Parar para ver

Embora este seja assumidamente um blogue sobre livros – ou, melhor ainda, sobre leituras –, as minhas horas extraordinárias também se fazem de outras coisas que não a literatura. E, numas miniférias como as que recentemente gozei, aproveitei, entre outras actividades, para ver e rever filmes (e tenho desde já de confessar que A Toupeira não me entusiasmou por aí além e achei o guião às vezes descosido) e ir a exposições. E do que gostei mesmo (e aconselho a todos, porque só vai ficar mais uns diazinhos) foi da exposição dedicada à Natureza-Morta na Europa que está na Fundação Calouste Gulbenkian. Constituindo a segunda parte de uma outra que se pôde ver em 2010, esta revela-nos pinturas dos séculos XIX e XX bastante diferentes dos modelos clássicos das frutas, jarras de flores e secretárias com livros, embora também as haja desse tipo. E estão lá todos os nossos pintores de eleição, de Van Gogh a Picasso, de Renoir a Eduardo Malta, de Gauguin a Amadeo. Não se pode perder, evidentemente, mas, se tiver um horário flexível, aproveite um dia semana ou um período de menor movimento. Caso contrário, terá de ficar à espera para entrar ou, o que é pior, de aguardar pacientemente que o visitante que chegou antes de si saia da frente do quadro para que o possa ver com tempo e sem se sentir acossado por quem chegou logo a seguir e está já a pressioná-lo para que se despache.

Comentários

  1. Horas extraordinárias... as horas que passamos a ver um quadro (de preferência sentada no chão diante dele)

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  2. António Luiz Pacheco4 de janeiro de 2012 às 09:37

    E os mestres citados, são os originais que lá estão? Só por curiosidade...
    Que se forem, então vale mesmo a pena...

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  3. Também aderi mais aos quadros que à Toupeira. Desta não percebi mesmo nada: uns tipos de ar dissimulado carregando pastas, meias conversas, trocas de olhares furtivos, frequentes mudanças de geografia. Havia um agente duplo lá na cúpula do MI5 ou similar e todos desconfiavam de todos. No fim, lá se deslindou mas não fiquei demasiadamente convencido com a solução. Gastei melhor o tempo na Gulbenkian.

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  4. No cinema como na literatura vai imperando uma espécie de refugio na ficção cientifica e no sensacionalismo - dizem que se trata de escape ao quotidiano social, uma espécie de cabeça enterrada na areia, só que trabalhar a realidade nas diferentes vertentes artísticas não é aborrecido, muito pelo contrário. Também em matéria de discursos expositivos é moda expor a custo zero e aí, como viverão os artistas contemporâneos?

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    1. António Luiz Pacheco5 de janeiro de 2012 às 04:06

      Meu Caro Luiz Urgais , gostaria de lhe pôr esta questão e reflexão minha, para que julgo estar bem você posicionado:

      - Parece-me que a sociedade actual, urbana e sofisticada, vive num afastamento da realidade e imersa numa outra que não sei como lhe chamar
      ... virtual? Ou imaginada como realidade?
      Serão disso sinais, quer um falso pacifismo quer algumas preocupações como o exagero na protecção às minorias (oprimindo umas para apoiar outras por moda ou simpatia), nos direitos dos animais, o culto da juventude e da imagem, da saúde, pura e simplesmente alijando como se não existissem ou fosse anti-social o que não se enquadre nesta espécie de atitude, como se ignorassem a vida e a tal realidade-real, que
      são as naturais tendências e a crueldade violenta quer da vida, quer do homem seja a da Natureza.
      Basta ver os noticiários para perceber que a violência persiste nas manifestações do ser humano... práticamente em todas!

      Vamos às artes - neste caso escrita e cinema:
      - São palco de imagens onde se espelham e até se cultiva uma crueza e uma violência física ou psicológica pesadas, sanguinárias e cruéis, pouco consentâneas com aquilo que se cultiva como sendo correcto aparentar. Ele são vampiros e lobisomens, monstros humanóides... sempre com desmembramentos e profusão de sangue, onde raças se destróem apenas pelo ódio; ele são os thrillers de grande intensidade crueza e violência; ele são conflitos de guerra policiais ou afins onde se cultiva ainda todo o horror... dos tiros e explosões bem encenadas, e parece que se não for assim, um filme como o Paris 24 horas, desilude e nem é sucesso de bilheteira pois não tem sexo explícito, nem sangue ou cenas chocantes... e há outros casos!
      Igualmente os livros, além dos temas fantásticos e vampirescos com grande detalhe, parece que os autores têm de ser destrutivos, depressivos e trazer ao público o exorcismo dos fantasmas, próprios ou colectivos, com alusões aos seus traumas pessoais e espelhando a ansiedade e a depressão geral...
      E veja-se os jogos dos garotos e jovens... com monstros e armas tremendas, com que cortam cabeças, arrancam braços e explodem seres, com a desculpa de que são "imaginários"...

      Será que afinal a sociedade que se diz e fica bem ser amiga das minorias e protectora dos animais, da Natureza e pacifista, não passa de uma sociedade de lobos em pele de cordeiro?

      Depois, e se me der troco porque não me ache absurdo ou mesmo estúpido (coisas de que corro o risco de ser por não me enquadrar nalguns estereotipos), falarei a propósito de um filme que vi ontem na TV Cabo (Mundo de idiotas).

      Um abraço de consideração e estima

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  5. Por muito que aprecie natureza morta, principalmente do Caravaggio (se está morta tem que estar quase podre!), aconselho a todos os amigos que também admirem natureza viva! Vão a Sintra Monserrat tem espécies inimagináveis ), ao Gerês, onde queiram e imaginem que aqueles "bichos", alguns deles, já lá estão desde que Jesus nasceu LoL )!

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    1. António Luiz Pacheco5 de janeiro de 2012 às 12:54

      Compreendo o que quer dizer, Confrade... mas há pinturas, sobretudo as dos Naturalistas, (para mim claro) que são de cortar a respiração!
      E tanto gosto de ver "Na Charneca de Belas" do Silva Porto, como "A venda dos bois" de António Saúde, que sinceramente não me distraem nem concorrem em nada com a vista do rio Douro em S. Salvador do Mundo ou lá da Tundavala ...

      Se tiver oportunidade vá ver o museu Malhoa... você que é homem do campo, e depois falamos!

      É de fato um privilégio exclusivo de ser humano e aquilo que nos distingue dos outros animais... o extasiarmo-nos com uma paisagem ou quadro!

      Saudações cá do Bairro!!!

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    2. Eu também adoro Silva Porto, costumo ir à Bienal de Antiquários na antiga FIL e uma vez ainda me sentei lá num banquinho a pensar se deveria vender a minha casa para comprar um quadro dele de cortar a respiração. Mas agora ando mais entretido com as sementes que mando vir dos Estados Unidos, estou a tentar recriar aquelas paisagens de Outono magnificas! Sequóias , tulipeiras da Virgínia , bétulas, carvalhos escarlate, pinheiros da Córsega , etc... Já está tudo pegado!

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