Lisboa e Porto

O Manel nasceu no Porto (em Gaia, para ser mais precisa) e, terminado o liceu, fez o que era natural para uma pessoa do Norte: iniciou a sua vida universitária em Coimbra. Porém, com o pretexto de que era em Lisboa que viviam os escritores e tudo acontecia, mudou-se de armas e bagagens para a capital pouco tempo depois, acabando aqui o curso de Direito. Muitos dos autores do Porto queixam-se de que são muito menos dignos de atenção por estarem longe do centro cultural do País – e talvez até tenham uma certa razão, se pensarmos que as revistas, os jornais e as televisões têm o grosso das suas redacções instalado em Lisboa e, quando precisam de um escritor para comentar qualquer coisa, é sempre na capital que o desencantam. É também em Lisboa que se vendem mais de 60% dos livros de Portugal inteiro, incluindo os vendidos no Porto, e que se apresentam mais livros em lançamentos públicos (porque até os autores do Porto quase sempre «reclamam» um segundo lançamento na capital, aproveitando a oportunidade para umas entrevistas). O Porto não tem obviamente a mesma dimensão que uma cidade como Barcelona tem para o país vizinho (e cuja concorrência com Madrid é fortíssima), mas tenho pena de que a geografia possa ser responsável pelas carreiras um pouco mornas de alguns escritores do Norte, que em nada ficam a dever a muitos dos seus colegas alfacinhas. Não me parece sequer que o asfalto das milhentas auto-estradas que se construíram os tenha ajudado.

Comentários

  1. Hoje em dia não se justifica, com as tecnologias que há disponíveis. Até parece que vivemos ainda no tempo da carta e da carroça.

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  2. Sinceramente o vinho mais respeitado, apreciado e vendido no mundo, é o do Porto! O que atesta esta superioridade de marketing é a qualidade.

    E o que tem sido a qualidade?
    Continuidade.

    Está para o escritor(a) portugues, ser uma seta de seu rincão. E se, por analogia o vinho e a obra, são pois, os dois estando para o tempo como origem de um tratado. Cada qual, com angústia e dedicação e para nós um quê de vossa alegria. Se para um é necessária a terra, para outro é necessário compreensão. Se para um é necessário, podar, para outro é necessário harmonizar! Entretanto, bebemos dos dois pela dimensão dos sentidos. E para tanta perfeição por uso fruto da palavra, eis a vindima dos paladares em Lisboa, quando o mundo é redondo qual grãos de uva e o desejo humano é sal ao ler por inspiração.

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  3. Não colocaria a questão apenas ao nível da produção. Isso levar-nos-ia a muitas considerações acerca da origem, das qualidades e das motivações dos diferentes autores portugueses, pelo menos a partir dos meados do século XIX. Preocupa-me o ambiente sociocultural nas diferentes regiões do nosso território - os hábitos de consumo, as reais ofertas e, sobretudo, a falta de qualquer coisa que arrede esta desertificação voraz. Aqui não se trata de distâncias em alcatrão. Lisboa ficará muito longe de Loures, Odivelas e Amadora, muito mais perto do Porto e de Almada e até de Viseu... Acontece que num concelho de 100 mil habitantes como Viseu não há oportunidades - havia umas livrarias engraçadas e uns grupos de trabalho interessantes, mas fecham por questões económicas. Temos o Teatro Viriato aflito com falta de verbas e a mania de resgatar princípios gastos ligados a uma igreja teimosa e salazarenta, porém há muita gente com vontade de fazer coisas boas e interessantes. Nos arredores de Lisboa (não a margem esquerda) é um deserto - milhares de convencidinhos metidos nas casas hipotecadas e estupidificados que nem portas...

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  4. Em Gaia?

    Eu não nasci em Gaia, mas vivi lá a partir dos quatro anos de vida, até ter 27 (quando vim para a Alemanha). Por isso, considero Gaia a minha terra natal. Foi lá que cresci, que frequentei o liceu e, como tirei um curso de Línguas, fiquei-me pela Universidade do Porto.

    É em Lisboa que se vendem mais de 60% dos livros? Impressionante!
    E penso que a crise irá ainda piorar esta situação, se atendermos ao que um comentador diz a propósito de Viseu e do Teatro Viriato!
    Uma miséria!

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  5. Se é evidente o menor numero de oportunidades que os autores do Porto têm, então o que dizer dos do resto do país, ilhas incluídas ? Alguns ficam mesmo transparentes...:)

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  6. Falaram de Viseu?! Costumo lá ir com frequência e aquilo tem tudo menos uma ar desertificado, especialmente se comparado com 30 anos atrás. Tem inclusive Bertrand e Fnac, de maneira que penso que, a haver a desertificação, será mais por dentro das cabeças. Os sítios onde mais senti a desertificação do interior foi, além do deserto propriamente dito, na Florida e na Grécia. Por acaso, soube-me bem.

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  7. "...e terminado o liceu, fez o que era natural para uma pessoa do Norte: iniciou a sua vida universitária em Coimbra." Isto era/é assim tão natural?!... Ficamos assim a saber que o único futuro possível e viável era/é rumar a Sul. Interessante ponto de vista. Recorrente a Sul.

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  8. Bem, para Direito a melhor escolha é Coimbra, sem dúvida, seja do Norte, seja do Sul, seja das ilhas.
    Quanto à importância que dão aos escritores, também penso que os do Norte tem algumas dificuldades para se fazerem notar. É um facto que o Porto não rivaliza com Lisboa em matéria cultural. Mas temos exemplos de escritores que insistem em ficar nas suas raízes e dão-se bem. Temos o caso de António Manuel Pires Cabral. Acho que se tem mantido por Vilareal [Trás-Os-Montes] e tem vivido bem com isso. Vai escrevendo alguns romances e poesias. E o seu traço não é evidentemente bucólico, como por exemplo, foi o de Miguel Torga.

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