Mais uma. Menos uma.
O primeiro embate veio com a notícia de que a Livraria 107, nas Caldas da Rainha, ia fechar portas. Para quem está no mundo da edição há muitos anos e teve a alegria de conhecer livreiros a sério, gente que lê e sabe o que vende, foi um choque perceber que, afinal, se safa melhor no mercado dos livros quem os vende como bolos, detergentes ou T-shirts e só vê capas, brindes e campanhas onde outros, pelos vistos menos afortunados, vêem autores e textos. A Isabel Castanheira, com os seus gatos Gil Vicente e Florbela Espanca passeando entre as estantes da 107, merecia ter conseguido. E, a partir da notícia de que não conseguiu, começaram a chegar outras do mesmo tipo – incluindo as que mencionavam as grandes dificuldades por que passam as Bulhosa – até que, recentemente, os jornais trouxeram a má nova de que a Livraria Portugal, no Chiado, também não resistira. Para mim, um osso duro de roer, já que, quando comecei na Gradiva há mais de vinte anos, as encomendas desta livraria eram feitas telefonicamente por funcionários criteriosos e especializados em ficção, ensaio, literatura infanto-juvenil e obras de referência, que iam passando o auscultador uns aos outros, não se metendo em áreas que não dominavam. Quando mais uma livraria fecha, é menos uma livraria que temos; e não só isto é terrível para o negócio, mas também especialmente grave para a literatura, que vai sendo afogada em pilhas de papel que, mesmo que saia das lojas num determinado período a um ritmo alucinante, não passa de papel que bem podia servir para limpar... E mais não digo.
Eu dantes era da opinião de que mais valia ir a um estabelecimento que para além de livros vendesse toda uma parafernália de entretenimento. Quando comecei a fazer parte do mundo dos livros, deparei-me com a falta de conhecimento que a tia Rosário mencionou. Na altura em que tentei introduzir o livro na Fnac (o que mais tarde consegui sem ter qualquer mérito nisso) foi-me dito, com grande consternação, pela minha editora que a capa do meu livro não agradava à senhora responsável pela compra de literatura. A dita senhora, adepta de capas muito clean e cores neutras olharia, com toda a certeza, com desdém para o oceano cor de rosa que é a minha capa. Aprofundei o assunto e deparei-me com sessões em que os livros eram todos exposto numa mesa, como se de gado se tratasse e seleccionados com base na grossura, título e capa. Desejo assim muitas felicidades aos livreiros à séria, conhecedores e amantes da boa literatura.
ResponderEliminarTambém eu fui mudando de opinião ao longo do tempo. Quando era mais nova, costumava sonhar com um mundo em que todos se deixassem maravilhar pelos livros tanto quanto eu, gostassem de trocar opiniões sobre eles, gostassem de os dar e receber. Afinal, uma parte gigantesca do que sou foi formada pelos livros.
ResponderEliminarNão previa a queda brusca de qualidade das obras que poderia ocorrer nessa minha utopia mas, mesmo que a previsse, sempre haveria de retorquir que é melhor ler alguma coisa, do que não ler coisa alguma.
Mas hoje, quando entro no metro e toda a gente tem a cabeça encafuada em livros manhosos de auto-ajuda ou na mais recente colecção de soundbytes do "tudólogo" do programa televisivo das 15 ; quando entro numa livraria para comprar uma prenda para um amigo e encontrar um livro digno desse nome se assemelha a um trabalho de espeleologia; quando vejo livros serem vendidos em saquinhos de tule... pergunto-me se a literatura não estaria muito melhor como o campo elitista que era e que, inerentemente, ainda é (pois que nem tudo o que sai em letra impressa é literatura).
Se me perguntassem há quinze anos, diria que por esta altura gastaria uma parte muito signifciativa do meu salário em livros. E gasto, mas a maioria vêm da Amazon, onde posso procurar directamente o que quero e não ter de me sentir constrangida com tules e chiffons.
Sinto pena, sinto muita pena que um dia um filho meu não possa entrar numa livraria, como eu entrava há quinze anos, e saber que qualquer coisa que lhe venha às mãos o transformará num homem ou numa mulher melhor; que lhe acrescentará algo.
As livrarias para mim são um Mundo! Já contei que ir a Lx dar uma volta pelas livrarias já foi um programa, aliás partilhado com as minha duas mulheres (uma em cada vez!). E quando ia "lá fora", a países cuja língua falasse, sempre guardei tempo para visitar as livrarias em vez de lojas, e em vez de comprar sansonites e ray ban ,
ResponderEliminarcomprava não romances mas sobretudo os grandes livros dos temas que me interessam e cá eram muitíssimo caros ou difíceis de achar.
