Mais vale tarde

O Manel costuma dizer que, quando acabar o mundo, os estrangeiros podem vir para Portugal, pois aqui as coisas costumam chegar com alguns anos de atraso. Foi isso que aconteceu com a edição da obra de J. Rentes de Carvalho, escritor português bastante conhecido na Holanda, onde vive, e em Portugal praticamente ignorado até há pouco tempo, quando a Quetzal resolveu começar a dar à estampa a sua obra. E eu, para que conste, estou cheia de ciúmes porque gostava de ter sido eu a fazê-lo, mas, para que também conste, andava na mesma ignorância dos outros (e tinha, ainda por cima, obrigação de estar mais desperta). Enfim, o que importa é que já nos podemos deliciar com os livros de Rentes de Carvalho e acabo de ler o primoroso La Coca, que daria um filme tão bom como Cinema Paraíso misturado com Às Segundas ao Sol e que trabalha a memória num sentido algo proustiano, mas (não me matem) bastante menos chatinho. Na contracapa chamam-lhe um pequeno romance por não chegar às 200 páginas de letra algo miúda, mas é um grande, grande, romance de formação que é imperioso ler. Tomando como ponto de partida uma investigação sobre o tráfico de droga no Minho e na Galiza para um livro ou uma reportagem que o narrador (o autor?) escreverá, este livro tem personagens absolutamente inesquecíveis e riquíssimas quer do ponto de vista humano, quer literariamente, entre velhos contrabandistas, traficantes, «brasileiros» ricos, uma preceptora francesa, um lorde enfiado numa quinta cheia de obras-primas impressionistas e até – a sério – o próprio Picasso. A não perder. E agora, assim haja tempo livre, o autor já não me escapa.

Comentários


  1. Bastou ler algumas linhas desse grande escritor para perceber tudo.

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  2. Estarei baralhada? Este título não foi editado há cerca de dez anos, com o título, A Coca? O Rebate, talvez o mais conhecido do autor já foi editado e reeditado em Portugal. O Joalheiro, Ernestina e A Amante Holandesa também têm edições portuguesas. Outras obras não sei se as têm, mas Rentes de Carvalho está presente na nossa língua, e ainda bem! A Quetzal pode ter o mérito de o relançar, mas o meio esquecimento onde tem andado é apenas dos leitores.

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    1. normalmente não respondo a comentários, mas desta vez não resisto, "Areias".

      como é que a culpa pode ser dos leitores, se o autor era desconhecido, inclusive para os editores, como era o caso da Rosário?

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    2. aliás, "Areia às Ondas" e não "Areias"...

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    3. O problema dessas edições mais antigas é que estavam muito mal distribuídas, razão por que muitos de n´so, leitores, desconhecíamos praticamente o autor. Mas a palavra «relançar» é melhor. Os meus ciúmes são, porém, os mesmos.

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    4. Caros Leitores (????) ....
      Desconhecido, desconhecido ??? Sé se for para quem não entende a palavra "leitores" como eu a entendo !!!! Desde há mais de 30 (TRINTA) anos que persigo afincadamente todas as pequenas edições de Rentes de Carvalho... pelo Porto e em Lisboa, até já cheguei a ir a Santo Tirso comprar "O Milhão" e "O Joalheiro" em primeiras edições. Tenho tudo o que foi editado há muitos anos!!
      Quando dizem escritor "desconhecido" só me fazem rir .... quem gosta de literatura há muito o conhece e aprecia, e para que saibam nas bibliotecas existem livros dele, é só procurar... !!
      o problema tem sido o nível dos editores em Portugal de há uns anos a esta parte.
      Saúde a todos.


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    5. Ó Maria Teresa: o Rentes de Carvalho era, até há cerca de três/quatro anos atrás (no máximo), um absoluto desconhecido da grande, grande maioria não só do grande público (desse são todos desconhecidos) mas dos leitores. E desconhecido é isso mesmo o que alguém aqui já referiu: eu cheguei a ir Stº. Tirso comprar uma 1ª. edição..............

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  3. também gostei de "La Coca", como já tinha gostado da "Amante Holandesa".

    agora estou a ler "Os lindos Braços da Júlia da farmácia" (só este título é um hino...).

    é um autor que escreve de uma forma simples e bonita (não anda às voltas com as personagens nem as obriga a fazer o pino), caracterizando muito bem as pessoas que entram e saem das suas histórias, dando-nos a sensação que as conhecemos, tal é o realismo que imprime nas suas páginas.

    não conheço todos os autores que surgiram nos últimos anos, mas aquele com quem me identifico mais é o J. Rentes de Carvalho.

    (tenho uma falha grande, de todos os novos autores, o único que ainda desconheço é o seu querido Valter Hugo Mãe...)

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  4. Pelas descrições que aqui li, fico cheia de vontade de descobrir este autor, que afinal tem livros publicados em Portugal desde 1971: http://www.jrentesdecarvalho.com/nl/frame_bibliografie.htm.

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  5. Quem deixaria passar uma provocação?

    “Se de quando enganar a morte, respondo porque os estrangeiros vêem para Portugal”.

