Vida e obra

O ser humano é, por natureza, curioso e acontece frequentemente, numa entrevista a um escritor, inquirir-se sobre a natureza autobiográfica da sua obra. Não interessa muito, na verdade, se o que lemos tem que ver com a vida do autor – e sabermos isso não muda muito o que sentimos com a leitura. No tempo em que eu era estudante universitária, caía-se até no exagero de não permitir uma análise da obra que recorresse à biografia do escritor, valorizando-se as interpretações formais e olhando-se o texto como entidade independente do seu criador. Mesmo assim, tenho a certeza de que, se Melville não tivesse trabalhado a bordo de uma baleeira, não teria escrito Moby Dick; que Primo Levi, não tendo passado o que passou em Auschwitz, nunca teria produzido uma obra como Se Isto É Um Homem; e ainda que o Dom Quixote – que é provavelmente o primeiro romance moderno – nunca seria o que é se Cervantes não tivesse tido a vida aventurosa que teve e que vale a pena conhecer em pormenor. Percebo que a obra não tenha de ser vista apenas como um reflexo da vida, mas, na maioria dos casos, se a vida não tivesse sido fascinante, ou horrível, os livros teriam sido seguramente diferentes.

Comentários

  1. Uma vez, nos meus verdes anos de quem acha que sabe tudo, ouvi a Inês Pedrosa dizer que a escrita tem muito de inspiração biográfica. Discordei porque achava que a imaginação era supra-biografia. Ainda bem que os verdes anos passaram...

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  2. Concordo... Só poderá ser um reflexo, como de resto, tudo o que fazemos. Mais ou menos real, nem bem importa, que o que imaginamos, também é nosso, e cada um imagina como pode, consegue, ou aprendeu...

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  4. Concordo inteiramente. Embora não precisemos de conhecer a biografia de um autor para nos deliciarmos e compreendermos um livro, este é sempre um pedaço daquele, uma coisa íntima, no fundo. Lembrei-me agora de uma frase da Lídia Jorge, que a Maria do Rosário aqui nos deu a conhecer. Vou ver e volto já ;-)

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    1. Ora, aqui estou. Foi no início de Abril, "As palavras de Lídia", http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/59974.html

      Falava-se nas "palavras que todos os seres humanos pensam (mas não dizem)". Lídia Jorge afirmou que "o escritor só se distingue desses seres humanos porque não tem pudor de partilhar essas palavras que não diz" - acho que encaixa bem aqui.

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  5. Bruce Chatwin!!! Encaixa aqui que nem ginjas!

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  6. Joao Tomas Castro e Melo27 de abril de 2011 às 05:36

    Já pensei sobre esta questão várias vezes, e acho que todos gostamos de saber quem foi a pessoa que escreveu isto ou aquilo. No limite, se fosse indiferente o criador, os livros seriam publicados sem qualquer referência ao seu autor, o que me parece ser impossível. Infelizmente, ou felizmente, não sei bem, parece-me que o autor é elemento indissociável da obra.
    Por uma questão de curiosidade gostava de perguntar à Maria do Rosário como se passa isto em relação aos prémios literários; quando as obras vão ao júri alguém sabe quem foi o autor das mesmas? Ou estas são assinadas com X e Y? Isso é que seria isenção, digo eu... mas não me parece que seja assim... :-)

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    1. Nos prémios para inéditos, os originais vêm sempre assinados com pseudónimo e acompanhados de envelope fechado com a identificação dos concorrentes (dantes vinha até lacrado). Por isso, na verdade, o júri desconhece o autor do livro que lê. Só podem ser abertos os envelopes dos vencedores, dos que têm menções honrosas ou, em última instância, mas nem sempre, de livros que o júri recomende para publicação.

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    2. Joao Tomas Castro e Melo27 de abril de 2011 às 07:21

      Obrigado pela resposta, mas conhecendo o ser humano, e sabendo bem do que é capaz, aposto que também nos prémios literários deverão ocorrer favores e preferências, como acontece em tudo o resto na vida humana. Ou vai dizer-me que este domínio, o literário, é um de excepção, onde o mundo é simplesmente perfeito? Oxalá assim fosse... :-))

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    3. Só fui membro do júri de um prémio literário uma vez - e ninguém meteu cunhas, asseguro. Eu também nunca as meti. Admito que em prémios que não sejam para inéditos - com o nome dos autores impresso na capa do livro - haja preferências dos jurados, mas não conheço casos concretos.

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  7. Concordo.
    Falou de duas obras que realmente são grandiosas e me tocaram bastante. “Se Isto É Um Homem “e “D. Quixote”.
    Incontornáveis!!!!

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