A dactilógrafa e o paginador

Quando andava na Faculdade, trabalhava três horas por dia no escritório do meu pai, dactilografando em três vias de papel selado com químicos pelo meio várias acções cíveis. Não era nem por sombras tão rápida como uma dactilógrafa profissional que estava lá todo o dia há muitos anos e que era capaz de bater sei lá quantas palavras por minuto; no entanto, no fim da tarefa, eu sabia o que estava escrito naquelas folhas azuis de fio a pavio, enquanto ela, que trabalhava palavra a palavra, não fazia a mais pequena ideia sobre o que versava o texto que dactilografara. Tal comportamento sempre me espantou e, quando já estava na edição, trabalhei com um paginador que era o oposto da senhora. Já na época da fotocomposição, a ele bastava-lhe importar um ficheiro Word e estender o texto num formato predefinido  – e para isso não tinha de «escrever» realmente nada –, mas a verdade é que não raras vezes me levava as provas com gralhas e erros assinalados, antecipando-se claramente ao revisor. Descobri mais tarde que este paginador adorava ler e não resistia a dar uma espreitadela aos livros todos em que trabalhava. Já a dactilógrafa não tinha, provavelmente, grande gosto pela leitura.

Comentários

  1. Quem gosta mesmo de ler dificilmente resiste a qualquer página escrita.

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  2. Talvez não esteja a ter em conta que uma dactilógrafa profissional tem que apresentar um número mínimo de linhas escritas por dia. Alguém que só dactilografa, um dia inteiro, sendo esse e só esse o seu trabalho, tem que encontrar formas de "desligar" dessa tarefa mecânica. Por outro lado, não se pode concentrar no que escreve porque altera a velocidade e qualidade (ausência de erros) do que faz. Talvez fixe uma ou outra frase, mas o mais provável é que "olhe" para as palavras e se limite a transcrevê-las, sem sequer as ler.

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    1. Ora aí está uma "coisa" bem escrita e com sentido!!
      "Quem muitos burros toca algum fica para trás" ....já não basta a monotonia dos conteúdos , quanto mais ter de os ler. Desgraçada da dactilografa que, imagino eu, só quereria era chegar ao fim da tarefa, bem se importaria ela se em vez de "Acórdão" estivesse a escala musical! :)

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    2. Tem razão, claro, mas a mim sempre me fez impressão que alguém copiasse um texto conseguindo não o ler. Era essa a questão.

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    3. Pode parecer estranho mas acontece. Talvez o António Damásio pudesse explicar melhor. Eu próprio lembro-me de uma experiência estranhíssima, até para mim, quando há já muitos anos tive que "anotar" o que se ia dizendo numas reuniões a que era "obrigado" a assistir. Conseguia chegar ao fim e não me lembrar de uma única frase do que tinha escrito. Talvez venha daí a minha aversão a reuniões, ou então a minha aversão a reuniões já viesse de trás e provocasse esse "esquecimento". Devo acrescentar que também nunca me lembrava do que se discutia nas reuniões.
      Hoje, ao relembrar esse facto, continuo a achar estranhíssimo.

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  3. Ora aí está uma boa razão para, não raras vezes, me atrasar a paginar, tendo que recorrer a horas extra, normalmente durante a noite, para conseguir cumprir os prazos de entrega das provas. Com os prazos que por vezes me impõem não é possível, por muito que me custe, ler o livro que estou a paginar. Isto obriga-me a optar por apenas passar os olhos pelas palavras não decifrando a sua mensagem. No entanto, pagino livros em que as palavras possuem um magnetismo, que mesmo sabendo que o prazo está a ficar apertado, me obrigam a trabalhar durante mais tempo de forma a ler todo o seu conteúdo. Mas outros há em que apenas vejo um emaranhado de caracteres com os quais luto incansavelmente para chegar ao fim da paginação. Por esta lógica penso serem as palavras e a forma como estas são utilizadas que nos dão ou tiram o gosto pela leitura.

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    1. Obrigada, Henrique, pelo seu testemunho. Por isso vêm tão bem paginados os seus livros!

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    2. E, suponho, que não terá feito paginação tipográfica :)

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    3. É verdade que já não fiz composição tipográfica com caracteres de chumbo, penso que é a isso que se refere, mas aprendi todas as suas regras, e reproduzia-as integralmente nas velhinhas fotocompositoras, pois assim me era exigido, primeiro pelos meus mestres e depois pelo brio profissional. Muitas ainda respeito, sempre que posso e/ou me deixam.

