Gloriosa insatisfação

Os Portugueses têm uma certa tendência para o derrotismo e para a preguiça – e muitas vezes preferem dizer simplesmente mal das coisas a lutarem para que estas, decididamente, melhorem. Quando há uns meses estive em Cabo Verde para fazer o lançamento de O Novíssimo Testamento, o seu autor, Mário Lúcio Sousa (que é, actualmente, o ministro da Cultura daquele país) contou-me que, na sua pátria, se passa exactamente o contrário. E partilhou comigo uma história de dois amigos que tinham de apanhar diariamente um transporte numa paragem à torreira do sol e que não descansaram enquanto o governo não lhes arranjou um telheiro para se abrigarem. Chegados nesse dia à paragem ficaram contentíssimos com aquela conquista. Porém, no dia seguinte, um deles logo se queixou: «Eh, nem puseram bancos...» Tenho a certeza de que, por esta altura, já lá estão os bancos – e é bem possível que uma máquina de refrigerantes também.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco15 de junho de 2011 às 02:18

    Hum... e os cabo-verdianos dessa história, terão aprendido com quem?

    Não concordo com a opinião muito difundida de que os portugueses sejam preguiçosos, somos sim comodistas... já sei que vou aqui levar muita cacetada mas tenho as costas largas como bom português, mas se me permitem uma crítica que é uma constatação minha, quem cabe naquilo que Mª do Rosário Pedreira considera ser a nossa maneira de ser, é a classe da cultura!
    Todos os opinadores ou comentadores, nos media, acham que nós os portugueses não prestamos! Temos defeitos inumeráveis e vão-se buscar exemplos de povos que são bestiais... porém ignoram que o povo que desprezam, vive há séculos carregando uma existência duríssima, esforçada, de sacrifícios, esmagados por impostos, explorados por patrões e o estado, mal-pagos , sem apoios e ainda desprezados pelas elites!

    É um povo heróico e generoso, digo eu que os conheço desde sempre, a cavar vinha, vindo trabalhar nos transportes públicos desde o Barreiro ou Queluz para Loures, homens e mulheres anónimos e esforçados, que não merece as elites que alimenta.
    Temos de entender que somos gente sofrida e generosa, que vive com Sol e azeite doirado, praia e toiros, o vinho tinto corre-nos nas veias como o sangue, vivo e seivoso ! Aos que alegam a tristeza do fado lisboeta respondem as modas alegres do folclore nacional, as concertinas e zabumbas , os foguetes das ocasiões de festa!

    Está na moda repetir o que teria dito Sertório sobre os lusitanos não se deixarem governar, mas seria bom então reparar no que escreveram Estrabão e Diodoro Sículo:
    - “Corajosos e valentes, ciosos da sua independência e capazes de feitos heróicos, de formidáveis sacrifícios entre os quais o da própria vida”. “Preferem a morte à escravidão”.
    “Obedecem mais aos impulsos de momento do que a um plano perseverante, fatigam-se depressa, mesmo no meio das suas empresas”.
    “Tanto dão provas de ferocidade como generosidade”. “Fiéis à palavra dada são fácilmente iludidos, em vista do seu temperamento supersticioso e crédulo”.

    Isto sou eu... somos nós! Não... não me vejo no que diz Maria do Rosário Pedreira, e se olhar à tal mulher-a-dias que também lê, me dará razão!

    Esperemos mais uma sã e esclarecedora polémica... cumprimentos a todos.

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    1. Plenamente de acordo (com este comentário). Muitos dos nossos intelectuais têm-se deixado enredar no derrotismo, talvez por preguiça. Neste caso, MRP foi na onda. Acontece.

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  2. Vinha comentar o texto, mas decidi depois comentar antes o comentário: gostei muito do escreveu o António Luiz Pacheco!

