Contos
Já aqui escrevi sobre a dificuldade de publicar em Portugal colectâneas de contos. Talvez os portugueses prefiram romances, uma vez que, se o autor não é já bastante conhecido, raramente os contos vingam, sobretudo comercialmente. Pressionados pela nossa desconfiança em relação ao seu sucesso, nós, editores, só arriscamos quando o conjunto é realmente excepcional. Todavia, a iniciativa que a FNAC tem há vários anos de publicar no Dia Mundial do Livro uma pequena colectânea de contos, cujos direitos revertem para a AMI, é uma boa excepção. E a última edição de O Prazer da Leitura é uma grata surpresa. Não só porque inclui alguns nomes que trabalham frequentemente o género – como Ondjaki – ou mais sonantes – como Dulce Maria Cardoso –, mas também algumas das promessas da literatura portuguesa – como Afonso Cruz e Ricardo Adolfo – e ainda uma estreia completamente inesperada num livro de ficções: a de Onésimo Teotónio Almeida, que conhecemos melhor das crónicas divertidas e sagazes que publica há anos. Para uma viagem de autocarro ou uma hora na sala de espera do dentista, uma boa escolha – e suficientemente variada para agradar a todos.
Concordo. O conto é um fenómeno estranho em Portugal.
ResponderEliminarEste género literário é recorrente na maior parte dos autores que se estreiam na aventura da escrita. Romancistas hoje consagrados começaram pelo conto. Por outro lado, não são raros os concursos de contos promovidos no país, sobretudo por câmaras municipais, com adesão de um número significativo de concorrentes. Depois assiste-se ao imprevisto: a edição de contos não é viável por falta de leitores/compradores. Talvez seja uma reação psicológica à relação preço/género literário. Parte-se do pressuposto de que aquilo que é pesado e extenso é que vale o dinheiro. À boa maneira portuguesa. A própria palavra "romance" tem outro peso e outra valoração (nem que seja subjetiva). Desconheço a realidade fora do país.
Aprecio um bom romance. Mas prefiro um bom conto a um mau romance. Por outras palavras: vale mais 100 gramas de chumbo do que um quilo de palha.
António Breda Carvalho
Confesso que leio muito mais romances que contos. Mas creio que não se deve a nenhum preconceito. Penso que seja pelo facto da oferta ser bem menor. Há coletâneas de contos muitíssimo interessantes, sendo essa que referiu um bom exemplo. Trata-se de um pequeno grande livro que gostei imenso de ler. Apesar da heterogeneidade dos autores, os contos são todos muito bons. E permitiu-me conhecer dois autores da nova geração, até então completamente desconhecidos para mim.
ResponderEliminarEmbora mais conhecido como ensaista e cronista, Onésimo Teotónio Almeida já tinha publicado uma coletânes de contos, a deliciosa (Sapa)Teia Americana. que retrata exemplarmente a vida dos nossos emigrantes na "L(USA)lândia". E fá-lo com o seu humor tão caracteristico, captando o lado mais caricato do quotidiano. Mas sempre com enorme respeito e imensa cordialidade. Onésimo tem ainda uma outra faceta, também pouco divulgada, de dramaturgo. Recordo-me de duas excelentes peças "Ah! Monim dum corisco" também sobre a realidade dos nossos emigrantes na América e o genial "No seio deste amargo mar". Escrita há mais de vinte anos, li-a há pouco mais de seis meses e espantei-me com a atualidade e pertinência dos seus comentários. O autor coloca em palco diversas personalidades, todas já falecidas, do meio intelectual açoriano,todos em amena cavaqueira, comentando o passado e a atualidade. Desde Antero a Nemésio, passando por Teofilo Braga, Domingos Rebelo, Armando Cortes-Rodrigues até a personalidades que, não sendo açorianas, mantiveram uma grande ligação ao arquipélago, como Oliveira Martins e Raul Brandão. Fantástica ideia de fazer uma tertúlia na "Casa doa Açores da Atlantida". Os diálogos são fantásticos, muitíssimo engraçados, cheios daquele humor fino, tão caracteristico deste autor. Absolutamente delicioso.
Adoro contos! E não resisto a comentar precisamente porque quero aproveitar para mostrar a minha pena perante e interrupção da Ficções, uma revista de contos em tempos editada pela Caminho. Em alguns números havia mesmo a publicação de contos inéditos.
ResponderEliminarEm Espanha há uma espécie de tertúlias onde anónimos lêem contos apenas pelo prazer de partilhar uma história. Lembro-me de o meu pai me contar contos fantásticos ao serão. Acho que os contos são ótimos para isso: a partilha da leitura. É pena que isso não seja promovido em Portugal (pelo menos pelo que sei).
Quanto a livros de contos, o último que li foi o «Contos escolhidos» de Guy de Maupassant (tradução de Pedro Tamen ). Seria bem interessante assistir à leitura de alguns...
Também lamento muito o desaparecimento da Ficções.
