Três vidas

As Três Vidas é o título do livro de João Tordo que venceu o Prémio Literário José Saramago em finais de 2009 e que é agora finalista – com a edição brasileira – do Prémio PT de Literatura. O título, para quem não leu o romance, é a tradução do nome de uma livraria de Nova Iorque – Three Lives – que, na história, está ligada à rapariga que o protagonista procura naquela cidade. Mas a expressão serve-me neste momento para outra coisa bem diferente, que vem a propósito de uma chuvada gloriosa de comentários neste blogue a um post que escrevi sobre o pretensiosismo de se citarem edições originais de livros que têm tradução portuguesa. Pois nos EUA e no Reino Unido a maioria dos livros têm três vidas – uma edição em capa dura (hardcover), uma em capa mole (paperback) e uma de bolso (pocket); alguns saltam a primeira, se se prevê que o número de leitores para eles é mais modesto, mas restam-lhes sempre duas. Em Portugal, até há pouco tempo, ficávamo-nos pela edição em capa  mole, já que a capa dura é cara de produzir e as tiragens pequenas não a justificam. Porém, o livro de bolso – ao contrário do que muitos disseram – teve recentemente um crescimento assinalável, com uma colecção de clássicos resultante de uma parceria de três editoras e outras duas colecções regularmente alimentadas pelos dois grandes grupos editoriais portugueses. Mas os leitores continuam a queixar-se de que se faz pouco (quem não se sente não é filho de boa gente) e dos preços dos livros de bolso, sobretudo se comparados com as edições do mesmo tipo noutros países. Ora, não podemos esquecer-nos de que vivemos num país pequeno; e que, se os nossos vizinhos espanhóis podem editar tudo em bolso porque são mais de 40 milhões (e não ficam com livros nos armazéns se fizerem tiragens de 10 000), aqui não podemos quase nunca ultrapassar os 3000 exemplares – e, ainda assim, com o risco de não os vendermos a todos. Além disso, em tiragens assim pequenas o custo unitário nunca desce o suficiente para permitir preços mais baixos do que os praticados. Não creio, pois, que se possa ir mais longe neste campo e penso que o que tem sido feito é já bastante louvável para merecer mais elogios do que críticas.

Comentários

  1. Pois é, Maria do Rosário... Somos pequenos também em aspectos surpeendentes. É usual as pessoas, na livraria, dizerem que "gosto muito de ler mas é pena os livros estrem tão caros". Quando isso acontece chego-me à frente com as várias coleccções de bolso. Aí o cliente torce o nariz: que tem a letra pequena, que é pequeno para oferecer, que isto, que aquilo!...
    Boas memórias tenho do início da construção da minha biblioteca particular, com grandes livros em edição de bolso, esperando ansiosamente pela quinzena seguinte para comprar o próximo título. Quinze dias sobravam para ler cada um deles.
    Quanto à tal colecção dos clássicos - eu digo, da Biblioteca dos Editores Independentes - é pena ter-se finado.
    E cá vamos, cantando e rindo, assistindo ao "finamento" de tudo o que é bom. Mas há quem não repare nisso. E isso é muito mau para as futuras gerações.
    E, com isto, acho que chegou a altura de começar a ficar velho...

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  2. A Espanha tem 40 milhões e, graças à política da sua Academia que tem conseguido manter a língua ferreamente unida, inclusive do ponto de vista ortográfico, talvez as suas edições penetrem em muitos milhões mais. Nós somos pequenos, é certo, mas parece-me existir algum comprazimento em manter a pequenez.

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  3. Concordo quando diz que é difícil termos os preços dos países que conseguem fazer tiragens maiores e também relativamente ao que já está disponível em bolso. Já temos, de facto, uma boa oferta.
    Os Portugueses é que nunca estão satisfeitos e é sempre mais fácil usar esses argumentos do que mudarmos as nossas posturas. É verdade que os livros não são baratos mas também é verdade que vemos as pastelarias e cafés e bares cheios de gente que se usasse parte dos valores aí dispendidos em livros teria menos problemas de saúde e um nível cultural muito superior. E isto só para dar um exemplo!

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  4. É com felicidade que tenho visto, nos últimos anos, subir a publicação de livros de bolso. Pessoalmente gosto muito, precisamente pela facilidade de transporte que esses livros permitem: são muito bons para quem gosta de andar sempre com um livro na mala. Por outro lado, a existência de edições de bolso, mais baratas que as dos livros de capa mole, permite mais facilidade na compra.
    :D

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  5. Tenho uma colecção de livros de bolso com 40 anos (jasus... com 40 anos...) chamada Livros RTP, editados pela Verbo. Não me recordo da cadência da publicação, talvez mensal... Gosto muito desses livros, mas não sou apreciador do livro de bolso. Não são tão "saboreáveis" como os outros...

