Inspiração para quê?
Numa mesa-redonda reunindo cinco escritores não muito conhecidos de vários países (que a Feira denominou, com outros vinte, «os 25 segredos mais bem guardados da América Latina» – a precisarem de divulgação, em suma), o moderador perguntou se havia alguma coisa neste mundo globalizado que de certa forma influenciava a sua escrita. A chilena e o mexicano falaram de infâncias passadas a ver televisão e referiram-se também à leitura e à Internet, da qual o segundo foi muito crítico, dizendo que gerou dúzias de jornalistas instantâneos que retiraram à escrita informativa o que ela tinha de belo. Por seu turno, o guatemalteco disse não precisar mais do que a realidade do seu país para escrever, contando que, na semana anterior, numa prisão, os guardas tinham andado a jogar à bola com a cabeça de um homem que haviam eles próprios decapitado; a hondurenha – que não consegue publicar o que escreve no seu país – pareceu saber o que isso era, explicando que, em sua casa, referindo-se às pessoas que são mortas todos os dias, já só perguntam: hoje foram quantas? E o jovem equatoriano explicou que, dois dias antes de chegar a Guadalajara, fora à padaria e a rapariga que lhe vendera o pão tinha marcas de uma corda grossa no pescoço; e que, no regresso a casa, construiu um conto na sua cabeça sobre ela. Realmente, com um quotidiano assim, quem precisa de outra inspiração?
mundos, realidades e inspirações muito diferentes.
ResponderEliminarJá alguém dizia que a realidade supera a ficção...
ResponderEliminarPela minha parte, garanto-lhe que sim. Trabalhando regularmente num serviço de urgência e traumatologia de um hospital central, o que não me faltam são histórias bizarras, rocambolescas e, muitas delas verdadeiramente chocantes. Tivesse eu o talento para as saber contar. Até já pensei em abrir um negócio de venda de ideias:) Estaria rica, seguramente:)
Mas apesar do meu quotidiano rico em singularidades, sou uma devoradora de livros, a maioria, de ficção. Quero com isto dizer que, na literatura, não é a historia o mais importante. Mas a maneira como o escritor a conta, como descreve as emoções, como nos retrata. Como consegue fazer com que o leitor se reveja algures naquelas páginas, se espelhe nelas. Como descreve o nosso interior. E isso, só os bons escritores o conseguem. E não é preciso grande imaginação: basta olhar ( sentindo ) à volta.
Concordo, ana b.
EliminarHá o contar e o CONTAR.
O primeiro qualquer um consegue e não será lido, certamente ... já, para o segundo ....
Não fosse assim todos nós seríamos escritores ...
De histórias ou estórias mirabolantes está o mundo cheio ...
One moment please:
ResponderEliminarEstão a falar sobre América hispanica?
É vero!
Descrever métodos de tortura ou violência adornados por uma história seja ela cruel ou não, pouco parece ter de original, contudo a inspiração poderá vir daí, devido à própria falta de imaginação.
ResponderEliminarA falta de imaginação é hoje também um valor absoluto, talvez devido à ausência de pontos de referência valores comuns e restrições saudáveis.
Não será a violência a mais universal forma de expressão humana onde até o amor está incutido corruptamente?
"Descrever o universal é descrever o que é comum a toda a alma humana e a toda a experiência humana"...se esta é a realidade, quer talvez dizer que nada fazemos diariamente para contrariá-la. está além da nossa profissão, além do social, está na própria alma e na conduta, empenho e cooperação de cada um.
Abraços
Sobre a Guatemala não deixem de ler "O SENHOR PRESIDENTE" de Miguel Anel Astúrias (um grande livro).
ResponderEliminarMiguel ANGEL Astúrias
ResponderEliminarTodas as realidades são suficientemente ricas para faísca na imaginação, não é preciso mortos, violência ou bizarria. Basta haver, como há sempre, emoções envolvidas nas histórias que presenciamos.
ResponderEliminarSabemos que hoje em dia é assim... Basta apanhar uma conversa num café, algo do quotidiano no qual a população em geral se reveja. Uma dose de mistério, outro tanto de sexo, uma linguagem levemente irónica, um final surpreendente, a máquina publicitária bem oleada, meia dúzia de críticos arrebanhados num jantar cinco estrelas ..et voilá!
ResponderEliminarBravô ...
EliminarSé sá!
Saudações camperas!
(para manter o estrangeirismo)
somos o que somos e as nossas circunstãncias (quem dizia?), então parece-me natural que a inspiração possa ser um despertar da memória ou da atençaõ/ percepção das coisas vividas e sentidas (além das sonhadas). Ser escritor não será, claro, o mero acto de evocar por escrito esses momentos, mas de lhes dar um contexto e uma estrutura narrativa (ou poética), num linguagem literária/estética.
ResponderEliminarAinda sobre este assunto da publicidade... convém ler: http://aindanaocomecamos.blogspot.com/2011/11/ao-pe-da-letra-167-antonio-guerreiro-o.html
ResponderEliminarE a estratégia dos tops de vendas...
Maria do Rosário, para este post só tenho a dizer uma coisa: está tudo dito!
ResponderEliminarAproveito para desejar o "clichê" de um Bom Natal e Próspero Ano Novo à autora e frequentadores do blog