Personalidades duplas
O músico e intérprete Gilberto Gil foi, como todos sabem, ministro da Cultura do Brasil no primeiro governo de Lula da Silva. Mas, se a memória não me engana, numa entrevista que deu a uma televisão portuguesa disse que, embora tivesse tido de abrandar a actividade artística, nunca deixou de dar concertos dentro e fora do seu país. O «meu» autor Mário Lúcio Sousa, actual ministro da Cultura de Cabo Verde, é também músico, mas, assim que tomou posse, anunciou que, durante o tempo em que estivesse a exercer o cargo, a música ficaria, infelizmente, de lado; pensei que também a sua veia de escritor estivesse impedida de sangrar, mas, quanto a isso, não houve alterações – e sei-o porque recentemente me comunicou ter terminado mais um romance. Ora, numa edição do semanário Expresso, naquela secção em que as pessoas são reduzidas a setas para cima e para baixo, o nosso Secretário de Estado da Cultura levou uma flechada das más por ter aceitado um convite para participar enquanto escritor no Festival Literário da Madeira (aonde, aliás, não foi). Esta questão das personalidades com vidas duplas parece criar dificuldades aos próprios e aos alheios. Será, porém, lícito pedir a alguém que se esqueça de uma das suas facetas – quiçá a permanente – só porque aceitou um cargo político? Ou até pode continuar a escrever e a cantar, desde que não se mostre ao público?
Infelizmente para esta gente ligada à Cultura, não tem, como as gentes da Economia, Finança, Direito, possibilidade de continuar a trabalhar com testas de ferro que os encobrem e lhes permitem continuar as negociatas até que, ao sairem da coisa pública, tenham já assegurado o seu futuro financeiro e o de 500 gerações de descendentes... É pena que o Francisco José Viegas não tenha ido ao encontro já que a sua participação é sempre interessante e leva mais-valia a quem o ouve.
ResponderEliminarQuanto ao Mário Lúcio de Sousa, ouvi-o nuk concerto em Sines enquanto ainda ministro. E, felizmente, a política não deteriorou a sua qualidade enquanto cantor. Como escritor, espero ansiosamente pelo novo livro já que o anterior me divertiu imenso.
Aproveito para convidar todos os que gostam de livros para aparecerem na livraria Culsete, em Setúbal, no próximo domingo, a partir das 15 horas, para u saudável convívio que tem por nome 3º Encontro Livreiro e onde cabe toda a gente, desde o Editor ao Leitor. Não custa nada e saímos de lá todos mais ricos. Mas com essa riqueza que não precisa de testas de ferro!
“Será, porém, lícito pedir a alguém que se esqueça de uma das suas facetas – quiçá a permanente – só porque aceitou um cargo político?”
ResponderEliminarPodemos pedir? Eu peço que os políticos deixem de marcar presença em debates televisivos semanais sobre futebol. Se têm tempo devem dedicá-lo à resolução de problemas da sua autarquia, do seu município. Aqueles que semana após semana estão na televisão com hora marcada a discutir se o golo veio da esquerda ou da direita, marcam as suas agendas de dirigentes políticos em função desse compromisso e não ao contrário, como devia ser.
é sobretudo uma questão pessoal, que cada um de nós tem de resolver, segundo os valores éticos com que rege o seu dia a dia.
ResponderEliminarFJV deve ter ainda mais cuidado, em relação ao mundo dos livros, porque é encarado como o secretário de estado escritor, que protege a literatura e se esquece das outras artes.
e neste começo de mandato já arranjou "grandes amigos" nos meios teatrais e cinematográficos.
"O que m'a mim parece", é que se instalou uma espécie de histeria bighbrotheriana onde todos desconfiam porque não são de confiança e assim dão vazão à inveja, pública e colectiva!
ResponderEliminarHá sobretudo uma enorme hipocrisia nos que se controlam entre eles e nos controlam, sejam os juízes, políticos ou comentadores de serviço que seguem à risca o ditado "faz o que eu digo não faças o que eu faço". Tiro o chapéu a Clara Ferreira Alves - uma mulher e pêras !
Conheço quem se diga torcedor do Barcelona... e sei que é só para ser contra o Mourinho e o Cristiano Ronaldo! Sim, chega-se a esse ponto extremo do ridículo de não assumida inveja e despeito...
