Falta de fé
Um dos leitores deste blogue acusou-me um dia destes de falta de fé no estado actual da educação portuguesa. Fez-me ver que, sendo mais velho do que eu, acreditava, pelo contrário, que as novas gerações estavam francamente mais preparadas cultural e intelectualmente. Não posso negar que, ao longo destes vinte e tal anos que trabalhei, fui tendo colaboradores jovens que, a cada ano, chegavam menos cultos e interessados – e daí, quiçá, a minha falta de fé. Mas, como em tudo, há excepções e já aqui elogiei algumas pessoas que trabalham ou trabalharam comigo e que contrariam a minha desconfiança – e não as considero sequer aberrações. Pelo facto de me dedicar acima de tudo à publicação de jovens autores, sinto, aliás, que bem podiam dispensar-me da acusação de falta de crédito nas novas gerações. Entre os editores activos, sou dos poucos que se dão ao trabalho de ler cem originais para, como agulha em palheiro, encontrar aquele que faz a diferença (e podem, mais uma vez, atirar-me com a questão do gosto, que nem me importo muito, pois quem premeia em Portugal e quer traduzir noutros países tem um gosto, pelos vistos, semelhante ao meu). Sei, obviamente, que há muito mais jovens brilhantes hoje do que noutros tempos, mas também sei que muitos deles estudaram lá fora ou foram trabalhar para o estrangeiro assim que terminaram os cursos. Respeito muito os bons professores, entre os quais talvez se encontre esse meu leitor, mas ainda vão ser precisos muitos anos para me convencer de que foi apenas a escola – e sobretudo a portuguesa – que preparou os melhores.
Subscrevo! - na íntegra.
ResponderEliminarOlá Maria do Rosário! Sou leitora assídua do seu blog e nesta matéria penso que tenho algo a dizer.
ResponderEliminarSou uma aluna de 17 anos, no 12º ano daquela que há quatro ou cinco anos vem sendo a melhor escola pública do país - a que figura sempre no primeiro lugar dos rankings das notas de exames nacionais - e infelizmente não posso deixar de concordar com a Rosário. De todos os professores que eu tive nos meus três anos de liceu na área de Ciências e Tecnologia, e foram mais de quinze, não há um que eu possa dizer que é realmente responsável e se interessa pela formação dos seus alunos e por fomentar o seu gosto pelo conhecimento, investigação e criação individual. Se a desonestidade intelectual é generalizada, muitos chegam a roçar a total falta de ética profissional, ao ponto de eu me questionar como é que estas criaturas conseguem dormir à noite sabendo que são tão mesquinhas. Exemplifico com as minhas aulas de Biologia, em que cinco minutos são dedicados à explicação do sistema imunitário humano e os restantes 130 minutos da aula servem para a professora refilar com a directora da escola, queixar-se da avaliação dos professores e maldizer a minha professora de Química. Ou as aulas de Educação Física, que são todas - mas todas, mesmo - preparadas e dadas por grupos de alunos após distribuição logo no início do ano lectivo, limitando-se a professora a sentar-se na bancada e avaliar os nossos lindos olhos, excepto quando um belo dia a directora veio fazer observação da aula. Nem os treinos da selecção nacional são mais completos que a aula que tivemos nesse dia (e o comentário de quase todos os meus colegas foi algo do género "não sabia que também tínhamos aulas de teatro"). E há problemas semelhantes com a Matemática, o Português, esse, é anedótico, para não referir todos os incidentes que marcaram o meu 11º ano. Infelizmente, se eu hoje sou uma futura médica apaixonada por ciência e literatura com o profundo desejo de dar algo de muito positivo à sociedade e ao mundo, devo-o inteiramente à minha própria maneira de ser e estar na vida e tudo o que os professores que fui tendo até hoje fizeram por mim foi mostrar-me o que eu NÃO quero ser. De igual modo, se esta escola tem as melhores notas de todo o país, tal deve-se exclusivamente ao trabalho de casa dos alunos e aos pais que, não sem esforço, podem pagar explicadores extra-escola e nunca à qualidade do corpo docente como tenho ouvido alardear por certas figuras da instituição.
