Ventos do Norte
Conheço mal a literatura nórdica – confesso que nem a trilogia Millenium li, não só por falta de tempo, mas porque, como não sou grande apreciadora de policiais e thrillers, mesmo quando me dizem que são excelentes, acabo por preferir uma ficção mais literária. Em todo o caso, penso que Portugal está mal fornecido de literatura nórdica, provavelmente pela dificuldade em arranjar tradutores, mas recentemente apareceram alguns livros interessantes. Um deles é, seguramente, a colectânea de contos do norueguês Kjell Askildsen – mestre da narrativa breve, segundo anuncia a badana – intitulada Uma Vasta e Deserta Paisagem. Enquanto a lia, não pude deixar de pensar naquele misto de contenção e contundência que perpassa os diálogos de Bergman e, mesmo que a Noruega e a Suécia sejam países muito diferentes, a verdade é que reconheci nestes contos uma espécie de alma do Norte – simultaneamente seca e desarmante – que conhecia dos filmes do realizador sueco. Este é um livro de histórias de gente só, de relações condenadas ao fracasso, de pequenas tragédias pessoais contadas com humor negro q.b. e uma simplicidade e subtileza invejáveis. O livro recebeu o Prémio da Crítica na Noruega.
Bom dia,
ResponderEliminarsou um habitué (não sei se a palavra está bem escrita) deste blogue e por coincidência acabo de ler este livro, pequeno e fascinante de Kjell Askildsen, e no presente leio vagarosamente o seu outro livro de contos (de 87), livro com mais páginas, também editado pela Ahab Edições.
O que me atraiu ao autor, foi ser considerado uma espécie de Raymond Carver nórdico. Foi o suficiente para me atrair a este escritor e de rompante me atirei aos seus únicos dois livros editados em português.
Passou a ser desde já um autor da minha preferência por tudo o que MRP já citou e por aquela melancolia dos dias que bem retrata, em certos aspectos não muito diferente da nossa, mas noutros aspectos algo de muito nórdico, sendo que a melancolia não é descrita e vivida como tal, mas como um registo de normalidade. É assim que é, sempre foi e amanhã não será muito diferente.
A solidão tão bem retratada, os muros invisíveis entre cada ser humano, etc.
Livro ou livros que também recomendo.
Nunca percebi porque os contos não têm mais venda do que os romances, um conto destes lê-se no metro, no comboio, na espera de qualquer actividade burocrática ou mesmo na fila do centro de emprego. Mais a norte, podem não andar a contar os tostões para comprar pão e arroz. Mas são tristes na mesma. E aceitam-no. Em que é que são diferentes de nós?
A norte envelhecem e estão sozinhos. Diferente em quê?
Aconselho também esta "nova" Literatura.
Um abraço,
Carlos Teixeira Luis.
A Norte são diferentes? Em quê? Bom, de mim são porque eu procuro outras coisas e uma delas é mesmo nem envelhecer nem entristecer sózinho, e fazê-lo ao Sol! Talvez porque gosto de mulheres morenas, vivaças e de sangue quente, de famílias numerosas, de conversa e de falar muito. Porque não sou um habitante do bosque de abetos, gelado e tapado de neve... e sim um homem do Bairro que gosta de largueza, do pó, e do vento suão que cheira a estevas, de Sol e de praia, de vinho tinto e de sardinhas assadas na rua, de toiros, de feiras, de perseguir perdizes pelos cabeços, de ir ao mar sempre que este deixa... ou seja sou mesmo diferente deles, pelo menos enquanto me deixarem e estas coisas não constituirem crime! Até porque me dirijo quase sempre para Sul e tenho a paixão de África.
EliminarNão duvido que haja quem entristeça por aí, pelas cidades, sózinho na multidão, diante das televisões ou mergulhado em livros, que almoça e janta sózinho e para se alimentar não pelo gozo de comer, que vá ver o mar no inverno e o fique a olhar revolto, sombrio e nostálgico... e nisso seja igual aos nórdicos, e que goste de os ler, de saborear a sua depressão e sentir os males do Mundo, que atrai como um pára-raios, é o mistério da neve? (de P. Hoeg ).
