O texto e o suporte
Nunca como nestas férias vi tanta gente a ler num e-reader. Bem sei que a maioria desses leitores provinha de países estrangeiros – falavam inglês e neerlandês, sobretudo. Mesmo assim, parece que a coisa veio para ficar, e reconheço que, se tivesse de ler, por exemplo, para uma tese durante as férias, essa seria a melhor forma de levar comigo a bibliografia (levei oito livros numa pasta, que pesava bastante, e não era trabalho). Confesso que ainda não me habituei a ler livros num ecrã – gosto de folhear, dobrar o cantinho, ler duas passagens de páginas distantes em simultâneo, dividir o livro entre o que já li e o que ainda falta com o polegar, tudo tiques que, na máquina, seriam mais ou menos impraticáveis. No entanto, desde que herdei um iPad do Manel, já não o dispenso e quase todas as noites o ligo para investigar alguma coisa, nem que seja o nome de um actor que me escapa ou assistir ao trailer de um filme que vai dar na televisão e quero saber se vale a pena trocar por um livro ou por uma boa conversa. No fundo, porém, acho que aquilo que importa realmente é o texto, e não o suporte, e admito que estes livros virtuais possam ser realmente mais práticos de arrumar (o que eu não teria poupado em estantes) e mais ecológicos. Ao mesmo tempo, lembrando alguns textos de poesia de autores como Apollinaire, nos quais a forma era também o conteúdo (se é que isto se pode dizer), pergunto-me se estes dispositivos (nos quais se pode aumentar a letra a gosto, alterando as linhas e, consequentemente, o formato do texto) não poderão de algum modo subverter as intenções originais de um autor.
Onde nasce a capacidade para a tentação? Ora da facilidade, porém o aprimoramento consciente deve comportar-se como regra.
ResponderEliminarMas haverá sempre um charme no papel.
ResponderEliminarToda pertinência. Talvez Ipads etc marquem a estética de novos tempos, mas que subsistam os livros - para nós que deles gostamos. Lembrei-me de Clarice Lispector , em A Hora da Estrela, quando diz que, muitas vezes, a forma faz o conteúdo - quando quase tudo já foi dito, dizer melhor ou de modo diferente faz a diferença!
ResponderEliminarEstá aberta a discussão!..
ResponderEliminarSe verificássemos as vendas de um autor best-seller como é James Patterson, vemos que quase metade dos livros que vende é em formato e-book, segundo a Amazon.
E existem (lá fora, no estrangeiro) n escritores (na sua maioria de literatura light) que vivem apenas da venda de e-books.
O livro electrónico está na moda e veio para ficar, mas como já foi dito, nada substitui o charme do livro tradicional, em papel.
Como diz Umberto Eco (forte candidato ao Nobel 2011) "Electrônicos duram 10 anos; livros, 5 séculos".
Está tudo dito
Nada mais presunçoso, e mais perigoso, do que este "está tudo dito". Mas está tudo dito porquê. Porque Eco disse? Porque é és.Sá a opinião do Anónimo.
EliminarPeço desculpa em nome da maldita correcção automática. O que eu queria dizer era: "Porque é essa a opinião do Anónimo?"
Eliminare-book para quem é bacalhau basta......e o cheiro, e o sabor, e o olhar, e a posse, e a companhia de alguém ao nosso lado que só os livros em papel nos poderão proporcionar....
EliminarÉ-me indiferente que os livros morram mas depois de eu morrer, mas é pena que eles nem saibam nem sonhem.....
Nada tenho contra e-readers" e e-books", e acho que mais tarde ou mais cedo vou acabar por tê-los. Assim como assim, já tenho muitos livros em papel e aquilo ocupa bem menos espaço. Acontece apenas que peguei num Kindle da 1ª geração e não gostei da maneira como a maquineta simulava o virar de página: havia para ali uns refrescamentos de página que me deixavam os olhos pouco confortáveis. Resolvi então ficar à espera que os early adopters" fossem pagando por mim a inovação tecnológica, e assim tenho estado.
ResponderEliminarTodas as razões (bem, quase todas) me apontam para a leitura electrónica. Depois penso na casa vazia de livros, no cheiro característico dos livros, no toque, no peso.
ResponderEliminarSerá uma questão de hábito e tempo. Também nunca gostei de computadores e no entanto devo ter sido das primeiras pessoas neste país a fazer um curso de programação, ainda no tempo dos cartões perfurados. Não gosto mas uso-os há anos e têm-me dado bastante jeito.
Por enquanto vou usando os dois.
E para quem pensa que os livros em papel são eternos, deveria ler pelo menos o prefácio de um livro de Stanislaw Lem, “Manuscrito encontrado numa banheira”, ou o “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury.
Há muito tempo, inícios dos anos 50, o meu avô comprou-me o primeiro, "Os Pesacdores de Pérolas" de Emilio Salgari, era então a Feira do Livro em redor das fontes do Rossio.
ResponderEliminarDias depois, panhou-me a marcar o livro dobrando o cantinho da página. Conselho sério: não se faz, estraga o livro, há outras maneiras e disse que devia andar com tiras de papel, um pouco acima do tamanho do livro. Até hoje.
Que diria ele face ao i-pod, ao e-reader, al e-book?
O E-reader até pode ser útil para estudar, para ler teses ou outras matérias de carácter profissional, mas para desfrutar do prazer da leitura de um romance nunca ganhará ao livro em papel. Não creio que ler um livro em formato e-reader numa esplanada, proporcione o mesmo prazer que ler um livro em formato papel.
ResponderEliminarsei que é o futuro, mas continuo à espera que a inovação os torna mais próximos do livro, mesmo que não seja de papel, nem tenha o seu cheiro característico.
ResponderEliminarsei que "amanhã" vou ter de comprar um.
mas enquanto amanhã não chega...
Fala-se dos livros vs E-Books. Das vendas no estrangeiro. Da influência e preponderância nos EUA e Inglaterra (países de língua inglesa), como se tivéssemos já a perder uma corrida que ainda agora começou.
ResponderEliminarPara economizar espaço, comecei a pensar num ebook, porém a quantidade de livros existentes em língua portuguesa é ridícula. Agrava a situação, ainda mais, o custo que os livros têm em formato E-book e formato de livro. Parecem os descontos da Fnac...
MiC - essa dos descontos da FNAC é boa, só o custo anual do cartão "come" os descontos de dois anos...é um fartote...
EliminarNão gosto de ler sem ser em papel. Porém, há dias estava emparceirada num banco do metro com uma mulher que lia numa 'maquineta'. Faltou a luz, eu fechei o meu livro e ela continuou como se nem tivesse notado a avaria. O escuro foi meu aliado e escondeu a minha inveja.
ResponderEliminarPara ler documentos de trabalho, o computador serve (ainda que se for para corrigir quasi-últimas versões, prefiro imprimir)... literatura, só em livros verdadeiros.
ResponderEliminarTambém não me vejo a prescindir dos livros em papel, do seu cheiro, do toque, da capa, das badanas, dos marcadores, até mesmo das estantes, quantas vezes tão desarrumadas... Mas que já lemos muito sem ser em papel, já. Uma prova disso são os blogues como este. E valem bem a pena, também pela facilidade de podermos todos trocar impressões. Talvez haja aqui alguma oportunidade para fazer novos «formatos» de livros, construídos a várias mãos, por exemplo. Talvez estas novas ferramentas nos obriguem também a reformatar o que podemos esperar de alguns livros. Não sei, mas isto dá que pensar.
ResponderEliminar