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    Respostas
    1. Simão, lembrei-me de ir googlar por ti e aqui te deixo o link para mais pormenores. De certeza que nem te lembravas já do êxito desta iniciativa, compravas os livros na calma e, como podes ver, os livrinhos saíam todas as semanas. Não sei se terás os 100 (fiquei agora a saber que foram 100)...

      http://lisboacity.olx.pt/livros-rtp-coleccao-completa-100-volumes-aceito-ofertas-iid-44965894

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    2. Obrigado, Gamito, pela trabalheira que tiveste. Não, não me recordo se tenho os 100 livros, mas tenho de certeza o último, porque tenho vários Lusíadas e desse lembro-me bem, apesar dos 40 anos que já lá vão, quase nem acredito, parece que foi ontem que eu vivia em Lisboa e os comprava lá...
      Mas desde esse tempo que sei que se nos derem coisas boas, a gente gosta, sejam livros, sejam programa da tv, seja bacalhau com todos ou ovos moles, basta pensares no Zip-zip, também foi desses tempos, estávamos ambos na tropa, cheios de medo da guerra. Enfim, bons tempos, se continuo a escrever ainda me vêm as lágrimas aos olhos, sabes como sou lamechas...

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  6. Concordo, pois. Há dez anos (ou talvez menos) nem sequer existiam edições de bolso em Portugal, com excepção da colecção Vampiro; hoje, encontramo-las nas livrarias e isso é muito bom, porque há clássicos, por exemplo, que assim são recuperados e renovados. Pena os nosso livros ainda não terem - se é que algum dia irão ter - pelo menos as duas vidas que têm no Reino Unido e EUA, hardback e paperback, e desapareçam tão rapidamente dos escaparates para as prateleiras (ou para o horrível "abate")...

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  7. E os milhões da lusofonia?...
    Talvez agora com o novo acordo (por favor, não batam mais no ceguinho!) se possa sonhar com edições publicáveis e vendáveis a todos esses milhões! Que baratinhos ficariam esses livros...

    Cristina

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  8. De capa mole ou dura, cabendo no bolso ou não, tanto faz. Desde que tenha papel e letras, para mim, serve:)
    Em suporte digital é que não! Em digital, só livros técnicos e mesmo esses, quando carecem de um estudo mais sério, tenho que os imprimir.
    Quanto ao preço dos livros, é um facto que não estão baratos. E acredito que numa família, que se convencionou chamar, classe média, não sobrem muitos euros ao fim do mês para deixar na livraria. Contudo, não me parece que seja por isso que as pessoas não leiam ou o façam pouco. Por vezes é uma questão de prioridades. Basta recordar os inúmeros presentes de Natal que nos cai no sapatinho. sem interesse absolutamente nenhum, autênticos "tesourinhos deprimentes", e, muitas vezes até bem mais caros que um livro.

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  9. Já aqui disse algo do género, mas, já que se puxou o assunto:

    Na Alemanha, alguns livros têm "two lives": capa dura ("gebunden") e edição de bolso ("Taschenbuch"). Nem todos têm direito à edição "gebunden", enquanto outros se ficam por aí, se não venderem muito.

    Este é um sistema que proporciona várias estratégias. Se se trata de um autor que vende bem, tem primeiro a edição de capa dura e, passados uns seis meses, quando ele já desapareceu dos "tops" de vendas, surge a edição de bolso, a metade do preço, e o livro torna a trepar as listas.

    Mas há outros que ainda dão mais rendimento. "O Perfume", por exemplo, existiu durante uns dez anos (ou mais) em capa dura, porque vendia sempre. Na altura em que saiu o filme (e já quase ninguém se lembrava dele), veio a segunda vida: editou-se em livro de bolso e manteve-se no primeiro lugar das listas de vendas semanas a fio.

    A Alemanha tem mais de 80 milhões de habitantes. Mas o mercado de língua alemã ainda é maior, pois inclui a Áustria e a Suíça (nada que se compare ao de língua inglesa, mas, enfim).

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  10. Em Espanha não se contabiliza apenas os 40 milhões, pois ainda há que contar com o mercado sul-americano.
    Mas nós, agora, também iremos ser salvos pelo miraculoso Acordo Ortográfico, esta maravilha do séc. XXI. Vamos enviar charters cheios de livros para o Brasil...

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