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  4. Gostei principalmente do trocadilho com Tia Júlia e o Escrevinhador, de Mário Vargas Llosa...
    É verdade, nem todos têm o gosto da leitura

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  5. Apenas por analogia, e evidenciado diante desta exposição e graça, que ao início das composições poéticas lá na Grécia antiga, surgiam às medidas de pés básicos, “dáctilos” que por ventura seguiam aos pulsos da batida do coração. Eventualmente a leitura nos remete por este condicionamento meio que intuitivamente, então nosso tempo de relação por conhecimento e causa, revela esta afinidade e amor pelas palavras. Com relação ao paginador, também o poderia dizer pela sensibilidade, em algum momento de seus sentidos.

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  6. Eu, então, e à falta de melhor, até o rótulo do pacote de leite leio ao pequeno-almoço :)

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  7. Algures, entre a dactilógrafa e o paginador, temos o velho tipógrafo, que, esse sim, mede, avalia, cada uma das palavras que lhe passam pelas mãos.
    Concordarão que aqui, nas Horas Extraordinárias, é o sítio certo para o homenagear.
    Peço, pois, licença a Maria do Rosário para deixar aqui essa minha homenagem, transcrevendo uma coisa que escrevi:

    «(…)
    – “Foi o João Pinto, carago!”, exclamará o tipógrafo caso este livro venha a ser fabricado à maneira antiga, numa velha tipografia do Porto – “Foi o gajo que disse prognósticos só no fim, o estupor, não percebia de filosofias mas jogava a bola como mais ninguém”, acrescentará enquanto vai compondo com acrescentado carinho aquele último parágrafo, alinhando com cuidado as barras de chumbo onde agrupa os tipos invertidos que haverão de imprimir e tornar legível no papel – num livro! – aquela homenagem, agora também sua, ao craque do FCPorto.
    Isto, caro Leitor, é um truque a que recorro para atrair as simpatias do temido tipógrafo. Na verdade, o próprio Borges receava (respeitava) o tipógrafo. Por isso escreveu no 6º verso de “Os Justos”: – “O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade”.
    Releio a parte final do capítulo anterior, aquela espécie de moral da história, aquele remate a puxar ao retórico, e receio que algum tipógrafo possa, no próprio acto crucial de materializar num livro aquilo que escrevi, marcar esse acto com um pensamento crítico discordante.
    (…)
    Nas velhas tipografias, a composição de livros é a renovação do acto de escrever, parte integrante do processo da literatura. A vagarosa e atenta composição permite ao tipógrafo acompanhar a par e passo as ideias do autor, perscrutar-lhe o raciocínio, estudar-lhe o estilo, entender o seu particular processo de escrever, surpreender-lhe os segredos. Enquanto alinha os tipos, procede necessariamente a um exame crítico da obra que está a compor. Em suma, com o seu trabalho aprende a ser também escritor.
    Por isso, melhor que ninguém ele pode, ao compô-la, avaliar o conteúdo desta página, fazer com legitimidade o seu julgamento.
    Ainda que não lhe agrade, compô-la-á, no entanto.
    Mas decidirá: – “Escreverei sobre isto de outro modo, direi com outras palavras outras coisas sobre esta ideia, e com isso transformarei a própria ideia”. (…)»

    Cumprimenta,
    Joaquim Jordão, Amarante

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  8. "fotocomposição, a ele bastava-lhe importar um ficheiro Word"

    A Dra Rosarinho confunde "fotocomposição" com "digital" e trabalha na edição? É que isso é de amadora, Dra!

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  9. O seu post prova que há várias maneiras de ler.
    A funcionária do seu pai cumpria apenas a função que lhe competia, imagino que apenas tivesse tempo para ler com os olhos. A MRP não usava só os olhos para ler, porque não tinha de ser tão rápida nem tão produtiva. Talvez a funcionária do sue pai nunca tenho tido tempo para ler livros, nem sempre a vida nos permite isso.
    Bom feriado.



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  10. "Já na época da fotocomposição, a ele bastava-lhe importar um ficheiro Word..."

    O quê?! A senhora não sabe o que é/foi a fotocomposição, pois não?

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  11. O Word é uma ferramenta de edição de texto em computador. Logo, é IMPOSSÍVEL que um "fotocompositor" a usasse: seria um anacronismo. A fotocomposição foi o estádio tecnológico que precedeu o desktop publishing, ou seja, a chegada do computador. Um conselho: quando não se sabe, procura-se saber.

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