Ressuscitar

Como há tempos aqui escrevi, citando o editor alemão Michael Krüger, os livros são organismos vivos e independentes do autor, na medida em que lhe sobrevivem por muitos e bons anos. Mas, após a morte de quem os pôs no mundo, precisam de alguém que tome conta deles e é, por isso, determinante o papel dos editores que vão ao «cemitério» onde se encontram e procuram de ora em quando ressuscitá-los. Vem isto a propósito de a editora Bizâncio ter recentemente tirado da morte um livro que fez furor na minha adolescência. Intitula-se Os Filhos da Droga e é assinado por dois jornalistas que fizeram uma longa entrevista à alemã Christiane F., uma jovem toxicodependente. Trata-se de um testemunho impressionante da adolescente, que começou pelas drogas leves como o haxixe e depois passou para a heroína, o que a conduziu a uma vida de tráfico e prostituição e a levou inclusivamente à cadeia. Nos anos setenta e oitenta, o livro vendeu como pãezinhos quentes, preocupados que andavam os pais com os casos de toxicodependência que, até então, eram não muito frequentes em Portugal mas começavam a aparecer sobretudo nas melhores famílias. Contudo, o assunto continua actual – e a lição de vida de Christiane F. pode ainda desmotivar alguns adolescentes de entrarem no mundo da droga pela violência e o negrume do seu relato.

Comentários


  1. Um livro perturbador... sempre actual, tendo em conta que as coisas não melhoraram. O filme nele baseado consegue transmitir-nos todo aquele drama de uma forma arrasadora.

    Olinda

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  2. António Luiz Pacheco24 de junho de 2011 às 04:19

    Lembro-me bem do título... foi uma espécie de livro de culto, se bem que não me parece que tenha tido grandes resultados (práticos não digo económicos...), e sim ter sido apenas mais um sub-produto da droga!

    Quanto à idéia da imortalidade do livro, penso que de facto o livro se sobrepõe e sobrevive ao autor... Parece-me que há muito mais livros que autores por um lado, e por outro, autores que fiquem para a história há menos... será assim?
    Os autores que ficam para a história são os que se destacam pelo sucesso e este pelo impacto, a intemporalidade e até a quantidade dos livros que escrevem... Shakespeare é mais conhecido que os seus livros... ou Jules Verne e Camilo, não são?

    Mas há casos em que só o livro é conhecido e o público (nós) não fixamos o autor, porque na maioria das vezes ele só escreveu um livro ou sucesso! Quem se lembra já, de quem é Jean M. Auel ou Jean Lartéguy? Mas se falarem no clã do urso das cavernas ou em centuriões, se calhar vão logo lá... daqui por uns anos quem recorda J.D. Rowling em vez de Harrt Potter? Estarei a pensar erradamente?

    Quando o livro "sai", nos dias de hoje acho que se pode ir atrás do mediatismo do autor, o que lhe dá notoriedade por uns meses, diria eu, mas não fica nem autor nem o título... porque depois eu vejo esses livros nas "feiras" a 1 euro, às carradas...
    O título Equador irá sobreviver ao nome do seu autor? Daqui a 30 anos quem cá estiver saberá...
    Mas palpita-me que sim, a menos que de facto MST escreva mais 10 sucessos e venha a inscrever-se no panteão ao lado de Eça, Torga, Aquilino...
    Peçam de repente a alguém, leitor comum, o nome de um título de Camilo, Torga ou Aquilino! Se calhar não recordam... Perguntem de repente ao tal leitor comum, quem escreveu "O nome da Rosa", "Cosmos", "Jurassic Park"... até "Harry Potter"?
    Assistam ao "Quem quer ser milionário" , que dissipa quaisquer dúvidas!

    Parece-me que o editor tem não uma mas duas responsabilidades: Lançar novos, mas também fazer ressurgir os velhos! Para fazer isto é preciso uma grande dose de sensibilidade, de oportunidade, e claro muita atenção ao que o rodeia e cultura literária para fazer essa associação!

    Bom fim de semana, praia e livros... eu adoro ler na praia!

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  3. Não sei se se poderá falar em "lição de vida" pois, tanto quanto se sabe, a protagonista do livro continua toxicodependente, tendo perdido a custódia do filho por causa disso:

    http://www.spiegel.de/international/germany/0,1518,571323,00.html

    Mais estranho ainda, no auge do livro, tornou-se moda imitar o estilo da protagonista e a estação de metro onde esta se prostituía tornou-se uma atração turística.

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  4. Não me lembro como me veio parar às mãos, mas li-o sofregamente, devia ter uns catorze anos. Foi um murro no estômago. Lembro-me de ter pensado: isto são escolhas, são formas de vida, que não quero para mim. Mas também me lembro de ter sentido que há vidas que parecem feitas para estes desenlaces...

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  5. Os Filhos da Droga, livro poderoso este. Não posso sequer tentar explicar o efeito que teve em mim quando o li na minha adolescência triste e desencontrada. Os livros têm este poder orgânico de nos exorcizar os sentidos pelas mais variadas razões, ou pela idade que temos num dado momento, ou pelos interesses que detemos ou até pela forma aturdida com que ousamos crescer. Dali subtraí que a condição humana é tão frágil quanto forte, é tão matreira quanto ingénua, é tão déspota quanto nobre. Em suma, a condição humana perdeu-se de si mesma.
    helena teixeira

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    Respostas
    1. António Luiz Pacheco25 de junho de 2011 às 06:59

      Minha Cara Helena Teixeira:

      "Dali subtraí que a condição humana é tão frágil quanto forte, é tão matreira quanto ingénua, é tão déspota quanto nobre." (sic)
      Também assim a vejo... e por isso a acho fascinante! Ao contrário de se apenas fosse linear e previsível.
      "Em suma, a condição humana perdeu-se de si mesma." (sic)
      Permito-me discordar, ela vai reencontrar-se sempre num ponto mais adiante.
      A minha fé na condição humana, apesar do muito mau que já vi ou sofri, mantém-se. Acho que é por isso que sou um ser humano!

      Estimo sinceramente que possa sentir-se também como ser humano, a despeito da sua evidente amargura, e espero que as bonitas idéias que exprimiu mostrou a possam inspirar.

      Perdoe-me a familiaridade.

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