Os bons e os maos

A minha irmã, que foi sempre a mais original no contexto familiar, conheceu de perto a mulher de Arnaldo de Matos na escola secundária e tornou-se simpatizante do MRPP, obrigando até a minha mãe a acompanhá-la em actividades da Associação de Amizade Portugal-China. Na altura, eu era demasiado miúda para perceber fosse o que fosse dessa espécie de militância, mas agora posso vingar-me da ignorância lendo uma obra de Miguel Cardina intitulada Margem de Certa Maneira – O Maoismo em Portugal de 1964-1974, dada recentemente à estampa pela Tinta-da-China. Trata-se de um estudo que ainda não tinha sido feito sobre os movimentos de extrema-esquerda de inspiração maoísta nos dez anos que antecederam o 25 de Abril, movimentos que foram muito críticos em relação às acções do Partido Comunista (ou à falta delas), ao colonialismo, à guerra em África (apelando à deserção) e ao capitalismo. Nascidos no meio estudantil, mas estendendo-se mais tarde a alguns sectores do proletariado, estes grupos constituíram uma oposição diferente e fizeram nascer para a política muitas figuras conhecidas que aí iniciaram o seu percurso.

Comentários

  1. O trabalho de investigação é difícil , ou seja, uma tarefa árdua. Quem está habituado a lidar com estas coisas da História entenderá bem o que pretendo afirmar. Um dos meus amigos foi dirigente do MRPP e teve acesso à publicação citada. Gostou do esforço do investigador, mas afirma que lhe falta algo, falta-lhe, na sua opinião, a essência, o âmago, isto é, a versão dos agentes, a recolha de muitos dos que protagonizaram a acção. Já tentei investigar o meu partido de então, sim, quem é que não tinha partido em 1974/1975? Então a juventude não perdoava , eu era um puto do MES , abominava a velha ordem, receava a dureza do PCP, desconfiava do PS e fazia-me muita confusão o MRPP ser aliado do PS, contra todos os outros partidos da dita extrema esquerda. Pois é, tenho para mim que em História chega a ser muito mais interessante e verosímil o que fica por fixar, mas, apenas se insinua, ou se lança pistas...

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  2. O trabalho de investigação é difícil , ou seja, uma tarefa árdua. Quem está habituado a lidar com estas coisas da História entenderá bem o que pretendo afirmar. Um dos meus amigos foi dirigente do MRPP e teve acesso à publicação citada. Gostou do esforço do investigador, mas afirma que lhe falta algo, falta-lhe, na sua opinião, a essência, o âmago, isto é, a versão dos agentes, a recolha de muitos dos que protagonizaram a acção. Já tentei investigar o meu partido de então, sim, quem é que não tinha partido em 1974/1975? Então a juventude não perdoava , eu era um puto do MES , abominava a velha ordem, receava a dureza do PCP, desconfiava do PS e fazia-me muita confusão o MRPP ser aliado do PS, contra todos os outros partidos da dita extrema esquerda. Pois é, tenho para mim que em História chega a ser muito mais interessante e verosímil o que fica por fixar, mas, apenas se insinua, ou se lança pistas...

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  3. Não é assim tão difícil!

    Ainda estão vivas as pessoas, há publicações da época sejam livros, reportagens ou outras (com tanta pérola do pensamento de então...) e há até filmes, reportagens gravadas mesmo registos de discursos...

    Por isso discordo totalmente do que diz!
    O difícil não é a investigação histórica, o difícil é que estando ainda vivas e tendo mudado o seu percurso e a maneira de pensar e de fazer, há muita gente que não quer recordar e menos assumir aquilo que foi ou como pensou! Que tentam reescrever a sua história pessoal!
    Conheço casos tão espantosos como o de um amigo meu de há 40 anos... que foi extrema-esquerda, fugiu à tropa e esteve na Suécia refugiado até ao 25 de Abril! Hoje é da ultra-direita , e fico espantado quando o oiço defender o "ultramar" e os valores do "império", criticar a descolonização... e há MUITA gente assim. Isso é que dificulta a investigação! Porque se forem falar com eles, eles não lhes dirão nunca a verdade do que pensaram e sentiram então...
    Tanto os que mudaram como os que mantiveram, todos mentem sobre o tal "âmago". E será isso que desvirtua a investigação, mas só se o investigador for tanso e não souber o que anda a fazer! Tem de consultar os registos primeiro e só depois falar com as pessoas, eliminando todos os testemunhos divergentes ou que soem a falso! Porque repito, há documentos em barda que ilustram bem o que foram esses movimentos e forças e quem os integrava! E isso não se apaga com facilidade...


