Subsídios outra vez
Prometi voltar à polémica que surgiu depois de ter escrito um post no qual referi que os escritores poderiam beneficiar dos mesmos apoios que têm os cineastas, as exposições de pintura e os concertos. Não queria, porém, dizer que esses apoios se deviam traduzir no pagamento de um ordenado fixo, suportado – como alguém disse – pelos contribuintes. Não me parece, mesmo assim, que um escritor seja menos artista do que um músico – e a verdade é que sempre que um músico é convidado lhe pagam um cachet, mas o escritor, quando muito, tem direito a gasolina e alimentação. Alguém avançou também que os escritores são frequentemente culpados da sua situação, porque, em lugar de se aproximarem dos leitores, afastam-se deles escrevendo coisas difíceis. A questão é muito relativa, porque nem todos os leitores têm, perante as obras, a mesma dificuldade e, por outro lado, porque há literatura de grande qualidade que não é nada difícil e não deixa de ser literatura por causa disso (estou convencida de que qualquer pessoa leria com prazer e sem esforço A Tia Júlia e o Escrevedor, de Mario Vargas Llosa – e o autor ganhou o Nobel da Literatura). Por outro lado, se quisermos agarrar-nos a essa coisa da dificuldade, teremos de deixar de subsidiar a ópera, algumas companhias de teatro e a dança contemporânea, só porque o seu público é minoritário, e patrocinar, no seu lugar, as telenovelas, o cinema de massas e os espectáculos de música pimba? Não me parece. Acho que todos devemos contribuir para que as populações possam de facto ascender culturalmente, e não para que fiquem eternamente emparvecidas ao ponto de um dia meia dúzia de iluminados as dominarem como, aliás, já aconteceu noutros tempos em Portugal. E, se os bancos, por exemplo, patrocinam tanta coisa, não poderiam uma vez por outra distinguir um autor com uma bolsa que lhe permitisse escrever durante dois ou três meses sem ter de pensar como vai pôr o jantar na mesa? Em muitos outros países, ditos civilizados, é isto que acontece – e nós, leitores, agradecemos. O autor do livro As Horas, por exemplo, pôde beneficiar de um destes programas e vive num país onde certamente o número de livros que vende daria para muito mais do que para sobreviver.
Em minha opinião:
ResponderEliminar- Sim, muitos escritores afastam-se do público!
Porque escrevem sobre eles mesmos e os seus fantasmas e depressões! É a tónica cá no país...
Fazem uma escrita deprimente... Escrevem para eles e não para os outros...
Quem edita e critica, pertence a esse grupo de quem vive para dentro e para si próprios. Por isso partilham da responsabilidade de afastar o público da escrita! Mas depois vão buscar ao estrangeiro aquilo que cá não aceitam nem ajudam a criar... É igual na economia, via Distribuição Organizada!
Subsídios? São para ajudar as actividades que não se auto-sustentam, mas tenham interesse público. Não é o caso das telenovelas que tendo interesse público (no entretenimento, mesmo que não se goste do género) se auto-sustentam.
Sim os escritores deviam poder ser subsidiados, mas quem ia decidir quais? Os críticos e os editores... ligados aos interesses editoriais?
Quem ia lucrar directamente com isso ao promover o subsídio dos "seus autores"?
É de facto um excelente tema de reflexão e discussão, este!
Concordo que deveriam ser subsidiados, à semelhante do se verifica com a música e com o teatro, mas em época de crise, também me parece que primeiro se deverá ajudar os mais frágeis, crianças e idosos, apenas a sobreviver.
ResponderEliminarSe me permite, Sra. Maria do Rosário Pedreira, respondendo pelo Brasil, o setor editorial nunca esteve tão aquecido como agora, inclusive muita gente de Portugal, como a Editora Babel, com notado investimento e que aposta no mercado sul americano. Então, para dias de crise é necessário ter habilidade e tirar partido da especialidade.
