Tempos difíceis
O País vive tempos extremamente difíceis e vai de férias ainda relativamente anestesiado, pronto para queimar os últimos cartuchos antes do choque frontal que receberá no regresso e se fará sentir sobretudo no último trimestre do ano, com a «rapina» de parte do subsídio de Natal. Para os livros, a situação é má – já se diz que fecham livrarias icónicas, que as distribuidoras começam a não pagar às editoras e que as editoras mais pequenas não terão como subsistir (e isto sem falar no aumento do IVA no livro, do qual, se calhar, não nos livramos). Li algures que o segmento de mercado mais afectado será o dos leitores ocasionais, que vão ao hipermercado comprar bens de primeira necessidade e antes adquiriam um livro por impulso, mas, com a crise, já não o poderão fazer. E tinha, apesar de tudo, alguma fé nos que têm hábitos de leitura enraizados e que, quiçá fazendo parte da classe menos afectada, continuariam a frequentar livrarias e a não resistir a uma ou outra novidade. Parece, porém, que até esses estão a criar resistência aos gastos desnecessários, conscientes de que têm lá em casa imensos livros que ainda não leram e que lhes devem dar agora, com toda a justeza, uma oportunidade. Numa conjuntura como a que vivemos, também creio que qualquer leitor que só possa comprar um livro apostará mais depressa num autor consagrado – retorno garantido – do que num principiante. Ora, dedicando-me eu há doze anos a lançar novos escritores, nunca fui de férias tão preocupada. Com os meus autores, com o meu emprego, com o que o futuro me reserva.
A sociedade de mercado ou capitalista baqueou. Todos ou quase todos sabemos disso. Houve quem tenha afirmado de que estávamos no paraíso e o Japão era o expoente - é mentira. É preciso inventar novos meios, temos de continuar a sonhar e a construir - a instrução e a cultura é indissociável de um progresso económico e social de bem para com a natureza e a humanidade. Não faz sentido insistir na paranóia dos banqueiros e dos especuladores de bolsa. Os livros serão imprescindíveis, desde que verdadeiros, formativos e não aberrações de propaganda ou meros objectos de negócio, como se fossem trapinhos para usar e deitar fora. Ultimamente as editoras e as distribuidoras inundaram o mercados com essas revistas de gentinha e folhetins de vida privada de autores conhecidos da TV. Se calhar não são eles a escrever, alguém terá essa tarefa : Assim não vale... Admiram-se com o surgimento dos monstros como o da Noruega? Alguma editora edita obras de grande divulgação multicultural para que se possa conhecer e respeitar a diferença? É só aventura e violência: na literatura, no cinema, nos jogos...
ResponderEliminarQue raio, agora é que fico confuso e quase com medo! Então, o "monstro da Noruega" foi provocado pela profusão de leitura delicodoce e pela exposição ao pessoal televisivo cor-de-rosa?!... calma, pessoal, estou certo que no Verão de 40 os nossos avoengos tinham mais razões para temer a rentrée.
EliminarAcrescente-se à crise o novo AO. Pela minha parte não vou comprar livros (seja de quem for) naquela ortografia - e conheço muita gente decidida a fazer o mesmo.
ResponderEliminarTive um ancestral que se insurgiu contra a instalação dos primeiros postes eléctricos lá na aldeia beirã, duma maneira que ficou famosa na família e cujo relato atravessou gerações. Mais tarde, entre outras coisas, vendeu lâmpadas.
EliminarPresumo, então, que o senhor vá deixar de comprar livros (se anteriormente o fazia). Mas aconselho-lhe alguns livros anteriores aos acordos dos anos 30, com ph y e duplo ll usados frequentemente, caso queira.
EliminarOs que me interessavam, desses, já tenho. Obrigado.
EliminarNunca tive um ancestral, mas fico muito contente por saber que V. teve um.
EliminarO seu antepassado era um vira-casacas, portanto. Está no sangue.
EliminarAcho que deve ter tido algum: ancestral, antepassado, ascendente, avô. O que referi era do tempo da ortographia e também acabou por se adaptar ao f.....
Eliminar«... antes do choque frontal que receberá no regresso e se fará sentir sobretudo no último trimestre do ano...» quando se virem confrontados com a aquisição de livros escolares.
ResponderEliminar(Quantos milhares serão?)
O Natal vem depois; o «sapatinho» com as solas rotas
É complicado sim.
ResponderEliminarEu, sendo uma leitora enraizada, estou cada vez mais a comprar livros em feiras do livro e em promoções, deixando para depois os livros novos e que gostaria mesmo de comprar..
E pensando que tenho mais de 200 livros por ler em casa, ainda sinto mais isto...
É nesta hora que a sociedade de tradição mostra por cerne sua construção ao preparo de novos fundamentos. Os editores em conjunto com livreiros devem ter sua representatividade e força de escoar a produção para diversos países da Língua Portuguesa. A cultura soma resoluções e apoio através de embaixadas e comércio exterior para feiras e estandes, garantias à distribuição para inclusive aprimorarem a qualidade e a circunstância da importante referência, abrigo e temas avaliados pelo compromisso assegurando a identidade formadora de novas gerações e que não sejam vertidos embustes, mas sucedâneos ao resgate e formação cujos empenhos justifiquem o bem para humanidade. Há um potencial de mercado no estrangeiro e é da competência portuguesa acionar estes meios para que haja garantias desta causa e promoção da mesma.
