Línguas estranhas
É lícito que um autor português – como, de resto, um autor de qualquer nacionalidade – aspire a ser traduzido e publicado noutros países. Em Portugal, lemos provavelmente tantos livros traduzidos como livros escritos originalmente em português, mas, por exemplo, nos países de língua inglesa, a produção nacional é tão extensa que quase não há espaço para a publicação de autores estrangeiros. Quando entrei na edição, para além dos escritores portugueses consagrados, quase só estavam traduzidos os que, por razões de credo político, haviam conseguido entretecer-se nas redes clandestinas que os faziam sair nos países da Europa de Leste (e, provavelmente, nem ali eram muito lidos). Nos anos 90 – em parte por causa da atribuição do Nobel a Saramago, que abriu muitas portas – a situação melhorou bastante, mas continua a ser ainda hoje muito difícil colocar os nossos escritores no mercado internacional – sobretudo o de língua inglesa; mesmo que o português seja falado por milhares de pessoas em vários continentes, ele é para o grosso dos países estrangeiros uma língua estranha que praticamente ninguém aprende ou estuda, pelo que, em geral, as editoras não têm, entre os seus quadros, ninguém que possa ler e avaliar uma obra portuguesa com vista à publicação. Mas também em Portugal acontece algo do género, pois a produção editorial de livros estrangeiros não vai muito além dos autores ingleses, americanos, franceses, italianos e espanhóis, traduzindo-se meia dúzia de russos e alemães de comprovado gabarito (mas poucos contemporâneos) e um ou outro nome mais sonante dessa Europa que fala línguas minoritárias (como o sueco, o húngaro ou o neerlandês). Por isso mesmo, muitos de nós desconhecíamos o mais recente Prémio Nobel da Literatura, o poeta Tomas Tranströmer, como desconhecemos certamente uma enormidade de autores que se calhar fariam as nossas delícias, mas que, infelizmente, não há quem possa ler e traduzir.
mas as razões são muito diferentes, Rosário.
ResponderEliminaros portugueses para serem traduzidos lá fora têm de ser muito bons ou ter uma grande "máquina editorial" por detrás.
os estrangeiros nem por isso. quando não são editados no nosso país é mais por desconhecimento e por não termos um grande mercado (as tiragens parece que são cada vez mais reduzidas...).
Luis Eme tem razão!!
EliminarBolo rei seco e esfarelado
No entanto, de cada vez que pegamos num livro português e lemos a "apresentação", somos informados que o escritor já foi traduzido em não sei quantos países... De "modos" que, ou é assim, ou é assado, não pode ser das duas maneiras!
ResponderEliminar(Embora eu saiba, mais ou menos, o que é a publicidade: basta ver nas contra-capas de montes de livros, o que disse o New Yor Times, o Expresse_não_sei_de_onde, o Times ali de cima, o Le Monde, etc, etc...)
Que a Maria do Rosário Pedreira me permita uma nota de um fã de Portugal, daqueles mesmo de verdade: creio que devia ter dito que o português é falado por milhões de pessoas... Claro que milhões também são milhares, mas talvez até pelo ditongo ões, dá logo a ideia de serem muitos mais.
É um problema sem solução e mais valerá abstrairmo-nos dele: com a actual diversidade é natural que não conheçamos tudo o que há a conhecer; nós perdemos algumas delícias, assim como outros perderão as nossas. Pouco a fazer, menos talvez seguir em frente descontraidos, atentos aos que nos estão mais à mão, sem desprezar os Tranströmers ou Gombrowicz que nos possam aparecer pelo caminho.
ResponderEliminarComo a asneira é livre... vou dizer disparates:
Eliminar-Confesso que não gosto da grande maioria dos actuais escritores profissionais portugueses!
Pronto está dito!
Nem gosto daquilo que escrevem, nem como escrevem... não estou a dizer que não escrevem bem (quem sou eu!) e sim que não gosto dos assuntos e da forma que usam de os tratar.
Também friso que falo dos "profissionais", pois há, e tenho lido coisas que acho muito boas de escritores de ocasião.
Como o Mundo é grande, há no estrangeiro pessoas a escreverem as coisas que gosto de
ler...
Ainda hoje comprei "A Sul, o Sombreiro" de Pepetela. E fiquei de olho no "Invencível", de cuja autora não fixei o nome mas é o próximo...
Estive a folhear dois éxemplares de autores nossos, muito reverenciados neste blog. Não me interessam, e é tudo...
Se calhar, como eu há muitos leitores e não vale a pena analisar se sou bom ou mau leitor, um bronco inculto ou pacóvio... o facto é que quem decide o que compra sou eu e não a crítica, os editores e creiam que nem o marketing nem o merchandising !
Saudações do campo!
