Subjectividade
Dizem-me muitas vezes que o factor gosto influencia necessariamente os livros que selecciono para publicação. Acho que sei distinguir entre o que é publicável e o que não o é, independentemente do prazer que retiro da leitura, mas é verdade que só posso levar à estampa obras que consiga minimamente defender – e, se não gostar mesmo nada de um romance, será provavelmente difícil defendê-lo. Em todo o caso, talvez as pessoas tenham razão e exista sempre uma certa subjectividade quando damos o nosso parecer sobre um texto e, a este respeito, conheço uma história muito divertida. Numa sessão pública, para corroborar a sua opinião sobre um assunto polémico, um dos intervenientes trouxe à baila um livro pouco ou nada conhecido de um autor estrangeiro; ao seu lado na mesa, Frei Bento Domingues foi, porém, categórico, dizendo simplesmente que o livro em causa não prestava para nada. O companheiro de debate ficou zangado e, claro, atirou-lhe com esta: “Desculpe, mas isso não passa de um juízo de valor.” E, contra todas as expectativas dos presentes na sala, Frei Bento não se deixou abater e retorquiu apenas: “Engana-se, quanto a esse livro em particular, é mas é um juízo sem valor!”
claro que o factor gosto influencia a Rosário, tal como influencia todos nós.
ResponderEliminarsó que não seu caso como editora não deve ser determinante como no nosso, de simples leitores.
não gostar de um livro nem sempre quer dizer que ele seja um mau livro.
Percebe-se a dúvida... claro!
ResponderEliminarUm advogado só defende uma causa se acreditar nela ou porque é o seu dever?
E um actor? Face a um papel... Um cozinheiro num restaurante, só cozinha pratos de que gosta? E um mestre de obras só constrói se gostar do projecto?
Penso que isso tem a ver sobretudo com um factor de poder ou não poder recusar.
E com o tamanho do ego, porque atingindo ou não estatuto, possa recusar ou não! Como se sentirão aqueles que recusaram Saramago?
A questão parece-me ser esta, será justo recusar a publicação de um romance porque não gostou?
Então a avaliação é feita por "gosto-não-gosto"?
Creio que não... tem de ser feita segundo critérios de profissionalismo objectivo, e, uma grande sensibilidade pessoal, que como em tudo faz um editor bem sucedido e lhe dá nome... ou ser apenas mais um na sua profissão.
Será justo para alguns de nós, nem sequer termos a hipótese de sermos julgados pelo público? Claro que não é, mas faz parte do sistema e da vida... é capaz de haver muita coisa boa em gavetas.
Pode, por exemplo, alguém pode acreditar que em 2010 nenhum livro que concorreu ao prémio Leya tivesse qualidade? É daquelas coisas que, custa a crer!
Sem dúvida que a consciência é um empecilho para quem desempenha certas funções. Mas ainda bem que existe quem a sinta!
Cumprimentos
Um livro vale pelo tamanho da sede que mata !
ResponderEliminar"Mas ainda bem que existe quem a sinta"
António Luiz Pacheco
Desculpe-me pela ousadia ALP.
Eliminar"Um livro vale pelo tamanho da sede que mata!"
Fantástico!
A minha sede é tanta quanta a ignorância... lhe agradeço sinceramente esta imagem minha Senhora! Creia que me matou algo de ambas.
«Um livro vale pela sede que mata.»
EliminarFrase linda, repito alguém ao dizê-lo, mas é.
E nunca abdique do seu gosto, MRP...
Não há maneira de evitar a subjectividade do gosto pessoal. E também não há nenhum mal nisso. Por mais que se tente é impossível eliminar esse factor de qualquer análise. É humano só defender aquilo em que acreditamos.
ResponderEliminarÉ bem pior afirmar que somos imparciais e não conseguir sê-lo.
Sem dúvida caro António!
EliminarUma postura de coragem...
É natural. Por isso, em muitas situações, se pede a opinião de mais do que uma pessoa! ;)
ResponderEliminarQuerida Maria do Rosario, excelente entrada que aborda el asunto polémico (e inevitable) de la subjetividad. No soy yo quien debe dar el criterio para publicar o no un libro o artículo. Pero, seguro que nuestra anfitriona, MRP, como persona formada que es, sí tiene criterio válido, y si dice que un libro no vale la pena, es que no lo vale. Acepto que pueda haber dudas en algunos casos. Pero no debemos enganarnos y hay muchos libros malos. La notación de Plinio: no hay libro malo que no tenga algo bueno, la completó un amigo mío -poeta- diciendo que sí: el placer de cerrarlo.
ResponderEliminarMe dijeron que, en Madrid, con motivo del Día Mundial de las Letras se celebraron 24 horas de poesía ininterrumpida. Me imagino el horror de lo que pudo salir por ahí. Con independencia del caracter íntimo de la poesía, que no se presta a estas cosas.
En fin, que viva la subjetividad.
Un saludo con carino a todos.
Desculpe, já agora, pergunto: há alguma obra de que não goste mesmo nada e que, mesmo assim, reconheça o seu valor literário?
ResponderEliminarLembro-me de que não gostei nada daquele livro chamado Estranhos Perfumes, da Marie Darieussec (já não sei a ortografia, perdoem se me enganei), e reconheço que era uma coisa nova literariamente falando. Também não apreciei As Partículas Elementares de Houellebecq e publiquei-o mais ou menos pelas mesmas razões.
EliminarIa-lhe perguntar agora se publicaria esses livros, mas a Maria do Rosário antecipou-se na resposta.
ResponderEliminarDe qualquer maneira, é curioso verificar que se trata de livros estrangeiros, traduções, que, presumo, já teriam sido publicados antes e tido algum sucesso. Se fossem obras de gente desconhecida, que nunca tivesse publicado e lhe tivesse enviado o manuscrito, talvez a Maria do Rosário tivesse tomado opção diferente...
Como dizem outros comentadores, não há dúvida de que uma opinião, seja de quem for, é sempre subjectiva. E ainda bem, somos todos humanos. E a Maria do Rosário não é a única editora portuguesa, senão, aí sim, estávamos todos (escritores e leitores) dependentes dos seus gostos.
Bem, tenho uma técnica empírica para reduzir os efeitos da subjetividade nestes casos: o molho. Que nada mais representa senão uma apropriação do princípio in dubio pro reu ". Quando me deparo com um livro que, em primeira leitura, desgosto, deixo-o de molho algum tempo, ao invés de crucificá-lo de vez; daí a ele retorno e confiro se outros argumentos surgiram: é o que dá para fazer quando não se conta com um conselho editorial.
ResponderEliminar:- )