Um ar de feira
A Feira do Livro de Lisboa está de novo aí – e gosto muito daquele ar descomprometido que tem. Alguns editores que começaram como aprendizes há mais de vinte anos – a Cecília Andrade da Dom Quixote, o João Rodrigues da Sextante e eu própria, por exemplo – fizeram muitas feiras atrás do balcão, que era onde se podiam auscultar os desejos e as necessidades do público quando o gosto não seguia modas mais ou menos globalizadas e parecia importante estar atento aos mais ínfimos suspiros. Nesse tempo – lembremo-nos – ainda havia poucos leitores; muita gente não tinha sequer coragem de entrar numa livraria, que era um lugar bastante formal, e a feira era uma das poucas ocasiões em que todos podiam ir olhar e mexer nos livros, tal como mexiam nos cacos e nos panos noutras feiras. Lembro-me de uma vez, estava eu ainda na Gradiva, aparecer uma senhora do povo (como então se dizia) que veio direita a mim a perguntar: “Ó menina, tem aí algum livro que ensine como se deitam os canários?” Houve outras cenas do género, mas esta ficou-me. E não é que havia mesmo quem tivesse publicado um pequeno volume sobre a reprodução de aves domésticas?
Ah ah ah!
ResponderEliminar"A criação de canários e seus híbridos" de Joaquim Pratas (Editorial Notícias)!
Está ali na estante dos livros práticos, manuais agrícolas e de gestão, etc. O sector profissional!
O contacto com o público-consumidor produz quadros fantásticos:
Inauguração do Pingo Doce de Évora:
- Dois compadres, castiços de chapéu e já entradotes diante da peixaria onde a Luísa havia colocado um espadarte inteiro com uma lagosta a sair da boca, após um largo momento de avaliação, afirma um com ar entendido:
"Grande pêxe !"
- Um pequenito pela mão da mãe, diante do linear de lacticínios : Íííh , tanta mantêgaaa ..."
- Inauguração do Feira Nova de Mirandela:
Uma moça no corredor de pet food, com uma caixa de mistura para aves:
"Comeida p'ra puassaroucos?"
E muitos outros, davam para um livro!
Claro que falo da década de 90. Mas ainda acontecem, basta quando se vai às compras estar atento aos vizinhos e ir ouvindo as conversas de passagem...
Bom fim de semana a todos!
aqui só para nós, que ninguém nos ouve, a Rosário sente-se bem no ambiente de hipermercado da "Leya", na feira?
ResponderEliminarNa verdade, como todos os que começaram há vinte anos, gostava mais de quase tudo como era antes. Mas os autores sentem-se bem tratados e isso é o mais importante. Além disso, o paradigma mudou e, como tal, não vale a pena chorar sobre o leite derramado.
Eliminaracredito.
ResponderEliminarmas as vendas devem ser um sucesso, Rosário.
ainda este sábado era uma confusão na Leya, gente em tudo o que era sitio.
tenho muita dificuldade em estar a ver livros e a ser empurrado constantemente, isto sem falar do "sonoro"...
sim, o autor é mais valorizado, as sessões de autógrafos são mais "holiwodescas".
Eliminaracho bem, isso é bom para o ego de qualquer autor.
O sonoro, tem razão, às vezes é um bocadinho exagerado. Já tive de pedir três vezes para baixarem o som... Deve ser uma questāo de geração.
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