Perdoe-me o tom amargurado do comentário, mas têm-se acumulado tantas desilusões e tantas situações revoltantes e inacreditáveis que já quase não há espaço para engolir mais sapos. Não pretendo com isto generalizar e afirmar que não existem professores interessados e responsáveis. Digo sim, com certeza, que tal, para mim, são professores de sonho! E que me pareceu que seria enriquecedor para esta questão apresentar um ponto de vista de jovem aluno em vez de ouvir somente os adultos experimentados. Se isto se passa assim na melhor escola pública do país, eu não quero imaginar como será a grande maioria de todas as outras escolas.
Obrigada pelo seu comentário e é bom ver uma rapariga de 17 anos escrever assim, sem erros e com o discurso bem organizado.
EliminarPensei exactamente o mesmo! Ainda por cima uma aluna de ciências. :)
EliminarGostei muito do comentário da Ana, e apesar de quase nunca comentar neste espaço, hoje não queria perder a oportunidade. Gostei do comentário da Ana em primeiro lugar pela sua honestidade e também por ver como alguém com 17 anos consegue expor tão bem as suas ideias por escrito. Eu também já fui estudante (há alguns anos) e julgo entender do que fala a Ana. Também eu sempre senti uma falta de formação e motivação enorme nos meus professores, com algumas excepções, note-se; posso dizer que também conheci alguns bons professores. Neste momento vivo no Reino Unido e a diferença é abismal: cada vez que vou à escola dos meus filhos, seja porque vou à reunião de avaliação, seja por outro motivo qualquer, como assistir a algum evento ou ver exposições, venho de lá encantada. Encantada não só com a qualidade dos trabalhos dos miúdos mas também com a qualidade do próprio ensino e dos professores - e qualidade a nível humano, também. A forma como falam dos meus filhos evidencia um acompanhamento integral do seu desenvolvimento e do seu trabalho enquanto estudantes e também enquanto indivíduos (a avaliação não se refere apenas à aquisição de conhecimentos mas também a aptidões de socialização e integração social - se tem amigos, como se dá com os amigos, se parece ou não sentir-se bem e feliz na escola, etc.)
EliminarBem, mas basta de dar graxa ao ensino inglês (estou a brincar). O que gostaria de dizer à Ana é que, muitas vezes, o que diz é verdade: os professores podem ser também um modelo daquilo que nós não queremos ser. E quem diz professores diz qualquer adulto. E isto é uma coisa importante no desenvolvimento de uma pessoa, porque é um indicador de que a Ana tem a noção daquilo que quer ser, tem uma identidade estruturada que lhe permite identificar-se ou, neste caso, contra-identificar-se, com os adultos com quem se vai cruzando pelo caminho. Isto no fundo é tirar partido de uma situação problematica que à partida poderia ser encarada apenas como negativa. É saber tirar algo de positivo de uma situação negativa. Nós não temos de gostar de toda a gente nem temos de nos identificar com todos; mas mesmo aqueles com quem achamos que não temos nada a ver nos podem dar alguma coisa, nem que seja saber que não queremos ser assim!
É claro que muitas vezes os defeitos sobressaem mais que as qualidades. Imagino que se a Ana pensar um bocado num desses seus professores e tentar fazer uma lista dos seus defeitos e das suas qualidades, se calhar conseguirá encontrar também qualidades, ainda que os defeitos sejam em muito maior número (ou não). Não quero com isto dizer que a sua avaliação seja exagerada. Às vezes tendemos (as pessoas mais velhas) a achar que os jovens são demasiado críticos, ou que criticam com muita facilidade, ou que não estão aptos a ver as pessoas como um todo e apenas atentam aos aspectos negativos. Eu, pessoalmente, não concordo (ainda que haja pessoas assim, claro); penso que os jovens têm um espírito crítico bastante desenvolvido, sim, mas encaro-o como algo saudável e positivo. Se todos os adultos conservassem, já nem digo toda, mas alguma dessa intransigência e severidade na forma como criticam o mundo à sua volta (e quando digo crítica refiro-me àquela construtiva, que procura transformar, e não à destrutiva, que apenas procura derrotar) se calhar o mundo estaria cheio de pessoas mais emprendedoras, felizes e activas.