O que conheço da literatura nórdica é pouco... muito pouco e não sei porquê é quase tudo ou de uma inclinação que não tem a ver comigo, ou policial e político, que também não é bem o meu género preferido. Larsson tornou-se um sucesso e moda (pena que não tenha assistido )
Sinceramente eu gosto mais dos Contos da Montanha ou do poema da malta das naus que têm a ver comigo... No entanto e como sempre digo, ainda bem que existe essa diversidade e devemos conhecê-la.
Bom ano de 2012 para todos! Haja Sol!!!!
Os fios eléctricos
Eliminarestendidos por onde o frio reina
a Norte de toda a música.
O Sol branco
treina correndo solitário para
a montanha azul da morte.
Temos que viver
com a relva pequena
e o riso dos porões.
Agora o Sol deita-se
sombras levantam-se gigantescas
logo logo tudo é sombra.
Um poema do sueco Transtromer que fala dessa triste solidão das sombras?
Concordo. Gosto do colorido que há na Terra, principalmente os coloridos africanos, e essa branquitude que a neve traz (que nunca vi, a não ser no cinema) deve deixar qualquer um cacimbado (palavra derivada de cacimbo, nem sempre tão colorido, mas muito mais que a neve...). Sardinhas assadas? São boas mas ficam a perder para o colorido de um belo mezonguê, por exemplo ... talvez até no sabor ...
EliminarMas sim, vivam as diferenças e a diversidade. Melhor quanto elas se juntam e, harmoniosamente, podem conviver. Se a Tristeza mora no Norte, não tenha dúvida que a Alegria mora a Sul. É muito melhor quando esta última vive dentro de nós, estejamos nós onde estivermos.
Bom ano, cheio de coloridos e sabores ... e algumas leituras.
broa endurecida
Ah!ah!ah! Excelente réplica... mas o muzungué sabe-me bem é na ilha e as sardinhas em Cacilhas...
EliminarSaudações Cara Broa! Aliás indispensável para as sardinhas... eheheh!
Ora boa tarde meu caro António Luiz Pacheco, neste ano de 2012, no dia 16 de janeiro! Como vai??
EliminarSó para dizer-lhe, mais uma vez, o quanto gostei desta sua intervenção. E, para dizer-lhe ainda o seguinte: o meu caro NÃO pode viver neste desconhecimento da literatura nórdica. Tem de conhecer! Para não estar a falar deste mais modernos, contemporâneos até, os quais andaram nas bocas do mundo em 2011, vou referir-lhe alguns - poucos - inevitáveis e imprescindíveis:
1 - Pär Lagerkvist, sueco, prémio Nobel
2 . Sigrid Undset - dinamarquesa, prémio Nobel em 1928
3 - Selma Lagerlöf, sueca, a primeira mulher prémio Nobel
4 - Knut Hamsun - norueguês, prémio Nobel
5 - Sjön - islândia
6 - Haaldor Laxness - islândia, prémio Nobel
7 - Hans Christian Andersen. dnamarquês
8 - KAren Blixen - dinamarquesa
9 - Rosa Liksom - sueca
Etc, etc, etc. Estes foram os que me vieram à cabeça assim de repente.
Meu prezado amigo, acredite em mim! Peço-lhe que leia, por exemplo, Knut Hamsun. Em Portugal, dele, há pelo menos 3 traduções: Victória, Fome e Pan. 3 romances qual deles o melhor. leia, Sigrid Undset. leia Selma Lagerlof. É um pedido que lhe faço. Depois, troquemos impressões.
Desejo-lhe uma boa continuação de qualquer coisa! Olhe, do que gostar mais!
Bolo rei seco e esfarelado
Do mesmo escritor li " Um repentino pensamento libertador". Delicioso livro, também de contos , que me deu imenso prazer ler. Tanto, que já comprei este último, embora ainda não o tenha lido. A história é sempre a mesma: So many books, so litle time...
