Policiais

Quando eu era pequena, os romances policiais vendiam-se em edições de bolso muito baratas com mau papel e letra pequena, como se não merecessem melhor. Apesar disso, a par da literatura pura e dura, eram lidos por muita gente culta e interessante, e conheço grandes vultos da nossa praça (escritores e tudo) que paparam a colecção Vampiro ao ritmo de um título por dia; talvez essas leituras estivessem, porém, ligadas ao «mero» prazer dos tempos livres e as outras a um processo de formação e aprendizagem que obrigava às boas encadernações, aos formatos mais sólidos e a uma cómoda mise-en-page. Hoje, pelo contrário, principalmente depois do sucesso de Stieg Larsson, os policiais estão a ganhar um espaço determinante – e já não é assim tão raro os suplementos culturais de jornais e revistas de grande tiragem dedicarem várias páginas a obras do género, com entrevista aos autores, tantas vezes convidados pelas suas editoras a vir a Portugal por ocasião do lançamento. Confesso que não sou uma apreciadora, e muito menos uma especialista, em literatura policial, mas não seriam os autores publicados na velhinha Vampiro mais literariamente interessantes do que estes que hoje proliferam como cogumelos? Ou será exactamente por isso, por valorizarem a intriga em detrimento da escrita literária, que têm mais público, mais vendas e, logo, direito a uma edição melhor?

Comentários

  1. Confesso que também não sou apreciadora do género. Nem da coleção vampiro, nem tão pouco do Stieg Larsson . Mesmo que melhor embrulhados, deixam-me sempre desconsolada.
    Embora tivesse papados uns quantos Agatha Christie , na minha adolescência, é certo.

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  2. Na minha opinião, valorizar a intriga em detrimento da escrita literária não é um defeito (desde que a escrita seja correcta, claro). A imaginação deve ser elogiada e premiada, como no caso da J.K. Rowling. Também a arte de criar suspense é louvável, como no caso de Agatha Christie. São qualidades, no fundo, raras.

    Se valorizássemos apenas a escrita literária, rejeitando tudo o resto, qualquer dia só se publicavam livros que seriam verdadeiras ginásticas estilísticas, mas sem enredo.

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    1. Estou capaz de concordar. Há lugar para tudo, desde o Riocorrecorre, após Eva e Adão, de ressalto na rocha que pende n'areia , leva-nos num commodius vicus rodopiando de volta a Howth Castle e Emseuredor - em tradução (!?) livre e do momento - às correrias da Lisbeth.

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    2. Gostei da classificação «livros que seriam verdadeiras ginásticas estilísticas, mas sem enredo», é apropriada aos movimentos que cada vez menos se vivem nas editoras, hoje a grande maioria até é mais "leve", anda-se para aí a ler aos milhares o livro de uma criança que esteve uns minutos mortos e falou com Deus... que País!

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    3. Há uma grande diferença entre um livro do Harry Potter e o do Futre, por exemplo.

      Porque é que um livro não nos pode impressionar apenas pelo enredo? Um bom enredo, escrito em bom português (ou noutra língua), é sempre um bom livro!

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  3. É sempre possível moderar, equilibrar e principalmente cuidar dos livros que valorizam as intrigas. Pois a intensidade destes tem efeito na perca da sensibilidade, sendo tão natural... E passe pela irresponsabilidade de alguns a perspectiva da aparente normalidade. Então o ser humano, é um ser para desgraças?
    Os livros estão aprendendo a ser torturantes, cuja funcionalidade é libertadora.
    Cultura, cultivo, semente, germinar para fora, crescer e dar frustos, sabor e cosnsitência ao milagre da vida. Amor, Amor, Amor!

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  4. Confesso que gosto muito de policiais e não sei explicar porquê. Não tenho qualquer pudor em os colocar lado a lado com livros de contos ou com alguns romances. Li alguns títulos da colecção Vampiro, muitos da Agatha Christie, estou a ler Stieg Larsson, mas nada se compara a Ray Bradbury ou a Patricia Highsmith. E estes bem que mereciam ser reeditados e, porque não, «com boas encadernações» e «formatos mais sólidos».