Por último, não acho o seu comentário nada amargurado, se de facto retrata uma realidade. O que não pode acontecer é a Ana deixar-se amargurar pela situação! Utilize a garra que tem para a encarar, no sentido de aprender com ela e transformar-se a si mesma. As situações às vezes não valem por si, mas pelo que fazemos com elas. Felicidades!
E desculpe a intrusão em diálogo paralelo, Maria do Rosário.
Boa noite Ana! Recebi um email em o seu texto foi colocado na íntegra. Como sou professora, de Ciências Físico-Químicas, li-o avidamente. Que triste Ana! Sinto-me triste por sentir que a Ana, não tem um único bom referencial, pelo menos no ensino secundário, e que tenha ficado com má impressão dos professores. Mas, tenho de dar a "mão à palmatória" em relação a algumas coisas que disse. Quando refere a falta de ética que cada vez mais, infelizmente, se sente nos professores, quando refere a falta de profissionalismo. No entanto quero dizer-lhe que os rankings valem o que valem e valem os interesses de uns quantos (poucos). No entanto, parece-me que alimenta ainda mais a falta de ética! Poderia tentar arranjar desculpas para uma série de coisas e poderia até fazer-lhe ver também o outro lado da questão. Muitos professores por essas escolas fora, pelos vistos menos bem cotadas nos rankings nacionais, são muito bons profissionais e que não são valorizados, porque a avaliação de professores é como os rankings... vale o que vale... poderia falar do facto de haver muito desencanto com a profissão e não me vou alargar a referir os motivos sociais (entre outros) para tal. Mas não farei nada disso, até porque não me parece o local apropriado. No entanto reconheço que muito do que referiu também é verdade e já vi tanto por essas escolas... Sabe Ana, parece-me uma jovem com a "cabeça em cima dos ombros", passo a expressão. Fico triste por si e por todos os jovens que se sentem como a Ana! Fico triste por mim também. Porque ainda acredito no que faço e faço o melhor que sei e com muito brio (ao ponto de, por vezes, ser criticada, "nas costas", por esse facto). Posso apenas referir que mesmo tendo tido as "piores" turmas em muitas escolas, nunca tive problemas disciplinares com os meus alunos, porque nunca me senti superior a eles, em nada. É óbvio que sou a professora e eles os alunos, mas nunca os tratei a não ser com respeito e, se calhar por isso, sempre fui muito respeitada e ainda hoje me comunico com muitos deles. Apenas quero dizer com isto, que me entristeceu ver ao que chegou o nosso ensino. Ainda bem que a Ana tem paixão pelo que faz e tem objectivos. Tenho a certeza será uma excelente profissional! Já agora lhe digo que as outras escolas do país provavelmente não são tão más assim, bem como a sua não será tão boa quanto o que figura no ranking. É que toda a escala é apenas uma representação da realidade e, com toda a certeza saberá que uma medição tem sempre erros associados. Este caso não é excepção.
EliminarAgradeço imenso os conselhos e palavras positivas. Bem-haja!
EliminarAna
Que resposta tão agradável, à boa maneira Físico-Química, que eu adoro! Conheço, por ter ouvido falar a pessoas amigas e próximas, casos de professores como a dr.Margarida, com genuíno gosto pela importante função de formar as gerações mais novas. Quero acreditar que, como algumas vozes afirmaram, esses ainda são a maioria e eu fui deveras azarada. Afinal, quando uma observação é muito excêntrica em relação a todas as outras, costuma-se desprezar, não é?
