Nada é por acaso

Embora muita gente escreva e publique livros, continuo a pensar que o talento é a excepção, e não a regra. E, apesar de nem todos os livros que publico serem de autores inegavelmente talentosos, o que procuro é a excepção, o texto que há-de, como dizia o editor Michael Krüger de quem falei há dias, sobreviver ao autor. Hoje lemos ainda Kafka e Pessoa – que, na sua época, estavam talvez demasiado à frente para poderem ser entendidos... Mas também há os que publicam livros e estão, de certo modo, atrás do seu tempo. Contaram-me há uns dias que uma apresentadora de televisão com romances publicados perguntou a um senhor no seu programa qual era a capital da China. Quando este lhe respondeu Hong Kong (o que já de si é grave), ela afirmou logo a seguir: «Eu disse China, não disse Japão!» Foi, porém, na televisão que ouvi uma frase que só podia vir de um escritor. Numa série de documentários que a Maria João Guardão filmou em África, um deles foi dedicado ao meu autor-ministro caboverdiano Mário Lúcio Sousa, a quem pediram que regressasse à casa do Tarrafal onde tinha nascido. Chegando lá, reparou que esta se encontrava de novo ocupada e disse: «Ainda bem: uma casa de porta fechada é a morte de véspera.» Não se é escritor por acaso.

Comentários

  1. «Não se é escritor por acaso.»
    Pois não, mas que os há. há

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  2. António Luiz Pacheco26 de abril de 2011 às 07:53

    Deixem-me fazer a pergunta:
    - Quem determina quem é ou não é escritor?
    O editor? A crítica? O público? As modas?

    E acaso o ser escritor é classificável? E quem determina se um texto fica para a história? Creio que só a história... porque mais do que tudo, hoje depende de modas e se calhar mais do marketing e do merchandising que da sua qualidade... ou do próprio editor!
    Esse ficar para a história, não depende afinal da nossa percepção e sensibilidade? Os livros de que eu mais gosto teriam sido editados por Mª do Rosário Pedreira? E aplaudidos pela crítica? E isso o que significa?

    Devo dizer que achei interessante a frase do citado escritor e ministro... mas nem por isso
    percebo que seja por isso escritor. O meu tio avô "Major" (era alcunha) costumava dizer a propósito dos que se achavam espertos e saíam enganados: "Só contam a esperteza deles, não contam com a dos outros".
    A propósito das ambições que acabavam mal dizia: "O mais alto que um homem deve subir na vida é acima de uma mulher deitada de costas!"
    E tinha muitas outras frases de sabor e saber popular, mas nunca foi outra coisa senão um lavrador... nunca escreveu nada a não ser cartas lá da I grande guerra de onde garantia "hei-de ir daqui major!".

    Conheço aí uma dúzia destes tipos de filósofos expontâneos, deste calibre e capazes de produzir coisas bem profundas... analfabetos e rudes!
    Não têm é quem os leve à tv...

    Mas isto sou eu a pensar... aliás também não sou escritor e qualquer dia nem sequer lavrador, coisa que acabou!
    Desculpem se estou a ser azedo.

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  3. "o talento é a excepção, e não a regra" - sem dúvida! Aliás, penso que haverá aqui alguma redundância. A palavra talento, por si só, já distingue algo do que é normal.

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  4. Sim, é mais ou menos a diferença que há entre o músico e o instrumentista.
    :- )

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  5. António Luiz Pacheco27 de abril de 2011 às 03:00

    Hum... quer dizer entre compositor e intérprete?

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    1. Creio que será mais entre o pianista e o tocador de teclas.

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  6. António Luiz Pacheco27 de abril de 2011 às 06:45

    Hum... e o pianista não é um tocador de teclas?

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    1. Não. Para o pianista as teclas são o instrumento que lhe permite recriar ou mesmo criar.
      O que martela as teclas, faz apenas isso: martelar teclas.
      O escritor é o que consegue criar um mundo. O escrevedor é o que diz umas coisas sobre o mundo.
      Há já alguns anos vi um documentário sobre Maria João Pires e a sua "escola/projecto". Mostraram um dos seus alunos a tocar um trecho de uma peça de Mozart. Não me lembro qual. A Maria João Pires disse-lhe que não era assim que se tocava e sentando-se ao piano tocou o mesmo trecho. Eu, que para além de dizer gosto ou não gosto, nada sei de música, fiquei espantado como é possível que as mesmas notas da pauta, tocadas por duas pessoas diferentes, soassem de um modo tão distinto.
      Num a competência de tocar bem todas as notas. Em Maria João Pires era a paixão a soar em todas as notas.
      Um eu ouviria durante um bocado. Em MJP a noite toda seria insuficiente.

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  7. António Luiz Pacheco28 de abril de 2011 às 08:24

    Compreendo e comungo da opinião! Era onde pretendia que se chegasse... mas de facto e básicamente MJP continua a ser uma teclista... Só que é o que se pode chamar uma virtuosa!
    Isso o que a separa dos restantes pianistas ou teclistas em geral... Como há escritores que são virtuosos da palavra ou da descrição, ou do que se quiser, e, há os que apenas escrevem.