ResponderEliminarCom relação aos escritores, muitos realmente escrevem obras com tanto enlevo, mas, que infelizmente só estes conseguem entender o processo, pois aos leitores pertence uma escala de interesses pessoais que necessitam ter um vocabulário mastigado, rítmo lento e um enredo sem dificuldades. Esta é a realidade que nos assalta, por aqui. As vezes a gente sabe de ótimos escritores, com estilos, mas, penalizados. Ao que se deva a literatura, também atravessar uma fase menor, em virtude do massacre ao volume de edições de auto ajuda. Sinal dos tempos.
Ao que tange uma possível solução, deveriam as universidades publicarem autores e distribuirem para bibliotecas como bolsa, e ao autor difundir seu trabalho aos estudantes, com oportunidade de sentir a resposta do público ao seu trabalho, formal em construção o leitor e escritor. Pois, o mercado da leitura continua sendo como sempre foi, uma mediação de interesse para educação. Quem tem olhos de ver, que veja.
Percebendo, parece-me, o que defende, penso que poderá alguma diferença entre as artes performativas (teatro, música e cinema) e a literatura. Uma ópera é subsidiada para ser levada à cena durante um tempo restrito e sua duração comercial é limitada. Um livro é um produto cultural diferente, com um tempo de vida comercial potencialmente mais extenso. Um espectáculo “acontece” uma ou algumas vezes enquanto o livro pode “acontecer” durante 10 anos em cerca de 100 pontos de venda no país.
ResponderEliminarComo cidadão, não sou a favor de subsídios estatais a escritores. Como escritor, cujo primeiro livro vai ser sair para o mercado em Maio, que sabe o que custa escrever com um emprego das 9 ás 18, que não tem empregada doméstica e que tem duas crianças em casa para cuidar, sei que me saberia bem poder escrever com calma e de dia, sem ser no comboio e noite dentro como me acontece depois de fraldas mudadas, trabalhos de casa conferidos, cozinha arrumada e roupa passada. Mas não é por imaginar como seria bom para mim que deixo de pensar que me pareceria uma injustiça social se esse subsídio fosse pago pelo Estado. Já se for um mecenas, acharia uma bela ideia. E aí ninguém de fora poderia apontar que um texto mais experimental, digamos assim, era ou não válido para ser apoiado.
Faço minhas as palavras do João Leal. Também com um emprego das 9 às 18h, também tendo de escrever à noite, aos fins-de-semana e nas férias, e usar as férias para ir às escolas e às bibliotecas. Mas compensa, não pelo dinheiro, que esse não chegava sequer para seis meses, mas pela realização pessoal.
Eliminareste riso condescendente que ouço são os senhores do éfe éme i? talvez daqui a uma década possamos discutir tal coisa.
ResponderEliminarCom todo o respeito, a minha opinião é a seguinte:
ResponderEliminarNão concordo de todo com atribuição de subsídios á criação literária. Mesmo que não se traduzam num ordenado fixo, se não forem os contribuintes a pagar, quem seria?
Não me parece que um convite feito a um músico para efectuar um espectáculo, e a um escritor, sejam coisas comparáveis.
Não reconheço autoridade a nenhum organismo público para seleccionar essa elite de escritores a beneficiarem desse apoio.
Não vejo outro modo de um escritor ter reconhecimento (monetário neste caso) a não ser pelos livros que vende.
Mencionei que grande parte das vezes a culpa é dos autores. Não tenho dúvidas disso. Não tem nada a ver com a literatura ser “difícil” ou não. Tem a ver com escritores que se distanciam do público, e não revelam o mínimo talento para criar empatia, seja com que público for. E depois colocam as culpas na mediocridade dos leitores, nas editoras, no estado, etc.
Hum... boa resposta caro Mário Santos!
ResponderEliminarNo fundo foi a minha dúvida... esse "quem".
Claro que não se fala em:
"Está lááá É da Coltura ? Olhe quero escrever um livrooo !"
"Ah sim? Que girooo ! Olhe, tome lá um subsídio!"
Mas quem sabe se um projecto de criação literária tivesse algum tipo de interesse, enfim
não digo de Utilidade Pública... mas se fosse
visto como tal, penso que as Editoras deviam poder subsidiá-lo ainda que adquirindo direitos a ele. E depois parte desse financiamento não recuperado pela comercialização, podia ser deduzido como mecenato...
