O meu salário
O que existe de mais positivo em ter um blogue como este é o estímulo que os comentários acabam por trazer, criando ideias para um sem-número de posts quando andamos com falta de imaginação ou agarrados ao mesmo livro há demasiado tempo para podermos falar de vários. Na semana passada, houve alguém que escreveu num comentário uma frase muito curiosa sobre o meu ordenado, dizendo que ele era provavelmente pago pelos livros que, para abreviar, eu não gosto de ler nem publicar. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Para começar, à excepção das estrelas televisivas, não se pense que a ficção comercial é rendimento garantido. Claro que os autores de renome internacional, que já venderam milhões de exemplares nos seus países, têm a vida facilitada e se tornam quase sempre best sellers. Mas, muitas vezes, isso não é verdade – e o marketing precisa de embrulhar os livros com lacinhos vermelhos ou metê-los em caixas em forma de coração (deixem-me exagerar) para transformar um título num sucesso de vendas; muitos dos que vão despidos para a loja não têm a sorte de vender mais do que a chamada literatura séria e vendem de certeza menos do que qualquer Booker Prize... E também há autores literários que se vendem muito, como é desde logo o caso de Saramago (com tiragens de cem mil exemplares) e de alguns outros que, não conseguindo os recordes dos autores mais mediáticos, contribuem fantasticamente para as receitas que pagam, entre outras coisas, o meu ordenado. Além disso, no grupo em que eu trabalho há imensos editores – mais do que um por cada chancela – e, se me convidaram há cerca de um ano para me juntar a essa equipa, foi certamente pelo que fiz até então, e não para fazer o contrário.
O serviço público garantido neste blogue com textos e comentários, como por exemplo os do post de ontem, não têm preço. Neste momento há alguns programas na televisão sobre livros, há alguns jornais que falam de novidades, mas num relacionamento passivo com quem ouve/lê. Aqui fala-se, discute-se, partilha-se.
ResponderEliminarServiço público gratuito e de qualidade.
Minha Cara Areia... aplaudo!
ResponderEliminarEste blog tem sido uma espécie de oásis... e quem sabe se não devia de facto merecer o estatuto de Utilidade Pública... Cultural? Há o de UP Desportiva p.e . .
Nota: Não sou candidato a estagiar na Leya !
Quanto à eterna questão do vende-não-vende ... pois não há de facto fórmulas garantidas, se bem que chamar-se Saramago, Rodrigues dos Santos, Sousa Tavares ou Rebelo Pinto pareça ajudar!
Outro dia assisti a este quadro numa Grande Superfície e não resisto a narrá-lo:
Grande exposição livresca, massiva , umas bancadas enormes mesmo na entrada com montanhas de tudo que é livro. Um velhote daqueles com ar embirrento, baixote e magro, azedo, tipo velho comunista de boina e tudo, remexia neles.
Passam duas jovens na casa ainda dos vinte, daquelas que se sente que o Mundo lhes pertence e o encaram com a firmeza da sua juventude magnífica. Comenta uma:
"Olha o Saramago!", e a outra com um esgar:
- "Não gosto lá muito dele...".
O velhote levantou a cabeça com ar ofendido e declara: "Saramago não se gosta nem deixa de gostar... lê-lo é uma questão de educação!"
A rapariga mediu-o de alto abaixo: "Ai sim? E meter-se nas conversas dos outros não é falta de edução?".
KO... absoluto e sem contagem! Ahahah !
Há uns meses atrás estava na livraria Leitura, no c.c Cidade do Porto, quando vejo dois jovens, na casa dos vinte, discutindo Saramago. Eram dois rapazes bem falantes, um dos quais brasileiro, e discutiam a obra do escritor premiado. O brasileiro disse qualquer coisa como " Esse aí é o livro que deu escândalo, não é não?" referindo-se ao Evangelho segundo Jesus Cristo. E diz o rapaz português, do alto dos seus vinte anos -" não, não foi esse... o que deu uma polémica enorme foi este ", apontando para Caim. Aquele rapaz, na altura em que saiu o Evangelho segundo J.C nem devia ser ainda nascido, de modo que a polémica maior, para ele, era aquela à qual tinha assistido com Caim. Eu estive para intervir e dizer qualquer coisa, mas acabei por ficar calado...
EliminarEheheh ... e fez muito bem! Porque de facto não é de bom tom metermo-nos nas conversas alheias e sobretudo com desconhecidos... há sempre o risco de sermos mal-entendidos...
EliminarParece-me que já somos dois: sou um bisbilhoteiro terrível, confesso! Adoro ir para lugares públicos observar, e se possível ouvir!
Aprende-se muita coisa...
Um bom fim de semana!
Admiro e considero, ato de coragem da Sr. Maria do Rosário Pedreira expor assuntos de remunação, e ao dismistificar de certa maneira o ramo editorial. Pois desde sempre, a elite de pensantes, reserva-se à esta realidade de lucros ou falência. Justificadamente.
ResponderEliminarMas, eis ao que é padrão, surge a diferença.
E a qualidade que acertadamente carece nossos dias é pela comprensão do que distancia na evolução da natureza humana ao possível entendimento, para superação da causa, como um todo.
Quando alguém diz aqui que desmistificou a questão dos salários dos editores, quer dizer o quê? Alguém poderia pensar que os editores não eram remunerados? Para mim desmistificar seria saber, em termos médios, quanto ganha um editor em Portugal. Mas talvez aí acabe a desmistificação, pois ao contrário dos americanos, os europeus parecem ter enorme pudor no que toca a falar de quanto auferem pelo trabalho que exercem. Muitas vezes parece que se trata de um segredo religioso... :-)
ResponderEliminarPor gentileza Sr. João Tomás o pudor a que refere-se é acertado, mas o valor em espécie ao editor responsável penso que deva ser pouco para o desafio de revelar autores livres da torre de marfim.
EliminarO desmistificar para o modelo americano está ausente de critérios por editoras que cada vez mais, organizam-se em competir com agressivo volume em títulos e vendas. Inclusive a nível de Brasil a competição acirrada e topete dos espanhóis infiltrando-se na educação brasileira com linha das apostilas, somam americanos, e tendo agora portugueses que demoraram aventurar-se sendo destes a principal identidade no mercado brasileiro.
Apenas, para esclarecimento anterior a esta instabilidade que cerca a europa, deveria ser possível um editor não trabalhar sob pressão da rentabilidade, tida como certa nos pontos de venda, então vossa experiência é pautada em outra causa, pelo amor a arte.
Por aqui o movimento é diferente e menos romantico, concorrem custos de divulgação, centralizados no eixo Rio e São Paulo. E a edição de um pequeno editor, corre riscos em virtude da distribuição e controle. Pois, o livro lançado significa gasto certo e lucro incerto para quem aventura-se, sem conhecer nuances do mercado e não propriamente do leitor. Promover uma venda a nível nacional é lucro certo. Então o mercado pertence a quem tem veiculos de comunicação, ou a quem investe neste, assim como o grupo Abril e Globo. Sei o quanto deva parecer estranho assimilar tais variáveis, mas não temos uma fidelização de crítica literária na educação e tão pouco no periódicos de informação regional, mas, há interesses do povo e este preza a importância da leitura, e tem dinheiro para aquisição. Mas, ainda falta o impulso para romper com a cultura do achismo pautada na própria opinião e não a da informação.
Sinceramente não vejo como dizer quanto se ganha pode ser considerado um acto de coragem. Acho que coragem nada tem a ver com isto. Podemos querer dizer quanto ganhamos, ou não, pelos mais diversos motivos, mas daí a chamar-lhe um acto de coragem...
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