    Quanto às famosas associações, eu cito uma da época:

    Associação de Amizade Portugal-Gin tónico!
    Esta devia ser investigada... porque reunia pelo menos essa nossa imensa capacidade de rir dos poderes, da situação e de criar anedotas!
    É talvez a associação que melhor nos define e até representa...


    Um bom dia - as noites estão frias mas tenho muita lenha!!!

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    1. Nem mais. Queria acrescentar alguma coisa mas acho que não vale a pena.
      Concordo 100% com todas as suas palavras.
      Saudações.

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    2. Essa era a associação do Mário Henrique Leiria!

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    3. Talvez... os "Contos do Gin Tónico..", foi um livro de culto, julgo eu?
      Se calhar ainda é! Mas já ninguém se lembra, tal como do "Pão Com Manteiga" . Depois saiu na versão papel numa revista... mas acho que não era tão engraçado.

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    4. Sim, os contos e depois os novos contos, embora com um bocadito menos de piada. O Pão com manteiga ainda tenho cá por casa algumas revistas. Mas a piada estava sobretudo nos diálogos ou monólogos na rádio. De facto a revista saiu um pouco fraquita e com muitos erros (gralhas) ortográficos. A quantidade é tanta que nem revisor deveria haver.

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    5. Quem diria o que um dia ainda iria acontecer ... falo do Carlos Cruz!

      Do Mário Henrique Leiria nunca mais ouvi falar...
      tal como Diniz Machado e outros nomes que terão caído no esquecimento... o Mário Zambujal ainda vai aparecendo na Epicur e outras revistas.

      Bom fim de semana meu caro!

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    6. O Mário Henrique Leiria e o Dinis Machado têm razões de peso para o não aparecimento. O primeiro faleceu em 1980 e o segundo, mais recentemente, em 2008.

      Resta-nos a memória.

      Bom fim de semana

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    7. Meu caro João Raposo, creio que não me entendeu... terem falecido é motivo óbvio para desaparecimento, mas não para que se deixe de falar neles, sobretudo como pessoas que marcaram ou deixaram algo, como foi o caso.

      Bom fim de semana

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    8. Tem toda a razão e peço desculpas, mas é o que fazem as leituras apressadas para as pôr em dia.

      Bom fim de semana

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  4. Ó Maria do Rosário. por favor, se não for inconfidência: a sua irmã é simpatizante ou milita agora em qual dos dois partidos do governo?

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    1. Em absolutamente nenhum. Nem nesses dois, nem no Bloco, nem no PC, nem em partidos de direita. E nem me parece que tenha votado nos últimos seis ou sete anos. Eu disse que ela era original...

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  5. Sem dúvida, original e apolítica como, aliás, sempre o foram os MR's...

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  6. Tenho a impressão que Miguel Cardina não captou esta faceta que vou tentar expor – aliás, este livro, formatado para a investigação / inventariação histórica, não seria talvez o espaço mais adequado para o tipo de questões que tentarei testemunhar, se para tanto me chegarem o engenho e os limitados caracteres.

    Na época dos meus 20 anos estive muito envolvido em várias frentes – umas clandestinas, outras mais ou menos – de luta contra o regime de então, contra a guerra colonial, etc .

    Esse período da minha vida de activista e militante (na Figueira da Foz, a seguir em Lisboa, e a partir de 1972 no Porto) foi muito intenso, diria frenético – mas pontuado por momentos de decepção, cuja frequência ia aumentando de ritmo (à medida que eu ia amadurecendo?)