ResponderEliminarEu também não conheço muita coisa de literatura nórdica, assim de repente só me lembro de Soren Kierkegaard , autor de quem gosto muito (aconselho "o banquete" a quem não tenha lido). Aproveito também para desejar que todos tenham começado bem 2012.
ResponderEliminarBom dia António Luiz Pacheco,
ResponderEliminarum abraço
os nórdicos são as pessoas que moram a Norte, são diferentes de nós neste aspecto. Mas quanto a achar que são mais tristes que nós, não posso formular essa opinião. Mas como são humanos sabem e sentem também solidão, melancolia, e todo o sortido de sentimentos e emoções que se sentem em todo o globo.
Kjell que tenho lido - retrata esse tipo de homem e mulher - metido em si próprio, confuso, desolado, zangado, melancólico, irascível - cruzamo-nos com este tipo de gente todos os dias e os outros cruzam-se conosco também.
Em nenhum momento quis generalizar, nem dar a entender que acho que os nórdicos (milhões de pessoas) são todos assim. Kjell não retrata todos o norueguês, escreveu nestes dois livros traduzidos uma bela coleção de contos com gente como nós - gente.
Fiz apenas um comentário de leitor ao livro, personagens, autor e não uma análise socióloga do povo da Noruega ou da sociedade a Norte.
Acho bem que pense assim, amigo António Luiz Pacheco e aconselho a leitura do autor referido. Bem melhor do que a improvisação de fragmentos que é o Histórias do Deserto que lhe enviei há meses.
Um abraço,
Carlos Teixeira Luis.
Eu também não posso dizer que conheça bem mas gosto imenso daquilo que li. Há uma mistura de dureza, melancolia e, no caso do norueguês Lars Saabye Christensen, humor que acho deliciosa. Curiosamente, dos contemporâneos, têm sido publicados por cá essencialmente escritores noruegueses.
ResponderEliminarPasse o descaramento, permita-me algumas recomendações de coisas editadas por cá nos últimos anos de que gostei:
- Os dois livros já referidos do Askildsen, pela Ahab (secos, duríssimos, fundamentais);
- "Pudor e Dignidade", de Dag Solstad, pela Ahab; escrevi sobre ele aqui: http://escafandro.blogs.sapo.pt/131678.html
- Vários de Lars Saabye Christensen pela Cavalo de Ferro (aconselho "Meio-Irmão", "Beatles" ou o mais pequeno e delicioso "Herman");
- "Cavalos Roubados", de Per Peterson, pela Casa das Letras - foi prémio do Independent há cinco ou seis anos
É de referir que todos os autores acima são noruegueses.
Nos clássicos, a Cavalo de Ferro tem editado a sueca Selma Lagerlof, o norueguês Knut Hamsun e o islandês Halldor Laxness ("Gente Independente" é grandioso) e a Ulisseia lançou "Noite de Primavera", de Tarjei Vesaas.
Não sei se me estou a esquecer de algum que devesse mencionar mas enfim, já não é mau lembrar-me destes.
Ah, quanto ao Stieg Larsson, não me parece que valha a pena perder muito tempo:
http://escafandro.blogs.sapo.pt/110141.html
Ah, claro que houve esquecimentos. Enfim, pelo menos um. A Ahab lançou há um par de meses "A Visita do Médico Real", do sueco Per Olov Enquist, uma ficção histórica sobre os primeiros - e fracassados - passos do Iluminismo na Dinamarca. Muito bom.
ResponderEliminarJá que ninguém o referiu, aproveito para comentar que a editora que mais nórdicos publicou em 2011 foi a Eucleia (4).
ResponderEliminarDois clássicos:
"Garman & Worse", do norueguês Alexander Kielland
"Memórias de um Morto", do sueco Hjalmar Bergman
Dois contemporâneos:
"A Arte de Chorar em Coro", do dinamarquês Erling Jepsen
"Quanto mais depressa ando, mais pequena sou", da norueguesa Kjersti Annesdatter Skomsvold