Vir e ficar
Um dia destes, estive a ler um livro de poesia que começa logo por ter um belo título: Vim Porque Me Pagavam. A sua autora, Golgona Anghel, é uma romena que veio para Portugal ainda jovem (julgo que o pai era diplomata) e aqui viveu anos importantes da sua vida e formação. Escreve em português e, segundo sei, nada tem já que ver com o seu país natal, não conseguindo sequer imaginar-se a fazer poesia na sua língua. Dá aulas, salvo erro, na Universidade Nova de Lisboa. Se lhe pagámos ou não para vir para Portugal, nem interessa muito, porque o que interessa realmente é que estamos felizes por nos ter adoptado (ou a termos adoptado): a sua escrita é belíssima, irónica, crua, culta e intempestiva. Cheia de referências literárias e, ao mesmo tempo, de linguagem coloquial e agradavelmente festiva, um excelente livro de estreia de alguém que veio seguramente para ficar.
Tia, eu trabalho exclusivamente com Romenos e as características que atribuiu à escrita dessa senhora, suspeito que sejam os atributos de todo um povo! Eles, apesar de os odiarem de morte, têm uma costela Russa! São muito inteligentes, orgulhosos no seu conhecimento, intempestivos e brutos como as casas! Distinguem-se dos Russos pela afectividade extrema que em determinadas ocasiões se permitem exteriorizar, o que talvez germine da costela latina!
ResponderEliminarJá agora, como estou a tomar coragem para ir à loja do cidadão, o que para mim é um suplício ígneo da mais ignominiosa espécie, conto um estranho costume dos Romenos! Eles iniciam o ano com um determinado objectivo familiar. No caso dos meus Romenos, e digo isto de forma carinhosa uma vez que não os comprei, os objectivos são de índole diversa. No primeiro ano era a compra de uma televisão monstruosa, no segundo a reparação de um telhado vitimado por granizo não menos monstruoso, no terceiro a entrada para uma casa em Timisoara e por aí a fora! Os cheques de ordenado dos meus seis funcionários (três casais) são todos depositados numa mesma conta até ao desejo se encontrar cumprido! Não imagino os Portugueses a agirem de forma tão bem coordenada! Buna dimineata amigos bloggers, que me vou enfiar na mais sulfurosa das fornalhas!
ResponderEliminarEu também vim para ficar mas jamais conseguiria chegar à escrita poética. É supra-admiração o que sinto por quem o faz numa língua não-nativa.
ResponderEliminarAcho que "Blonde with a PhD" foi o melhor nick que já vi aqui no blog. Kudos to you blonde for your PhD!
EliminarSublime. O post e o espaço.
ResponderEliminarObrigado.
Cumps.
Um aperitivo do que se lê de Golgona Anghel:
ResponderEliminar"Quis dizer-lhes que o dinheiro, a idade não contam,
que amanhã é outro dia,
mas depois lembrei-me dos terramotos,
da crise nuclear, do IVA,
e fiquei calada."
Isso podia estar escrito a spray preto na parede de um edifício público, não é propriamente fine arts...
Eliminarpermita-me uma correção. Não é o seu primeiro livro.
ResponderEliminarAh, mas estas suas palavras são maravilhosas :D