    Isto é difícil de descrever em poucas palavras, mas a verdade é que essas decepções – uma espécie de grãos de areia que a ortodoxia e o dogmatismo iam metendo na minha engrenagem – começaram logo nos tempos iniciais da militância activa, a partir de 1969, com o meu envolvimento nos movimentos estudantis, na Livrelco , no movimento pela defesa das actividades culturais das cooperativas populares, nos Comités de Luta Anti-Colonial e no MRPP.

    Uma espécie de desconforto, ainda que difuso, senti-o especialmente quando, denunciado à PIDE e portanto já em risco objectivo de ser preso, me passou pela cabeça que a minha militância estava a ser manipulada no sentido de vir a fazer de mim um possível mártir do movimento revolucionário.

    Já na clandestinidade, a combinação das ordens do camarada controleiro com o cumprimento das regras da disciplina revolucionária, colocou-me várias vezes em situações de evidente risco. E eu não devia questionar, só tinha era de fazer a auto-crítica e obedecer, assim ensinava o livrinho vermelho do pensamento luminoso do camarada Mao

    Severas críticas do tipo "ideologia pequeno-burguesa ", etc , recebi bastantes, e – apercebo-me agora – particularmente quando estava em pleno regime de clandestinidade, cada vez mais mesquinhas e a propósito das mais incríveis miudezas do meu comportamento.

    Aquele perturbante e desconfortável sentimento, ainda que subconscientemente, foi-me condicionando, embora não me tenha desmobilizado do movimento revolucionário senão em 1979 (já afastado do MRPP, mas entretanto, no Porto, envolvido noutro partido maoísta ).

    Vejo agora que foi esse persistente sentimento ambíguo que, até há poucos anos, me desmobilizou de reconstituir essa parte do meu próprio passado (atenção: não se trata de repudiar esse passado).

    Vejo, por exemplo, que ainda não tive a coragem de ir procurar a minha ficha da PIDE – porque receio ir encontrar lá indícios que possam agravar a suspeita de que a minha prisão, o meu martírio, era, de alguma forma, planeado...

    A quem nunca passou por elas, isto pode parecer uma paranóia, mas o facto histórico é que os mártires, os que foram presos e torturados, os que foram assassinados pela PIDE, etc , por pouco importantes que fossem na respectiva estrutura partidária, eram transformados em ícones na propaganda dos partidos da oposição dessa época.

    O frenesi da militância não deixava tempo e a disciplina do partido não deixava espaço para pensar conscientemente, de modo que, para quem estava a passar por elas, estas dúvidas iam ficando por digerir, pendentes, lá no subconsciente…

    E – pergunto-me por vezes, agora – não será até que, fruto do frenético e disciplinado fanatismo que me foi incutido, o meu martírio era, afinal, de alguma forma por mim próprio também desejado?...

    Já se vê que aqueles foram tempos de facto heróicos – particularmente para quem tinha a sua liberdade limitada e vigiada pelos dois lados...

    Ando, pois, agora a limpar pacientemente os tais grãozinhos de areia que, aos poucos, se foram acumulando e que, quando encravaram definitivamente a minha engrenagem, originaram a ruptura que me afastou, até há poucos anos, da própria revisitação dessa parte do meu passado.

    Saudações revolucion

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    1. Meu Caro e Extraordinário Amigo:

      Creia que muito bem entendo e respeito aquilo que diz! Se me permite... pois nunca tive nem de perto esse tipo de experiência.

      Julgo que faz muita falta ao entendimento da história recente, esse tipo de abordagem que faz de forma absolutamente esclarecida e sem os habituais tiques da esquerda que se recusa a reconhecer a sua desilusão, como da direita que continua a viver uma ilusão... não falo do centro pois desse não se faz nem fará história, são os que mandam e pronto! O centro não exige nem militância nem sacrifício... é como a água morna.