EliminarQuanto a mim, não se entristeça, porque, como penso que subentendeu, tenho paixão e energia suficientes para mais anos do que aqueles que vou viver. A si peço-lhe encarecidamente que procure continuar a fazer a diferença para cada um dos seus alunos. Eu, que estou do outro lado da secretária, lhe asseguro que é um só gesto, uma palavra, que pode mudar a vida a um jovem confuso!
Bem-hajam todos os bons professores deste país!
Senti sim que a Ana tem muita energia! E por favor também lhe peço encarecidamente que não caia desmesuradamente na chamada deformação profissional. Acontece que também na medicina há bons e maus profissionais. Mas por vezes o que dói verdadeiramente a quem está fragilizado, por estar doente, é a indiferença dos médicos! É óbvio que tem que haver um certo "afastamento" para que se possa fazer um diagnóstico ou tomar um decisão o mais correcta possível. No entanto, indiferença é outra coisa...
EliminarQuanto a mim, acredite, vivo com paixão e não sei viver de outra forma. Quando a centelha da paixão se for na minha vida profissional, acredite, deixarei o ensino e me dedicarei à minha horta, ou a outra coisa qualquer. Mas conhecendo-me como me conheço... sinto que continuarei apenas a ser quem sou, de forma genuína. Acho que é a melhor postura nesta sociedade em declínio.
Talvez escreva assim por ser aluna de ciências, com um raciocínio claro e bem elaborado.
EliminarAna, entristece-me este seu depoimento e faz-me pensar no ranking das nossas escolas e nos anticorpos que o sistema de avaliação dos professores tem criado. Compete também aos pais estar atentos e denunciar estas fraudes que, infelizmente, existem no nosso sistema de ensino.
E bem pode limpar à parede... Quer créditos por quê? Por ter revelado ao mundo luminárias como o Peixoto dos piercings e agora este Machado? Tenha dó, senhora.
ResponderEliminarMais uma vez vemos um comentário anónimo a este texto da Maria do Rosário... enfim...
ResponderEliminarEu gosto de muitos dos escritores que a M.ª do Rosário ajudou a editar e por isso lhe agradeço.
O comentário da Ana deixa-me um pouco triste, uma vez que também sou professor. Julgo que, no entanto, é importante dizer que há em Portugal bons professores, responsáveis e competentes. Nem todos serão brilhantes, mas muito serão esforçados. Professores como os que são referidos no comentário não deviam trabalhar no ensino!
Minha Cara Ana
ResponderEliminarLi o teu post com a maior atenção!
Não te sintas frustrada... o ensino foi, é e será assim como o descreves. Há professores que o são por vocação e os que o são por acaso da necessidade feito.
Sei do que falo, porque eu mesmo fui um deles, dos que o foram por obrigação... e tenho essa consciência de que terei sido mau, por falta de preparação... se bem que tentasse passar os conhecimentos e algo mais aos alunos, não sei se o consegui!
Na Universidade aprendi duas coisas:
1º Aprendi nada sobre muita coisa e sobretudo o que isto significava, como repetia o saudoso prof de Física I.
2º Aprendi a aprender! Percebi que era a porta para o conhecimento futuro, e depois sim fiz-me ao Mundo!
Porque aprender, como vais perceber, depende de nós... é uma atitude! Enquanto estudantes, de um modo geral só interessa a nossa capacidade de memorizar o saber dos outros, não valorizam nem interessa que criemos o nosso saber!
Saem do ensino, milhares de pessoas assim, que só sabem o que meteram na cabeça... e vão espalhar-se pelas escolas, instituições e pelas empresas...
Outros saem dali para aprender na vida e com quem sabe. São esses que criam conhecimento.
Porque o saber, nem sempre é como a água de um rio, que corre à nossa frente... muitas vezes é como a água de um poço, está lá no fundo e temos ir buscá-la a balde!
Quem te diz isto, depois de sair da escola e do ensino na sua dupla condição aluno/professor, foi para África trabalhar como mergulhador e quando regressou iniciou uma carreira numa área que não se estudava nas escolas, a Distribuição Organizada. E se entrei para um Grande Grupo Económico, foi porque tinha carta de pesados e não pelas habilitações académicas!
Tive de tirar água a balde e a braço... anos a fio, para aprender e me tornar quadro superior mesmo e me sentir competente. Essa atitude e a postura valeu-me sempre o apoio dos meus colaboradores e que o patrão me mandasse depois estudar distribuição em Universidades a sério... até nos EUA.
Por isso, não pretendendo ser exemplo e sim pela minha própria história dar um exemplo, te digo que estás no caminho certo e a abrir uma porta! Mede bem os teus professores, para depois mais tarde e na tua vez não seres como eles, farás a diferença e tens o teu futuro na mão, podes escolher ser como quiseres.
Lembra-te que temos uma grande tradição de médicos humanistas e escritores... uns conhecidos como Júlio Diniz, Torga, Virgílio Ferreira ou Lobo Antunes, e outros não menos notáveis como pessoas mas menos conhecidos como escritores, o dr . Ângelo Sequeira... E o que distingue esses médicos é o serem antes de tudo pessoas, e como tal ajudarem pessoas.
Desejo-te as maiores venturas, como médica, escritora e como pessoa. Sinceramente, e porque são os jovens como tu que nos fazem acreditar que vale a pena fazer alguma coisa pelos outros e na vida!
Caríssimo António,
EliminarAgradeço-lhe encarecidamente as suas palavras. Acredite que as li com toda a atenção e procurarei recordá-las. Apesar do desencanto para com os professores, continuo a nutrir um profundo respeito pelas gerações mais antigas. Obrigada, mais uma vez, por partilhar comigo os seus conselhos e experiências de vida, que bem preciso.
Bem-haja!
Ana Coimbra
Nice blog. Very helpful.
ResponderEliminar(Descobri o seu blog ha pouco tempo e tem-me ajudado imenso a estar informado acerca do que se passa em literatura no meu pais. Como parece ser uma senhora simpatica um dia enviar-lhe-ei um manuscrito , ahahah).
Continue a informar a malta.
ja agora: b-solonely.blogspot
(escrever sem acentos e metade em portugues e metade em ingles - imperdoavel. Sorry!)
PS: tenho comprado muitos livros por si indicados que, de outra forma, a eles nao chegaria
Ainda bem que li a sua publicação. Sou professora há 35 anos, professora de inglês e, há dois, professora bibliotecária, o que me tem proporcionado uma visão melhorada acerca daquilo que os alunos aprendem e são capazes de fazer. Aqui nesta escola algarvia há alunos muito bons, principalmente na área de ciências e nos quais tenho muitas esperanças. Contudo, a maioria dos alunos mais novos (7º, 8º anos) demonstra uma falta de vontade de aprender e um desprezo pela leitura. Já nem falo do mau comportamento defendido afinal, em certos casos pelos próprios pais. Talvez que esta crise os atraia para os livros, quem sabe, mais baratos que os telemóveis e jogos de computadores.
ResponderEliminarTambém eu considero que o texto da Ana está excelente. Tão excelente que a minha mente desconfiada me levou logo a suspeitar que o texto não fosse de uma jovem de 17 anos, com professores tão maus. Não é possível que a melhor escola do país (conforme diz a Ana) só tenha professores maus, porque a classificação é feita a partir das notas de exames a nível nacional. O que em todo o texto está explicito é uma condenação aos professores. Que uma grande parte seja como a Ana diz, concordo inteiramente. Que há uma outra parte, talvez ainda a maior, que se preocupa e age no sentido e interesse dos alunos, é algo que ainda acredito.
ResponderEliminarNão sou professor e nunca o fui, porque quando podia não quis. Conheço muitos professores que não queria nem para recepcionistas (sem querer com isto desrespeitar os recepcionistas, mas apenas dizer que não são necessárias as mesmas habilitações). Mas conheço muitos mais que passam horas noite fora para encontrar a melhor forma de explicar e transmitir alguns conhecimentos aos alunos. Alunos, que pelo que está implícito no texto da Ana, são sempre os bons. Todos os que têm algum contacto com a escola sabem que não é assim. Na maioria estão mais preocupados com sms no telemóvel ou na conversa com a menina ou menino do lado. Mas tal como os professores, também há os bons e maus alunos. O que também me parece ser do conhecimento geral e todos parecem querer esquecer, é que o professor não tem qualquer autoridade real para impor a disciplina na sala de aulas, na biblioteca ou nos corredores da Escola. Esta falta de autoridade é apenas um dos muitos problemas que faz dos bons professores, maus professores. Mas nunca um mau professor produz bons alunos. Portanto, o texto da Ana não é de uma aluna que teve maus professores. Talvez não seja sequer de uma aluna.
Antes de se culparem apenas os professores, talvez não fosse má ideia olharem as alterações feitas quase todos os anos aos currículos escolares. Olhar a qualidade que os livros escolares, todos os anos alterados, comportam. Refiro-me à qualidade dos conteúdos, obviamente. Desde erros como chamar a um discurso de Moisés aos Hebreus de oração a Deus, à eliminação do papel dos judeus na economia de Portugal ao tempo de D. João II e D. Manuel I, até à simples eliminação dos judeus da história de Portugal, tudo acontece. A história de que hoje se fala nas escola é um conjunto desconexo de informações avulso que não permite a compreensão de qualquer processo histórico.
Isto não é culpa dos professores. É culpa dos experimentalismos ministeriais.
São públicas as declarações de reitores e professores universitários que se queixam da cada vez pior qualidade da formação académica dos alunos que chegam à universidade. Conheço uma professora de matemática que desespera com a incapacidade de os alunos elaborarem um raciocínio de lógica elementar.
Mas para quê pensar se o que é obrigatório é passar todos os alunos porque o contrário fica caro? Esquecem estes economistazinhos que o que fica efectivamente caro para o país é formar incompetentes. É não haver rigor avaliativo.
Peço desculpa pelo tamanho do texto, mas queria só concluir que estou plenamente de acordo com a Maria do Rosário.
Só para terminar, não deve preocupar-se com os anónimos e deve, talvez, considerar que está a fazer um trabalho terapêutico e gratuito.
Apresentei entretanto o Horas Extraordinárias a um professor amigo que me afirmou ser possível, apesar do actual sistema de ensino, encontrar alunos a escrever com a mesma clareza e qualidade da Ana e até ficou de me mostrar alguns textos de alunos dele.
EliminarPor esta razão peço desculpa à Ana, à Maria do Rosário e a todos os que leram o meu comentário que levantava dúvidas sobre a autoria do texto.
Continuo no entanto muito duvidoso que maus professores produzam bons alunos.
É perfeitamente verdade que a maioria dos alunos está bem mais preocupado com a sms no telemóvel ou na conversa com a menina do lado, tal como é verdade que muitos dos alunos com melhores resultados são de uma superficialidade embaraçosa e que estes mesmos protagonizam faltas de respeito vergonhosas para com professores e funcionários, assim como também é verdade que, mesmo assim, são os primeiros a reivindicar todos os seus direitos debitando o artigo 120º do Regulamento Interno da escola. Curiosamente, é verdade também que a maior parte parece ter saltado o artigo 119º que tem por objecto, precisamente, os deveres dos alunos. Uma última verdade é que existe sim um sério problema de falta de autoridade dos professores e que muito poderia melhorar começando por aí, mas que este seja causado pelos alunos, discordo. Há quem simplesmente não tenha o perfil certo para meter na linha 28 adolescentes raivosos e para tudo é preciso vocação. Tudo isto não invalida a posição que a Maria do Rosário defendeu e que eu exemplifiquei. Se os professores são os primeiros a dar o mau exemplo, os alunos acabam por não lhes reconhecer legitimidade para lhes apontar faltas, perdendo toda a confiança e credulidade na figura do professor enquanto educador. Como consequência, acabam por tornar-se eles próprios pessoas demasiado descontraídas, se é que me entendem. Tenho visto isto acontecer com muitos dos meus colegas com capacidades imensas que vão ficar na gaveta.
EliminarAssino novamente como Ana e, para dispersar estranhas dúvidas que se levantaram, sou sim uma jovem de 17 anos, Ana Duarte Coimbra, aluna nº6 do 12ºA da Escola Secundária Infanta D. Maria, em Coimbra, inscrita no ano lectivo 2008/2009 com o processo nº41625 . E do meu Ensino Secundário não vou lembrar com carinho nenhum professor. Tenho, de facto, professores tais que ainda a semana passada, enquanto estudávamos a "Mensagem" em Português, ouvi dizer que Fernando Pessoa, ao afirmar que "...Tudo vale a pena/Se a alma não é pequena..." revela pobreza de espírito porque realmente a sua alma é tão tacanha que na verdade o poeta considera que mais valia termos ficado quietos. Nem de propósito. Assim sendo, discordo plenamente quando refere que professores maus não fazem bons alunos. Eu diria que professores maus não conseguem fazer desabar a vontade de evoluir e a sede de conhecimento que alguns jovens felizmente ainda têm - cada vez menos? Creio que sim. E a mais me atrevo dizendo ainda que não sei onde estaria se tivesse tido os professores de sonho que também acredito que ainda existem: quem sabe, na Europa a ganhar olimpíadas de Matemática ou concursos de escrita.
Apesar de tudo, e como me parece que a minha alma não é pequena, creio firmemente que todo o esforço vale sempre a pena.
Ana Coimbra
Olá Ana,
Eliminarmuitos parabéns pelos textos, estão todos eles fantásticos. Eu frequentei a escola em que tu andas no 10º e 11º ano, na área de Ciências Sociais e Humanas (hoje Línguas e Humanidades) e posso garantir que o cenário é mesmo muito mau, talvez bem pior do que em Ciências. Professores de Português no Dona são para esquecer, nulidades autênticas que preferem ir fazer compras a dar aulas. Professores de Filosofia vão pelo mesmo caminho, professores de História confundem Guerras Napoleónicas com o Período dos Descobrimentos e por aí fora. Além disso, e falando especificamente no caso da escola em que andas, há uma muito maior preocupação em manter um certo status a ensinar alguma coisa que possa servir para alargar os horizontes aos alunos, que, verdade seja dita, são também eles um conjunto ignorante e inerte, também mais preocupado em manter status do que em aproveitar o (pouco) que a escola tem para lhes dar.
Infelizmente, quando vim para Lisboa fazer o 12º ano constatei que o nível de ignorância e incompetência por parte dos professores é também muito baixo, em alguns casos ainda pior (situações que roçam o escândalo). Com excepção para uma professora de Português fantástica, apaixonada pela nossa língua e por Pessoa, curiosamente vinda de 30 anos de emigração no Brasil, e com quem ainda hoje mantenho contacto; e de um professor de Sociologia, que não sendo o mais brilhante orador, era um dos homens mais cultos com quem já tive o prazer de me cruzar, todos os outros são memórias difusas e obscuras de que me lembro apenas por motivos risíveis.
Quanto aos alunos também não se está melhor, são mesmo muito, muito fracos. Por isso sou levado a concordar contigo e com a Maria do Rosário (a quem aproveito para felicitar pelo excelente blogue) quando diz que as gerações mais novas são de uma espécie diferente. Eu tenho 19 anos, eu contra mim falo, contra ti falo, mas estou plenamente convencido de que as geração de que fazemos parte e as seguintes, que cresceram com a ilusão do imediatismo e da facilidade tecnológica, são das piores gerações que Portugal já teve. E a tendência é a de piorar, por motivos que não importa aqui falar, pois envolvem crítica política e não é disso que aqui se trata.
