A ilha como cenário
Há pequenas pérolas que podem escapar-nos, sobretudo entre tantos calhamaços com capas cheias de relevos e vernizes, mas esta – garanto – seria uma grande perda se não se lesse. A Ilha, de Giani Stuparich, um livro anterior à Segunda Guerra Mundial e publicado agora em Portugal pela Ahab, que vem recuperando clássicos e alguns livros esquecidos ou ignorados pelo nosso mercado, é uma novelinha (ou um conto longo) absolutamente fascinante. Conta a história de um homem doente que pressente a proximidade da morte e desafia o filho a acompanhá-lo à ilha onde nasceu, no Adriático, que quer ver uma última vez. A descrição desses dias é dolorosa e magnífica, não só porque nos custa assistir a uma despedida que é, simultaneamente, uma luta constante contra o tempo, mas também porque, apesar da condição do pai, é o filho quem, pela preocupação excessiva e o pânico de que algo aconteça ao progenitor, parece o doente, e o velho quem, em contacto com os ares da ilha, se torna o mais enérgico dos dois. E, assim, o homem de idade descobrirá a importância de ter deixado descendência, enquanto o mais novo experimentará, fatalmente, a perda anunciada. Numa linguagem bela que me lembrou um pouco Lampedusa, eis um belo livrinho, a que Vila-Matas chamou nada menos do que «perfeito», para um par de horas extraordinárias.
Sem dúvida, um excelente livro.
ResponderEliminarPequeno, conciso mas muito intenso. E repleto de sentimentos e emoções, como eu gosto.
Foi um prazer imenso, lê-lo.
Trata-se de um livro com uma linguagem bela de facto e também adorei lê-lo.
ResponderEliminarDeixo também os meus parabéns pelo blog que não resisti a cuscar e que adicionei ao blogroll do meu próprio - que ainda está muito no início.
Continuação de Boas Festas
p.s: aqui deixo o link que por lapso esqueci no outro comentário
Eliminarhttp://milleniumofthebookworm.blogspot.com/
Estive a espreitar o teu Blog e é deliciosamente nerdish, right up my alley (Então o deck de magic nas compras de Dezembro está épico). Quando puderes faz a review do Silmarillion do Tolkien, na minha opinião, o melhor livro fantástico que já li. Assim que conseguir vou la comentar uns posts! Boa sorte com o teu blog!
EliminarEsta coleção Ahab parece ter livros exclentes (é a voz de um amigo -conhecedor-)
ResponderEliminarTenho, já li, gostei e está bem descrito em poucas linhas. Em particular, a "importância de ter deixado descendência" fez-me lembrar o começo do soneto de Shakespeare: From fairest creatures we desire increase "...
ResponderEliminarFaz muito sentido, até no próprio Now is the winter of our discontent , made glorious summer by this sun of York", sun é um jogo de palavras com son . Talvez mais uma referência relacionada com descendência ou proveniência! Well done Paulo Oliveira... you Sir are a scholar and a gentleman!
EliminarTenho de ir ver... diz-me qualquer coisa...
ResponderEliminarOra aí está! Tal como eu dizia, o filho sente mais a proximidade da morte do pai do que o próprio! Imaginem agora como o filho se sentiria perante as terríveis palavras "ajuda-me filho! não quero morrer!", é ao não é devastador?! hein?! Gosto muito de livros em que existe personificação bem feita dos espaços, como por exemplo, (sim lá está ele a falar do mesmo livro) no "a la recherche du temp perdu " em que balbec , combray e os seus campanarios , o lado de swan , o lado de guermantes , chegam a ser mais personagem do que alguns dos intervenientes de duas pernas. Já me aconteceu, há uns anos, entrar na casa do meu avô paterno, que nos vimos obrigados a vender a certo ponto, e ficar deslumbrado com o impacto que aquelas paredes tinham em mim. Os cheiros, os sítios decorados pelos velhos (para uma criança, uma velha à lareira faz tanto parte da sala quanto um móvel), objectos quebrados e colados que nos fazem brindar com um sorriso a história da sua desventura. O sentimento de protecção de uma altura em que zelavam por nós, em que as mãos que nos afagavam a cabeça eram plenas de sabedoria e imortalidade. Creio que ainda hoje temo lá entrar.
ResponderEliminarJá li o livro. Gostei e dele guardei também a dor pela morte anunciada do pai que é partilhada pelos dois.
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