Frontal e inconveniente
Sou da geração que viu aparecer e aplaudiu entusiasticamente Miguel Esteves Cardoso, que o leu nos jornais com um prazer imenso e reconheceu nele um estilo completamente novo de escrever e cronicar. E, embora ele ainda me delicie de vez em quando com a sua prosa (os textos que fez para o Público sobre a doença de Maria João, sua mulher, eram de uma beleza avassaladora), acho-o hoje bem mais acomodado, escrevendo sobretudo sobre o que come e bebe na zona de Colares sem que isso se torne especialmente interessante. Mas houve um tempo em que era de uma irreverência contagiante e lembro-me de uma história a este propósito elucidativa. Nesse ano – devíamos estar no final dos 80 – ganhou o prémio de romance da APE o livro Fora de Horas, de Paulo Castilho (que era também um texto bastante diferente do que se fazia então na literatura portuguesa). Ora, na altura, MEC dirigia a revista K, onde escrevia, entre outros assuntos, sobre livros; mas, ao contrário do júri desse prémio, não gostou do dito romance nem percebeu porque merecia tal distinção. Vai daí, resolveu escrever um artigo demolidor sobre o livro e não achou nada melhor do que intitulá-lo “Fora de Merdas”...
Confesso que prefiro o MEC da atualidade. Acho-o mais cordato, mas não menos acutilante. Mais sábio, diria. Nunca apreciei, nem aprecio, a crítica desabrida e demolidora. Mesmo que irreverente. Não sei porquê, mas ponho-me sempre no papel do criticado e... sinto-me desconfortável.
ResponderEliminarE isso não é uma questão de idade, pois eu ainda sou um pouquinho mais nova que o MEC.
E partilho da sua opinião sobre os textos que o MEC escreveu, abordando a doença da mulher: são de uma imensa ternura!
Eu sou dos que apreciavam o MEC dos anos 80, o das crónicas que publicou no Expresso e que, mais tarde, foram reunidas no livro A Causa das Coisas.
ResponderEliminarMuito me ri, em 1986/87, com a escrita dele.
E comprei vários exemplares do livro que ofereci a amigos e familiares.
Depois, acho que o Miguel murchou, que ficou sem graça e deixei de o comprar. O último livro que li dele -- O Amor é Fodido -- era mesmo fraquinho.
Embora, às vezes, ainda volte a ter um fogacho daquela escrita delirante, já não me surpreende.
Ora aqui está, dito de outra maneira, porque é que eu gostei de Fora de Horas e nunca apreciei a escrita de Miguel Esteves Cardoso.
ResponderEliminarEsta beleza avassaladora é a luta como desejo de sobreviver a fatalidade, um drama convertido pela paixão, esta força é divisor de águas de marcantes literatos! E para serem exemplos não podem deixar vencer-se por mediocridades. Estes os quais sobrevivem ao tempo da humanidade educam-se ao acaso com perseverança e responsabiblidade.
ResponderEliminarPois eu sou um pouco mais antigo e lembro-me dos primeiros textos do MEC no Sete.
ResponderEliminarTer perdido alguma da piada talvez se deva muito à nossa habituação ao que vamos lendo. É como ouvirmos a mesma anedota duas, três vezes. Começa a perder a piada. Começamos a querer algo diferente. Provavelmente o MEC também sentiu a necessidade dessa diferença e os seus textos são, apesar de tudo, bastante diferentes dos tempos do sete. Só que antigamente eu estava sempre disponível para os ler. Agora tenho que me predispor à sua leitura.
Mas quem é frontal será inconveniente?
ResponderEliminarSempre adorei a obra do MEC. Foi ele que me abriu os olhos para a “ A Causa das coisas” e me ajudou a compreender melhor o país onde vivo.
ResponderEliminarFoi ele que me fez ver que realmente “O Amor é fodido”.
Foi ele que me fez ouvir as bandas da Factory.
No entanto, desconhecia esse artigo demolidor sobre o livro Fora de Horas. Adorei esse livro do Paulo Castilho. Achei o estilo bastante interessante e pouco vulgar para literatura portuguesa da época.
Também retive até hoje o título do comentário que o MEC escreveu à tradução do brasileiro A.Houaiss ao"Ulysses" de Joyce: T'ULISSES. heheh
ResponderEliminarViva, é um prazer ler o seu blogue.