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  3. é dificil não ser derrotista com o "histórico" dos nossos governantes, pelo menos dos últimos duzentos anos, Rosário.

    nunca conseguimos arranjar uma forma radical de tirar o poder aos oportunistas, dando espaço para os competentes (que os há e sempre houve...).

    e quase sempre por comodismo. os nosso melhores vão para fora, onde lhes dão valor, em vez de os espezinharem ou tentarem servir-se do seu trabalho.

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  4. Existe um fator na cultura portuguesa que estão superando. E, este é o caminho superar.

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  5. Obrigado ao Senhor Pacheco por partilhar pensamentos tão optimistas, não esquecendo o que de bom existe caracteriza os portugueses e que nos faz acreditar num futuro melhor

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  6. E as criadas de Cabo-Verde, também já consultam a internet como a criadagem das quintas do Minho?

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    1. Presumo que as «empregadas domésticas» em Cabo Verde não vão, de facto, à Internet.

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  7. (Que tristeza de comentários). Esta mania de ir buscar os clichés do que fomos e não ser capaz de olhar para o que somos.

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    1. António Luiz Pacheco15 de junho de 2011 às 10:40

      Diz um anónimo:
      "Esta mania de ir buscar os clichés do que fomos e não ser capaz de olhar para o que somos." (sic)

      Não é uma mania, é sim procurar entender as coisas, porque a história se repete... é na história e no passado que está a compreensão quer do presente quer a previsão do futuro.
      Quem não sabe quem foi nem de onde vem, como pode saber onde está e para onde vai?

      Meu caro anónimo, nem precisa de ir muito longe, recue 130 anos... ao tempo do seu bisavô cujas memórias ainda eram vivas no tempo de seu avô e pai, e terá (com as naturais nuances próprias das épocas) uma noção de que o que se passou é semelhante à actualidade... olhe, a emigração é bem o caso, pois houve em meados e finais do século XIX uma forte corrente migratória... pelas mesmíssimas razões...
      Atente no que se dizia n' O San Francisco Bulletin, em 1871, sobre os portugueses:
      - "Trabalhadores, pacíficos e pouco dados à especulação, ficam para trás no percurso de outros grupos mais apressados e empreendedores, mas mesmo assim contam-se entre os mais poupados e prósperos dos muitos que procuram numa terra mais vasta a riqueza e a liberdade de acção que as nações mais antigas e povoadas não podem oferecer… Em regra, os portugueses poupam cuidadosamente todos os dólares que ganham, vivem em sóbria economia e abdicam dos mais elementares prazeres da existência".
      Lia-se no Yreka Journal , em 1868, uma prova da boa vontade para com os imigrantes:
      “Vêm aí os portugueses!
      Tivemos conhecimento de que em breve chegarão a este condado cento e quarenta portugueses, vindos das ilhas portuguesas e de outros condados deste Estado, entre eles um certo número de mulheres e de crianças. Os portugueses de Hawkinsville tratam já dos preparativos para os receber, e amanhã haverá uma reunião de mineiros para definir a área das concessões. Alguns deles tencionam também adquirir ranchos e prevê-se que grande parte da população do nosso condado seja constituída por portugueses, que são pessoas diligentes e muito trabalhadoras”.
      (in II volume de “Largueza”, páginas 369 a 372)

      Talvez isto lhe ajude a perceber porque é que sou dos que acham que vale a pena "olhar para ontem".

      Ao que parece ainda devo ser dos poucos que escreveu uma coisa a pensar nos portugueses e para eles, onde nem os retrato como atrasados nem alardeio os seus defeitos, como se eu não fosse um deles e por me pôr de fora a apontar-lhes os defeitos, me distinguisse. Pelo contrário gabo-lhes as qualidades, que as conheço e muito bem. Felizmente... pois são a minha gente, não os modernos nem os bem-falantes, que vestem à moda e possuem uma cultura superior, não... os meus são os outros, os que suam ao Sol, que andam de transportes e cheiram a sovaco, a vinho e a refogado, mas com quem existe um pacto antigo, pois são eles quem nos suporta, aos outros que estudámos, vestimos fato, compramos livros e discutimos estas coisas, pois nos sobra tempo!

      Cumprimentos.

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  8. Leio sempre com interesse os textos aqui publicados, mas este foi completa e espectacularmente ao lado! Se há coisa de que os portugueses usam e abusam é da constante reclamação de tudo e mais alguma coisa. Petições são às dezenas por dia (se calhar é por isso mesmo que se tornam inócuas).
    Não nos podemos esquecer que os portugueses têm um crédito de 48 anos de censura. Agora pretendem usar esse mesmo crédito para pedir e exigir a mínima “catroguice”. E, na minha opinião, fazem bem ( algumas vezes as exigências são um pouco tolinhas, mas pronto). Se não podes vencê-los pela razão, derrota-os pelo cansaço.

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    1. Por acaso, não concordo nada. Acho que refilamos muito, mas fazemos pouco. Nas poucas manifestações que vão havendo, vai tudo a passear, a rir e a conversar. Protestos a sério, indignação a sério, revolta a sério, nem vê-las (à exceção dos camionistas que são os únicos nos tempos que correm que não andam a brincar aos protestos).

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  9. Concordo em que os portugueses sejam acomodados. Não preguiçosos, mas acomodados. E tímidos. Contentam-se com aquilo que lhes dão, não se atrevem a causar “ondas” e tentam dar sempre uma boa impressão de si próprios, pelo menos, publicamente. Nesse aspecto, somos um pouco hipócritas, porque o que conta é a imagem pública e, não, os defeitos, só revelados na intimidade. Não é novidade nenhuma que, por exemplo, os condutores portugueses são respeitadores no estrangeiro e transgessores no seu país (ou perto dele). Eu, que faço viagens de carro entre a Alemanha e Portugal, há quase vinte anos, posso dizer que, passando a cidade de Zamora, ainda em Espanha, já se encontram condutores portugueses a transgredir os limites de velocidade (aqueles que vão meter gasolina a Espanha – nada contra este aspecto, estão no seu direito; nós também enchemos o depósito antes de entrarmos em Portugal). Quando vejo esses ases do volante, costumo dizer que já “cheira a Portugal”.

    O exemplo cabo-verdiano mostra que os naturais desse país reclamam quando é preciso (o que os portugueses nem sempre fazem). Por outro lado, não indica iniciativa própria, o que também nos falta. No esperar que o Estado nos resolva os problemas somos igualmente peritos.

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  10. Pois eu, embora contrariado, estou de acordo com MRP e, por consequência, em desacordo com a generalidade dos comentários.
    Basta olhar o que se passa à nossa volta para constatar o acerto de MRP. Basta olhar a situação económica do país.
    Somos capazes de fazer melhor? Claro que somos. Somos capazes de competir com qualquer estrangeiro e fazer melhor que ele? Claro que somos e até temos em Portugal meia dúzia de empresas no top dos tops, não necessariamente pela quantidade do que produzem, mas pela qualidade do que produzem. E as outras? Que fazem as outras empresas?
    Que fazem os mais de 250.000 que recebem subsídios de integração e que sucessivamente recusam empregos? Generalizamos, porque os resultados visíveis a isso nos levam. Objectivamente, somos isso mesmo, preguiçosos, incompetentes. No mínimo, irrelevantes.
    Trabalhei vários anos numa empresa privada com mais de 350 trabalhadores. Mas mesmo nessa empresa privada, que à época estava classificada entre as 100 que mais facturavam no país, havia os trabalhadores e os empregados. Fosse na parte das vendas, fosse nos serviços administrativos, havia os bons trabalhadores e os simplesmente empregados. O “curioso” é que nas secções onde havia bons chefes (refiro-me à capacidade e qualidade) todos eram trabalhadores e no mínimo, cumpriam as suas funções. Onde a chefia era má ou menos boa, havia sobretudo empregados e os bons trabalhadores tendiam a “abandalhar” o serviço porque acabavam a trabalhar para os outros.
    Como não me quero alongar, deixo-vos duas curtas citações de Camões, que me parecem muito úteis para se meditar, o que não sendo uma questão de preguiça não deixa de exigir um certo ócio:
    “Os bons vi sempre passar/ No mundo graves tormentos;/ E para mais me espantar/ Os maus vi sempre nadar/ Em mar de contentamentos” – Luiz de Camões

    E para finalizar
    .
    “O fraco rei faz fraca a forte gente”. – Luiz de Camões

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    1. Do que escreveu percebo que: 1) a culpa será sempre do chefe, em última análise do rei, mas nunca nossa; 2) de todo o modo, sempre há empregados e trabalhadores. Assim sendo, parece descabida a conclusão de que somos todos preguiçosos e incompetentes, mas cada um que fale por si.

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    2. a) Se foi isso que percebeu, percebeu mal. Basta voltar a ler.

      b) Voltou a ler mal, embora de facto haja empregados e trabalhadores. A conclusão que para si é descabida é também sua.

      Sugiro-lhe que leia tudo outra vez e que leia o que lá está e não o que quer que esteja.

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  11. Um exemplo maravilhoso do contrário: Dar i Acordar, Associação Contra o Desperdício Alimentar. A cara é o António Costa Pereira que se tem mexido de todas as formas e feitios e encarado o problema como se fosse dele! Mais que isto? Não se pode pedir, nem se acredita que seja verdade...
    Para ver, aderir e multiplicar.
    http://www.youtube.com/watch?v=a33JAn7jgC0&feature=share

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  12. Os brasileiros somos iguais, talvez piores. Culpa da colonização? Duvido.

    Somos bons mesmo em reclamar e reclamamos muito: do sol no verão, do frio no inverno, enfim; e quando nos botamos a reivindicar algo, apelamos aos recursos passivos (greves, boicotes). Agir que é bom, lhufas!

    Cito o exemplo da proclamação de nossa república: Dom Pedro II estava confiante de que os brasileiros não moveriam uma pá em favor dos republicanos, e, mesmo depois de banido, acreditava que voltaria. Os próprios republicanos não acreditavam no sucesso do golpe. Contudo, depois da traição, ninguém fez nada, não houve grande comoção popular, nem prá cá, nem prá lá, com raras exceções em alguns rincões do país, sem efeito prático algum.

    Ou seja, trocamos um rei intelectual, progressista, liberal (permitiu até a criação do partido republicano) e bem-intencionado, por 5 anos de ditadura, chefiada por um bando de maçons vendidos, racistas, oligarcas, cruéis e intelectualmente medíocres, que, tão logo no poder, censuraram a imprensa, imporam suas rédeas conservadoras, oprimiram a oposição e atacaram o livre pensamento, coisas que o Pedro Banana não fez em quase meio século de reinado.

    Observe que somente em 1993, mais de 100 anos depois do golpe e através de um plebiscito absolutamente inócuo, a república foi "legitimada pelo voto popular". O resultado está aí: cento e vinte anos de populistas no poder.

    Se para uma questão dessas não nos mexemos, imagine então para reivindicar cobertura aos pontos de ônibus!

    :- )

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  13. Concordo com a MRP quanto ao derrotismo, pois aqui em Portugal não estou a ver numa terra qualquer a fazerem uma cena idêntica à que nos relata de Cabo verde.
    Quanto ao resto eu diria que somos um povo com muito jeito para a desorganização especialmente nas empresas e isso faz toda a diferença nos resultados que elas obtêm quando comparadas com outras. Trabalhamos mais horas que os alemães e produzimos menos e os nossos emigrantes por essa Europa fora são por regra considerados excelentes trabalhadores.

