As mulheres doentes

Dizem que as mulheres são boas doentes: metem-se na cama e querem é que as deixem em paz. Percebem que a febre é uma coisa passageira. Não fazem ondas nem chateiam especialmente os maridos, filhos, pais, quem com elas viva, enfim. Exceptuando as hipocondríacas, bem entendido. Já dos homens se diz o contrário, embora eu tenha sorte com o Manel, que é, até ver, um óptimo doente, inclusive porque recupera quase sempre com uma rapidez estonteante (uma aspirina e fica como novo). Mas, na generalidade, um homem com gripe é uma dor de cabeça para a família inteira, e quem o diz é o nosso Lobo Antunes, que escreveu estes versos deliciosos e muito a propósito:


 


Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes, que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte, nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças,
Tigres sem listras, bodes sem tranças,
Choros de coruja, risos de grilo,
Ai Lurdes, Lurdes, fica comigo.
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes, nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão-de-ló,
Não te levantes, que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes, que vou morrer.

Comentários

  1. Hahaha que engraçado!

    A minha mãe chama-se Lurdes,
    assim procede o meu velho.
    Sai cá de casa oh Antunes!
    Torpe é meter o bedelho!

    (é mesmo verdade, a minha mãe é Maria de Lurdes e o meu pai é hipocondríaco que dói!)

    ResponderEliminar
  2. Mas é que não tenha a mínima dúvida! Chega a ser patético:)
    Então nos adultos jovens, é assustadora a diferença de comportamento face à doença ou até a simples técnicas minimamente invasivas como tirar sangue ou uma simples anestesia local.
    No entanto, estou convicta que, nas grandes doenças, quando há uma ameaça real à sobrevivência, o comportamento não se altera assim tanto. Perante a eminência da morte acho que somos todos muito parecidos.

    ResponderEliminar
  3. António Luiz Pacheco27 de janeiro de 2012 às 03:42

    Não comento! Não comento!

    São mitos, aleivosias e falsidades eivadas de um enorme exagero feminista!
    É uma afirmação de índole sexista e portanto aviltante da condição masculina!!!!
    Hão-de vir pedir-me para abrir o frasco das azeitonas, a lata do atum ou mudar a bilha do gás!!! Pois...

    Bom fim de semana!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cruzes, credo!!
      Não me diga que é preciso um homem para abrir uma lata de atum...:))

      Eliminar
    2. António Luiz Pacheco29 de janeiro de 2012 às 03:58

      De atum, de ervilhas... sem nós vocês passavam fome! Olá se passavam!

      Eliminar
    3. "Olhe que não, olhe que não..."

      Eliminar
  4. Obrigada pelo poema, adorei!

    Mas isso de dizer que "as mulheres são boas doentes" incomoda-me, embora isso se diga em tom de brincadeira. "Metem-se na cama e querem é que as deixem em paz (...) Não fazem ondas nem chateiam especialmente os maridos, filhos, pais, quem com elas viva, enfim" - pois, pois. Não sei se o maridinho e os filhinhos acham piada, quando, à hora do almoço, ou do jantar, encontram a mesa vazia, porque a mamã está de cama; ou quando a roupa não foi passada; ou quando a casa de banho não é limpa...

    ResponderEliminar
  5. Sou um marido não totalmente moderno, com o álibi de que tenho a casa cheia de mulheres, o que é verdade e tem sido uma alegria. Isto é, tenho-me relaxado com o tempo e confirmo: a mulher doente tende a continuar a comandar os assuntos caseiros, isto é, dói-lhe a cabeça e arde em febre mas tem de destinar almoço e jantar e ainda validar se o sal é de mais, a água de menos ou a fervura suficiente. Já o homem padece mais em descanso, mas há grande diferença na frequência de achaques que tende a ser bem maior nas mulheres.

    ResponderEliminar
  6. Os homens são "maus doentes" porque estão sempre com queixumes, é pelo menos o que se diz, assim como se ouve muitas vezes "Como seria então se tivessem que dar à luz (sem epidural, é claro)?!!!
    Pois não sei...Mas é o que se diz.
    Isabel

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cara Isabel,
      Até para a epidural é o cabo dos trabalhos... Acredite! Começam logo a dizer, com ar aterrorizado: uma injecção nas costas!?? :)))

      Eliminar
    2. Cara Ana B
      Acredito, acredito!! (mas com epidural é um pouquinho melhor, enfim um pouquinho "muito" melhor).
      Isabel

      Eliminar
  7. Há que acrescentar isto: http://www.youtube.com/watch?v=W85ag_OQesg

    ResponderEliminar
  8. Pessoal! Aproveito o post sobre homens doentes para congratular a todos pela partida do Jimmy Hoffa de Cacilhas! Depois de trinta anos vai, com toda a certeza, deixar saudades!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Venha outro Jimmy Hoffa (não sei é se o Arménio é de Cacilhas)!!!
      Isabel

      Eliminar
    2. António Luiz Pacheco29 de janeiro de 2012 às 03:57

      O Arménio não era um trolha da Areosa?

      Eliminar
  9. Vicente Lopes Saudade28 de janeiro de 2012 às 21:21

    Não conhecia a letra musicada pelo Vitorino...
    Boa!

    ResponderEliminar
  10. A forma como esse Senhor "fala" da morte , é algo inquietante. "Sinto Muito", adorei lê-lo, adorei ver uma realidade, senti-la perto. Sentir como é a vida de alguém que vive a ver morrer...

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório