Reaprender a escrever

Um dia destes, fui a uma escola do distrito de Leiria falar sobre livros e leitura com alunos do 7.º ano de escolaridade; e, durante o almoço, estive a conversar com os respectivos professores sobre o que fazíamos na editora em termos de acordo ortográfico. Expliquei-lhes que as obras traduzidas já saem todas desde Março ou Abril com a nova ortografia, e que os autores portugueses, não a desejando seguir, têm de o declarar por escrito – tal como acontece nas publicações periódicas, nas quais vemos frequentemente a frase «X escreve de acordo com a antiga ortografia» imediatamente a seguir ao nome de quem assina o texto. Pois eu, que não concordo com muitas coisas desse «acordo», fico bastante aliviada por a maioria dos meus autores não querer adoptar a nova ortografia; já estou velha para a aprender e, ainda por cima, não confio a 100% nos conversores disponíveis. Mas reconheço que um dia chegará em que já não haverá volta a dar-lhe, como acontece já com os editores e revisores de livros traduzidos, os tradutores, os professores e os editores escolares, que têm, neste momento, uma carga de trabalho suplementar para se porem em dia com esta questão. Curioso, segundo me contaram esses professores durante o almoço, é que os mais zangados de todos são os alunos que começaram a aprender a escrever com a velha ortografia e ainda não a tinham absorvido quando lhes impuseram a nova...

Comentários

  1. Tenho idênticas dúvidas sobre o Acordo, mas convenhamos que no seu texto, de mais de 200 palavras, as atingidas seriam, salvo erro, duas: adoptar e respectivo, que deixariam cair as consoantes que ninguém lê. Menos de 2% justificará o arrastar da polémica e a tomada de posições como as referidas? Parece-me perfeitamente justificado que as pessoas continuem a escrever como escreviam, mas obrigar a que a impressão dos seus escritos mantenha a ortographia antiga parece-me desajustado. Cumprimentos e obrigado por estes seus escritos diários.

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  2. Às vezes, pergunto-me se a enfatização exagerada das reduzidas alterações na grafia das palavras não será um bode expiatório de outros descontentamentos!?

    Quanto aos alunos... se o seu pior mal na escrita do português fosse o da ortografia...

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  3. Adenda:

    Esta chamada reaprendizagem terá o efeito de evidenciar, na escola, a natureza gráfica da palavra escrita, de fazer notar que as palavras não são transparentes, que uma dada palavra não teve sempre a mesma imagem gráfica...
    E, talvez, paradoxalmente, daí resulte uma consequente maior consideração pela ortografia... que não é, afinal, uma coisa por defeito...

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  4. António Luiz Pacheco7 de junho de 2011 às 04:24

    Não me creio exemplar no tocante a escrever sem erros de ortografia... mas aprendi na escola o que aprendi, como a escrever Luiz com Z e faço-o automáticamente, ou a escrever idéia com acento. Claro que dá erro, mas eu ignoro-o, ou corrijo-o no pc !
    Não estou ao corrente do acordo, sei de uma ou outra alteração que também não me preocupa, pois escrevo como falo: Digo faCto e não "fato" que para mim é ainda o conjunto de roupa, o "terno" para os brasileiros. Tal como digo EgipTo e não Egito ... ou será que segundo o acordo os habitantes do Egito " passaram a ser designados por egícios ?
    Para mim Domingo e Segunda-Feira são escritos do modo que com que evitava aquele traço vermelho nos ditados e o número escrito no canto superior do caderno! Nem perco tempo a pensar se já não é assim... posso até ter adoptado algum neologismo africano que ache prático como o desconsegui ", mas fico-me por aí! Graças a Deus que não tenho nenhuma actividade profissional que me obrigue a seguir o acordo...

    Já agora e se me permitem uma graçola antiga, que espero não seja considerada ordinária nem despropositada:
    - Aquela senhora era tão velha, mas tão velha... que a última que tinha dado se escrevia com ph!
    Me perdoem... mas acho que se adapta muito bem aos acordos... creio que todos somos do tempo de ver ainda letreiros, anúncios e livros em que se escrevia Pharmácia ou Achilino!


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    1. Caro António, se não me engano Facto e Egípcio mantêm-se iguais, tal como pacto - o que se lê nao sai. Já os Egito perde o «p». é um bocado estranho, mas no Egito moram egípcios :) Cumprimentos, Rui Azeredo

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  5. Os acordos parecem-me assim um pouco como as comissões. Quando não se sabe nem se quer fazer nada, nomeiam-se umas comissões para fazerem de conta, fazem-se uma reuniões onde se discutem umas bizantinices e marcam-se novas reuniões para a comissão ir fazendo que faz.

    Façam o acordo ou não façam o acordo, quem aprendeu a escrever "facto" continuará a escrever "facto" e quem nunca aprendeu tanto se lhe dá escrever "facto" como "fato".

    Um acordo ortográfico deverá limitar-se a oficializar o que já é um facto e não obrigar a que seja um fato.

    O português de Angola não é o português do Brasil nem o de Portugal. Nenhum acordo ortográfico altera as diferentes pronúncias da língua, portanto, por que há-de querer obrigar a grafias idênticas?

    As fortunas que se gastam e gastaram com acordos seriam muito mais bem gastos a promover livros que se leiam, ou então à promoção do estudo da gramática, muito mais útil que todos os acordos juntos.

    Mas é sempre preciso fazer de conta!

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    1. Mas amigo, se o "O português de Angola não é o português do Brasil nem o de Portugal", ele mantém-se ainda assim sendo simplesmente "O português" e não vejo porque não poderá ter uma grafia tão unificada quanto possível, e qual o mal que vem daí ao Mundo. Além disso, não parece que nenhum acordo queira, ou possa, unificar pronúncias ou dizeres locais, nem sequer neste cantinho europeu. Trata-se apenas da grafia, afinal uma simples codificação que, como tal, tem que ter as suas regras: escreve-se facto/fato, fato/terno, egípcio apesar de Egito , batata semilha , bué muito, caixote do lixo jacó - afinal tanta diversidade! - mas não se escreve bakalhau ou bacalhao . É assim, ainda bem que é, e temos de ser pacientes.

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    2. Estou genericamente de acordo consigo e por isso mesmo não vejo a necessidade de qualquer acordo.
      As regras da grafia já existem e são praticadas.
      Para quê a necessidade de comissões e especialistas para decidir que facto passa a escrever-se fato?
      Há cerca de dois meses instalei, associado ao processador de texto, um dicionário com o novo acordo. Quis estar actualizado. A irritação que me provocava com o assinalar de tantos erros, levou-me a reinstalar o antigo. A breve experiência convenceu-me da inutilidade de um novo acordo.
      Não li nem estou interessado em ler o acordo (mas apenas porque não trabalho em áreas que a isso obriguem). O que sei é que continuarei a escrever do mesmo modo que até aqui. Eventualmente, com o tempo, a exemplo do que acontecia antes dos acordos, passarei a escrever fato em vez de facto.
      E não é por uma questão de "purismo", ou não leria Mia Couto nem Ondjaki.
      Apesar desta minha discordância, reconheço que os seus argumentos não deixam de ser válidos. Só o exemplo do "bakalhau" é que me parece a despropósito.

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  6. António Luiz Pacheco7 de junho de 2011 às 08:37

    Absolutamente de acordo meu caro João Raposo e nem nunca tinha pensado naquilo que diz!
    Confesso.

    De facto, em Angola e Moçambique, p.e. , não se diz bébé e sim "bebé"... e em muitas outras palavras, a primeira sílaba sendo acentuada pronuncia-se como muda. No Alentejo o "i" do pêto" vai para o "caféi "... em tantas regiões se diz mê em em vez de meu... noutras se pronuncia "tch" em vez de "ch"; usa-se pôr um U antes de certas consoantes - "comuída" em vez de comida - , trocam-se os B pelos V e aqui no Ribatejo uma tábua é uma "táuba" e água é "áuga"...
    Ora não me parece que isso seja motivo para uma tentativa épica e absurda, por impossível, de uniformizar a língua e menos ainda fazer coincidir a fala com a escrita.

    Penso e sinto, que havia de facto necessidade de rever a língua portuguesa porque apareceram muitos termos novos, adoptados (digo o p) de outras línguas ou fruto das tecnologias, mas afinal não é por isso que a língua é viva? Agora cortar a direito como se fez, não me parece um bom serviço, porque facto e fato são coisas bem diferentes!
    A língua portuguesa (que por ironia se diz ser muito traiçoeira) é sobretudo rica! Talvez isso a faça difícil de aprender, mas ninguém tem de conhecer todo o vocabulário... tal como num cozido tem de haver carne gorda e magra, assim é possível comer-se o que se queira, e não vamos impôr só a gorda ou só a magra, não é?

    E já agora, acho que essa riqueza é uma característica que deve ser mantida e cultivada, pois vem da nossa deambulação pelo Mundo, de onde fomos pescando e colando tantos termos e palavras, o que nos distingue como povo do Mundo!
    Ensinar a malta nova a usar o idioma como um pincel com que se pinta o quadro da linguagem e da transmissão de idéias, acho que deve ser um imperativo quer do ensino da língua-mãe como das outras! E o quadro que se assim se pinta, tem de ser realista, impressionista, naturalista... não pode ser abstracto (não digo o c, mas acho que serve para abrir o a).

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  7. Nada melhor do que fazer um primeiro estudo do texto do Acordo (não é nenhum bicho de sete cabeças); depois, deitar o olho para uma consulta breve sempre que nos apareça uma dúvida.

    Continuo, naturalmente, a escrever "facto", o fato visto-o de quando em vez. Há dias tive que utilizar a palavra afeto (ou terá sido afetividade?). Tinha passado bem mais de meio século em "estado de afecto" com a escrita e senti-me vacilar. Agora, teimosamente, faço por recuperar.

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    1. A história do "facto" passar a "fato" surge sempre nas discussões do Acordo Ortográfico, e quase sempre de forma errada. No português de Portugal, "facto" continuará sempre a escrever-se "facto", dado que o 'c' não é mudo. O mesmo não acontece no Brasil, em que o 'c' não se lê - aí sim, a palavra passa a "fato".

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  8. Certamente que quer os professores em questão quer a MRP continuam a escrever pharmácia em vez de farmácia... Não?
    Eu se fosse professora desses alunos do 7º ano, tão zangados, ficaria mais preocupada com os ataques à ortografia da língua portuguesa não mediados pelo AO.

    Custa-me ver a intransigência das pessoas "das letras" em relação a este acordo, que verdade seja dita, poucas alterações práticas traz, apesar do enorme bicho de 7 cabeças que se desenvolveu em seu redor.
    Gostaria muito mais de ver as pessoas das letras que tanto querem defender a Língua, a ajudar a desfazer as nuvens da ignorância relativamente ao acordo.

    É com posturas como esta que o cidadão comum aprende e onde se revê.

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    1. Obrigado por me relembrar da minha ignorância.
      Foi essa ignorância que me levou a discordar do que eminentes especialistas decidiram em toda a sua sapiência.
      Mas assim como os brasileiros sempre se estiveram "nas tintas" para acordos, receio que a ignorância dos portugueses os leve a também não escrever em brasileiro.

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  9. António Luiz Pacheco7 de junho de 2011 às 11:26

    Hum... como sou de "ciências" estou fora... livra!

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  10. António Luiz Pacheco7 de junho de 2011 às 11:27

    Mas que raio... ????

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  11. Ocorre-me agora um problema: encontrar dicionários à venda com a ortografia antiga. Recorro aos sebos (alfarrábios), mas não os encontro. Seriam já peças de colecionador ?
    :- )
    Sou um tanto radical nesse tema e, elegantemente, irei me abster da discussão; digo apenas aquela declaração eu firmaria mais ou menos nos seguintes termos: "Pedro de Lemos escreve de acordo com a antiga ortografia, quando lhe convém".
    :- )

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  12. Passei por isso em Alemão. As minhas Tias ainda se recusam a escrever com a nova Rechtschreibung, eu dou-lhe calinadas desgraçadas e... quando eu pensava já escrever Português que se visse v~em-me com esta coisa abrasileirada que me faz escrever Egito quando eu pronuncio Egipto e outras coisas. Sim, é que quem não nasceu nesta língua nem sempre sabe como as coisas se dizem no alto do bom som. Coisas maradas estas de imporem a mudança...