Vou a uma livraria como a um templo, com respeito e sentindo a carga mística das energias reunidas que ali vibram. Passeio pelas alas no silêncio e quietude exigida pelo acto de comprar um livro e todo o cerimonial de ver, folhear.
Isto para quem gosta físicamente de livros e não apenas de os ler. É um culto sim... como o dos relógios, jóias e sapatos e faz parte da nossa condição humana.
É pelo muito ruído e excesso de movimento que passo como cão por vinha vindimada pela secção de livros dos hipermercados... espantam-me!
É por isso que não me sinto bem na FNAC, o ambiente é melhor, mas para mim que fui merchandising manager de um grupo de distribuição, olho para os livros como um linear de Para Livre Serviço...
Tenho pena que a Bertrand de Santarém seja gerida como uma mercearia rasca, ou loja de chineses... heteróclita, desorganizada e sem qualquer lógica, aliás nem critério palpável nem na arrumação nem na escolha dos temas... ignorando por completo a cultura da cidade.
Não conheci a livraria de que falou. Mas tenho pena que feche, sobretudo porque pelo que percebi seria assim como uma capela!
Temos de perceber o tempo em que vivemos, e pagar por isso, pois há uma factura de viver e hoje as pessoas são pelos direitos dos animais, só frequentam os grandes espaços comerciais onde encontram tudo, já não são elas a educar e a decidir sobre os filhos, compram o que lhes ponham à frente e sobretudo que sugira dar estatuto, deixam morrer abandonados os velhos, fechar livrarias e lêem livros de auto-ajuda sem perceber que estão apenas a ajudar quem os escreveu!
Tudo porque perseguem uma modernidade imaginada que confundem com qualidade e segurança, pela qual trocam a sua identidade e a sua (e a dos outros) liberdade.
O que aqui falamos, são apenas existências inacabadas... e a parte boa é que podemos fazê-lo (existir), reunindo-nos e trocando sentir e idéias , o que me diz que eles não morrerão portanto. Esperemos por melhores dias, aliás é o que nos dá ânimo para continuar.
Um bom dia para todos!
Com a Guerra do Golfo inaugurou-se uma apatia pela morte em directo na televisão: é mais um menos um, algures num deserto lá longe, não paramos um segundo para nos perguntar quem seria, se teria família, nada. A morte, de militares, civis, homens, mulheres e crianças passou a fazer parte da emenda do jantar com a mesma familiaridade das carcaças dispostas num cesto ou espalhadas pela mesa. Hoje é normal, banalíssimo, entrar-nos um funeral colectivo pela casa adentro; damos-lhe alguma atenção, quanto muito, mas o interesse é zero, pela vulgarização.
ResponderEliminarCom o fecho das livrarias o fenómeno é o mesmo: o que é que isso interessa? Já não é a primeira… e se fosse a falecida Byblos - ai tão grande, tão gira - ainda havia alguém no funeral, mas uma livraria nas Caldas? Em Moura ou em Freixo de Espada à Cinta?
Da mesma forma que ficamos imunes à morte, que a aceitamos, quiçá, em extremo até não nos repugna praticá-la por nos ser tão familiar, e não nos apercebemos das consequências que daí advêm, também com as livrarias nos havemos de arrepender: quando quisermos água e não existirem poços…
Não há uma reflexão sobre esta temática. Preocupa-nos, e legitimamente, que as aldeias por esse país fora estejam vazias, secas, que a morte sobre elas se abata e as elimine do mapa; as livrarias são mundos inteiros seja numa aldeia ou numa cidade: mundos pelo conteúdo, mundos pela economia que fazem mexer, mundos pela influência que transportam, invisível aos olhos que olham mas não vêm, mas sólidas realidades no futuro de muitas pessoas. Fecha mais uma livraria, morre mais da alma humana, o que só contribui para nos transformar em bonecos.
Minha Cara Areia, concordo inteiramente consigo!
EliminarSobre a morte em directo, recordo a abertura do filme "Bananas" de Woody Allen então ainda estreante, que era justamente uma reportagem com o assassinato em directo de um presidente de república centro o Sul-americana.
Penso que nem ele mesmo previu que estava a satirizar algo que seria práticamente uma realidade a que ele poderia assistir!
Sinceramente o primeiro embate fora os pergaminhos, Alexandria. Desculpa.
ResponderEliminartalvez as pessoas prefiram comprar livros nos mesmos sítios onde compram cebolas e detergentes.
ResponderEliminarsinto que o livro banalizou-se. as feiras em qualquer lugar, à saída do metro ou do comboio também deram uma ajudinha.
será um objecto de culto, apenas para os seus "amantes e leitores" compulsivos.
Estimado LuisEme, sente que o livro se banalizou? Onde, onde?
Eliminarbanalizou-se porque se vendem em qualquer lugar, e também pelo número de pessoas que escrevem livros.
