Lugares donde não somos

Todos somos africanos, uma vez que era de lá, pelos vistos, o primeiro macaco capaz de dizer e pensar. Eu certamente que sou, embora só tenha estado em África três vezes e a primeira das quais já depois dos trinta. O meu bisavô esteve nas campanhas em Moçambique e casou-se com uma rapariga de Lourenço Marques; ela teimou em acompanhá-lo e acabou por morrer no mato com uma infecção oito dias depois de dar à luz a minha avó materna. Esta ficou entre os militares uns meses, amamentada pela mulher de um soba; e, depois de quatro anos na capital com a avó (da qual nada sabemos senão o nome), veio para a metrópole com o pai, onde viveu até se casar. O marido – um brasileiro provavelmente descendente de outro africano traficado – levou-a mais tarde para Angola, donde regressou ao fim de um ano com a minha mãe na barriga (concebida, portanto, em África). Interrompeu-se aqui o ciclo africano da família, mas tenho já um sobrinho no Brasil à procura de uma oportunidade de trabalho que, se não fosse publicitário, podia muito bem estar em Luanda a esta hora. Enfim, apesar da segregação em 1975, na sequência da maior ponte aérea de todos os tempos (meio milhão de pessoas!), todos somos bisnetos, netos, filhos ou amigos de retornados. (Muitos dos autores que lemos – Gonçalo Tavares e valter hugo mãe, por exemplo – nasceram nas ex-colónias.) E é deste retorno que fala o mais recente romance de Dulce Maria Cardoso – ela que viveu na carne o choque de deixar a terra que era a sua para se ver instalada com a família, a milhares de quilómetros, num hotel transformado em lar para tantos repentinos sem-abrigo. Muito lobo-antuniano na sua cadência musical e na recorrência de certos elementos-chave, este é um livro importante por muitas razões, entre elas a de dar a conhecer, envolta num feito literário de respeito, uma situação vivida por muitos portugueses que outros tantos desconhecem ou preferiram ignorar. Francamente contundente, ele tem assim mesmo a qualidade de fechar a chaga que abre, convidando-nos não só a perceber o outro lado, mas a estar desse lado (porque nos sentimos irremediavelmente mais próximos de Rui – o narrador adolescente – do que, por exemplo, da directora do hotel ou da mais simpática Teresa Bartolomeu, colega de liceu do protagonista). Com uma construção primorosa entre memória, sonho, maturidade e decepção, O Retorno, assim se chama o romance, faz-se ao mesmo tempo arte e documento e, como tal, não se pode perder.

Comentários


  1. Um livro a ler, sem dúvida.

    Obrigada por nos trazer esta informação.

    :)

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  2. A autora foi uma boa surpresa em Campo de Sangue. Aguardo por este Retorno. Obrigada pela sugestão. :)

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  3. António Luiz Pacheco21 de outubro de 2011 às 04:01

    Muitos de nós somos africanos sim, ainda que nados e criados no Bairro Ribatejano... sinto que de Europeu tenho muito pouco, pois nasci um homem de espaços e da luz, da largueza dos grandes rios que se abrem na paisagem, debaixo do Sol ardente e gosto das mulheres morenas de olhos escuros e do seu toque e temperamento quentes! Da comida temperada de sabores e aromas fortes!

    Por séculos demandámos as paragens onde fizemos sempre filhos em mulheres morenas de olhos escuros... há meia-dúzia de anos, descobriram uns quantos que afinal éramos europeus ... e viraram-se as costas ao Sul, ao Atlântico. Tivémos talvez a mais negra página da nossa longa história - os retornados! Gente que havia seguido essa tendência de partir para Sul, até levada a isso pelos governantes.
    Depois foram pura e simplesmente traídos e abandonados pelos outros governantes... eu assisti... tinha 20 anos e já entendimento para isso.
    Alguns tentaram de imediato reescrever a história, mas mal porque apressados e à luz de convicções falsas e imaturas... mas o tempo se encarregou de amadurecer as idéias e a história ainda vai ser escrita... já está a ser escrita.
    E como sempre a realidade ultrapassa a ficção.

    É certamente um bom livro, e mais porque nos fala daquilo que aconteceu. Fala-nos da nossa gente e de quem sofre e pensa como nós, que aspira às mesmas coisas e que foi maltratada.

    Um bom dia a todos, saudações do campo!

