Ossos do ofício

Sou muito pouco talentosa na cozinha e admiro quem fala de coulis, chutneys, espumas e reduções com a mesma familiaridade com que eu me refiro ao sal ou ao açúcar. Tenho uma amiga que cozinha muito bem e chega ao ponto de dizer que, quando olha para uma receita, sabe exactamente o que vai ter de alterar para que o prato fique completamente a seu gosto. Estou certa de que muitas pessoas que gostam de ler acham (um pouco ingenuamente, claro, porque só vêem o lado bom da profissão – passar a vida a ler livros) que o meu ofício é um dos melhores do mundo. E, porém, mesmo sem contar com o número de originais imprestáveis que ocupam seguramente grande parte do meu tempo, a verdade é que quem faz vida nos livros acaba por aparentar-se a essa cozinheira minha amiga: é que, por mais que tentemos, já não conseguimos ler virginalmente um livro, não conseguimos deixar de pensar que esta ou aquela frase a escreveríamos nós de outra forma, que resolveríamos uma situação criada pelo autor de um modo muito distinto (e, pensamos nós, de longe mais eficaz), que de maneira nenhuma optaríamos por aquela expressão para traduzir o que nos parece que o original dizia. Enfim, passa a ser tão difícil simplesmente lermos (ou lermos simplesmente) que um dia destes tropecei num livro no qual, ao fim de meia dúzia de páginas, já tinha alterado tanta coisa para poder gostar dele que achei melhor interrompê-lo e devolvê-lo à estante.

Comentários

  1. A culinária é uma metáfora para muita coisa nesta vida. Sejam as que precisam de algoritmos para resultar (poucas) ou as que precisam de doses q.b de instinto.

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  2. As minhas funções editoriais são em menor escala mas permitem-me sugerir a mudança, Deus seja louvado, sim! Não sou eu que escolho o que se publica, apenas acompanho os autores e o processo sequente, mas esse pequeno espaço de acção é suficiente.
    Mas há livros – quer sejam mesmo livros, quer ainda na fase de crisálida de texto, documento, o que for – cuja leitura é estranha, muito desconfortável, e já escrevi sobre isto, como se buscasse exorcismo, pois é uma coisa geradora de infelicidade para quem gosta de ler. Acontece quando as frases parecem ter acabado de acordar e estão como que despenteadas, tortas e desalinhadas; quando a tradução é má, por vezes até cruel face a uma descrição que imaginamos bela; nessas alturas a leitura transforma-se noutra coisa para a qual não tenho nome: não leio per si, mas inconscientemente procuro os buracos do terreno, os erros, as incongruências, e a história torna-se secundária, contra a minha vontade, perco a vontade de ler, desmotivo-me. Como pode o avô de Valdemar, de Deixem Falar as Pedras, ter estado preso numa sela? Leio e cada palavra faz sentido; quando esse sentido é cortado com erros de revisão/tradução/escrita alguma coisa me faz parar a leitura mesmo que os olhos continuem a comer as palavras. A escrita também pode ser o conjunto dum roubo aleatório no dicionário.

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    1. Infelizmente, todos temos destas dislexias. Mas não é erro, porque, entre as pp. 52 e 58, tem várias vezes a palavra «cela», só na p. 58 passou essa coisa ruidosa. Fez bem em dizer, agradeço e vamos mudar numa reedição.

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    2. ... e quem nunca se enganou que atire a primeira pedra ... há pessoas picuinhas, hein!? Estas deveriam ser recolhidas à cela ... ou à sela para galoparem num cavalo alado para bem longe ...

      Há casos em que se nota nitidamente que se trata de uma gralha, um descuido, mas se usarmos rapidamente a cabecinha encontraremos rapidamente, também, a palavra certa que irá preencher a lacuna e, assim, prosseguiremos a leitura, se esta realmente valer a pena ...

      isto digo eu, sei lá

      Cerafina Seleste da Cilva

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    3. Para enterrar na areia e não deixar a onda levar:

      "Donde pode nascer o amor? Talvez de uma súbita falha do universo, talvez de um erro, nunca de um ato de vontade."