Eliminarqualquer dia há mais escritores que leitores. :)
Eu já tive uma livraria, já estive triste e já chorei.
ResponderEliminarhttp://livrariapraca.blogspot.com/
http://arquivodalivrariadapraca.blogspot.com/
fernando b. figueiredo
A Livraria Portugal é uma referência da Baixa. Sem a Portugal e a Lello , nem dá vontade de ir à Nova do Almada. Tive um professor de Arqueologia que se fartava de gabar a LP: ali encontrava o que pretendia, se não houvesse disponível de imediato, era só pedir, que os funcionários sabedores, informados e competentes, logo faziam a respectiva encomenda. Não sei o que diga, assim...
ResponderEliminarSaberias tu do garimpo
ResponderEliminardo lastro e da fantasia
porém caiba ao ímpio
despedir-se á maresia
a tua terra é assim
trás no sal da mó
ser tão triste a tristeza
porque o mar é um só
tuas idéias são cicatrizes
silêncio é frágil natureza
que nas cores da máscara
desperta toda beleza
em santos livros matizes
a canção mencionara.
Mas que fazer, além de chorar e dizer que dantes é que era bom? Mandar embora a Fnac, queimar os supermercados, fazer reset ? Sinceramente não sei, mas sei que não podemos passar o resto da vida a lamentar-nos. Li ontem - no Atual , ou no Ipsilon - que o tipo da Antígona estava para fechar mas que afinal vai resistir e vender na internet.
ResponderEliminarMeu Caro Paulo Oliveira... repito que se ter recordações é bom, acrescento que ter saudades melhor, porque é sinal de que foram boas...
EliminarNão há nada de errado nisso, julgo eu. Diria
que é humano e até muito nosso, que no entanto estamos sempre a recomeçar...
Agora, e penso que é no que concordamos, não podemos ficar a carpir agarrados a elas... é um facto que há sempre outras e novas coisas e até formas de reviver e voltar, para melhor, ao que houve e foi passado.
E temos de perceber, repito, que há uma factura que se paga por viver... ninguém lhe escapa!
Continuo a não frequentar a livraria nos hipers
e a sentir a FNAC como uma charcutaria que expõe livros da forma que o faria aos blisters de presunto ainda que de Parma ou Barrancos! Mas isso não faz de mim um ser inadaptado que agarre numa arma e vá por aí aos tiros a todos que usem um piercing ou fones , descanse!
Felizmente que ainda existem estes lugares extraordinários, onde em jeito de tertúlia podemos chorar nos ombros uns dos outros e lamuriar essas pequeninas grandes cedências que somos obrigados a fazer á tal modernidade e desenvolvimento... que por enquanto ainda nos é permitido! Temo que um dia seja proibido em nome da modernidade ter saudades ou sequer lembranças...
Um abraço
Já agora e pegando na pergunta do nosso Companheiro Extraordinário, e comparando a aparente extinção das livrarias ao que se passou no ramo alimentar, recordo que desaparecidas as charcutarias e mercearias finas pela lei da competição, inexorável, das grandes superfícies, reviveram depois as lojas gourmet ... e hoje já
Eliminarse encontram de novo estabelecimentos especializados e dedicados às delicatessen ou especialidades, regionais, doceiras e vinhos!
Será de esperar que como aquelas duas amigas que abriram uma loja de livros de viagens, ressurjam numa versão sustentada e rentável as nossas queridas livrarias! Isto porque com toda a sinceridade, ir à Bertrand de Santarém é no mais das vezes uma desilusão total, seja pelo desinteresse, desinformação ou ignorância do atendimento seja pela arrumação da loja... e
afinal é uma livraria com pergaminhos!
Talvez seja esse o caminho: A especialização, o atendimento, a dimensão, eventualmente a segmentação, o apoio e acolhimento... uma escolha mais criteriosa do que se expõe, há que ser profissional! Reparem se o Rodrigues dos Santos vende como sardinhas no Santo António, merece que se lhe dê destaque? Já se sabe que ele tem de estar presente, e quem o compre não é por impulso, vai lá com esse objectivo, ora se for posto ao canto mais afastado, pode então colocar-se no caminho tomado pelo cliente, aos restantes, que despertem sim o impulso ou a curiosidade e potenciem as vendas!
E a animação? Umas tardes de leitura com cafézinho ou iced tea , dependendo do tempo, com alguma figura local ou outra que traga alguma coisa e promova quer o estabelecimento quer a venda?
Não me parece difícil de perceber ou fazer...
Perdoem-me "falar" tanto, mas já não é só de literatura nem edição que se fala...
É isso, serão as livrarias gourmet e, por mim, nem me importo que lá tenham também bom tinto e uma tábua de queijos sortidos, ou o que seja, desde que de qualidade. Até lá, vamos ter que ir aguentando.
EliminarRealmente...
