Leitores

Quando fui a Cuba no início dos anos 90, levaram-me a uma fábrica de charutos em Trinidad, cidade belíssima, onde alguém me contou que em tempos os operários contavam com a ajuda de um funcionário que lhes lia romances enquanto trabalhavam. Também na Europa de Leste, em alguns países, era prática comum ler-se para os trabalhadores fabris, não sei se para os ilustrar, se para os entreter. Contudo, O Leitor de que hoje falo é um dos protagonistas do bonito livro de Bernard Schlink: um adolescente que se inicia sexualmente com uma mulher bastante mais velha, com quem mantém um ritual de banhos e leituras, descobrindo, muito mais tarde, que ela foi guarda num campo de concentração nazi. O romance já deu um belo filme – o que ajudou seguramente a que muitos comprassem o livro –, mas aqui fica mais uma chamada de atenção para um pequeno romance fascinante, traduzido em cerca de quarenta línguas.

Comentários

  1. Se não me engano as marcas de charutos "Montecristo" e "Romeo y Julieta" têm esses nomes por serem os textos preferidos dos torcedores das respectivas fábricas.

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    1. Que engraçado, Nuno, já tinha ouvido contar isso, mas sempre pensei que fosse um mito. Um mito cubano.:)

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  2. Uma belíssima história sobre o amor à leitura numa Alemanha ferida da guerra.

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  3. Muito belo, esse livro, muito bem feita a descoberta da razão pela qual ela lhe pede que leia.
    Em A Rapariga Que Roubava Livros, de Markus Zusak, a protagonista lê para os vizinhos dentro do bunker onde se abrigam aquando dos ataques. Acalma-os e ajuda-os a ‘fugir’ daqueles momentos.
    Sugiro igualmente a leitura de O Fim de Semana, também de Bernhard Schlink, cuja leitura nos remete para um universo muito ‘Amigos de Alex’, com a diferença que o Alex morreu e Jorg acaba de ser libertado de vinte e tal anos na prisão.

    A leitura em voz alta perdeu-se quase por completo e é uma pena que não a fomentem em hospitais, casa de saúde, lares, etc, em regime de voluntariado, para quem não pode ler.

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  4. Andámos 50 anos com o medo do Lesta e do comunismo que comia meninos ao pequeno almoço - no Ocidente é que era bom. Afinal, nem uma coisa, nem outra. Aqui poucos lêem e pouco se sabe, pior do que lá. Até uma figurinha dos telejornais descobriu algo acerca da vida de Cristo que lá há muito se afirmava e alguns aqui estão fartos de saber mais do que ele escreveu - armado em sabedor . Porquê a polémica em torno do Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago?

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  5. Os homens têem direito à bom combate. Uns mais efectivos, outros também.
    Leitor, leito, eito...
    Quem (deriva) também, constroe palavras. Polêmica na transmissão e por serventia, fora estímulo, enquanto permanece, renova.

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  6. O Evangelho de Saramago é uma obra singular e belíssima. De Cuba chegam-nos sinais de multiculturalismo único no mundo. Autores como Manuel Confinhos e gente com alegria e esperançosa. Nós, no Ocidente, ignorantes e arrogantes, tínhamos a mania, mas, afinal, estamos muito pior do que eles, cultural e economicamente, apesar das ajudas, em vez do boicote. O tal rapaz que vende milhares e milhares de exemplares, como se fosse negócio de castanhas, não presta como autor, já li dois calhamaços dele que não acrescentam mesmo nada, só vende porque as editoras apostam em figuras públicas, mais nada: não vou ler mais livros desse autor/repórter, por enquanto... Apesar das limitações e castrações democráticas, Cuba lê mais e melhor do que Portugal, antigo império e metrópole colonizadora que não lê e nem é capaz de se relacionar dignamente com as antigas colónias. Ultimamente editam-se umas quantas ficções saudosistas de uma vida injusta de opressão e de vileza - a guerra e o racismo.

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  7. António Luiz Pacheco25 de outubro de 2011 às 10:22

    Sem dúvida que o muro de Berlim servia justamente para nós não fugirmos todos para lá, só que hoje não o sabemos!

