Diz-me onde compras

Portugal perdeu nos últimos dez anos muitas livrarias independentes; e grande parte das que não perdeu pesa cada vez menos no total das receitas nacionais de vendas de livros, ao contrário do que acontece em Espanha ou França, onde não são só (nem sobretudo) as grandes cadeias de lojas que contribuem para os bons resultados financeiros das editoras. Tenho pena, porque, assim, uma estreita relação cliente-livreiro é cada vez mais difícil de encontrar e estaremos condenados a breve prazo a dialogar apenas com rapazes e raparigas que ganham provavelmente o ordenado mínimo e só sabem dos livros o que o computador lhes diz. Ainda assim, entre os vários grupos livreiros – FNAC, Bertrand, Bulhosa, Almedina... – há diferenças gritantes quando observamos os Top de determinada semana: enquanto Nora Roberts e Luís Miguel Rocha ocupam os primeiros lugares na Bertrand, Liberdade, de Jonathan Franzen, e Ilha Teresa, de Richard Zimler, lideram a lista da ficção na Bulhosa e na Almedina. Não sei se poderemos tirar daqui conclusões, mas talvez os amantes da literatura ainda prefiram, apesar de tudo, lojas consideradas mais tradicionais...

Comentários

  1. Pois é, o grande Aquilino Ribeiro, o Adolfo Rocha (Miguel Torga) e o Henrique Teixeira de Sousa faziam questão de passar, habitualmente, pelo seu editor e por alguns livreiros a fim de recolherem impressões dos seus leitores. No presente, entrar numa grande superfície onde se vende livros, é desagradável, para mim. Prefiro o sector da fruta, dos chouriços e do pão: aí sempre há menos agressividade: aqueles tops, aqueles destaques e recomendações são demais para os meus nervos...

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    1. Interessante esta referência a Henrique Teixeira de Sousa, pois tenho aqui 'A Ribeira de Deus' para ler.

      :)

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    2. Onde comprou a Ribeira de Deus? É que tenho andado á procura e não encontro. Sabe me aconselhar onde encontro?
      vandaserradas@yahoo.com.br

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  2. E nem na Feira do Livro as coisas funcionam melhor. Há dias, na do Porto, perguntei numa banca se já havia uns livros que estavam anunciados no site da respectiva editora e ficaram a olhar para mim com um ar muito atrapalhado. - Sabe, eu só estou aqui a fazer a feira... - desculpou-se a senhora. «Ah!», pensei eu, «então não precisa de estar informada.»

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  3. Mas os tops são ou não são pagos? E, assim, pagos mais de acordo com os gostos dos prováveis clientes, consoante preferências, do que com a efectiva aquisição pela clientela.

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  4. É triste, muito triste que todo o trabalho de criação intelectual ao longo de meses e anos seja editado e tenha prazo de venda, assim como qualquer produto facilmente perecível.
    Um livro depois de editado dura quanto tempo nos escaparates de uma livraria? Um mês ?Máximo dois, findo que é esse prazo, ruma a um qualquer armazém e ficam -se por ali, à espera de melhores dias. Quem sabe um alfarrabista compre os "excedentes"..... É este o panorama literário em Portugal, inundado de vampiros e outros monstros devoradores.

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    1. Dois meses no escaparate uma livraria é de um enorme optimismo! A propósito, conheço uma (pequena) editora que escoa os excedentes para Angola, não interessam os autores, vendem-se os livros ao quilo.

      MV

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  5. há de facto diferenças entre livrarias e, consequentemente, entre tops, mas os mesmos não são 100% transparentes; funcionam sim como mais um instrumento de marketing das respectivas cadeias.

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  6. ser livreiro independente é uma aventura, quase sempre ruinosa.

    se ainda morasse nas Caldas, comprava todos os livros na 107, como moro em Almada, a FNAC é o destino habitual...

    não ligo a "topes", compro os livros dos autores que gosto ou então vou atrás de alguma sugestão de quem conhece os livros como os "decantores" de vinho...

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    1. Eu "tops" é mais no verão :), de resto faço minhas as suas palavras; grandes superficies não fazem o meu género. Delcia das delicias é comer um gelado no Santini e depois passar pela livraia Galileu em Cascais. Aí fica um pedaço de paraíso.

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    2. Em Almada, as Livrarias Escribas ainda se vão aguentando, e pelo menos falamos com quem conhece a área de negócio.

      MV

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  7. Há alguns meses, foi salvo erro, Maria Teresa Horta quem se queixou de ter a informação de um livro seu, esgotado em todas as livrarias, enquanto o editor ou distribuidor possuía centenas em armazém. Estavam de resto a ocupar tanto espaço que foram destruídos pelo editor ou distribuidor. Algum funcionário zeloso? Algum executivo a medir custos e benefícios? Parece-me, de qualquer modo, que há aqui muito espírito de merceeiro, seja o que anda com o lápis atrás da orelha, seja o que agora usa uma Mont Blanc atrás da mesma orelha.

    E depois ainda temos os clubes. Nem todos os distribuidores trabalham todas as editoras, nem livrarias. Há livrarias que não trabalham com certas editoras. Há editoras que não trabalham com certas livrarias. Basta entrarem numa livraria do grupo da Bertrand e verificarem os livros que faltam, ou no grupo Bulhosa e fazerem a mesma comparação. Portanto, qual a validade dos tops?

    O que leio depende dos dias. Por exemplo do Larsen li os três livros numa semana, o 2666 em três dias. Já o Eco tenho um especial prazer em prolongar a passagem de cada página, seja de "O cemitério de Praga" ou "A passo de Caranguejo", que recomendo especialmente, se a minha recomendação tiver algum valor para alguém.

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    1. Desculpem. Onde está Larsen deveria estar Larsson (Stieg).

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    2. Claro que tem. Mas "A passo de caranguejo" não é do Günter Grass?

      Cristina

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    3. O livro a que me refiro é de Umberto Eco, publicado pela Difel, com o título original "A Passo di Gambero" e pode encontrar mais informações aqui: http://www.portaldaliteratura.com/livros.php?livro=4043

      De facto também existe um livro traduzido para português com o mesmo título e da autoria de Günter Grass, com o titulo original Im Krebsgang.

      Não li este último nem sabia da sua existência. Pode ser que um dia destes ainda o leia.
      Obrigado pela dúvida que me obrigou a descobrir um livro "novo"

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    4. Desconhecia o livro do Eco que refere! Também desconhecia que era possível existirem dois títulos (ou duas traduções de títulos) iguais. E, obrigada por me dar a conhecer um livro "novo".
      Cristina

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  8. Diz-me onde compras, eu digo-te quem és... Será possível fazer a analogia?

    É uma abordagem arriscada, (acentuada por aquela idiota fidelização às migalhas dos pontos da Fnac, como pombas na praça, à espera do milho), mas seguramente que os melhores leitores não se encontram exclusivamente na Fnac, nem na Bertrand...

    O defeito dos grandes grupos é o de minarem a liberdade, no sentido em que apenas promovem o produto facilmente consumível. A qualidade literária do artigo é desvalorizada, em prol de um produto que é ensaiado em laboratório para ir de encontro às massas...
    A escassa literatura de qualidade que têm, nestes lugares, encontra-se reservada aos autores premiados, muitos deles de mérito discutível...

    Acredito que se estas livrarias perdessem a sua preponderância, surgiriam livrarias distintas; organizadas por temas, ou de autor,... livrarias com fundos (como falava o Eduardo Pitta na Ler 101), onde haveria realmente um espaço amplo para os autores de qualidade, e de livros seleccionados.