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  14. Caros:
    Procurar os culpados pelo estado em que nos encontramos através da dissecação da idiossincrasia dos portugueses para saber se são empreendedores ou preguiçosos, derrotistas ou optimistas, se adoptam a atitude do empregado ou a do trabalhador, ou atribuir a raiz do problema às elites ou à grande massa, ou ainda fixarmo-nos nas grandezas do passado para acreditar que teremos outro futuro, penso que é desperdiçar energia de forma «naïf».
    Sem querer ser paternalista, penso que é preciso considerar dois planos de análise para compreendermos porque estamos assim, e que são fundamentais para não nos deprimirmos. Também ajuda a um certo distanciamento do imediato, desta luta «fratricida entre iguais» em que se transformou a política à portuguesa e a discussão pública.
    1.º Plano de análise ─ Portugal entrou em crise profunda, e em bancarrota, em 3 momentos da sua história, quando perdeu o império do Oriente, em 1580 acabámos por perder mesmo a independência. Reorganizámo-nos então em torno do novo império do Brasil; no século XIX, com a independência deste país, perdemos o 2.º império e entrámos, primeiro num longo período de guerras civis, seguido de um desenvolvimento baseado em empréstimos (Fontismo), para cairmos pela 2.ª vez em bancarrota. Reorganizámo-nos mais uma vez, agora em torno do novo império de África; em 1974, com a descolonização, perdemos o 3.º império e entrámos em bancarrota. Em 37 anos tivemos de recorrer 3 vezes ao FMI.
    2.º Plano de análise ─ No actual quadro em que nos movemos (pós 25 de Abril e integração europeia) o mundo mudou muito: temos as debilidades internas decorrentes da perda do império e o desafio da concorrência a 15, a 17, a 24 e agora a 27 países que compõem a UE; como se tal não bastasse, a globalização veio agravar muito os problemas da zona euro, afectando mesmo os países mais ricos e desenvolvidos, quanto mais o nosso.
    Portanto, a raiz do problema é capaz de ser bem mais funda do que características pessoais ou competência «tout court».

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  15. Gosto deste blog. Gosto de ler este blog e de ler, também, quem aqui comenta com certa assiduidade. Eu, que nem portuguesa sou e que, felizmente, não carrego traumas de colonizada, concordo inteiramente com o teor do primeiro comentário, não discordando, contudo, das palavras da dona destas Horas Extraordinárias. O Povo Português é, realmente, um Povo sofrido. Social e politicamente falando. Forçado foi a deixar o país por falta de condições de vida. A ver por esse mundo fora, onde não existe um português? E o sofrimento atroz de 40 anos de uma ditadura cruel e desmedida? E as guerras coloniais onde foram morrer por uma causa que não lhes dizia respeito? Sempre estiveram debaixo das botas dos Senhores. As coisas mudaram, é certo. Há liberdade política e de expressão mas existirá liberdade quando o prato está vazio e a barriga também? Há um comodismo? Uma preguiça? Talvez. Ou será que é o desânimo, o desalento ou o cansaço de quem rema contra a maré? Um dia desiste-se de remar e fica-se à espera que a maré nos leve, mantendo, no entanto, a esperança que ela nos leve a boa margem, a bom porto.

    Saudações.

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  16. António Luiz Pacheco15 de junho de 2011 às 15:26

    Muito interessantes e dando que pensar estes dois últimos comentários (Manuel e Maria)...

    Responderei a ambos com uma reflexão:
    A história está escrita... mas, a que é conhecida fala de valentes guerreiros e de navegadores ousados, exploradores intrépidos, políticos sagazes... essa eu diria que é a história do orgulho, a folclórica!
    Mas há a outra... a do povo anónimo... dos caramelos, ratinhos e gaibéus, dos avieiros ...
    Que eu ainda conheci... gente muito pobre e que só aspiravam a poder trabalhar.

    Quando era cachopo... vinham para aí ranchos trabalhar, as mulheres pariam debaixo de uma cepa ou à sombra de uma oliveira... lembro-me de bébés deitados à sombra de um freixo enquanto os pais lidavam na ceifa, e de crianças nuas da cintura para baixo, descalças, sujas, que brincavam em cima de uma saca no chão...
    Há um quadro célebre: "Assim se criam"...
    Eu vi! E cá, aqui em Portugal, no meu Bairro Ribatejano a 4 km de Santarém e 70 de Lisboa, e só tenho 55 anos!

