Notas de leitura

Quando estava na Temas e Debates, recorria frequentemente a leitores que me ajudavam a decidir sobre determinados livros – ou porque, na altura, não publicava só ficção portuguesa e precisasse de uma opinião mais especializada sobre determinado livro de não-ficção, ou simplesmente porque tinha dúvidas – quem as não tem? – sobre se um romance merecia ser traduzido e/ou publicado em Portugal. Infelizmente, não guardei esses pareceres, mesmo que alguns deles fossem de escritores. Já a editora francesa Gallimard acaba de organizar uma exposição dedicada às Notas de Leitura, composta precisamente de relatórios de alguns editores ou leitores que se tornaram figuras de proa (André Gide, Albert Camus, Raymond Queneau, entre outros) no mundo inteiro. E, além da delícia que é ler estes autores, mesmo que num registo mais objectivo, curioso é também ver o que escreveram sobre livros que se tornaram obras-primas ou êxitos de vendas ao longo de anos. Gide, como todos devem saber, recusou a obra de Proust, dizendo que este ocupava três páginas com uma coisa que poderia ter resumido a um parágrafo (mas mais tarde confessou, conta-se, que não tinha lido o original); e, por exemplo, o clássico E Tudo o Vento Levou, que vendeu 400 000 exemplares em França, só foi publicado pela Gallimard porque o editor não deu ouvidos a Ramon Fernandez, que não julgava oportuna a publicação em terras gaulesas de um romance sobre a guerra da secessão americana. Em Portugal, conheço editores que ainda hoje se choram por terem recusado os primeiros livros de Saramago e o filão da colecção Uma Aventura...

Comentários

  1. Este texto serve de inspiração a quem pretende iniciar uma aventura no mundo literário. É interessante saber que grandes obras e conceituados autores não viram de imediato reconhecido o seu potencial, mas não deixaram de lutar por fazer ouvir a sua voz. Imagino a frustração de um editor que deixou escapar um diamante chamado Saramago. Admiro a força desse enormíssimo senhor que não se resignou e levou bem longe a sua mensagem e o nome de Portugal. Acreditemos até ao fim.

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  2. Ele há coisas que não são racionalizáveis. Uma delas, estou convencida, são os meandros, os mistérios, da leitura, da reação dos leitores. Embora sejam manipuláveis. Precisamente por isso. Não há nenhuma simplicidade nem linearidade na relação com os livros.

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  3. Ouvi dizer ou consta que o Mário Cláudio fartou-se de concorrer a prémios literários, sem sucesso; Beça Luís palmilhou kilómetro à procura de editora e só terá tido aceitação após a premiação de A Sibila, depois de concorrer a um elevado número de prémios dos quais nunca tinha tido preferência alguma. José Saramago foi um lutador abenegado e obstinado: trabalhou anos a fio em traduções, redações e editoras. Aos 60 anos não havia editora que lhe desse uma oportunidade. Lembro-me quando editou A Noite, ninguém ligava nada, (1977/78) ou 1979, não me lembro bem, era eu então (rapazote) dirigente de um sindicato que se fundiu com o da Imprensa, " Sindica dos Tipógrafos, Litógrafos e Ofícios Correlactivos", andeia a pedir a sócios do dito sindicato para assistirem à peça no espaço cénico do Diário Popular, representado pelo grupo de Campolide, com Joaquim Benite e Isabel Baia, por exemplo. Não havia quem quisesse ir lá... Mais tarde comprei as 1ªs edições de Levantado Chão e do Memorial do Convento - quase ninguém conhecia José Saramago: eu gostei logo da Noite, fiquei encantado com Levantado do Chão (pareceu-me um novo neo-realismo) e aprendi a encarar Fernando Pessoa de outro modo, através da leitura de O Ano da Morte de Ricardo Reis. Uma coisa é certa: se Saramago não tivesse tido o apoio da máquina do PCP/APU/CDU, através da Editorial Caminho e da distribuidora CDL, não teriamos, com toda a certeza, prémio Nobel da Literatura. É certo que muita gente ainda hoje não lê Saramago por causa da conotação - muitos teimaram na rejeição como o antigo Presidente Mário Soares, mas, na época, aquele universo partidário ultrapassava o meio milhar de leitores e estendia-se para além fronteiras...

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  4. Outro precedente dessa espécie, se bem estou lembrado, foi o de Elio Vittorini , que recusou, quando conselheiro da Einaudi , nada menos que "Il Gattopardo ", de Tomasi di Lampedusa , hoje um dos maiores clássicos da literatura italiana.

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  5. Não coloco de lado que a militância política tenha ajudado na projecção de José Saramago, mas tenho para mim que é a sua excelência, primeiro como poeta, depois como escritor, que vem a prevalecer, algo que já vem de trás em que pouquíssimos sabiam que ele era comunista.
    Foi na “Livraria Portugal”, naqueles escaparates que ainda hoje estão ao meio da sala do rés-do-chão, que topei, pela primeira vez, com o nome de José Saramago. Estávamos em 1966, tinha então 21 anos, e não fazia a mínima ideia quem era, tão pouco dele ouvira falar. Mas o livro que olhei fazia parte de uma colecção de prestígio: “Colecção Poetas de Hoje” da "Portugália Editora”.
    Folheei o livro e do que fui lendo nascia um sentimento de gosto e prazer.
    Depois li “Manual de Pintura e Caligrafai, editado pela Moraes Editora e fiquei rendido.
    Tenho, pois, que agradecer à “Portugália” e à Moraes o terem-me dado a conhecer Saramago e talvez seja interessante recordar o desespero do editor Nelson de Matos quando recusou o “Levantado do Chão.

    “Eu publiquei um livro de contos que se chamava “Objecto Quase” e um romance, “Manual de Pintura e Caligrafia”.O “Levantado do Chão”, que o Saramago me apresentou, que eu li, e gostei – nada a dizer sobre o livro, que é um excelente romance. Mas Os livros anteriores do Saramago não tinham vendido. Ele tinha estado no “Diário de Notícias” e estava a atravessar aquele período negativo posterior, muito marcado politicamente. Tive que lhe dizer: “José, fiz duas experiências, não resultaram, lamento não ter condições para poder fazer a terceira.” E não publiquei. Portanto, passei a ter no meu currículo de editor o ter recusado publicar um futuro Prémio Nobel.

    Dramático.
    Na verdade, o destino é um tipo sem moral nenhuma.
    José Saramago também trabalhou como editor na “Estúdios Cor” e essa sua experiência é revelada na correspond~encia que manteve com José Rodrigues Miguies e que está publicada pela Caminho. na pubblozãoq eu a Caminho fez da Corrspondência entre José Saramago e José Rodrigues Miguies.
    É por isso que sendo um mero leitor de livros, guardo sempre para os editores uma ponta de agradecimento. Nem todos o merecem, é certo, mas isso é já uma outra história.

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  6. Intensidade é que torna apaixonante a obra de um escritor de posteridade, pela própria força de transpor o limiar de ação.
    José Saramago sofreu o preço por mesclar políticas e arte. Inclusive, dizer não a Saramago seria motivo de orgulho, pois, diante da teimosia deste, elaborou a perfeição, na certeza de ter impulsionado com mais energia e rigor a nóbel carreira.

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