Malditos russos

Na capa, há uma burqa azul-clara pendurada num gancho numa parede de uma divisão aparentemente vazia. Se não me engano, trata-se de uma embaixada abandonada no Afeganistão, talvez a francesa, e ninguém sabe o que fazia lá aquela vestimenta, a menos que um dos funcionários diplomáticos tivesse um caso secreto com uma afegã. De qualquer modo, a coscuvilhice não é para aqui chamada, mas a burqa é importante porque, em Maldito Seja Dostoiévski, de Atiq Rahimi – o livro que aqui me traz hoje –, há uma mulher misteriosa que o narrador viu de costas vestida de azul-claro num dia muito especial e que reaparece de vez em quando ao longo da narrativa, seja nos sonhos, seja na realidade do terrível quotidiano do pobre Rassul, mas sempre a fugir. E o dia da sua primeira aparição foi especial porquê? Bem, Rassul queria livrar a namorada de uma patroa autoritária que a escravizava, mas, quando já tinha o machado bem a jeito junto do pescoço da velha, lembrou-se de Crime e Castigo, de Dostoiévski – e a coisa saiu-lhe para o torto. Só que, no Afeganistão presente, ler os russos cai mal – e tê-los na «estante» é um problema suplementar para quem já estava metido numa alhada das grandes. Diferente de quase tudo quanto li até hoje e francamente desconcertante, este romance do afegão que escreve em francês e já ganhou o Goncourt é, segundo a crítica, o ponto mais alto da sua carreira.

Comentários

  1. Caganda trapalhada!!! Todavia interessante questão... mas nem é inédita, se bem que reconheço que é difícil escrever numa outra língua! Relatórios ou reportagens, já o fiz bastante em francês, castelhano e inglês, e nem é nada de especial. Os relatórios, é coisa sem espinhas! Já as reportagens tornam-se um pouco pior pois nos limita o estilo e a forma, até alguma poesia, bucolismo, etc. que queiramos imprimir ao texto, que ficará sempre pobre.
    Se bem que fale francês como 2ª língua, desde que comecei a falar, e, tenha hábito de ler nesta língua, reafirmo que me sinto limitado e julgo que seria incapaz de escrever "com alma" numa outra língua, e pior ainda se fosse uma língua aprendida e não falada desde logo.
    Por isso um romance seria só possível num género dito telegráfico...

    Mas isto sou eu, barrão e ignorante... estou curioso para ouvir a nossa Cristina Torrão que terá essa experiência com o alemão. Se calhar viver no país da língua onde se escreve dá uma outra perspectiva e abre possibilidades?

    JÀ AGORA, BOAS FESTAS PARA OS MEUS BLOGAMIGOS EXTRAORDINÁRIOS!

    Haja alegria e bacalhau!!!!

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    1. O senhor António Luiz Pacheco mandou-me um e-mail encantador. Fico muito contente quando conheço pessoas sinceras e boas. Falou acerca da velhice, tomo agora a liberdade de colocar um excerto relacionado do livro que comecei a escrever ontem: "Entristecem-me as pessoas de idade avançada, olho para elas com pena de mim, com pena do eu que existe nelas. Sempre temi que começassem a chorar, que se me confessassem aterrorizadas com um fim que se aproxima, que me pedissem ajuda, uma ajuda inalcançável. Nunca aconteceu, pelo menos por palavras, ainda que os olhos não mintam. Não deveríamos abraçar o velho com uma ternura superior àquela com que abraçamos o infante? Não merecerá o primeiro maior consolo, o consolo devido aos que se acham perdidos no fim da sua humanidade? É bem verdade, no fim todos morremos sozinhos, ainda que de mão dada. Não acredito em Deus, as únicas alturas em que desejei a sua existência aconteceram durante longas conversas com o meu avô, conversas em que ele me contava episódios da sua vida, em jeito de resumo, como se, sem o admitir, me pedisse que não o esquecesse. Enquanto escrevo recupero a tristeza de que falo, deixo-me invadir por todos aqueles olhos trémulos e volto a desejar a existência de um Deus. Não para mim, mas para os meus. Sou fraco nas minhas convicções, será menos indigno se o for por compaixão?"