    Se não houvesse este capitalismo literário, - que infelizmente se estende às feiras do livro, com funcionários de farda, alarmes, cercos... - haveria uma maior liberdade e desafogo económico para o nascimento de outras livrarias, como a do aficcionado da literatura, mesmo tendo pouco dinheiro, transporta o sonho de partilhar o seu prazer e sabedoria com os outros, construindo uma livraria, como surgiu, um dia, a Bertrand, a Latina, a Lello... Hoje como está a sociedade re-estruturada conservar-se-ia?

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    1. Para melhor clareza da ideia, no segundo parágrafo é:

      É uma abordagem arriscada, (...), mas seguramente que os melhores leitores não irão exclusivamente à Fnac, nem à Bertrand...

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  9. Desde que tenham livros, gosto de todas, até da secção de livros do Continente.
    Parece-me que o grande problema actualmente, e que se verifica, na Fnac, Bertrand, Almedina, Bulhosa ou Leitura aqui pelo Porto, é encontrarmos normalmente sempre os mesmos livros - as novas edições.

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  10. Bom dia M. Do Rosario: nos anos 80 apareceu a 1a Fnac en Lyon. Aderi ao club. E, o meu filho então estudante entrou como empregado em part time, onde ficou como quadro durante ainda vários anos. O facto de eu ter conhecido l\'esprit Fnac de dentro nunca me impediu de exigir a qualidade do serviço pois, várias vezes procurando um livro, alguns dos empregados eram leigos ou iocompetentes. Os grandes grupos acabaram por matar os livreiros, embora ainda tenhamos alguns onde entro com prazer. Tanto em Lyon como em Paris gosto de entrar nos buracos dos labirintos até encontrar o livreiro que, ainda me poderá oferecer dois dedos de conversa sobre o autor e a sua obra!

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  11. Pois, mas quando era a Carolina Salgado da "sua" D. Quixote a estar nos Tops, a Dra. Rosarinho não se queixava pois não?

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    1. Lamento contradizê-lo, mas nem mesmo agora a D. Quixote é «minha», muito menos nesse tempo. E a verdade é que concordo absolutamente consigo quanto à Carolina Salgado, que nunca deveria ter sido publicada com a chancela D. Quixote.

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  12. E quanto ao Luís Miguel Rocha, fale com o Manel.

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    1. Mais uma vez, lamento contrariá-lo, mas é um livro da delegação do Porto, nada que ver com o Manel, portanto.

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    2. "Mais uma vez, lamento contrariá-lo, mas é um livro da delegação do Porto, nada que ver com o Manel, portanto."
      Pois, mas quem entra com o pilim em TUDO o que a Porto faz é "a delegação do Porto", não se esqueça. O Manel pode estar em Lisboa, mas está porque "a delegação do Porto" assim o quer e para isso paga.

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    3. Se o seu problema são as nossas entidades patronais, então só posso dizer-lhe que se enganou no blogue.

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  13. Mudou muita coisa nos 15 anos que já levo como livreiro. A abertura de mercado que a Fnac e as cadeias de livrarias representaram, em conjunto com a facilidade de editar que as evoluções tecnológicas trouxeram, fez com que as editoras disparassem chancelas e titulos como se não houvesse amanhã. Resultado: os livros que conseguem chegar a estar expostos (porque os há que nem sequer são postos à venda por falta de espaço) não duram 2 meses.
    Esta fuga para a frente dos editores tem como resultado a criação de um obsceno número de excedentes. Numa altura de grande retracção na economia/comércio, só há uma solução:serem vendidos em saldos consecutivos ou guilhotinados. Um livro que há um ano surgiu a custar 17 EUR agora pode ser comprado a 7 ou 5 EUR. Ou seja, são os próprios editores que estão a desvalorizar o seu produto e as livrarias que, á rasca, aceitam as condições vantajosas que lhe são oferecidas, afinam pelo mesmo diapasão.
    Sendo um optimista, penso que este post aponta, mesmo que indirectamente, para uma possiblidade de novos cenários.
    Imaginemos livrarias dedicadas só à Literatura ou Arte ou História, em que os livros que lá seriam postos à venda eram aqueles que o especialista considerava serem bons e em que os maus, ou que ele achava lixo, nem sequer podiam ser encomendados por clientes. E saldos e descontos? Só se apetecesse.
    Existiriam as livrarias generalistas e as especializadas. Eu sei quais frequentaria. Ainda não é possível agora, mas daqui a uns anos podem começar a surgir supresas.

