A Baixa

Um dia destes, ainda de férias, fui almoçar à Baixa com o Manel. Estava um dia de sol maravilhoso, e a Baixa com sol é irresistível. Visitámos livrarias e lojas, fomos ao Museu de Arte Contemporânea, vimos o rio ao longe e acabámos num outlet da Bertrand do Chiado a vasculhar uns livros a preço de saldo que, realmente, não nos interessaram nadinha (foi bom para a poupança). Então, lembrei-me de que há uns tempos me pediram dessa mesma Bertrand um texto e que o podia partilhar convosco (até para me poupar, palavra de ordem em 2012). Ele aí vai então:


«Oh, que saudades do meu pai, e de ser pequenina, e de viver num Portugal se calhar tão pobre como este, mas sem nenhuma consciência disso. Que saudades de ir pela mão dele à Baixa ver as iluminações de Natal – que nesse tempo só lá é que as havia. Que bom tirar a fotografia com o Pai Natal à porta do Hotel Avenida Palace, escolher depois um presente na loja de brinquedos do italiano da Rua do Ouro e, em frente a uma montra cheia de chapéus-de-chuva, lanchar na Pastelaria Ferrari, onde havia batidos de ananás divinos e muitos espelhos para olhar o mundo. Oh, que saudades de ser criança e subir o Chiado pela mão do meu pai, de passar a loja de tecidos donde a minha mãe trazia amostras de fazendas de xadrez para os kilts da minha irmã e pedia descontos; e que bom era – afinal, o melhor momento do passeio – quando o meu pai, muito vaidoso, ia provar um fato novo cortado pelo alfaiate do Picadilly e eu podia esperar, sem medo de pedófilos, na Livraria Bertrand, onde metia o nariz nos livros e andava de sala em sala a ver tudo, como numa espécie de museu… Hoje, o País continua triste, e pobre, mas temos pronto-a-vestir e refrigerantes de lata; já não resta quase nada do que compunha essa viagem bonita, nem me resta o meu pai. A única coisa que tenho, apesar de tudo, ainda é a Bertrand.»

Comentários

  1. Também gosto muito do Chiado. E da Bertrand:)
    Curiosamente, a minha filha, com 9 anos, adora ir passear ao Chiado e eu levo-a lá, com frequência. Provavelmente, daqui a uns anos, ela irá recordar, também com saudade, o Santini , o Fábulas, o tempo a ouvir os CD na Fnac e...a Bertrand! Também ela adora perder-se por lá. Acho que, acima de tudo, o que nós recordamos com saudade é o afeto :) O resto é apenas cenário. E somos nós que o iluminamos. Ou não.
    Aliás, amanhã, irei com ela à Bertrand do Chiado, ver e ouvir a Dulce Maria Cardoso :foi, sem dúvida, a minha melhor descoberta de 2011. Li todos os seus livros e adorei! Quando gosto mesmo, sou um bocado obsessiva, reconheço:)

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  2. Estes temas assustam-me, não gosto nada de reminiscências antecipadas, talvez quando deixarem de o ser tenham menos impacto. Sobre o Chiado, é um sítio muito alegre, cheio de história, demasiadamente próximo do bairro alto e por vezes demasiadamente apinhado. Em termos de pedofilia não me parece que haja um surto no Chiado, mas talvez seja por ainda não ter filhos. Quanto ao país continuar triste e pobre, é uma questão de educação e falta de desejo de auto-melhoramento contínuo.

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  3. A Matéria dos livros11 de janeiro de 2012 às 03:57

    Também gosto muito de passear pela Baixa. É um lugar lindo, cheio de luz e de vida, sem memórias de infância, mas cheio de promessas de liberdade, de ir e ficar, de puro deslumbramento.
    Quando às mudanças: se é certo que um certo modo de vida desapareceu, o que lhe sucedeu não tem de ser visto como mau. Compramos pronto-a-vestir, vamos menos à Bertrand e mais à Fnac? É a evolução natural das vidas e dos seus ritmos.
    Quanto a estarmos igualmente pobres, comparativamente aos anos 70 e 80, é que não me parece. Éramos muito mais pobres e muito poucos podiam deambular pela Bertand e comprar livros, pois se tudo se esgotava na mera sobrevivência.
    Mudámos, não mudámos assim tanto. Tudo muda, ainda que o eixo da roda permaneça, no seu movimento harmonioso. Lisboa, a bela, continua.