      Marguerite Duras

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  3. Sim, essa da sela/cela é picuinhice! Está bem de ver que foi uma gralha uma vez que, mais à frente e mais atrás, a palavras está escrita correctamente!

    Grave, grave é ter de ler manuscritos absolutamente impróprios, lastimáveis, escritos por pessoas que se arrogam o juízo de dizer assim - eu até escrevo melhor do que "aquilo"! - Isto referindo-se a livros de escritores mesmo! Há para aí pessoas sem história de vida que se julgam escritores. Que se julgam criadores. Que julgam poder analisar ou criticar. Que julgam tanta coisa de si próprios! Que não sabem quase nada, que nunca ouviram falar de escritores e poetas fundamentais e que, doentiamente, meteram na cabeça que são ou podem vir a ser escritores e que nos impingem os mais pueris e péssimos manuscritos.E depois uma pessoa nem sabe o que há-de dizer. Para não ferir, não magoar, não ofender. E aquilo é tão mau, tão mau, tão mau que nem sei o que dizer. A bondade é grande pois que não existe a assertividade necessária para lhes fazer ver que o que escrevem NÃO PRESTA!
    Lobo Antunes tem uma frase certa: "O mercado está cheio de livros reles de autores reles!" É uma frase Antuniana mas absolutamente certa! E eles lá vão publicando: ou porque pagam a publicação, ou porque têm amigos nos lugares certos. Ninguém, nenhum editor mesmo, no seu perfeito juízo publicaria o que se vai vendo e lendo por aí. E também há aqueles textos gramaticalmente e ortograficamente imaculados, mas depois tudo é soturno, pesado, escurecido, lento, muito adjectivado, muitas memórias de infância, muita palha, muita treta sem nenhum interesse literário.

    Tudo isto ao pé duma simples gralha de sela em vez de cela, não é nada! Nadinha!

    Um cozinhado ainda se come, mais salgado, menos salgado, mais cru, mais cozido, mais quente, mais frio, mas um manuscrito que não presta?? É das piores digestões que imaginar se possa!

    Bolo Rei muito seco e esfarelado.

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    1. Cito uma parte do anónimo cometário:

      "E também há aqueles textos gramaticalmente e ortograficamente imaculados, mas depois tudo é soturno, pesado, escurecido, lento, muito adjectivado, muitas memórias de infância, muita palha, muita treta sem nenhum interesse literário."

      E, já que no comentário se fala em Lobos Antunes, faço uma pequena equação algébrica, posso?!

      La vai ela, então:

      Comentário = aos_últimos_muitos_livros_do_Lobo_Antunes.

      Pronto...

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  4. Confesso que também não tenho o dom da cozinha, embora de vez em quando me sinta inspirada e até funcione! O meu marido vence-me na cozinha, sem dúvida. Até tem um filho cozinheiro e acho que lhes está no sangue!
    Quanto a ler, há já uns anos que as gralhas me atrapalham. Por vezes, são parágrafos inteiros. Por vezes, chego mesmo a marcar as páginas (no trabalho tenho mesmo de marcar e corrigir, claro). Será deformação profissional?
    Há pouco mais de um ano detetei uma espécie de gralha no «Caim» do nosso Nobel: uma ovelha que passava a cabra e voltava a ser ovelha um pouco mais à frente. Aqui, mais do que deformação profissional, serviram-me as minhas origens rurais e a minha imaginação que dispara pelas paisagens do Saramago.
    Falei com o editor que me disse que o erro já tinha sido denunciado por outro leitor e que foi corrigido. Foi a única vez que o fiz. Já tive vontade de sugerir outras emendas... Mas, será que são sempre bem vindas?

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    1. Se me permite, sugira as emendas sem se preocupar com a forma como são recebidas. O que é preciso é que sejam boas.

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  5. Acabei de ler um romance recentemente publicado e muito aclamado pela crítica. No primeiro parágrafo de oito linhas há quatro comparações ("como"); no resto da página mais duas comparações. Para piorar, no segundo parágrafo, a palavra surge num contexto gastronómico: comer, comida, como (duas classes morfológicas). Pensei: se isto continua assim dá-me uma COMOção.
    Pequenos detalhes que poderiam ter sido corrigidos, se detetados e aconselhados por um editor atento. Pequenos detalhes que, no entanto, não beliscam a totalidade do romance.