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  14. E uma achega como questão: o que terá a Bulhosa ou a Almedina para serem consideradas como "tradicionais"? Tenho ideias que pertencem a cadeias também. Ou talvez só a partir de 10 lojas é que se deixem de considerar tradicionais...

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  15. A mim custa-me a crer que hoje ainda se pense que a leitura dos "tops" permite concluir alguma coisa em relação à veracidade e transparência de como são produzidos ou, menos ainda, sobre a cultura e hábitos de leitura de um povo...

    Beijos grandes para a MRP!

    Miguel Gonçalves

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    1. Nem mais. A Dra Rosarinho ainda acha que os tops têm relação directa com procura... Valha-nos Santa Efigénia dos Soluços.

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  16. Antes de vir classificar os leitores pela livraria onde fazem as compras, sugiro-lhe que encontre um bom revisor. O seu "Tempos de Esperança" tem (pelo menos) duas gralhas que considero inaceitáveis.

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    1. Pag. 352 "Na noite em que desaparecei" - Se o Senhorito não falasse português correto, até se percebia o erro.
      Pag. 372 "(...) Napoleão (...) foi vencido em Leipzig em Outubro de 1913" - Não é preciso conhecer a História para dar por este erro.

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    2. Obrigada. Corrigiremos na próxima edição. E, sempre que encontrar gralhas, fico muito grata se mas puder dizer.

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  17. Cara amiga,
    É por estas e por outras que cada vez mais me apaixono pela cidade de Barcelona onde continuam a conviver as grandes cadeias e as livrarias independentes.
    O problema de Portugal e o desaparecimento das livrarias independentes tem a ver com varios factores.
    * O não cumprimento da lei do livro e a falta de fiscalização da mesma pois as grandes cadeias aplicam descontos e campanhas a que as pequenas livrarias não conseguem chegar.
    * Feiras do livro em tudo o que é sitio e sem regularização das mesmas, em Espanha só os livreiros as podem efectuar e 1 unica vez por ano.
    Como exemplo dou a Estação do Oriente que sai uma entra outra.
    * A pouca formação dos nossos livreiros para informação qualquer pessoa que queira trabalhar em livrarias na Catalunha e que se queira considerar livreiro tem que passar pelo curso de formação do Grémio de Livreiros da Catalunha onde aprendem atendimento e gestão de uma livraria.
    É que muita gente livrarias porque gosta mas não sabe patavina de gestão e em pouco tempo essa mesma livraria encerra porque comprou mais do que podia vender ou então que é tipico em Portugal "o dinheiro que entra em caixa é todo seu e esquece que tem que pagar aos fornecedores"
    Como sabe há muito tempo que trabalho na venda de livros e nunca me deparei com uma situação com que me deparo agora é que cada vez que apresento as condições da minha Editora para colocar ai os livros "simplesmente exigo uma garantia financeira para o cumprimento dos pagamentos" chamam-me louco e que tenho falta de educação o mesmo não me acontece do outro lado da fronteira porque esta situação é normal e relembro que por lá já estão com 21% de desemprego.
    Para concluir aproveito para dar uma sugestão a quem for a Barcelona a visitar a Livraria La Central que tem 3 espaços e adquirida há mito pouco tempo pelo grupo Italiano Fretinelli e mesmo assim mantem o espirito de uma livraria independente.

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