      Os jovens têm de ser rebeldes, de se rebelar e de ser do contra, seja qual for. Faz parte de ser ou ter sido jovem... não acha?

      O que eu sinto é que é pena não haver (pelo menos que eu saiba...) romances dessa época
      gloriosa, e digo gloriosa em homenagem a essa juventude, generosa, que viveu as ilusões. Romances que contem o que se vivia, pensava, e fazia, não apenas para dizer que o regime era mau, os pides brutos, etc. É que isso já nós sabemos e normalmente é o que todos dizem!
      Romanceia-se acerca dos tais ícones, dos tais mártires fabricados. E dos outros? Dos que eram a maioria, que trabalhavam e viviam na sombra e no anonimato, que cresceram e nunca subiram ao palco, que hoje são pessoas comuns? Pois a esses é que era interessante ler, saber o que passaram. Os que se chamam Saramago, Lobo qualquer coisa... esses já se sabe!

      Um grande abraço aí para Amarante!

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    2. Caro Pacheco

      Grato pelo seu incentivo, permita-me duas ou três observações:

      – “Ser rebelde (…) faz parte de (…) ter sido jovem”.
      Cá para mim, faz parte, simplesmente – naturalmente (prefiro assim).

      Creio que as pessoas como aquele seu amigo que, em jovem, foi da extrema-esquerda e, mais tarde, mudou para a extrema-direita, abusam do conceito de rebeldia, porque o interpretam de maneira apenas literal.

      Também conheço pessoas nesse drama, e já percebi que o raciocínio delas é o seguinte: – “Rebelde em jovem, rebelde para toda a vida! Quando o que está a dar é a esquerda, vou para a direita. Está a dar a direita? Pois vou ainda mais para a direita, que na esquerda já me lixei que chega”.

      O penoso desta postura é que ela é meramente formal, auto-desculpabilizante, é redutora, não é redentora, apenas vai adiando, sem a resolver, a questão pessoal de fundo, adiando, adiando, complicando, complicando, até ao desespero final.

      – “Romances (…) não apenas para dizer que o regime era mau (…)”
      Entendo o que quer dizer, mas sinto necessidade de esclarecer que, se escrevesse um romance que não se destinasse apenas a repisar que o regime antigo era mau, teria talvez o cuidado de tornar claro, ou pelo menos deixar claramente implícito, que, na minha opinião, o regime actual não é, afinal, muito melhor.

      E avaliar o actual é o que, verdadeiramente, interessa para o futuro, não?

      Isto, evidentemente, seria trabalhado de maneira cuidada, sem entrar por aquela via da rebeldia meramente literal, sistemática, contra o que está porque é o que está (… até porque isso, no negócio dos romances, é chão que não dá uvas,,,)

      Mas lá que o actual não é, afinal, melhor… isso é motivo de muita da minha preocupação – sinto como que uma responsabilidade pessoal por, quando andei colectivamente empenhado em mudar o mundo, haver(mos) sido apenas imediatista(s), não ter(mos) sido clarividente(s) na preparação do que então era o futuro e agora é o, afinal penoso, presente.

      Isto pode parecer um lugar-comum cultural, geracional, de um velhote a falar dos desvios da geração seguinte – mas, cá para mim, desta vez o caso é sério.
      O que nos vai valer é que, desta vez, as mulheres estão a substituir-nos a todos os níveis nos lugares do saber, nos comandos do mundo e da civilização (a Merkel, porém, que se ponha a pau!), e, entretanto, nós viveremos até mais tarde, cá estaremos para assistir à – e colaborar na – profunda mudança civilizacional.

      – “(…) Saramago, Lobo qualquer coisa(…)”
      Desculpe lá, mas isso talvez não seja bem assim – dá-me a impressão que está aí um bocadito de impensada rebeldia a mais, não?

      Tanto quanto conheço – e ainda que talvez superficialmente, que não é fácil conhecer a fundo as vastas obras em causa – as literaturas deles são essencialmente intemporais, não me parece que sejam assim tão datadas, tão referenciadas a esses martírios do anterior regime, etc.

