procura do jornal onde tinha lido esse apontamento e ainda o consegui apanhar na pilha preparada para acabar no "papelão". Não se trata de um padre alemão, desculpem, mas a minha confusão deveu-se ao facto de eu ter lido o artigo no jornal católico do bispado de Hildesheim.
      Na verdade, trata-se de um Professor de Linguística da Universidade de Bremen, Thomas Stolz, que se dedica à problemática do desaparecimento de línguas e organizou uma conferência internacional na referida Universidade sobre Impérios Linguísticos. Os grandes impérios são, obviamente, o inglês, o russo e o chinês. Mas ele usou o exemplo do português, que contribui para a extinção das línguas locais da Amazónia, perdendo-se património cultural. Neste caso, com consequências para a defesa do meio ambiente, nomeadamente, a perda de inúmeros termos para designar troncos e folhas. Na opinião do Professor Thomas Stolz, muito do conhecimento ecológico (na maneira como descrever e lidar com a Natureza) é assim perdido, por causa do avanço do português.

      Não sou eu que o digo, é ele.

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    7. Sinceramente, um professor de universitário linguista cujo cabedal Bremen, não reconhecer como império das raízes latinas...é caso não, (diria) de estranheza, mas vulgaridades a risca de direcionamentos, quiça pouca monta; talvez em falta de assimilar bibliotecas como a Monacensis, entre outras; bem quem sou para alinhar discussões acadêmicas, resermo-me a insignificância, mas, não de intratável.

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  8. Não sei como o Tabucchi era na intimidade, nem me interessa. Como leitora sei que me deu excelentes momentos de leitura. Para além dos livros que referiu, e que adorei ler, recordo outro, que me encantou, deveras. Trata-se do "A cabeça perdida de Damasceno Monteiro": Genial!

    De resto, os comentários dizem muitas vezes mais de quem os profere do que dos visados .

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  9. A citada declaraçãoZita não me pareceu estranha. Fiquei, por isso, perturbado.

    Vá lá, ao menos ‘o que me vale é que não estou sozinho, ainda se encontram alguns pés de linho crescendo não sei como na estrumeira’.

    É que, antecipadamente a propósito, pareceu-me ter já ouvido – como certamente Maria do Rosário terá também ouvido – vários intemporais depoimentos.

    Por exemplo:

    Eu, abaixo assinado, embalsamador de profissão,
    declaro por minha honra
    que deste corpo extraí o que pulsava
    e fazia cumprir suas funções
    quando funcionava.
    Mais declaro que nele não encontrei
    outro elemento além dos ditos e descritos
    nos comuns manuais de anatomia.
    Ausentes dele qualquer abstracção,
    sintomas de tristeza, desagrado,
    sinais de medo ou discordância
    em relação à hora da paragem.
    Por minha fé ainda certifico
    a apropriada condição estéril
    do que remanesceu e expeço via aérea
    com garantia firme
    de ser reconhecido por quem o conheceu
    quando o corpo era inteiro e se reconhecia.

    (Leite de Vasconcelos)


    Também este:

    (…)
    Há neste mundo seres para quem
    a vida não contém contentamento
    E a nação faz um apelo à mãe,
    atenta a gravidade do momento

    O meu país é o que o mar não quer
    é o pescador cuspido à praia à luz do dia
    pois a areia cresceu e a gente em vão requer
    curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia
    (…)
    (Ruy Belo)


    Mais atrás no tempo:

    Vós, crédulos mortais, alucinados
    de sonhos, de quimeras, de aparências
    colheis por uso erradas consequências
    dos acontecimentos desastrados.

    Se à perdição correis precipitados
    por cegas, por fogosas, impaciências,
    indo a cair, gritais que são violências
    de inexoráveis céus, de negros fados.

    Se um celeste poder tirano e duro
    às vezes extorquisse as liberdades,
    que prestava, ó Razão, teu lume puro?

    Não forçam corações as divindades,
    fado amigo não há nem fado escuro:
    fados são as paixões, são as vontades.

    (Bocage)


    Depois este:

    Meu sacana de versos! Meu vadio,
    Fazes falta ao Rossio. Falta ao Nicola.
    Lisboa é uma sarjeta. É um vazio.
    E é raro o poeta que entre nós faz escola.

    Mastigam ruminando o desafio.
    São uns merdosos que nos pedem esmola.
    Aos vinte anos cheiram a bafio,
    têm joanetes culturais na tola.

    Que diria Camões, nosso padrinho,
    ou o Primo Fernando que acarinho
    como Pessoa viva à cabeceira?

    O que me vale é que não estou sozinho,
    ainda se encontram alguns pés de linho
    crescendo não sei como na estrumeira.

    (José Carlos Ary dos Santos)


    Despeço-me atabalhoadamente de Tabucchi, que tenho, como o país, o despertador avariado.

    Joaquim Jordão, Amarante

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  10. Ó criaturas de deus! Fácil é falar de quem está morto e difícil, muito difícil mesmo, é o morto vir à luz do dia e dizer "É tudo verdade. Fui um filho duma real puta" ou "é tudo mentira, eu fui puro e bom". Tanto as críticas - construtivas ou destrutivas - como as homenagens, os elogios, as bem querenças devem ser dirigidas àqueles que as merecem por serem "pessoas públicas" (não gosto muito desta terminologia, mas enfim...) ou por serem pessoas de certo destaque em qualquer ramo de actividade, enquanto ela está viva. Muito viva, aliás, para que não lhe seja cerceado o direito de defesa, o agradecimento, o esclarecimento, conforme for o caso ...

    Bater no defunto não é coisa de bom tom, bem assim como os imensos elogios e coisa e tal ...

    Nem sei se me fiz entender, pois isto de escrita não é comigo ...

    Fiquem bem todos.

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  11. Que se pode esperar dessa "senhora"? Ignorância e estupidez! Ah! E algum ressabiamento, também.

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  12. Barbearam-no e vestiram-no de preto,
    Calçaram-lhe sapatos de verniz,
    Moscas varejas chupam-lhe o nariz,
    E ele mantém-se pálido e correcto.

    Cheira a cera no quarto, já repleto
    Do que há de mais distinto no país:
    ... Um general, dois lentes, um juiz...,
    Com ar triste, imbecil, grave e discreto.

    Logo, os críticos sérios e carecas
    Folhearão no pó das bibliotecas
    Um livro caluniado enquanto vivo.

    Esse a quem chamam hoje ilustre e augusto
    Porque... porque ele, agora, é inofensivo
    Como qualquer estampa ou qualquer busto!

    José Régio

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  13. De acordo, totalmente. Mas vindo da boca de Zita Seabra quase me parece normal.

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