    O virtuosismo faz a diferença mesmo entre os artistas, penso eu... Mas não podemos ser tão limitativamente perfeccionistas ou apenas haveria virtuosos por nascimento e nunca por trabalho! Pois não teriam a oportunidade de o chegar a ser.

    Os que apenas escrevem têm também o seu lugar e até nos servem, quantas vezes trazendo até nós coisas que os virtuosos não conhecem e de outro modo nunca nos chegariam... Deus nos livre do dia em que a escrita (como a música ou outras artes) esteja restrita aos virtuosos!

    Não sei se me fiz compreender? De facto estou bem longe de ser um virtuoso na escrita, mas terei a minha vez e o meu lugar.

    Um abraço! Gostei desta troca de idéias.

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    1. Não quero estar aqui com polémicas, porque nem sequer é a minha "casa". Mas também me parece que temos estado a trocar impressões civilizadamente pelo que vou arriscar.
      Em primeiro lugar discordo da etiquetagem. Não temos que classificar tudo e todos. A etiquetagem é apenas uma necessidade de quem etiqueta de por ordem no seu próprio mundo.
      Aquilo que MJP ou o seu aluno são é algo que não se altera só porque se lhe cola uma etiqueta. E há ainda aquilo que nós pensamos que eles são, o que eles pensam que são e o que serão de facto.
      Sem querer complicar mais, não compro um livro pela etiqueta. Às vezes, folheio umas páginas, leio uma frase, uma palavra e compro ou ponho de lado.
      Saramago nunca o consegui ler e pu-lo de lado. Quando saiu o Caim, alguém mo ofereceu e li-o de seguida, sem parar, apesar de não me ter parecido nada de especial, sobretudo tratando-se de um Nobel. Depois disso li vários outros que tinha cá por casa.
      Também nós vamos mudando assim como os nossos gostos, sem que nos dêmos conta.
      Para quê tanto desperdício de energia a colocar etiquetas a alguém?

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  8. essa coisa de dizer, as frases que restam insistentemente na memória.sim, é de escritor, quanto ao saber o nome de lugares e a precisão dos nomes não o sinto como importante para o escritor mais para o jornalista, e o jornalista não é escritor, parece-me.

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  9. ANtónio Luiz Pacheco28 de abril de 2011 às 11:03

    O jornalista não é um escritor????
    Discordo totalmente!

    Se me disser que escrever uma notícia, um artigo ou um romance, é diferente, sim aceito...
    Mas o jornalista tem de saber escrever!
    Até o técnico que faz um relatório... e não é por acaso que existe/ia uma cadeira de Estilística em muitos cursos da área de Ciências... ou havia, antes de Bolonha.
    Isso não faz de ninguém escritor, mas faz de alguém ser capaz de alinhar palvaras de forma soerente e capaz de assim transmitir idéias... e isso é escrever! Santa paciência e há jornalistas que vale mesmo a pena ler!

    Quanto mais o jornalista se aproximar de um escritor tanto melhor será o seu trabalho, seja um artigo, ensaio, reportagem, notícia, coluna... o que lhe quiser chamar! E não será por acaso que muitos dos bons escritores foram ou são jornalistas... no Mundo inteiro.

    Não se confunda... concordo que um jornalista não tem de escrever livros-literatura como Hemingway, ou como o fazem os que são apenas escritores, mas tendo o hábito e a prática da escrita, são uma mais valia pela vivência e percepção, adquirida na sua profissão!

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  10. um jornalista não é um escritor, tal como um médico não é um escritor embora haja escritores médicos e jornalistas escritores. são funções com exigências diferentes, ao primeiro exige-se rigor factual, ao segundo não, ao primeiro prescinde-se a muita imaginação e ao segundo exige-se and so on.

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  11. António Luiz Pacheco29 de abril de 2011 às 16:12

    "um jornalista não é um escritor, tal como um médico não é um escritor embora haja escritores médicos e jornalistas escritores. são funções com exigências diferentes, ao primeiro exige-se rigor factual, ao segundo não, ao primeiro prescinde-se a muita imaginação e ao segundo exige-se and so on ." Sic Via

    Com o devido respeito continuo a discordar e sobretudo com esta argumentação, que mistura alhos com bugalhos... não se fala de médicos nem de outras profissões. Não! Fala-se de uma profissão - a de jornalista - que está vinculada e profundamente ligada à escrita! Como nenhuma outra...

    Tem em parte razão no que diz sobre rigor e imaginação, mas o escritor não tem de ter rigor?
    Isso depende do género já se vê, mas também tem de o ter se não se dedicar exclusivamente ao género fantástico!
    Assim como o jornalista numa reportagem não faz (aparentemente) uso da imaginação, mas se for num artigo de fundo, de opinião por exemplo ou num tema livre, pode e usa a imaginação e até se produzem excelentes textos literários!

    Não confunda jornalista com "repórter" esse sim apenas relata ou reporta factos, todavia se não souber como o fazer (lá está... pela escrita) não será nunca um repórter , apenas um inútil!

    Bom fim de semana! Sugiro a leitura de alguns jornais de referência neste período, sobretudo semanários com artigos de fundo e colunas de opinião. Segunda-Feira me dirá se os jornalistas não sabem escrever e não usam a imaginação...

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