Onde eu mais noto esta postura pidesca ou até inquisitorial, é entre a dita classe-média e nesta, justamente nos pretensos cultos e evoluídos... os que se acham a medida de todas as coisas!
Raramente entre os que estão nos extremos, seja o topo da pirâmide social ou na sua base, o dito povo... é naqueles que querem libertar-se do que acham o estigma de serem gente vulgar, os que se acham superiores ou nos que buscam destaque que mais se vê este comportamento, pois raramente vivem a sua vida. Vivem uma outra em permanente projecção astral, como se em vez do que são, fossem Carsons de Venus ou John Carters ...
(personagens de Edgar Rice Burroughs )
E isso dá na perseguição feroz e obsessiva dos que se atrevam a destacar-se... Aí estão os exemplos neste post Extraordinário.
Querem rir-se? Imaginem só:
Eu tenho sido destacado praticante de uma modalidade desportiva por 30 e tal anos.
(Gaba-te cesto...) Fui por 11 anos e quase 3 mandatos, eleito por sufrágio directo, vice-presidente da respectiva federação. Há uns anos, numa competição, abordei e repreendi dois jovens praticantes que estavam a fazer uma transgressão e se o fiz foi como competidor, não como dirigente, que era como aquilo que estava a participar. Pois imagine-se que o responsável pela equipa dos dois, protestou o facto de eu competir! Achava que um dirigente não o devia fazer porque era anti-desportivo ! Bom, passei a competir como individual, abandonando a representação clubística, único ponto onde vi razão... de resto continuei a fazer o que gostava e com a vantagem de ao ombrear com os demais, conhecia como ninguém aqueles que compunham a selecção nacional que dirigi ou capitaneei...
É talvez uma das facetas mais desagradáveis da nossa sociedade.
Não choveu nada de jeito...
Saudações do campo
E o Courinha , meteu baixa?!... Todos somos personalidades duplas, quando não mais.
ResponderEliminarP
EliminarAinda bem que meteu baixa, a sua personalidade múltipla já enjoava...
EliminarTentei pensar em qualquer coisa inteligente, mas só me ocorreu: Granda palhaço! Espero que o enjoo passe depressa e que não seja nenhuma gravidez, o mundo não merece descendência sua, anónimos Jr. é o que por aí há mais.
EliminarTalvez, porque Gilberto Gil ao mesmo tempo é caminho e passagem!
ResponderEliminarDepois de tanto crer em aparências, deveria ser condenável o destino do homem, tenho lá dúvidas. Talvez, pela impotência perante estructuras, ou pelo capricho que consome a paciência de torná-la sustentável. Coubera ao povo alguma licitude, dignidade ou viço, pois destes tempos, onde andara a gratidão... É que, possivelmente abafaria algum embuste, quando na presença de factos, temos por lições historicamente quão refém pode ser a solução do inquieto. Será que a disposição é nascedouro somente da competência, ingenuidade e gratuidade? Então o homem das artes, em que faz sentido a coragem de modelo ser livre, ao expressar-se por tomar a dor do povo, nem pode tentar raspar, algum alívio frente a ocupação por condenável, de quando o condenável é ter de arrastar qualquer sorte no lamento de injustiças, pela sede do próprio povo sob a tentativa de desfigurar o princípio que sustente sua capacidade e que surpreenda, quão complexo seja alinhavar uma nuvem; aliás por nuvem, o artista nem deveria deixar-se alinhavar em latente posição de ajuste. Apenas, houvera ter por refrear o sistema num compromisso menos evasivo de mérito. Há quem acerte, há quem não, quando a justiça está no superar os detalhes a compreensão.
Nem sei por quê, lembrei de latão.
P*
EliminarConcordo com o Luis Eme : acho que é uma questão pessoal.
ResponderEliminarNuma altura em que temos tanta promiscuidade no poder político, eu resguardar-me-ia. Mas acho perfeitamente possível conciliar as duas vertentes. Até porque não sou dos que acham que é tudo corrupto: ainda há gente honesta e bem formada. Felizmente!
E por isso eu adoro Pessoa. Podemos ser tanta coisa dentro desta carapaça em que habitamos que não entendo porque temos de nos conformar a uma única essência de nós. Não entendo...