ResponderEliminará já muito que trago livros de uma biblioteca publica para ler e por regra só os compro em feiras do livro. O que vivemos até agora não é nada comparado com o que vem aí depois das férias. Com certeza que todos partilhamos as suas preocupações relativamente ao país, ao emprego e ao que o futuro nos reserva, no entanto cada um deve a cada momento fazer o seu melhor no seu trabalho (quem o têm), também os que não têm trabalho se devem dedicar a tempo inteiro e com mais afinco à sua profissão que neste momento, é apenas uma - Procurar trabalho - e para isso têm de ser metódicos e disciplinados em todas as fases do processo de procurar trabalho.
ResponderEliminarA MRP e todos nós temos de nos preocupar em fazer cada vez melhor o que sabemos fazer, em melhorar competências, só assim poderemos enfrentar com maiores probabilidades de êxito as eventuais adversidades que a vida, o trabalho ou a falta dele nos colocarem.
Há que ter a esperança em dias melhores e cada um tem de fazer a sua parte.
MRP, não é caso para menos, o pior estará para vir e será certamente muito duro.
ResponderEliminarEu dou razão ao Paulo Oliveira quando diz que nos habituaremos à nova situação, tal como o seu familiar vendedor de lâmpadas, até porque não teremos outro remédio.
Nós temos estado a viver três problemas simultaneamente a que muitos portugueses ainda não deram a devida importância, relegando todas as culpas para a incompetência de quem nos tem governado:
1.º ─ O problema da adaptação às nossas novas fronteiras após a perda do Império.
2.º ─ O desafio da concorrência no seio da UE.
3.º ─ O desafio da concorrência no quadro da globalização.
A incompetência de quem nos tem governado, para além de ser um problema em si, tem sido também geradora de mais dificuldades para enfrentar os três problemas que enunciei.
O resultado é a crise que vivemos, e viveremos por mais uns bons anos, cujas consequências nas áreas da vida não essenciais à subsistência, como a dos livros, terão efeitos devastadores em vastas camadas da população, incluindo as que habitualmente compravam livros e liam.
Haveremos de nos readaptar, sobreviverão os mais fortes, como sempre. Tenho pena das pequenas editoras, quantas vezes as mais criativas e interessantes, e dos pequenos livreiros, esses grandes divulgadores da literatura e dos livros.
Estranho seria se passasse incólume entre as gotas da chuva... A crise afeta tudo e todos. Com exceção do mercado de artigos de luxo. Estranho mundo esse!
ResponderEliminarBookaholic convicta, ainda não comecei a cortar nos livros (mas já cortei em muita coisa...), mas estou certa que é apenas uma questão de tempo. Receio que irei fazer o que a MRP refere no post e atacar os livros que vão ficando para trás, por manifesta falta de tempo.
E, tal como o Manuel, lamento a sorte das pequenas editoras e pequenos livreiros . Embora economicamente pequenos, são grandes, na sua paixão pelos livros.
Leio este blog religiosamente. Sinto, como muitos, dificuldades financeiras. Compro livros numa quantidade exagerada e não tenho tempo para ler nem metade (trabalho + bebé de 1 ano). Sei que não vou poder continuar a comprar livros desalmadamente, mas de uma coisa tenho a certeza: será neste blog que irei escolher o "livro do mês", como faço todos os dias (vários "livro(s) do mês" ;-)). Até hoje nunca fiquei desiludida com um livro que li baseado num "post" seu. Conheço o seu valor como escritora, mas nuca me canso de elogiá-la como editora. Já me apresentou tantos escritores fantásticos que é impossível não acreditar nas suas escolhas. Por isso, pela minha parte, pode descansar que continuarei a acreditar nos seus autores portugueses e a comprar as obras deles. Continuação de Bom Trabalho!
ResponderEliminarObrigada, Maria João.
EliminarOra, é justos nestes tempos que se necessita de bons profissionais; em tempos de gordas vacas qualquer gráfica posa de editora; mas no tempo do pasto seco não há margem para erro; ademais, preocupar-se só aumenta o problema: faz-se o possível e deixe o resto com a vida.
ResponderEliminarÉ inevitável que a conjuntura nos afete. Eu, que tenho a sala forrada de livros e que muito raramente ia a uma livraria sem trazer de lá dois ou três, penso hoje sempre duas vezes antes de comprar um livro. Será mesmo, mesmo bom? Valerá a pena passar à frente dos que cá tenho?
ResponderEliminarE cada vez mais vou enveredando por outro caminho, o da compra de livros online em inglês, em paperback e a sete ou oito libras cada. É com pena que o faço, mas é a única forma de ir alimentando este vício...
Faz muito bem comprar livros em Inglês. Os nossos começam a aparecer com erros ortográficos.
EliminarMas os livros em inglês também os têm... :)
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