Este é um daqueles casos em que a oferta supera a procura. Mesmo entre os americanos (com entrada mais facilitada no mercado nacional) há os que ainda escapam à tradução, como David Foster Wallace (alguém me avise se estiver enganado). Até podia arriscar a leitura em inglês, mas não sinto que domine a língua suficientemente bem para tal. E, havendo gente a viver das traduções (de forma tão mais capaz que eu), prefiro desfrutar do prazer da leitura pela leitura, em vez de conciliar a leitura com a tradução (tantas vezes trabalho árduo e a precisar de pesquisa). Admito que a tradução roube quase sempre (para não generalizar) a musicalidade própria da prosa original, a cadência... mas é um mal que terei que considerar menor. Para isso, teremos sempre os autores nacionais, que também os há, com qualidade. O Nobel de Saramago fá-lo ser lido em todos os cantos do mundo, Lobo Antunes impôs-se, talvez por também figurar entre as apostas para "nobelizáveis", Gonçalo M Tavares tem somado prémios fora de portas e Valter Hugo Mãe, a ver pela Feira de Paraty, também vai sendo reconhecido. Apesar de Lobo Antunes ser, entre estes que referi, o autor que mais me agrada, também é o que considero, pela "portugalidade" com que carrega os seus romances, o mais complicado de ser entendido no estrangeiro. Felizmente, isso nunca foi obstáculo bastante para travar o seu caminho de internacionalização.
ResponderEliminarCumprimentos
Lembro-me de alguém, creio que Eduardo Pitta, ter dito numa entrevista que "Portugal não é um país de escritores de ficção. Portugal é sim, um país de poetas". Algo como isto.
ResponderEliminarBom, eu até percebo a afirmação, mas é lógico que não é bem assim. O que se lê no nosso país é prosa ficcionada e muito pouca poesia. Acontecerá que a qualidade da poesia portuguesa ultrapassa a ficção? Não sei, não sou especialista, mas deve ser um facto.
E sabendo que os escritores também se fazem de vendas e de marketing, como poderia um bom poeta viver neste país, sustentar-se, afirmar-se dentro e fora?
Claro que depois existem os poetas da ficção, autores de prosa que escrevem como se estivessem a engolfar-se num poema. Mas são esses os autores lusos editados no estrangeiro? Não. São o Saramago com as suas alegorias, o Lobo Antunes com a constante "guerra revisitada", o Pessoa com as suas próprias sombras (representa-nos muito bem), a Agustina com o seu realismo incomum, Gonçalo M. Tavares com epopeias líricas e oníricas. Não me levem a mal, gosto muito destes autores, não de igual forma entre si, e até aprecio ler um policial, mas para mim a essência da escrita está na poesia pura, realista, de quase descrição, como a do senhor Transformer:
LISBOA
No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o retrato.
“Mas aqui!”, disse o condutor e riu à sucapa como se cortado ao meio,
“aqui estão políticos”. Vi a fachada, a fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.
Roupa branca no azul. Os muros quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:
“será verdade ou só um sonho meu?”
«Lisboa», poema publicado em 1966 e editado em português no volume 21 Poetas Suecos (Vega, 1980). Tradução de Vasco Graça Moura.
Sugiro a quem lê inglês (ou polaco) Andrzej Stasiuk, polaco e autor dum livro que se chama Fado.
ResponderEliminarBoa surpresa.
A literatura alemã contemporânea é praticamente ignorada e é pena. Está a perder-se uma parte da literatura depois da Queda do Muro de Berlim e que é um testemunho riquíssimo.
ResponderEliminarÉ difícil escrever em português, por duas razões. Primeiro porque, sendo uma língua falada por muitos milhões de pessoas, são pessoas que pouco leem. Segundo porque é uma língua de difícil domínio, rica, e por isto mesmo difícil. O inglês que virou um língua internacional pode ser escrito com algumas centenas de palavras. Não é o caso do português de tantas formas verbais, de tantas influências que o torna quase outra língua de acordo com o país onde falado. Nos meus escritos procuro mostrar estas diferenças com empregos de palavras dos diversos falantes do português e isto os tornam mais herméticos, porque as pessoas passam a não entender o tudo que quero dizer, as nuances de cada palavra de sentido por seus falantes. Acho que temos uma missão: reunificar a língua, mostrar o que ela se tornou e nos orgulharmos desta riqueza impar. Convido-os a fazer uma visita as meus blogues especialmente o noite-em-paris hospedado na plataforma do blogspot. Lá verão o esforço que faço para unificar a língua portuguêsa de forma que seus falantes possam ter o deleite de ver palavras de seu dia a dia fazendo parte do escrito e nele inserido com toda carga de sua significação.
ResponderEliminarhttps://noite-em-paris.blogspot.com/
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