Qualquer coisa neste género...
Acredito que podia ser um forte impulso ou ajuda à literatura.
Caro António
Eliminar“E depois parte desse financiamento não recuperado pela comercialização, podia ser deduzido como mecenato…”. Deduzido a nível de impostos?
Podia ser uma solução, sim….
Como também se podia baixar o IVA para os livros por exemplo.
Beneficiava o leitor, o autor, as editoras, as livrarias, e os intermediários… Digo eu… que não entendo nada do assunto.
Julgo que as editoras devem colmatar as lacunas em investimentos que dão prejuízo, com outras edições de cariz mais comercial e vendável.
Ideias não faltam e isso é bastante positivo. Bons livros também não. São é muito raros. E ainda bem que é assim. Se não éramos todos grandes escritores.
Parece-me que um subsídio mais reduzido, faria as grandezas de um escritor, comparando com as necessidades monetárias que tem um músico, realizador de cinema, companhia de teatro, bailado ou ópera, e com a possibilidade de abranger um maior número de pessoas.
ResponderEliminarJulgo ainda assim, que o subsídio, mesmo que baixo, não seja a solução Pode representar uma pequena parte da resolução, mas têm-se é de alterar a política editorial, e os hábitos dos portugueses. Julgo muito mais pertinente reflectir-se na necessidade de se valorizar os autores nacionais (suprimindo-se alguns gastos editoriais com autores estrangeiros que provavelmente não o mereçam)
Devia haver mais prémios de promoção de jovens autores, nas diferentes áreas da literatura, de forma a dar-lhes projecção mediática, e por fim, os livros poderem ter menos qualidade gráfica, formato e de encadernação, e terem um preço muito mais reduzido de modo a evitar ser um acontecimento económico mensal a aquisição de um livro... Há um caminho a percorrer, a experimentar, era bom os subsídios, mas não é o único e o caminho mais correcto.
Os subsídios é um caminho que se tem tornado muito lusitano, como hoje se celebra com a chegada do FMI. E passamos 10 anos a fazer as mesmas coisas, sem experimentarmos outras políticas.
Concordo, mas com uma ressalva: a bolsa, ao invés de ser por dois ou três meses, poderia bem ser por dois ou três anos!
ResponderEliminar:- )
Os concursos literários são uma boa forma de alimentar o fogo: os iniciantes são devidamente iniciados e os calejados não apenas recompensados, mas incentivados a continuar a escrever com liberdade e segurança.
Creio que é possível escrever com profundidade num estilo acessível, mas devemos reconhecer que agregar ao conteúdo um estilo inovador é um esforço valorizado neste metier, e, no caso da poesia, absolutamente indispensável.
Aproprio-me da confissão de Fábio Bruggemann, escritor da minha terra, sobre sua profissão:
http://tinyurl.com/3t8ebuj
Abraços a todos!
Meus Caros
ResponderEliminarDuas boas achegas, na minha opinião !!!
Atenção - para mim subsídio seria sim uma ajuda ou o baixar dos custos de produção. Isso é que ajuda a produzir... sou agricultor, note-se.
Mudar os hábitos dos portugueses... isso é uma coisa discutível! Somos um povo antigo e ainda que alguns não se dêem conta, multicultural! Por força da nossa diáspora e de uma ancestral sucessão de invasões de outros povos!
Não temos de mudar o povo e sim as elites, sejam elas as governativas ou as que se acham o farol das idéias ! Quem não o perceber ou vegeta na incompreensão e na auto piedade ou emigra...
Talvez por isso tenhamos tanto "criador" que cá não tem sucesso... é que mudar um povo inteiro é capaz de ser obra... impossível! E quem se queixe ou não adapte é porque não pertence a este povo. Claro que rebeldes e desinadaptados fazem parte do sistema, de qualquer sistema...
chame-se ele Castelo Branco ou Saramago!
Segue muito interessante o post (para mim...)