Queria apenas felicitar-te pelos teus textos e subscrever totalmente aquilo que dizes!
Antes de mais, renovo o meu pedido de desculpas pelas minhas dúvidas.
EliminarMais uma vez, este seu texto é de uma clareza exemplar. Não quero no entanto entrar em qualquer polémica ou dizer (mas já o disse) que o seu exemplo é uma excepção, como de resto admite no seu último texto.
Se as minhas palavras puderem ser um incentivo, digo-lhe que nunca se deixe derrubar pela mediocridade e que prossiga o seu próprio caminho. Não se preocupe com os erros que inevitavelmente acontecerão. Eles apenas a tornarão mais forte se ousar assumir sempre a sua responsabilidade em cada acto. E também não se preocupe com a culpa. Só é culpado quem erra e persiste no erro e no apontar para o outro em busca do culpado.
Mas também não quero estar aqui a dar-lhe conselhos como se eu fosse o dono de alguma verdade.
Deixo-a com uma outra citação de Fernando Pessoa.
"Da minha aldeia vejo quanto da terra
[Se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande
[como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura
(Alberto Caeiro, Poemas)
Foi uma verdadeira catarse ler o teu comentário, João, é bom ser compreendida! Vê-se bem que andaste mesmo nesta escola, já que compreendes plenamente o que quis dizer e a atmosfera que aqui se vive. Lembro-me de na aula de apresentação da profesora de Português, a minha primeira do 10º ano, estavas tu no 12º em Lisboa, ter um colega meu perguntado que tipo de literatura era da preferência da professora e o que é que esta nos recomendava, ao que a senhora respondeu que gostava de ler revistas porque ajudava deveras a passar o tempo. Yay! :D Se tivéssemos de rotular o Dona com um slogan, penso que concordarás que "Salve-se quem puder" era uma excelente escolha...
EliminarTodos os seus conselhos são sempre bem-vindos. A mais humilde abelhinha já me deu lições tão válidas que as vim depois a encontrar, mais rebuscadas e enfeitadas, em Prémios Nobel que li posteriormente. Para terminar, e em jeitos de agradecimento, deixo-lhe ainda outra citação de um heterónimo mais a meu gosto e que vai mais ou menos ao encontro da mesma ideia. São versos que costumo recitar baixinho, para mim própria, porque deveríamos todos almejar a viver à Sombra dos Deuses.
Eliminar"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."
Ricardo Reis
Ana, quase aposto quem é a personagem a que te referes...Sim, no Dona e, pelos vistos, em todo o lado, é um completo salve-se quem puder. Há que esclarecer que se o Dona é a escola mais bem posicionada no ranking é porque isso se deve a um batalhão de explicadores e apoios extra que os alunos têm e não pela qualidade da escola em si, que até em infra-estruturas deixa muito a desejar (dizem-me que agora já está melhor, felizmente). No meu caso pessoal penso ter tido sorte de a educação que tive ter sido sempre muito vocacionada e influenciada pela literatura e por ter encontrado certas pessoas (como a tal professora de Português) que me abriram portas de sítios fantásticos. Hoje, na faculdade, também sinto uma grande incompetência e desleixo para com a missão pedagógica. Mas há dois ou três professores marcantes, daqueles que abrem mesmo os nossos horizontes e nos dão a conhecer autores, perspectivas e correntes que nos dão ainda mais prazer de conhecer. São raros, sim, mas quando aparecem há que aproveitá-los. Na tua área és capaz de vir a ter menos possibilidades de encontrar destas pessoas, mas aproveita-as e não desistas da literatura, da literacia.
EliminarE sem querer ser pretensioso, do meu heterónimo favorito, Campos,
Não somos nada
(... mas ...)
Tenhamos em nós todos os sonhos do mundo.
:)
Ana, ainda acabas a afiar lápis para a Dra. Rosarinho, num daqueles estágios fabulosos que a Leya tem por lá
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