      Se me permite, recomendo que (re)leia, por exemplo: “Todos os nomes”, de Saramago. À primeira vista até pode parecer uma coisa sobre o fascismo, a Pide, etc. Mas depois, vai-se a ver, e é sobre algo muito mais vasto, que é a civilização que construímos mas não dominamos.
      E aquelas personagens paranóicas de Lobo Antunes não são, também elas, figurantes desta civilização kafkiana que a nossa rebeldia não soube evitar?

      Para terminar, que já são horas, brindo-lhe a minha última gota de whisky, que eu não sou cá de gins tonics!

      E brindo também a quem – antes que Maria do Rosário, brindada que também fica, passe a outra questão – ainda vai prestar alguma atenção a este mini-debate sobre o futuro:

      – À nossa!

      Vosso,
      Joaquim

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    3. Gostei do seu testemunho, caríssimo Joaquim Jordão. Conheço a realidade relatada, até poderia exemplificar com bastantes casos parecidos com o seu. Fez-me lembrar o primeiro livro proibido que li, no tempo da Guerra Colonial, em Luanda: Os Esteiros de Soeiro Pereira Gomes. Tive então o privilégio de ter tido amigos verdadeiros que arriscavam a vida - eram do MPLA, da Legião (infiltrados lá, porventura, caso único) e da Igreja Luterana que me ensinaram, esclareceram e me ajudaram muito, até me levaram ao Hospital Militar de São Paulo onde estavam os estropiados da Guerra - até ao fim da minha vida essas imagem estarão presentes, aquilo era um horror de violência e de injustiça, revoltante.

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    4. Meu Caro, é pena alguma limitação aqui, pois vai interessante o tema e teríamos conversa séria e brava, para muito tempo!
      E certamente que para uns bons goles de aguardente velha ou de scotch ... eheheh !

      Concordo na generalidade com aquilo que diz!
      E por isso gostava de saber mais da sua experiência porque me parece que pensou nela
      e é uma pessoa esclarecida, não formatada!
      Aquilo em que não concordo, seria para lhe dizer pessoalmente, mas não é tanto consigo, e tem a ver com Saramago/Lobo Antunes...mas são opiniões que guardo para mim ou para dar em privado a uma ou outra pessoa.
      Isto repito, há quem goste de Bach ou Wagner, eu não... prefiro Joaquin Roderigo ... ou Vivaldi
      Repare que quando se escreve sobre o "logo antes", sobre o "durante" ou o "logo depois" do 25/4 é sempre a mesma coisa, e já sabemos o que vai ser, dependendo da sensibilidade política e social de quem escreve. O que nem sempre retrata fielmente as coisas. E, NUNCA se admite o que você referiu: a desilusão, o sentir que o caminho não era aquele, nem o da repressão, nem o de impôr idéias (de esquerda ou de direita).
      Porque o que sempre faltou, falta e faltará é que as pessoas que pensam, que mandam, que de alguma forma veiculem idéias , deixem de dividir o Mundo em esquerda-direita , o que é redutor e acima de tudo impede de compreender a maior maravilha do ser humano: a diversidade do seu pensamento! Que para ser apreciada não pode ser adstrita a facções políticas ou sociais. Porque a única diferença entre os humanos é a forma como eles se adaptaram à sua forma de vida.
      Isso não tem sido entendido, e está à vista nas
      guerras e opressão que são o resultado... ou nas políticas que hoje se seguem na Europa e no nosso país.
      Você fala da sua desilusão à esquerda... que ninguém admite, e daí eu achar patético e até quase criminoso Saramago persistir em dizer que Cuba é uma democracia, ignorando ostensivamente os presos por delito de opinião que morrem nas cadeias.
      Já Henrique Galvão (com que me identifico) admitiu a sua desilusão à direita. Mas este não renegou nunca os seus valores humanistas que aliás conduziram a essa desilusão, se bem que seguisse a odiar os comunistas!

      Por isso o meu interesse quer neste tema quer na nossa conversa, e certamente que com outros dos nossos Extraordinários frequentadores deste blog.