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    1. António Luiz Pacheco11 de janeiro de 2012 às 05:38

      Quando era garoto, ia-se a Lisboa só de vez em quando e sempre à Baixa! A minha avó ia ao seu sapateiro ali no largo onde hoje está o Pessoa, que até tinha uma pele de cobra na parede! Ia à Benard tomar chá, ia-se à Pinóquio, ao Ramiro Leão e ao Grandela ou Grandes Armazéns do Chiado. Parecia um safari e tinha toda uma logística que nem ir hoje a África... a pedir até telefonemas, quando se telefonava pedia-se o número à operadora, o nosso número era o 2-3 de Santarém (era assim que se dizia); depois se o meu pai estivesse fora, era o carro do António Lourenço e o comboio que se apanhava muito cedo, às vezes ficava-se em casa de amigos, o dr. Barata Salgueiro e da Maria Saúde, do dr. Menano (bem me lembro da guitarra que sempre tocava), ou do dr. Godinho, e até na messe de Stª Clara! Tenho uma foto com a minha irmã mais velha (a nana) ao lado do Pai Natal... a preto e branco claro, muito pequeninos, eu de botas de carneira e com uma canadiana herdada do meu primo António Carlos, já curta nas mangas.
      Depois em jovem, as idas à Bertrand para ver revistas que não havia dinheiro para comprar, era um passeio e uma rotina, já nos anos 70.
      Quando em 1986 fui trabalhar para o Pingo Doce, passava as madrugadas no mercado do Rego, o escritório era ali na Rua Garrett no 1º andar por cima da loja "Jerónimo Martins"... foi um período curioso, que durou ano e meio... o trabalhar ali mesmo em plena Baixa. Perto de todas as livrarias "boas". Quando foi o incêndio estava no mercado e viam-se os rolos de fumo, meti-me no carro e fui ver... era Verão e umas 5.00 o dia quase despontava, ainda consegui ir até ao Rossio que a polícia já fechara... viam-se as labaredas na rua 1º de Dezembro... foi um testemunho curioso para um não-Lisboeta que nem gosta da cidade...

      Creio que era o Hemingway quem dizia que ficamos velhos quando começamos a recordar coisas...
      Talvez, mas não é bom ter recordações?

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  4. Deste post não vou comentar se o país está mais pobre ou não, nem se a Bertrand continua no nosso imaginário, tão pouco se agora há mais ou menos pedofilia por aquelas bandas...O que li foi apenas a "homenagem" que foi feita a um pai que já partiu...e foi o suficiente.

    Isabel

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  5. Vicente Lopes Saudade13 de janeiro de 2012 às 08:03

    O que falta a este país?
    O que falta a Lisboa?
    Mudança de mentalidades!
    A nossa sociedade só se interessa por coisas insanas, não liga aos livros que realmente se deveriam ler, não liga aos artistas, aos autores, só liga aos jogadores da bola, o craque brasileiro que veio reforçar a equipa.
    Quando ainda se coloca na grelha do telejornal o possível regresso de Jardel ao futebol, aos 38 anos, para jogar num clube da 3ª divisão... em vez de um novo lançamento de livro, ou sei lá, uma reportagem de uma pequena livraria que ainda resiste à crise e à competição com redes de lojas...
    Hoje vive-se pior, porque se vive mais depressa, mais intensamente, sem o aprofundamento dos pensamentos. Tudo é muito rápido, até as leituras. Os acontecimentos não são tão marcantes, parece que já não se pode reinventar as coisas. E, no fundo, é nesse mundo em que vivemos, o da reinvenção. Ouço que já tudo está inventado, tudo já foi dito e não deve ser uma total inverdade.
    Mas é preciso reinventar, tocar para a frente como diz a música, porque a saída deste gueto é o trabalho, a dedicação, o esforço, a imaginação.
    Quem "pegar" durante esta crise, quem superar e der a volta por cima, pode-se considerar BOM. E não se trata apenas de uma questão de finanças, ou de estatuto social. Trata-se de valores interiores, intrínsecos, que se devem preservar ou recuperar.
    As recordações são importantíssimas, meus caros.
    Não se consegue instaurar um futuro auspicioso, se não se aprender e compreender o passado, esses tempos que já lá vão.
    Portanto, vai-se vivendo de recordações, mas que essas memórias sirvam para alguma coisa, que raio!

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    1. Ó Caro Vicente LER, LER, LER - eh pá isso dá um trabalho do caraças, então não é que a portuguesa mais em foco neste momento é a Cátia (a mãe não sabia que o K existia quando deu à luz) uma tal que não sabe onde fica África, não se riam porque o protótipo dos portugueses é a Cátia, basta ver o nome da filha do Mamadu Djaló (jogador de futebol), tá tudo dito....

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  6. A BAIXA é uma imensidão de XINESES, só XINESES...esse bicho/essa praga que se propaga como gafanhotos...

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