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    1. António Luiz Pacheco10 de junho de 2011 às 06:44

      Realmente este tema é do mais polémico mas também apaixonante. A minha ignorância face a ele é extrema, confesso, e por isso achei tão interessante as participações que li.

      Uns acusam o acordo de abrasileirar a língua... será? Outros de que é exactamente o Brasil quem mais sofre com ele... e por aí fora...
      Eu acredito que de facto (digo o c) há essa necessidade, pelo menos de uma revisão do idioma e da inclusão de novas palavras ou termos... como marqueting ou scanear ou lóbi, e porque não o famoso desconsegui ... que não impedem que se continue a dizer não consegui, ou pressão em vez de lóbi. Notei que Portas se refere ao conjunto dos negociadores como triunvirato em vez de "troika"...
      Podemos dizer bué em vez de muito? Claro... e porque não? Como em Moçambique se diz "maningue " e devia ser um termo já integrado que só enriquece a nossa língua (será? a mim parece-me que sim). Ou "tchóvar" em vez de empurrar? Poderemos dizer "inene" para grande? Ou "chinche" para muito? E "chimar" em vez de comer? Eu diria que sim... como termos de uma gíria ou calão... também se diz "uma purrada de..." como sinónimo de quantidade! E tantos outros termos, que eu na minha assumida ignorância entendo como a tal riqueza e fruto da universalidade da nossa língua que já antes absorveu alfobre, varanda, caril...

      Mas isto não é bem o "acordo", suponho... o acordo tem mais a ver com a grafia, certo? Por isso fui ali à estante da aventura, e retirei um livro de uma colecção que quase toda a gente tem:
      - "Os quinhentos milhões da Begum", editado em 1888 pela Impresa Horas Românticas, tradução do original de Júlio Verne por A.M. da Cunha e Sá, abri uma página:
      "jornaes", "n'uma", "cincoenta", "physionomia",
      "em summa", "costelleta", "photographado",
      "illustre", "innegavelmente", "columnas", "pae"
      "prompto", "comprehenderá" ,"typo"...

      Outra: fui à estante do romance histórico e fui ver de Joaquim Ribeiro da Silva Arez , Imprensa Litteraria editado em 1864, "Zaida ou a Captiva de Santarém":
      "Affonso Henriques", "anno "...

      Logo ao lado, "Piquillo Alliaga ou os mouros no tempo de Philipe III rei d'Hespanha e Portugal", de Eugenio Scribe, editado em 1852 pela Inprensa de Lucas Evangelista:
      "hespanhoes", "seos", "auctoridade", "attrahe",
      "opposição", "offício", "solemne"...

      Se eu der a ler isto à minha sobrinha Margarida, de 17 anos, aliás muitíssimo boa aluna, o que julgará ela? Terá sérias dúvidas de que seja português!
      E, Deus nos livrou e houve um anterior acerto e acordo que nos poupou a ter de escrever assim, que me parece bem complicado e muito mais difícil de aprender! Mas imagino o que terá sido de confuso na época para quem assim escrevia...

      Daí as minhas dúvidas, em criticar ou aceitar de "olhos fechados" o acordo ortográfico...
      Mas, repito que vou continuar a escrever Luiz e Egipto, idéias. . pois é automático e confesso que tenho outras prioridades do que conhecer à exaustão o acordo e escrever de acordo com ele! Se passar por iletrado... paciência, até sou... por isso nem vale a pena disfarçar!

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    2. De facto, também vou provavelmente continuar a escrever de acordo com a antiga ortografia, por inércia, apesar de, até à presente linha e não obstante o "facto", estar afinal a escrever também com a nova. Mas, se fosse escritor, não correria certamente o risco de fazer como alguns que por aí têm declarado que só escrevem na "sua" ortografia, e que, pouco avisados, mais declaram que é assim que querem continuar a ser impressos. É que correria o risco de morrer sem tempo para me desdizer e de me tornar, a prazo, dificilmente legível. Não acreditam? Então ponham os olhos nos exemplos avançados pelo António Luiz . Obrigados, Camilo e Eça, por tal não terem feito no vosso tempo.

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