    Em Agosto fazia-se a eira, a cagula dos molhos de trigo empilhados, e em volta as dos vizinhos que não tinham eira... depois vinha a máquina da debulha, fabricada no Tramagal, amarela com as letras a vermelho ! Trazia com ela a companha de homens para a faina, e com eles vinha sempre um garoto, que teria uns 10 a 12 anos, cuja função era a de num cepo de madeira adaptado para isso, esticar, cortar e preparar os arames para os fardos! Corria o dia todo de uma ponta à outra do cepo, comia do "rancho" e à noite dormia ali debaixo dos plátanos, faias e tílias que ainda rodeiam o que era a eira, deitado em cima de uma saca, no chão e a céu aberto, com os outros... lavavam a cara numa bacia de esmalte e pouco mais, cobertos do pó da eira! Aquilo fazia-me grande impressão por ser um garoto, e era o meu herói! Vinha por aí fora com os homens, sozinho e sem os pais... dormia na rua... comia do tacho...

    Toda a minha vida cacei, e acompanhei o meu pai nas suas voltas, antes dos jipes e muito antes das autoestradas ... dormi em palheiros, com os cães, e bebi água de poços... o que nem era novidade... também passei noites no campo por causa da regas ou calores de matar gente a apanhar fruta nos pomares, tive as mãos engadanhadas das geadas...

    Quando dei aulas, tive alunos que cheiravam a cão molhado, que faltavam às aulas porque iam ajudar a azeitona ou nas podas...

    Anos depois trabalhando nas compras de Pingo Doce, sempre nos perecíveis, percorri na década de 80 e de 90 todo o país... fui comprar cabritos e vitelas, borregos, chouriças e butelos , maçãs, laranjas, castanhas e cerejas... em rincões esquecidos e ainda encontrei muita gente a viver assim, na dureza ancestral e tradicional, pelas serras e planícies do nosso país. Podia contar de moças adolescentes que se suicidavam nesses montes perdidos onde os pais criavam porcos e ovelhas, vítimas da solidão e desespero.

    Conheci chefes de família que depois de um dia de labuta nos pomares e vinhas, passavam a noite na cabine de uma velha camioneta nos mercados abastecedores, aguardando para descarregar, depois iam embora na madrugada, para estar outra vez no local da safra logo pela manhã! Cuja roupa eu conhecia de Terça a Sábado...

    As coisas evoluíram, mas lembro a Lurdes, uma colaboradora que chegava às 9 h à central, primeiro em Camarate depois em Loures, vinda de além do Barreiro, de onde saía pelas 6.30, apanhava inúmeros transportes, e saía às 17 para o torna-viajem. Tinha marido e dois filhos que todos os dias levavam almoço para trabalho e escola, e, tratava da casa pois o seu salário de reaprovisionadora não dava para ter empregada.
    Foi outra heroína como o rapaz dos arames!

    É por tudo isto e porque apesar de ser um privilegiado que usa gravata, estudou, era filho e neto do patrão, depois foi o "chefe", mas que sempre fui educado a respeitar estes heroísmos verdadeiros, e que me habituei a reparar neles, que acredito no povo português, como tenho a certeza de

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    1. Sim, foi uma boa conversa. Foi um bom tema. Tudo isto propiciado por este maravilhoso espaço de ensinamentos e de respeito. Agradeço-lhe por isso, Senhora Maria do Rosário.

      Agora, Senhor Pacheco, eu acrescentaria mais isto: nunca se deve generalizar. Dizer que um povo é isto, outro é aquilo não é justo. Há povos de culturas diferentes, de formas diferentes de encarar a vida. Há povos de regiões frias, outros de regiões quentes que, em nada, favorecem o labor e que favorecem a indolência. Há as próprias condições de trabalho - os que são bem pagos pelas tarefas que executam e outros (e ainda os há) que ainda trabalham sob o regime da escravatura. Tudo isso pesa. E pesa muito. E já que falei em maré, falo agora em barco. Não estaremos nós todos, independentemente da nacionalidade que temos, no mesmo barco? Um barco chamado mundo que, ao que parece, está quase (eu sou optimista) à deriva?