ResponderEliminarPrecisamente deixei-me ficar um destes dias, por alguuum tempo, a mirar e remirar abismado a arca de Pessoa que, curiosamente, me pareceu a peça em exposição que menos atraía os visitantes lá na Gulbenkian. Aconselho os que por aqui pululam, sejam escritores ou candidatos, a fazer o mesmo, e talvez se desangustiem por vossos escritos incompreendidos.
EliminarSinceramente não vejo incompatibilidade possível entre um cargo político e o mundo das artes. Salvo situações extremas, como seja a propaganda com o propósito de lavagem cerebral, até me parece uma boa forma de se conhecer a massa daquele que escreve ou pinta ou esculpe. A questão chega a apresentar-se-me como uma pedrada que falhou o charco do bom senso, numa altura em que o chefe dos bombeiros vende mangueiras, o presidente da junta vende terrenos para a construção de jardins municipais e até o presidente da câmara de mirandela transacciona as peças metálicas que dão forma aos seus famosos enchidos sionistas, é completamente caricato que alguém que pretende servir as gentes não possa também querer presenteá-las com a sua arte!
ResponderEliminarA parte: O cenário político brasileiro enfrentou a realidade do cantor e compositor Gilberto Gil, tendo como pano de fundo a mudança de paradigma que naquele dado momento comportou e compactuou com as idéias partidárias ou não, de forma que, afinou com o patriotismo de Gilberto Gil, com a solenidade do prisma de ideologia artística, como empenho declarado de enfrentamento, e realçando a experiência positiva no conceito pelo efeito adjacente na política brasileira, acrescentaria ainda, como um sinal bem vindo da Meritocracia, e que poucos perceberam, qual o sentido deste seguimento que ascende, muitas discussões das reais necessidades no Brasil de ser "um país sem corrupção".
ResponderEliminarPerdão, corrigindo:
Eliminar...muitas discussões das reais necessidades no Brasil por vir a ser "um país sem corrupção".
Já no ano passado o FJV foi convidado e não apareceu por estes lados. Este ano era o convidado que eu mais queria ouvir - a mesa onde iria participar foi a pior, na minha opinião, e tenho a certeza que o seu contributo seria uma mais valia. Fiquei profundamente desiludido - com um F maiúsculo - quando uma pessoa da organização veio dizer-me que o FJV cancelou à última da hora.
ResponderEliminarBolas, qual é o problema afinal? Tem a ver com o facto do PPC e o AJJ não se entenderem? Fogo, até nestas coisas temos de sair prejudicados? Pró raio que os parta!
Aposto que o FJV deve estar bem arrependido por se ter metido na fossa que é a política.
Na minha opinião, esta questão tem dois aspectos: a necessidade que um artista tem de se exprimir e o facto de ganhar dinheiro com isso.
ResponderEliminarNão me parece que um escritor, ou um músico, consigam parar de se exprimir, apenas porque se tornaram políticos. Quem é dono de um talento, dificilmente vive se não tiver ocasião de o soltar. A pergunta é se é lícito ganhar dinheiro com essa sua actividade, ou, de qualquer maneira, influenciar a opinião pública através dela.
No caso do Secretário de Estado da Cultura, penso que não seria problema participar num Festival Literário (não sei se ganharia dinheiro com isso). No caso de um músico, já me parece menos correcto receber pelos concertos que dá. Podia aproveitar esse tempo, em que exerce um cargo político, para actuar de graça.
Já um escritor pouca vantagem daria ao seu público se prescindisse dos direitos de autor, pois a parte de leão vai para a editora. Mas podia doar o dinheiro a obras de caridade e/ou à protecção dos animais.
Tanto quanto sei, o único que teve cachet foi o chinês Yang Lian. Todos os outros tiveram direito a estadia, alimentação e passagens pagas - houve quem fizesse um escândalo, porque queria um Ferrari em vez de um Mercedes... mas isso são manias de estrela...
EliminarNão sabia que havia escritores com manias de estrela à la Hollywood...
EliminarO que não deva ser dificuldes a Mario Vargas Llosa, e apenas lembrando o chileno Pablo Neruda, da carreira diplomática.
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