ResponderEliminarNem tudo, mas grande parte do que se publica em Portugal e se vende como caramelos em Badajoz, é lixo e papel que servia para limpar algumas partes íntimas...
É uma pena as livrarias de esquina não conseguirem resistir. Muitas terão que ceder...
Pela minha parte eu continuo a ir às livrarias, como já aqui disse há dias. Com tules e tudo, nada me demove de lá ir. Encomendar pelas Amazones é que nunca! Só mesmo em desespero de causa! A livrarias até podem encerrar todas mas não há de ser com a minha contribuição.
ResponderEliminarE para ser sincera não me chateia nada que lá andem livros embrulhados em tule ou em serapilheira . Desde que também tenham os que eu gosto, claro! E quando não encontro, encomendo. Mas sempre ao balcão! Que nisso como em muitas outras matérias, mais vale agir que lamentar.
Há poucos dias fui com um amigo a um supermarché de uma destas cadeias mais banais (passe a publicidade), com a intenção de, à última hora depois de uma viagem de centenas de quilómetros (talvez melhor: no último quilómetro de uma viagem de várias horas), comprarmos umas decentes garrafas de vinho para não chegarmos de mãos a abanar ao jantar que se seguiria em casa de um terceiro amigo.
ResponderEliminarO dito marché apresenta (pelo menos nesta loja desta pequena cidade) uma secção de vinhos que, digo-vos uma coisa, ao entrar não contive a exclamação: “- Que biblioteca!!”
De facto, nas estantes não faltavam edições de qualidade, algumas raras.
Nos tempos que correm, numa modesta e pequena cidade de província, como esta onde jantámos, como esta outra onde vivo, como tantas outras que conheço, o supermercado é o único espaço social, aquele onde as pessoas se encontram e reencontram, informam-se das saúdes, fazem piadas sobre o volume das respectivas barrigas, trocam nºs de telefone e endereços de e-mail, combinam festas de aniversário dos filhos e netos, referem e recomendam os livros que leram ultimamente...
Regra geral, estas conversas têm lugar ali nos primeiros metros, logo à entrada, onde os supermercados têm, cada vez mais frequentemente, uma secção de livros, onde este pessoal se demora a folhear, a ver se por ali encontra alguma coisa de jeito, ou, vá lá, assim como quem não quer a coisa, e depois de um olhar em redor a ver se não está ninguém de respeito por perto, a meter no carrinho, com a capa para baixo, o menos mau que lhe parece.
No curto quilómetro até ao jantar, trocámos rápidas impressões sobre este fenómeno da socialização nas pequenas cidades e vilas, que não tem lugar em inexistentes livrarias nem nos cine-teatros , casas das artes, bibliotecas, pavilhões multi-usos e outros dispendiosos locais de banalidades às moscas, mas sim nos supermercados, onde é forçoso todos irmos.
E não foi vã aquela minha quase metafórica exclamação, pois que, durante o jantar, postas a circular as magníficas edições que compráramos, resolvemos este tormentoso problema da distribuição e venda dos livros.
Brindámos: - Está-se mesmo a ver que a democratização da leitura só pode, a sério, ser feita ali.
Tal como se faz com os bons vinhos (novo brinde), e com outros produtos de qualidade, não vemos por que diabo é que, no tempo e circunstâncias que vivemos, as editoras e as distribuidoras não aliciam os gerentes dos supermercados de província para desenvolverem, diversificarem e qualificarem a venda de livros.
Mais um brinde: - Qual é o problema?! Então a leitura não é uma coisa tão sagrada como a degustação de um bom vinho que já conquistou o direito a estar ali, numa estante?
São horas. Um último brinde: - À vossa!
Joaquim Jordão, Amarante
fenómeno de socialização o pequeno milagre.
Eliminarsenhores ser livro, ser livre!
um brinde a vossa inteligencia.
Faz o meu amigo uma interessante e realista análise do fenómeno, nas pequenas cidades...
EliminarE tem razão na sua proposta de acção!
È no entanto necessário que se verifique:
- O responsável da loja tenha essa sensibilidade
Porque só assim poderá ver a oportunidade e a saberá explorar...
- Uma distribuidora que seja igualmente capaz de aproveitar a oportunidade e o saiba fazer, não enchendo a loja de monos, mas fazendo uma gestão criteriosa do linear de modo a rodar e a ir alternando os títulos/capaz.
No fundo vai dar ao que eu referi como sendo muito preciso: profissionalismo.
os grossos volumes empilhados a eito à luz branca, é o que nos resta, livros para abate, há livros a mais, já não há lugar!
ResponderEliminarGostaria apenas de aqui deixar um abraço para o António Machado a quem não vejo há mais de 27 anos.
ResponderEliminarÀ memória dos tempos em que os livros se misturavam com o xadrez.