Previsões
Tenho lido aqui e ali que nem tudo é mau nos tempos que atravessamos. Ou, melhor, que o horror do que vivemos pode ter efeitos de algum modo positivos a médio prazo. Ao que parece, muitos dos que andavam adormecidos despertaram com a chicotada do desemprego ou do desaparecimento das bolsas de estudo e, se antes nem iam às urnas em domingo de eleições, agora manifestam-se na praça pública e lutam pelos seus direitos. Também se diz que é, normalmente, em tempos obscuros e difíceis que os criadores sobressaem, que se tiram coelhos da cartola vazia e as artes fazem das tripas coração – ou seja, que as ideias boas e bonitas dão a cara; e, finalmente, ouço pessoas afirmarem que as coisas precisam de bater no fundo para virem ao de cima outras melhores. Gostava de acreditar nisso, até porque, nos últimos anos, vi o declínio de muita coisa que achava válida e a ascensão da mediocridade em vários domínios – no político, então, nem se fala. Mas, lamentavelmente, estou um pouco céptica: é que, de há uns meses para cá, suicidaram-se quatro jovens que, não sendo próximos, eram próximos de pessoas com quem trabalhei ou a quem estive ligada por razões profissionais. Atiraram-se de pontes ou para baixo de comboios e viviam, pelos vistos, crises maiores do que esta a que assistimos na Europa. O último foi o poeta Rui Costa, que ganhou o prémio Daniel Faria e concorreu à direcção do P.E.N. Clube há uns três anos, de quem hoje deixo aqui um poema. Espero que não passe tudo de uma coincidência.
O pão
Há pessoas que amam
Com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
Ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
A lua encontra o pão caiado que comemos
Enquanto o riso das promessas destila
Na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
E pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
Que não precisa de voar.
esta crise pode ser uma dádiva; quando se está na mó de baixo e a real dificuldade aperta, eis que surge a valentia da alma portuguesa dos mais remotos genes suprimidos. em tempos de regozijo alheio, ninguém se incomoda e batalha, ninguém se emancipa e reitera, ninguém se supera e salva. de vez em quando faz bem bater no fundo. só com tempos obscuros se consegue valorizar a luz.
ResponderEliminarExtraordinário poema.
ResponderEliminarQuando falta o chão é muito difícil ver por onde ir.
Um dia bom para todos.
Carla Nunes
Fez-me lembrar de uma tese, supostamente, dos tempos das lutas operárias dos meados do século XX: quanto mais no fundo maior será a revolução. Não creio nessa coisa de que a dificuldade aguça o engenho - uma planta nasce e desenvolver-se-á num contexto favorável. Não haverá flor nem fruto nas trevas. Tenho assistido a uma data de palestras e conferências do que agora é moda: o empreendedorismo - tudo falácias de gente de barriga cheia. Vêem-se gregos para apresentar um caso de sucesso e quando o conseguem fazem-me sorrir de tristeza - focam exemplos de micro negócios de venda de agulhas, canivetes ou carrinhos de madeira. Está bem que não bastará ver a floresta, mas focar apenas o arbusto, ignorando a floresta inteira, é obra.
ResponderEliminarnão haverá flor nem fruto nas trevas, mas creio que é lá que as melhores sementes são criadas (relembro Felizmente Há Luar! de Sttau Monteiro). quanto ao empreendedorismo, aconselho a ver o vídeo de Miguel Gonçalves (no qual não prepara uma juventude optimista, mas uma pronta a arriscar, pronta a errar). como disse Churchill, sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder entusiasmo; orgulho-me de pertencer a esta geração fénix que renascerá das cinzas.
EliminarTotalmente de acordo meu caro L. Urgais !
EliminarQuem tem acesso a falar na crise são os que dela se alimentam ou lhes passa ao lado, os do costume. Não se olha para os casos de insucesso que é onde está a lição a tirar e a evitar!
Ainda não o perceberam...
Viu ontem os Prós e Contras? Patético o director do Emprego e Formação, pelo discurso dele está tudo bem, há sectores a crescer e talvez por isso aumentam diáriamente os desempregados, o que para ele parece não acontecer! Creio que vive noutro país. Devia ser demitido hoje mesmo!
E aquele bonitão bronzeado? O homem de sucesso que ganha a vida a sacar dinheiro aos outros vendendo banha da cobra, dizendo-lhes o que devem fazer... quando não houver dinheiro para se fazerem os seus cursos aposto que vai ficar pálido e perde a pose e a segurança!
Ilustra na perfeição aquilo que você diz!
A amargura do malogrado Rui Costa, é afinal a expressão do desespero de uma sensibilidade extrema e o reconhecer da impotência, o desejo de não-viver ! Desejo esse mais forte que o de viver... tudo depende dos objectivos e estímulos de cada um.
EliminarLi a notícia e lamento sinceramente por ele como por todos os que decidam que este Mundo já não é o seu e não lhes pertencendo decidem abreviar a sua estadia e ir procurar um outro...
Cobardes dizem alguns porque têm razões para viver e não compreendem aqueles a quem elas faltam. Outros pela insensibilidade da sua existência que vivem sem consciência, como máquinas ou seres sem consciência. Finalmente aqueles a quem falta a coragem de ir ver o que existe para lá da morte...
Boa viagem, este não era o seu Mundo!
Não se esqueçam do cogumelos, prosperam nas trevas e calham muito bem num bifinho da vazia.
ResponderEliminarestranho post
ResponderEliminarestranhos comentários
Não gostou? Pegue no meu bife com cogumelos e coma só as batatas! Estou a brincar, isto aqui é assim, no rules!
Eliminarmilitante
EliminarO pão que já nem é assim um must...hoy temos esparguete pizza e demais hidratos ao quilo
Há pessoas que amam o pão
o pão que a seus filhos não dão
pois os putos comem fora sem demora
Com os dedos todos sobre a mesa.
gordurosa faina que paga juros de mora
no hamburguer que mc'donalds reza
nessa mesa obesa em que a fome come
e Aquece o pão com o suor do chinês rosto
rosto em que já não há tanta fome
e tem direito a arroz a seu gosto
e não imposto pelo gosto do mundo oposto
iste já é um bocado snob como as batatas do bife
A lua encontra o pão caiado que comemos
Enquanto o riso das promessas destila
o que a sombra das palavras gastas não perfila
e se o riso se destila em promesssas vagas
pagas
Na solidão da erva.
que é multidão de seres....
Estas pessoas são o chão
Que não precisa de voar.
olha que de voar precisa bué né?
estas pessoas precisam de voar
e aterrar em covas de 7 palmos
já é algo a favor
Eliminardo tal senhor
senhor das letras
que só são pretas
por de luto estarem
"Boa viagem, este não era o seu Mundo!"
ResponderEliminarpara o um dos meus filhos, brilhante aluno, meigo, generoso. desportista...definitivamente este não era o seu Mundo.
Para todas as famílias que sofrem a dor da ausência, um Abraço terno.
"Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves. "
ugénio de Andrade
"Boa viagem, este não era o seu Mundo!"
ResponderEliminarpara um dos meus filhos, brilhante aluno, meigo, generoso. desportista...definitivamente este não era o seu Mundo.
Para todas as famílias que sofrem a dor da ausência, um Abraço terno.
"Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves. "
Eugénio de Andrade
Basta ir à baixa ou centro de qualquer cidade do país para ver moribundos (ou então falsos sorrisos)...
ResponderEliminarTambém me enquadro na geração fénix, que espero que volte renascida...
Esses jovens que fizeram isso, libertaram-se, por fim.