      Um abraço e perdoe alguma tolice!

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    5. De facto, é pena que o espaço e o tempo que nos são concedidos por Maria do Rosário não possam ser tão vastos quanto a sua gentileza.

      Porém, a minha dificuldade para fazer aqui um testemunho maturado como deve ser, não é devido à escassez de espaço e tempo – é por não ter comigo, ainda, a serenidade.

      Ainda assim, sinto que, motivado pela possibilidade que tive de intervir neste mini-debate , estou a trazer para o nível do consciente muitas coisas (dúvidas? angústias?) que andavam no meu subconsciente.

      Sinto até como um dever fazer esta reflexão em conjunto com as pessoas da minha geração que também lutaram, porque acho que não fizemos tudo o que podíamos e devíamos ter feito. Em 1974 / 75 fomos muito imediatistas, não tivemos o rasgo e a capacidade de antever as deturpações e perversões que sobrevieram com a democracia.

      E, no entanto, essa antevisão era, historicamente, possível de formular.
      Haja em vista o que, tão pouco tempo antes, tinha acontecido na Europa democrática e que, não obstante a democracia, desembocou nas revoltas generalizadas de Maio de 68.
      E algo idêntico tinha acontecido entre nós próprios, apenas um século antes, nas sequelas do liberalismo, tão bem descritas por Carlos Malheiro Dias em "Os Teles de Albergaria".

      Fomos toda uma geração que não soube preparar a seguinte – e hoje o que temos é toda uma classe de políticos e gestores que pratica entre si, desenfreada e desreguladamente , a manipulação do poder político subjugado ao poder ganancioso dos “mercados”. (E isto agora já à escala global).

      Mais grave: parte desses actuais políticos e gestores andaram connosco nas lutas, alguns eram dirigentes dos nossos pequenos partidos, davam ordens, tomavam decisões sobre os militantes de base.

      E – mais grave ainda! – agora, cada um de nós, cidadãos inescapavelmente nas mãos dos bancos, está transformado num agente / cúmplice / vítima daquela manipulação política ao serviço dos “mercados”.

      Congratulo-me, pois, que estejamos a chegar, finalmente, a uma crise global, que vai mexer nos alicerces do actual modelo civilizacional, e que está já a suscitar que, por instinto, se redescubra e valorize de novo a ética, está já a mexer com as estruturas culturais das nossas consciências, colectivas e individuais.

      A ver se é desta que resulta uma nova ética, novos comportamentos, um novo paradigma da civilização – "civilização" no sentido da melhor convivência de nós todos, os humanos, uns com os outros no, e com o, planeta que habitamos.


      Meu caro, parece-me que me repeti um pouco, disse uns quantos lugares-comuns, e tal, não?

      Deve ser deste whisky baratucho a que a austeridade me habituou.

      Mas ok, acho que, não obstante as limitações, fizemos aqui umas boas horas extraordinárias.

      A bebida que aqui tenho não terá a dignidade adequada para brindarmos à nossa amável hospedeira. Mas ela compreenderá: a intenção é o que conta.

      Brindemos, pois. Até à próxima!

      Joaquim Jordão

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    6. "Congratulo-me, pois, que estejamos a chegar, finalmente, a uma crise global, que vai mexer nos alicerces do actual modelo civilizacional, e que está já a suscitar que, por instinto, se redescubra e valorize de novo a ética, está já a mexer com as estruturas culturais das nossas consciências, colectivas e individuais."

      Somos dois, e bebo a isso e à nossa hospedeira
      pois claro!

      Um abraço

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  7. Gostava de pedir que, caso seja do interesse deste blogue, divulgasse o Clube de Leitura Jane Austen promovido pela Bertrand Livreiros em parceria com o Jane Austen Portugal. Mais informações aqui: http://janeaustenpt.blogs.sapo.pt/282046.html e http://clubedeleiturabertrand.blogspot.com/p/clube-de-leitura-jane-austen.html

    Muito obrigada,

    Clara F.

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