    Não creio que seja mais esclarecido o que alguns aqui postam hoje e agora, querendo ficcionar o que foi o "outro lado", do são os tais que ficcionam o "lado de cá"!
    Se calhar falta a estes novos saudosistas dos regimes que agora acham melhores, terem vivido neles e sentifdo na pele essa opressão...
    Aquilo o Soljenitsin (ou lá como se escreve...) foi invenção da CIA como o holocausto foi dos invenção dos judeus, ainda se concluirá aqui!
    Os médicos cubanos em Angola, cuja família fica refém em Cuba para eles poderem sair e que só ficam com uma pequena percentagem do que ganham, indo o resto directam,ente para o estado são todos uns mentirosos... eu bem me parecia! Está bem que se lê, mas só os livros que o poder deixa!

    Pela minha parte não me mantenho assim nem assado, porque como estou vivo todos os dias mudo e evoluo, e, não caio na tentação de olhar para trás e achar que era ou foi melhor aqui ou ali... eu cá fui feliz no meu tempo e ao longo desse tempos, com altos e baixos mas o balanço é positivo.

    Um bom dia para todos, aqui do campo!

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    1. Ainda bem que chamou a atenção para este aspecto, António Luiz. Incríveis, os comentários a exaltar a antiga cultura dos países comunistas!

      "era prática comum ler-se para os trabalhadores fabris, não sei se para os ilustrar, se para os entreter" - entreter?! Minha cara, os dirigentes desses regimes totalitários não davam ponto sem nó. E mesmo a palavra "ilustrar" é desadequada. Propaganda, isso sim!

      Vivo num país, cuja metade pertenceu a essa "vaga" de leste. Aqui, considera-se fazer pouco das pessoas, elogiar algum aspecto do regime em que viveram. E não me consta que os alemães de leste, que, quiçá, ouviram grandes obras literárias, enquanto trabalhavam, sejam mais cultos que os ocidentais. Pelo contrário! Ainda hoje se nota neles o "novo-riquismo", a ânsia do consumismo.

      Ainda há pouco estive em Magdeburgo (antiga cidade de leste). Acabados de sair de um centro comercial, estávamos um pouco desorientados e pedimos a um senhor, que ia a passar, que nos dissesse onde ficavam os monumentos mais interessantes. Ele já devia ter uns sessenta anos, era, por isso, do tempo em que ainda se lia para os operários. A primeira coisa que ele disse, foi: "atrás dos senhores, como podem ver, temos um bom centro comercial, com (já não sei quantas) lojas"!

      Pergunto-me que raio de romances lhes liam!

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  8. António Luiz Pacheco25 de outubro de 2011 às 10:24

    Bolas... tanta gralha! Será que o corrector foi à caça dos melros????

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  9. Vicente Lopes Saudade25 de outubro de 2011 às 14:17

    Grande filme, sempre adorei a Kate Winslet! O livro deve ser bom também. Vou espreitar...

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  10. o episódio da marca de charutos "montecristo" parece ter sido real.

    alberto manguel, no seu belíssimo "uma história da leitura" refere-o em pormenor.

    um outro apontamento delicioso é:

    «segundo mario sánchez, um pintor de key west que em 1991 ainda se lembrava de "lectores" lendo para os enroladores de charuto no final da década de 1920, as leituras decorriam em silêncio concentrado e não eram permitidos comentários ou questões antes do final da sessão. sánchez
    relembra: "meu pai foi leitor na fábrica de charutos eduardo hidalgo gato, do início do século até os anos 20. de manhã, lia as notícias que traduzia dos jornais locais. lia o noticiário internacional directamente de jornais cubanos trazidos todos os dias de havana. do meio-dia até as três, lia romances. tinha de interpretar as
    personagens imitando a voz de cada uma delas, como um actor". os operários que haviam trabalhado muitos anos nas fábricas eram capazes de citar de memória longos trechos de poesia e mesmo de prosa. sánchez mencionou um homem que lembrava todas as meditações
    de marco aurélio...»

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    1. Bem, isso foi muito antes do regime comunista, numa época em que nem sequer havia rádio. E, se o leitor conseguia mesmo dar vida às leituras, interpretando as personagens como um actor, seria um bom entretenimento para os enroladores, na sua rotina.

      Mas era assim em todas as fábricas? E até quando? Depois de se instalar o regime comunista, não tenho dúvida de que os enroladores só ouviam aquilo que o regime determinasse. E, na Europa de Leste, idem!

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    2. Apenas curiosidade:

      Anagnosta, s. m. Escravo romano que era obrigado a ler em voz alta durante os banquetes de seus senhores.

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  11. Vi o filme não li o livro. Fora os de Jane Austen, sempre me desiludem os filmes dos livros que li.
    A minha imaginação preenche os vazios de uma forma que o melhor realizador não consegue adivinhar.
    Leitor...Leitor da minha vida.

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