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  4. Há já algum tempo que queria conhecer a escrita da Dulce Maria Cardoso. Fi-lo há poucos dias com o seu primeiro romance "Campo de Sangue" E adorei! E, como já aqui disse há dias, "O Retorno" é o livro que estou a ler de momento. Belíssimo, sem dúvida! A escrita desta autora está a apaixonar-me . Tanto assim é, que vou comprar todos os outros romances dela. Acho que ela vai entrar diretamente para o Olimpo dos meus pequenos deuses:). Tem sido "um amor tão exagerado, quase uma doença" :).
    Mas acima de tudo, o que me mais me está a incomodar, é o facto de, só agora, ter-me apercebido verdadeiramente do drama dos retornados. Nessa altura eu tinha 11/12 anos e vivia nos Açores. Talvez por isso não convivi de perto com essa realidade. Mas outras realidades, geograficamente bem mais longínquas , são-me mais familiares. Não será essa a única razão, portanto. Quero com isso dizer, que houve, e ainda há, um enorme pudor em falar dessa realidade. Como uma espécie de vergonha coletiva que a escamoteia e a tapa. Penso que é uma memória nada edificante e muitíssimo dolorosa que faz com que tenha havido um enorme pudor em abordá-la. Por isso, à maneira que fui entrando no livro, não pude deixar de me sentir incomodada, diria mesmo, envergonhada, por chegar aos 48 anos, e desconhecer essa situação. Senti-la de uma forma tão superficial, ligeira, leviana até. Por nunca ter refletido a fundo nesse drama.
    Que mais nenhum motivo existisse ( e há seguramente a enorme qualidade literária da obra) estou muito grata à autora por me ter feito refletir e tomar consciência desse drama.

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  5. ‘Não sou ateniense nem grego, mas um cidadão do mundo’.
    Nós portugueses temos o sangue impregnado de Mundo e da mesma forma que desde pequenos estamos predispostos a comer certas coisas, sem sabermos que o fazemos porque cá dentro há memória de os nossos antepassados se terem construído com esses alimentos, também África nos pertence e nós lhe pertencemos.
    É muito mais fino ser-se da Europa do que de uma África desprovida de Asae, porém, somos o que somos, apesar de teimarmos em nos mascarar.
    O meu pai foi dos poucos da família a não ir para África e eu morria de inveja por saber que tinha família lá a viver, primos a nascerem e a viverem como víamos nas fotografias. Tias a casarem por procuração, com o irmão de braço dado como noivo e a seguirem nas barrigas de barcos enormes para terras cujos nomes eram repetidos por todos mas que ninguém tinha visto. Que inveja.
    E depois foi a enchente, as pessoas a chamarem retornado ao meu primo Helder e ao Alcides, com o mesmo tom que usavam para me chamar caixa-de-óculos na escola. Porquê? Eu não sabia. O pai deles foi dos últimos a regressar e fomos buscá-lo ao navio, Gil Eanes, se bem me lembro, e ele estava triste e eu pensava que também ficaria triste se tivesse que deixar um barco daqueles, com certeza seria por isso aquela tristeza, pois na altura eu não sabia que se podiam perder vidas continuando a viver.
    Estou ansiosa por ler.

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  6. pois meu pai nasceu em Moçambique por isso tb eu tenho uma costelinha africana. Pela sua apresentação, o livro deve ser interesante.

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  7. Vicente Lopes Saudade21 de outubro de 2011 às 08:39

    Agualusa diz que as fronteiras não existem. Tanto no sentido geográfico como, como é natural, no sentido literário. Agualusa nasceu em Huambo, em Angola, mas clama-se cidadão do mundo. Tem casa e família no Brasil e um apartamento em Lisboa. Português é a língua que fala e em que escreve, mas como indivíduo não tem fronteiras...
    Dulce Maria Cardoso, parece-me um caso semelhante. Confesso que não conheço nenhuma obra da autora, mas fiquei espicaçado com este post. Curiosamente já tinha ouvido falar da obra 'Retorno', creio que no Câmara Clara da RTP2.
    Na altura a capa do livro passou diante dos meus olhos e fiquei indiferente. Mas a descrição do livro e a história pessoal da MRP alterou o meu foco de atenção.
    Tenciono comprar o livro e ver se as estórias que o meu tio conta da Guiné, nomeadamente o seu retorno atribulado (regressando como soldado dizia-se louco e quase matou o irmão à batatada; claramente stress pós-traumático), se podem misturar com o regresso de milhares de pessoas, civis, originárias de outra cultura, cheia de cheiros, ditos e costumes exóticos mas, sobretudo, de sonhos.

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  8. Diz-nos um pedacinho de papel que somos isto ou aquilo. E o que nossa alma diz que somos não interessa? Hoje em dia quase todos querem ser cidadãos do Mundo. É chique ser-se cidadão do Mundo. Desfaçam-se as fronteiras, destruam-se as barreiras e, ainda assim, cada um será o que sua alma ditar. A minha pátria (não gosto desta palavra) é o lugar da minha infância e juventude. Sou, portanto, africana. Depois disso só me sobrou o fardo pesadíssimo que carrego há trinta anos e que a cada momento mais pesado se torna e que tem o nome cruel e vil de exílio. Eu não sou cidadã do Mundo. Sou estrangeira em qualquer lugar onde esteja e, principalmente, na terra africana onde nasci.

    Deve ser um livro maravilhoso, principalmente para aqueles que um dia retornaram. Não é o meu caso.

    Saudações.

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  9. Sumo sem laranja
    é seiva na madeira
    o barro sem oleiro
    fonte de cabeceira

    fronteira
    quando fora?