    Por este exemplo se comprova que cada um escreveria de forma diferente o que os outros escreveram. Sempre foi mais fácil fazer um filho do que corrigi-lo. No caso da literatura parece que é ao contrário.

    Barrius

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  6. Ai, ai, tachos e panelas e livros e estantes...
    (excelente texto)

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  7. Hoje regressou ao tema que é o seu trabalho diário.
    Editar, separar o que presta do não publicável. Confesso que tenho uma certa sedução e curiosidade pela atividade do editor literário.
    E certamente porque ando longe dessa área, julgava eu que o editor podia (e devia) sugerir ao autor outra redação , outra palavra. Ou seja, o editor tornava o manuscrito num livro escorreito e com mais valia literária.
    A história, o solo, mantinha-se, mudavam era aqui e ali os arranjos.
    Tal como numa produção musical em que o papel do produtor é fundamental.
    Vejo que não é assim -- e aqui fico confuso pois não estou a ver bem o que é que o editor faz.
    Escolhe os livros a editar e bora para a tipografia ?
    Não há aquele tornear da frase, aquele corte dum termo menos apropriado ?
    Cumprimentos e continue com os seus posts . São minha leitura diária.

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    1. Desculpe se não fui clara: falava de um livro já publicado (por um outro editor). Leitura de lazer, e não de trabalho...

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    2. Acho que os editores, os revisores, enfim, os profissionais "a jusante" (pelo-me por escrever isto...) do escritor, devem ter muito, mas muito cuidado com o que fazem, não vá dar-se o caso de mudar-se o mundo do livro, veja-se o que Raimundo Silva fez na História do Cerco de Lisboa, vá lá que lhe calhou em sorte uma Maria Sara e as coisas lá se compuseram!

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    3. Ó Maria do Rosário, não tem nada que pedir desculpa. Eu é que lhe peço perdão pois parece que me julgou um crítico feroz e implacável do que escreve.
      Não senhora, eu gosto muito das suas reflexões e já lhe devo algumas descobertas.
      Por favor, continue a escrever este blog tão interessante.

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  8. António Luiz Pacheco17 de outubro de 2011 às 23:16

    Pois eu na cozinha sou um ás!
    A sério, e a malta confirma-o!

    Quanto à escrita, confesso que sou dos que às vezes leio com o lápis na orelha e vou anotando observações no rodapé, sobretudo quando encontro muitos disparates ou erros, e não é por excesso de sentido crítico ou perfeccionismo, não. É porque assim aprendo!

    Aprendi à minha custa, literalmente, a falta que faz um editor e suponho que um bom revisor.
    Acredito e percebi que beneficiam muito um livro, por mais que o autor seja um mais! Tal como um livro da autoria de um curioso - que acho que também têm direito a escrever - pode ser bastante melhorado pelo trabalho destes profissionais.
    Mas também me parece que se os editores só se dedicassem aos tais autores confirmados, nunca mais haveria renovação! A menos que estes saíssem de uma escola ou fábrica e a leitura era sempre a mesma...

    Quanto ao "os que têm" coisas para dizer ou uma vida com experiência, se à partida comungo dessa idéia , também a acho errada, porque um livro que me diz muito pode não dizer nada a um editor e outro que diga muito ao editor a mim diga nada... e até já aconteceu! Tudo por causa dessa diferente experiência e forma de ver.

    Saudações do campo - o mato ficou lá... por uns dias.

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  9. Acontece também com fotografar. Eu pego a câmera e gosto de tirar fotos de flores, plantas, enfim, natureza...mas quando vejo sites onde as pessoas discutem lentes, foco, distância, etc...acho tão chato que nem tenho vontade de comentar as fotos, embora sejam bonitas. Fico pensando que eles estão distantes da naturalidade, querem atingir o climax da teconologia, o que nem de longe é o meu caso!

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