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    1. Não há melhor que um bom policial. De preferência dos antigos ou dos modernos, mas dos bons. sou viciada como o foi toda a minha família. Agatha Christie. Stanleu Gradner, P.D. James, Ruth Rendell, Patricia Highsmith, Elizabeth George e mais uns quantos que ando sempre a descobrir (e por vezes a traduzir, como o que felizmente tenho entre mãos). Não se trata de uma literatura menor desde que os autores sejam de qualidade. Há muitos anos descobri a colecção Vampiro e a Xis toda encaixotada em casa de uma tia velhota. chamei-lhes um figo :D

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  5. Adoro policiais!!! E quando gosto mesmo do enredo e do 'suspense' leio o livro num instante...Que se há-de fazer a isto? :)

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  6. Da colecção Vampiro tenho todos os Agatha Christie, (incluindo o nr 1 da colecção que comprei num alfarrabista em Lisboa), todos os Erle Stanley Gardner e muitos outros "avulsos". Alguns deles li-os mais que uma vez e há verdadeiras pérolas naqueles livros.

    Acho que hoje já ninguém consegue criar um Monsieur Poirot, ou uma Miss Marple... Talvez as pessoas (os escritores de policiais) não tenham vagar para se dedicar a isso! É preciso escrever qualquer coisa e vender depressa.

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  7. As diferenças são tão extremadas que são iguais FUTRE e HARRY POTTER- os extremos tocam-se...é a mesma jana .

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  8. Gostei dos comentários, tanta gente veio aqui afirmar o seu gosto pelos policiais.

    Por acaso, esqueci-me de mencionar que gosto muito dos primeiros livros da Martha Grimes com o seu inspector Jury. A partir de uma certa altura, lamento dizer, mas deixou de ter a "magia" do início. Talvez a autora não devesse ter esticado tanto a série.

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  9. E gostei de uns policiais de Francisco José Viegas, um senhor que aceitou ser secretário de estado da cultura, dando assim a sua bênção à extinção do ministério da dita cultura, ele que é um homem das letras e das revistas e assim...
    Um mistério nada policial...

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  10. Pois eu era dos que devorava um vampiro por dia. E quando estes se acabavam procurava em alfarrabistas, "livrarias" de vão de escada ou de esquina. Será que estas "livrarias" ainda existem? Lia-se um livro e depois entregava-se esse, pagava-se mais um terço do custo e trazia-se um novo. Claro que isto já foi há uns quarenta anos ou mais. Havia uma mesmo no Saldanha, ao lado da entrada do metro. Outra ao Arco do Cego, na esquina com a Rua D. Estefânia.
    Depois dos vampiros foi a argonauta, depois os policiais da Caminho e também a ficção cientifica.
    Muitos dos actuais "escrevedores" de romances e novelas literárias ficam a léguas, muitas léguas, por exemplo de Ray Bradbury ou a Patricia Highsmith , já aqui falados, ou de Raymond Chandler ou Dashiell Hammett ou, num outro género Le Carré Ainda hoje tenho nas prateleiras algumas centenas destes livros e, se não tenho mais, foi porque na altura em que havia falta de dinheiro os trocava.
    Se é verdade que nos últimos anos a qualidade decaiu, também será difícil fazer muito diferente, porque a qualidade dos leitores também decaiu, ou não será? Eles só vendem porque alguém os compra! E se tivessem um enredo mais complicado ou uma melhor qualidade de escrita, quem os compreenderia? Os resultados das provas de português não são uma evidência?
    O livro com pior qualidade de escrita que li nos últimos anos foi "Anjos e Demónios" logo seguido de "O Código da Vinci ". Em minha defesa devo alegar que não os comprei. Continuo sem perceber o porquê de terem vendido milhões. Devo acrescentar que não me lembro de nada nem de um nem de outro. Fiquei só com a vaga ideia de que o enredo, apesar de pouco verosímil, não era mau de todo como fantasia.

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  11. Desculpem voltar, mas esqueci-me de referir que as tais "livrarias" de vão de escada eram do tempo em que trabalhei em Lisboa. Quando vim para o Porto, não encontrei aqui esse tipo de "livrarias".

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  12. E não haverá mesmo autores de "policial" de qualidade em Portugal?...

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