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    2. Obrigada, Antonio Luis Pacheco.
      Boas Festas também para si:)
      Quanto ao livro, já estive com ele na mão mas não me cativou especialmente. Vou espreitá-lo novamente; as sugestões da nossa anfitriã são sempre de ter em conta:)

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    3. Boas festas para si também e deixe-me dizer-lhe que também gosto de ler os seus comentários.
      Isabel

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    4. Como percebi o seu texto! conseguiu pôr por escrito o que sinto tantas vezes ao olhar para um velhinho, uma pequena tristeza e uma ternura infinita por essas caras enrugadas. De repente lembrei-me de uma canção do Jacques Brel chamada "les vieux " que é linda e terrível também:
      "Les vieux ne meurent pas,
      ils s'endorment un jour
      et dorment trop longtemps,
      Ils se tiennent la main,
      ils ont peur de se perdre,
      et se perdent pourtant"
      Isabel

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    5. Fico muito feliz por se ter identificado com a minha descrição. Sabe uma coisa, eu não investigo nada, nem sítios, nem traços faciais, nem episódios históricos, nada! Foco-me totalmente nas emoções e tento ao máximo suscitar o pensamento "olha! não é que é mesmo assim!" nos meus leitores. Beijinhos e uma passagem de ano alegre.

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    6. Obrigada, vai ser uma passagem de ano alegre, como só poderia ser quando se está à lareira no Alentejo...
      Como alegre está a ser este dia, que é dia dos meus anos. Um beijinho também para si e desejo-lhe um grande ano novo.
      Isabel

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    7. PARABÉNS!! Espero que lhe corra tudo bem! Eu também estou no Alentejo, em Ferreira do Alentejo! A preparar umas terras para plantar figo e amendoas! Beijinhos

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    8. Obrigada, nunca havia recebido os parabéns de um "desconhecido" e é muito engraçado!!
      Boas plantações e viva o Alentejo!!!
      Beijinhos
      Isabel

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  2. Já que nos é permitido criar um blog paralelo, forjado no nosso egocentrismo e nem sequer nos dar-mos ao trabalho de comentar os posts da tia Rosário, vou falar de burqas . Muhammed Salih Al-Munajjid , nauseabundo fanático, sheikh extraordinaire e conhecido adepto das novas tecnologias, justificou o uso da burqa , no seu site (!), da seguinte forma: The correct view as indicated by the evidence is that the woman 's</a> face is awrah which must be covered . It is the most tempting part of her body , because what people look at most is the face, so the face is the greatest awrah of a woman ." (o meu árabe está particularmente enferrujado). Qualquer homem que se preze já descobriu a falha fundamental desta fatwa , e as mamas? É verdade, quando um homem se foca em demasia na cara de uma mulher, das duas uma, ou ela é gorda (provavelmente designada por Anocas ) e como tal em nenhum perigo de profanação ou está a dizer qualquer coisa de desmesurado interesse, atractivo intelectual que a rede da burqa dificilmente conseguirá purgar. Assim, dos três tipo de mulheres existentes no mundo, gordas, espertas e boas, a burqa apenas poderia ser útil no último caso, não fosse a falta de restrições em relação ao corte da mesma na zona das mamas. A falta de conhecimento gritante que o Sheick demonstra sobre o corpo feminino leva-me a pensar se não seria melhor despromovê-lo a padre e vedar-lhe todo o acesso a corpos que já dobraram o cabo da puberdade. Feliz Natal companheiros!!

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  3. Obrigada pela sugestão.
    Estou mais entusiasmada por ler este livro (e os restantes do mesmo autor traduzidos para português, "Terra e Cinzas", e "Pedra-da-Paciência") do que pelo bacalhau com couves.

    Boas Festas!

    PLFF

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    1. U don't know the POWA of bacalhau com couves!

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