EliminarTambém gosto de contos e tenho alguns exemplares da «Ficções» Estou a lembrar, dos tempos de estudo, os contos de Manuel da Fonseca, de Miguel Torga, de José Gomes Ferreira,...; estrangeiros, gostei muito dos contos de Virgínia Woolf (»A casa assombrada») e de Horacio Quiroga (»Contos de loucura e morte»), que me lembre agora; não sou grande leitora, a disponibilidade é pouca e a memória também.
ResponderEliminarNão entendo que se possam considerar menores por questões de tamanho, etc. Penso que não deve ser fácil escrever contos, porque, na verdade, romance e conto têm características diferentes; romance, conto e poesia são géneros diferentes e todos podem ter valor ou não.
Anabela F. e Mª Manuel Rocha:
ResponderEliminarPara quem aprecia contos não resisto a recomendar o último que li:" Um repentino pensamento libertador" do Kjell Askildsen . Fantástico livro! Todos excelentes, saliento o conto que mais gostei e que me arrebatou verdadeiramente :"As últimas notas de Thomas F. para o público em geral" Comovente retrato do enorme desamparo e solidão em que vivem tantos velhos. Mesmo tendo filhos. É uma pequena pérola.
Deve ser interessante.
EliminarQual é a editora?
Interesso-me muito por contos. Tenho um blog de contos com uns amigos.
J.Andrade Lobo
jmalobo@gmail.com
Eu sou absolutamente viciado em contos e leio-os como complemento de outros géneros ou vice-versa. Talvez os contos não vendam porque, à partida, não são publicitados como bestsellers antes de o serem. Não é fácil fazer marketing para contos. Contudo, há contos que valem mais do que qualquer romance, aliás, por vezes, só uma página de um bom conto, de um autor como por exemplo: Gógol , Dosteiévski , Tolstói , Machado de Assis, H. G. Welles , Melville , etc., etc., vale muito mais do que qualquer livro de hipermercado. Ups , esta última dava um bom slogan. ;)
ResponderEliminarHum... leio contos como leio outras coisas...
ResponderEliminarNem sou adepto nem contra... apenas leitor.
Não me parece seja um género menor como se dá a entender aqui, o que há talvez é o desábito (existe esta palavra?) mais de os escrever que de os ler... venham eles que a gente lemos!
E já agora que se tocou no assunto, ele há os romances e as novelas... esta designação parece ter caído em desuso, como outras. "Epopeia", se calhar também os contos caíram em desuso... de escrever e de ler.
Saudações do campo
Aquando da publicação do livro, Saramago dizia que "A viagem do elefante" era um conto, e não um romance. Mas foi e continua a ser classificado como romance desde então. Talvez pela sua extensão, é um romance. O conto é um género curto, oposto ao romance em termos de extensão. A acção decorre num curto espaço de tempo e o plot incorpora poucas personagens. Normalmente, pelo menos os melhores, os contos incorporam duas estórias: a estória visível e identificável por qualquer leitor, e uma outra de cariz moral, às vezes escondida como o submerso de um iceberg, tal é a importância da [i]moralidade!
ResponderEliminarPara mim os melhores contistas são o Borges, Gogol, Edgar Allan Poe. Também gosto do Torga, e de alguns contos do Chuck Palahniuk.
Chamo a atenção para os Novos Talentos FNAC 2011, disponível em livro nas lojas ou aqui: http://www.ntf-literatura2011.com/
Rosário, já noutra altura no seu blog se falou de contos. Continua a ser um dos meus géneros preferidos, para ler e escrever. Infelizmente publica-se pouco contos, e nem sequer tenho enviado os meus para lado nenhum (nem sequer sei que editoras deveria contactar...)
ResponderEliminarContos: um género maior! Muito difícil!
ResponderEliminarE também um género de literatura que se presta à trafulhice, ou seja, qualquer principiante e, sobretudo, os de menor "veia" escrevem contos. Entendem eles que escrever um conto é coisa simples, é como ir ali à cozinha beber um copo de água. É um instante.
Muitos contos já me passaram debaixo dos olhos por pessoas que querem à viva força escrever livros. Péssimos!
Claramente que ninguém se pode agarrar a um conto e dizer que escreveu um livro! E, normalmente, quem escreve contos não tem fôlego para romances ou para novelas. Para nada. Não tem fôlego para nada e o pouco que tem é melhor aproveitá-lo para outras coisas.
Quanto a Portugal, deve ser dos únicos países "cultos e civilizados" que não publica contos - quase nunca - como primeira obra. Entendeu-se que o conto é um género menor e que as pessoas não gostam.
Nada mais falso!
Se se fizesse uma sondagem, mesmo pela internet, a surpresa seria enorme!
Agora, atenção: um mau conto é pior que um mau romance! E maus contos é coisa que não falta!
Bolo rei seco e esfarelado
Agradeço à ana b a sugestão. Vou procurar :)
ResponderEliminar