Transportes públicos
Comecei há duas semanas – mas já o interrompi por causa de outros afazeres – o livro de Herta Müller que a Dom Quixote publicou recentemente e dá pelo belíssimo título: Hoje Preferia não Me Ter Encontrado. Conta a história de uma mulher casada que é intimada a comparecer na Polícia política para um interrogatório e vai no eléctrico que a levará ao destino desfiando os seus medos e as agruras da sua vida pessoal (entre outras, um marido alcoólico). É também em meios de transporte que o narrador de Uma Mentira mil vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo, se entretém a contar aos passageiros que se sentam ao seu lado, para escapar ao silêncio e à solidão, a história inventada de um autor e das suas personagens. Embora não tenha ainda lido deste livro mais do que a sinopse da contracapa, gosto muito do Manuel Jorge Marmelo e das crónicas que escreve uma vez por semana no Público, pelo que não podia deixar de me alegrar com a chegada deste livro novo (creio que o último era de 2008). Hoje, quando apanho o metro para qualquer lado, vejo também muito mais gente a ler do que nos tempos em que ainda não tinha carro. Pelos vistos, os transportes públicos estão a prestar um bom serviço à literatura.
Comprei o livro da Herta Müller precisamente por causa do título. Ainda não li, mas está em primeiro lugar na lista de espera.
ResponderEliminarParece-me que, sobretudo nos grandes centros, se conversa muito pouco com estranhos. Lembro-me da primeira vez que me deparei com esta diferença relativamente ao meio rural de onde vinha: no autocarro que apanhava todos os dias para a universidade, em Coimbra. Todos os dias as mesmas caras, mas nem um sorriso, quanto mais um bom dia! Os livros podem ser uma boa companhia, mas as pessoas também!
Anabela:
EliminarCuriosa coincidência de pontos de vista:)
Se calhar por ter nascido num meio pequeno (sou açoriana) e estar habituada a falar com estranhos, pensei imediatamente o mesmo.:)
Também me parece. E ainda bem que assim é.
ResponderEliminarNo entanto, ainda estamos muito longe da realidade de outros países Ainda há semanas, numa viagem para o Porto no Alfa Pendular (excelente para a leitura), constatei com tristeza que, na minha carruagem, as únicas pessoas que liam, eram um casal estrangeiro, com dois filhos adolescentes. Os restantes, entretinham-se a olhar pela janela, a bisbilhotar as revistas do social, a falarem ao telefone, a mandarem mensagens ou cavaquearem com os companheiros de viagem, facto que me incomodava pois apetecia-me concentrar no livro que tinha em maõs .
Curiosamente, dei comigo, ontem, a recordar esse facto quando li o interessantíssimo artigo do Manuel Halpern , no último JL , acerca do vício, particularmente o do facebook , coisa que não tenho nem lhe sinto a falta. Mas dizia ele com imensa graça, que não via ninguém preocupado com o vício da leitura, por poder provocar dificuldades de sociabilização semelhantes. Eu por mim, enfiei a carapuça. E a minha filha, com apenas 8 anos, certamente que lhe daria de imediato razão...:)
Mas apesar do meu vicio de leitura, ainda não consegui descobrir a escrita da Herta Muller . Embora tenha dois livros dela na estante dos livros em espera. Um deles, o que mencionou. Falha que terei que corrigir quanto antes.
Se o outro for «Tudo o que eu tenho trago comigo», não perca. É belíssimo!
EliminarÉ mesmo esse.:)
Eliminar"Hoje Preferia não Me Ter Encontrado" é um bom livro.
ResponderEliminarUma obra que me chocou muito, pelo léxico utilizado e, principalmente, pelo hedonismo que a percorre, foi "A bofetada" de Christos Tsiolkas . Não conseguimos largar o livro e saímos exaustos na última página.
Gostei muito de "O quarto de Jack " de Emma Donoghue . Muito emocional sem ser "piegas". Simpatizamos muito rapidamente com as personagens.
Aconselho a leitura.
Pergunto-me se Tomas Tranströmer terá mais poesia publicada em Portugal, tendo em conta a "alavanca" de curiosidade pela sua obra, por parte de editores e, o que verdadeiramente interessa, leitores.
ResponderEliminarPelo que sei só tem alguns versos traduzidos por Vasco Graça Moura em antologias de autores nórdicos.
Os editores portugueses (e não é nenhum recado) deveriam dar mais atenção à boa literatura que se faz na Escandinávia. Isto por duas razões: primeiro, porque existem de facto excelentes autores literários no norte da Europa, não só os de literatura policial como Stieg Larsson; segundo, o sentimento de saudade, o fado e a nostalgia típicos dos portugueses, está muitas vezes retratado, sob forma de sentimentos muito semelhantes, nos poemas e romances nórdicos.
Esses povos têm também uma vivência melancólica, como muitos de nós. Dou outro exemplo: os filmes de Bergman. E nem saí da Suécia...
Herta Müller recebeu o seu Nobel em 2009 e (corrijam-me se estiver errado), até aí, era praticamente desconhecida por cá. Acho que ainda não tinha traduções...
Agora em 2011, temos já um par ou dois de bons romances da autora romena, que são realmente boa literatura. Começei a ler "Tudo o Que Eu Tenho Trago Comigo" na altura em que foi publicado e até estava a gostar, pois adoro a temática da segunda guerra mundial e boas estórias, mas por qualquer razão abandonei o livro, já não me lembro bem porquê... Está ainda perdido na estante, por entre tantos outros, vejo agora.
Sempre tive o hábito da leitura. No entanto, tenho dificuldade de ler em qualquer coisa em movimento. Os transportes públicos podem prestar um bom serviço à qualquer coisa que achemos boas durante uma viagem, por pequena que seja.Tudo depende do ponto de vista e da apreciação dde cada um!
ResponderEliminarAbraço