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    1. Não temos vivido entre vos desregradamente, nem temos comido de graça o pão de ninguém: com trabalho e fadiga labutamos noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vos.
      2Ts 3,7

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  6. Obrigado pela coragem de confessar o inconfessável: Proust é por vezes chatinho ! Nunca consegui ler "La Recherche" de cabo a rabo... estou perdoado. Grato também por referir nova edição de livro de Rentes de Carvalho de quem li estas férias o maravilhoso "Com os Holandeses". Anteriormente, dele só tinha lido crónicas avulso que apareciam, por exemplo, no JL. "La Coca", que desconhecia, passou a estar na minha lista de compras. Obrigado pela sugestão.
    Artur Águas

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  7. O J. Rentes de Carvalho é um transmontano de gema que divide o seu tempo entre a Holanda e Trás-os-Montes (cada vez passa mais tempo cá) e que escreve de uma maneira muito atractiva. Pena que tenha tido reconhecimento na Holanda...muito antes de começar a ser conhecido em Portugal.

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  8. Vou agora à biblioteca e vou procurar:)
    Obrigada!

    Cláudia Moreira

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  9. Todos os que li até agora: Ernestina, A Amante Holandesa,
    Com os Holandeses, são fundamentais. E, mal de nós, fundamentalmente irrelevantes neste cada vez mais embrutecido país, entregue ao triunfo da estupidez e à arrogância da ignorância mais desavergonhada.

    Costa

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  10. A Aditora Escritor editou pelo menos cinco obras deste autor.
    Na altura, uma editora que fazia questão de só editar autores portuguesas, acabou por ter de encerrar.
    Bem haja Leonardo de Freitas.

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  11. É difícil encontrar escrita mais escorreita, mais certeira, mais... depurada. É um gosto, ler as suas palavras; naquilo que escreve concentra uma energia, um sentido, uma razão, que muitas vezes me tira o fôlego. Estupendo, é pouco. Viciante, para mim, já 'explica' melhor.
    E depois, é...'sério'. Também me falta a forma exacta de traduzir isso...; aquilo que conta, o que transmite, tem uma...'pureza' especial, não divaga, não inventa rodriguinhos, não fantasia, é objectivo, apurado, certeiro, justo.
    É o absoluto pedagogo da forma para a função.
    E recheia tudo com a emotividade disfarçada dos homens sisudos, um pudor de escola de antanho, um cavalheirismo que lhe advém de por aqui passear a sua sensatez há uns tempos.
    Que nos mantenha felizes e que, sabendo-o, fique também um bocadinho mais animado.
    Gosto muito dele.

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  12. "Com os Holandeses" foi o único livro que li deste autor, e digo-vos, foi uma descoberta sensacional, que bem retrata aquele povo. Vale a pena."Os lindos braços da Júlia da farmácia" será o próximo que tenciono ler.

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  13. Eu nunca disse, aos meus conhecidos, em conversas sobres autores, livros, etc., que Proust é um "chato", para não parecer (mais) ignorante.

    Tirou.me um peso de cima, Maria do Rosário Pedreira... Obrigado!

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  14. Ando agora a ler um livro deste escritor -- Os lindos braços da Júlia da farmácia.
    Estou a gostar bastante. Os contos de Rentes de Carvalho trouxeram-me à memória um escritor português de há 40 anos atrás.
    Refiro-me a José Rodrigues Migueis.
    Também emigrado, também contando histórias passadas lá fora.
    José Rodrigues Migueis está um pouco esquecido e é pena. Nunca esqueci o livro Leah e Outras Histórias.
    É um gosto lê-lo (e relê-lo, pois já voltei a pegar no livro), tal como tal a ser com J Rentes de Carvalho.

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    1. Do José Rodrigues Miguéis, um grande escritor português, vale a pena ler "O MILAGRE SEGUNDO SÃO SALOMÉ", através do qual se põe a nú uma das situações menos claras da história (da igreja) portuguesa.

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  15. Olá Rosário, que engraçado, tinha escrito há precisamente dois dias sobre este livro (http://vespaaabrandar.blogspot.com/2011/09/la-coca-uma-pequena-historia-do.html) e em tempos sobre «Ernestina »(http://vespaaabrandar.blogspot.com/2011/02/antes-tarde-que-nunca.html).

    Ambos muito bons, aos poucos irei certamente ler os outros... e como compreendo a sua incredulidade em não o ter conhecido até agora...

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  16. Também eu só tardiamente conheci este portentoso escritor através do blog de um amigo. Sendo quase conterrâneo, moveu-me a curiosidade e comprei o livro que tinha saído na altura - A Amante Holandesa. O livro "agarrou-me" de tal modo que quase via as sequências do mesmo e jurava que se desenrolava na aldeia de Bruçó, Mogadouro.
    E a partir daí devorei as postagens do seu blog http://tempocontado.blogspot.com/.
    Havia outros livros da Quetzal já publicados e que na altura nem sempre se conseguiam encontrar. Mas fui procurando e li Com os Holandeses e logo a seguir Ernestina.
    Considero este livro o melhor retrato do modo de ser dos transmontanos. A seguir Tempo Contado, La Coca e Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia.
    Procurei também as publicações antigas e encontrei A Sétima Onda. Dos outros nem rasto! Espero que a Quetzal continue a publicar a sua obra e sobretudo que o J R de Carvalho tenha muita saúde e nos continue a mimosear com as suas pérolas.



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