      E agora confesso: muitas vezes venho aqui ler e até tenho vontade de escrever qualquer coisita mas dá-me uma preguiçaaaaaaaaa ...


      Boa noite a todos e o meu muito obrigada.

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    2. António Luiz Pacheco15 de junho de 2011 às 17:57

      Minha Cara Maria:
      Falei sempre e só nos portugueses, porque era a eles que o post se referia... não por omissão ou desprezo!
      Para mim os povos são o lugar onde vivem, nem melhores nem piores, nem mais nem menos... são aquilo que a sua terra e forma de vida fez deles ao longo de gerações! E, é talvez essa a minha condição de português, de o perceber e aceitar, de me integrar, o que me tem levado a ser aceite nas partidas do Mundo, da Universidade de Cornell ao porto de pesca de Iquique ... e digo ainda que para mim, é na sua diversidade que reside a grande maravilha da humanidade!

      Creio sinceramente que não é o Mundo que está em crise, e sim o modelo da sociedade ocidental que conhecemos.

      A preguiça pode ser um defeito mas por vezes constitui um prazer e mais do que isso pode até ser uma virtude, pois foram exactamente os não-preguiçosos quem causou a crise! Mas isso fica para outra conversa...

      Uma boa-noite e cumprimentos, agradeço-lhe por gostar do meu país... e estimo que da minha gente!

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    3. Pelo generoso depoimento, onde verdades e sentimentos se dignam de esperança dos homens.


      Piedade

      De quanta piedade é necessária
      Para encher a taça da harmonia
      Se apenas um gole de saudade
      Mata sede desta agonia.

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    4. Em primeiro lugar peço desculpa a Maria do Rosário Pedreira pelo tamanho deste comentário. Pedido de desculpas que é extensivo a todos os que tiverem a paciência de o ler.
      Caro António Luiz Pacheco
      “Para mim os povos são o lugar onde vivem, nem melhores nem piores, nem mais nem menos... são aquilo que a sua terra e forma de vida fez deles ao longo de gerações! E, é talvez essa a minha condição de português, de o perceber e aceitar, de me integrar, o que me tem levado a ser aceite nas partidas do Mundo”
      Estive quase para não voltar a comentar neste post, mas o seu comentário, particularmente este bocadinho que me permiti citar, chama a atenção para o que de facto gostamos de esquecer. Somos preguiçoso, incompetentes, laxistas, porque olhando o país que temos hoje, somos obrigados a concluir que sim. Mas, em primeiro lugar, é curiosos que ninguém se interrogue porque é que somos assim. Em segundo, franceses, belgas, alemães, espanhois, italianos, etc, etc, não são diferentes de nós. São tão preguiçosos ou mais, tão incompetentes ou mais, tão laxistas ou mais e já me estava a esquecer dos corruptos que são tanto ou mais. E também podemos incluir neste lote os nórdicos todos, sem excepção. Não somos, portanto, nem melhores nem piores.
      Qual será então a diferença? O que fará com que estejamos tão mal e os outros aparentemente tão bem?
      Poderia por começar por dizer que é falso. Várias cidades europeias estão falidas. E não estou a falar de Gregas ou Irlandesas. Poderia até perguntar-vos qual é o carro inglês que a Inglaterra produz actualmente.
      Talvez devêssemos procurar as causas, não num passado remoto de séculos, mas no presente. Vá lá, recuar até uma geração, não é preciso ir mais longe. Fazê-lo, é apenas prosseguir com as desculpas da treta.
      Temos empresas de topo. Empresas que inventaram a Via Verde, inventaram a tecnologia mais moderna para produzir fatos de banho para nadadores olimpicos, que produziram e produzem software para a Nasa, que fabricam os atoalhados que os ricos de Nova Iorque preferem, que produzem os sabonetes que esses mesmos ricos querem nas suas casas. Temos actualmente o 3º ou 4º maior parque de produção de energia eólica a nível mundial. Já nem falo de outras empresas de distribuição alimentar ou de construção, com contratos em todo o mundo. Estas empresas não precisaram de mais que uma geração para atingir o topo.
      Então porque é que as outras empresas, as que não produzem, as que dão prejuízo, não copiam o modelo organizacional e fazem algo?
      Temos duas falhas enormes e não são falhas que venham da pedra lascada. São falhas que podem ser corrigidas em menos de uma geração, tal como nem sequer foi necessária uma geração para destruir o pouco que tínhamos.
      As duas falhas são a falta de conhecimentos qualificados, quer a nível de gestão, quer ao nível do saber fazer e do rigor, mas sobretudo a falha que não se vê, aquela que não tem importância nenhuma, mas que condiciona tudo o resto; a cultura.
      Não me refiro à cultura livresca ou à quantidade de museus que já se visitou. Refiro-me aquilo que é intrínseco a todo o ser humano. Refiro-me à desprezada tradição, agora transformada em orgias de cerveja ou em algo ultrapassado. Refiro-me à cola que liga as pessoas ao que é seu e sem a qual já não há sequer um sentimento de pertença. Refiro-me ao modo como as áreas de humanidades são tratadas pelos sucessivos ministérios da (des)educação.
      Refiro-me também à cultura empresarial, ou seja à cultura dos empresários enquanto empreendedores. Há os que a têm e vêm longe, semeiam e esperam. Há os que a não têm e morrem nos seus todo o terreno e carros de alta cilindrada.
      O exemplo que passa para a generalidade da população é o do luxo, o do exibicionismo, o do esbanjamento. O trabalho é e deve ser apenas um entretenimento passageiro.
      É o exemplo do ensino, quando o Ministério se preocupa em passar diplomas e confunde a posse do diploma com a posse do conhecimento.
      É o exemplo do Estado e do endividamento sem peso nem medida, do meter a cabeça