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  10. António Luiz Pacheco21 de outubro de 2011 às 15:39

    Já trabalhei e trabalho em África... Aquela mesmo! Sabem o que é comer jibóia?

    Um meu avô foi, e pagou, por ser apoiante de Norton de Matos - vão saber quem foi e verão que não é o jogador de futebol!
    O outro foi o penúltimo encarregado do governo da Índia Portuguesa. Também pagou...
    Meu pai fez as 3 campanhas africanas na guerra colonial! Também pagou!
    Somos por tradição e honra familiar, azuis e brancos! E não por apoiarmos o Pinto da Costa...

    Podia contar-Vos mil e uma histórias, vividas!
    Eu, até escrevi um livro, 1400 páginas... calhou e só foi comprado pelos meus 600 amigos... e a Cristina Torrão - que considero como tal!
    Tiive uma namorada retornada de Moçambique, Rosa Maria, desembaraçada e esperta, viva e belíssima, atlética como gosto, ruiva e sardenta, que veio de Moçambique com 7 anos, sózinha,
    de avião em 1974, para casa de uns tios na fria e seca terra transmontana!
    Contou-me... chorámos ambos e dois,nús, e abraçados por causa disso, ali por 1995 - um homem não chora... excepto os que pegaram toiros e tenham 11 pontos no queixo cozidos a sangue frio na praça de toiros de Évora!

    Não nos casámos... culpa minha, assumo!
    Re-casei depois com a namorada de um amigo capitão da GNR que morreu em África em missão humanitária... ele há coisas!

    Se um dia vos contar o que venho recolhendo...
    Talvez a drª Mª RP se interesse pelo livro!

    Saudações do campo!

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    Respostas
    1. No asfalto da cidade não havia jibóias. Antes houvesse e teriam servido elas para me aplacarem a fome.

      Qual a estranheza em se comer jibóia? É uma carne branquinha e saborosa. Pior, mas muito pior, é comer caracóis ...


      Saudações do asfalto

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    2. LOL eu também não sabia que se podia comer caracóis .</a> alias, eu nunca tinha visto caracóis .</a> senão quando cheguei à metrópole , em 1976. acontece que gostei daquilo. e como com muito gosto

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  11. Obrigada por este espaço fantástico.

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  12. Não me levem a mal esta observação. Não quero de todo causar polémica, nem ferir sensibilidades.

    Desde há bastante tempo que estou farto desta “história” de África. Claro que é apenas uma opinião pessoal e, possivelmente deve ser azedume meu. Mas parece-me que para um escritor ser levado a sério, as suas narrações têm que passar por África, pela guerra colonial, pelos retornados, ou então ser Africano. Eu sinceramente já enjoei. Espero não ser mal interpretado.

    Tomei conhecimento de “O Retorno” através da Câmara Clara e já comecei a dar uma ligeira vista de olhos no livro (ainda estou iniciar um do Stieg Larsson ). Pelo pouco que li de “O Retorno”, sem ter noção do todo da história, a escrita é sem dúvida muito boa.

    Não consegui no entanto notar nenhuma semelhança com Lobo Antunes, nem na técnica, nem no ritmo, nem em nada. Faz-me lembrar uma entrevista em que alguém afirmava que as obras de Lobo Antunes, retratavam as melhores descrições de guerra alguma vez escritas em Portugal. Ao que ele respondeu: “Em Portugal? Isso não é propriamente um elogio”. (Com toda a razão).

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  13. António Luiz Pacheco25 de outubro de 2011 às 14:29

    Não me parece que Lobo Antunes possa ser quem melhor retrata a guerra... ele não foi combatente! Pode retratar aspectos da guerra, sem dúvida- qualquer pode! Mas para retratrar a guerra-mesmo, havia que ter estado atrás de uma arma... o que não o põe de parte, enquanto médico, mas como um beneficiado do regime!
    Se calhar há (eu sei de alguns) médicos que não eram filhos-do-regime, estiveram em condições verdadeiras de guerra mas não escreveram sobre isso. Se calhar porque nem se sentiram incomodados pois sofreram ao lado dos soldados, no teatro de operações e não estavam no hospital central, longe dos tiros...
    Será essa a verdade sobre o "mito" do Lobo Antunes, que pensou sobre a guerra e a terá visto, mas não a viveu como combatente?

    Muitos ex-combatentes contestam-mo e criticam as suas posições como o aquilo que escreve.

    Apenas uma nota...

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  14. Não vejo que tenha que se estar na linha da frente para se descrever cenas de guerra. A escrita do Lobo Antunes vai muito além dessa questão. Mas enfim… é apenas a minha humilde opinião.

    O problema desse escritor, foi a infelicidade de nascer no País errado, onde impera a inveja e a mesquinhez.

    No entanto, tudo o que diz nessa nota são factos conhecidos de todos, mas ainda assim é muito discutível. É um assunto interessante, mas que dava pano para mangas. E como em quase tudo na vida, a verdade não está somente de um lado. (Embora por vezes possa estar).

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