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    5. António Luiz Pacheco16 de junho de 2011 às 08:07

      Meu Caro João Raposo:
      Mais uma excelente dissertação, se me permite!
      É claro que eu não tenho as soluções, mas como você conheço o problema, e, porque olho para trás e em volta, acredito que vai haver essa mudança de mentalidade e de atitude que tão bem descreveu e refere como necessária! A própria vida e os rolar dos acontecimentos se encarregarão disso! Não duvido!

      Mas ainda a propósito do que diz sobre a similaridade das preguiças e defeitos, deixe-me citar o capitão Therence P. Lassalle, personagem do meu Largueza (volume II) que exprime exactamente o que sinto sobre estas questões de pretensas superioridades rácicas ou humanas:
      ... "a minha tripulação, de que tenho o maior orgulho! É composta de filhos do rio, queimados pelo Sol do rio, torrados pelo calor das caldeiras, escurecidos pelo fumo das chaminés e tintos pelo carvão!”, olhou em volta chupando o cachimbo vazio que voltou a mirar contrariado. “Quero dizer que a minha tripulação é de pretos! Exclusivamente de pretos… eu mesmo sou preto por dentro da pele! Podem crer! Porque mamei numa ama preta… só que o leite era branco e assim fiquei branco, mas só por fora! São preguiçosos, burros, teimosos e incorrigíveis… como o são os mexicanos, índios, chineses e os brancos que conheço… portanto para evitar equívocos, só tenho pretos! Pelo menos tocam e cantam bem, e são-me leais porque sabem que eu sei o que são: Iguais a todos os outros malandros e calaceiros de qualquer raça!”.
      Voltou a chupar com força o cachimbo. “Os senhores têm algum problema com pretos?” Inquiriu. “É que se têm… ainda vão a tempo de escolher outro capitão e tripulação…”, a assistência estava presa das suas palavras e espantada.

      Um grande abraço

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