Destinos infernais

As agências de viagens vendem férias em muitos paraísos de águas transparentes e recifes de coral, com praias de areias brancas e finas e um sol maravilhoso sempre suspenso de um céu sem nuvens. Mas estes paraísos têm o seu reverso. Há muitos anos, decidi ir passar férias aos míticos mares do Sul e aborreci-me terrivelmente com o mau serviço e o pouco que havia para ver e fazer. E a paisagem natural, embora absolutamente luxuriante e bela, estava vista ao fim de três dias e já não consolava. Sobre umas férias assim, tem David Lodge um romance fenomenal em tom de comédia que se intitula Notícias do Paraíso e mostra bem o inferno em que se podem transformar viagens a destinos ditos de sonho. Mestre da sátira, o escritor britânico não poupa os tansos, como eu, que andam milhares de milhas de avião para sofrerem uma das suas maiores desilusões de sempre...

Comentários

  1. Férias...
    Não, não vamos fazer nenhuma excursão, que isso é coisa de pobre, todos em cima uns dos outros, com cestos de pic-nic, a oferecerem panadinhos, e o condutor da camioneta, então não vai um pãozinho de leite?
    Não vamos fazer nada disso, vamos fazer qualquer coisa diferente: vamos a Cuba, ver o Grande Chefe Touro Quase Deitado, ou melhor ainda, e mais barato, vamos à República Dominicana!
    Bom, são sete horas de avião, com as pernas encolhidas, mas é um avião, não uma camioneta. Comemos apenas uma refeição, e ligeira, mas é servida nuns pratinhos tão giros e nem temos que fazer psst para chamar o empregado, para mais uma garrafinha de tinto ou para encher o copo de sumo ao puto que, com tanto salto, já entornou o tabuleiro, e lá foi o pãozinho - tão giro - acertar na cabeça do passageiro da frente, que não ripostou, impedido pelo tabuleiro e pelo cinto de segurança.
    Chegamos a Punta Cana, entramos numa camioneta - tão gira - que nos leva ao nosso bunker, perdão, hotel: umas instalações defronte da praia, com segurança à entrada e à saída, de onde podemos sair, mas não somos aconselhados e onde os únicos nativos que se vislumbram, são os que ali trabalham. Não é um bunker, é um hotel. Pois claro.
    A água quente e muito salgada é a única diferença efectiva com algumas praias portuguesas. Mas não faz mal, no Algarve não teríamos direito a carimbo no passaporte.
    Férias...

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  2. António Luiz Pacheco28 de abril de 2011 às 06:11

    Conheço o livro em questão, é engraçadíssimo… na senda do bom humor.

    Creio que o que se passa é fruto da moderna sociedade de consumo que sofre por um lado de um inevitável burguesismo-novo-rico e que por outro busca ilusões. Me perdoem…
    O título do livro de Javier Reverte El sueño de Africa – en busca de los mitos blancos del continente negro) é elucidativo!

    E fica tanta coisa por ver e conhecer cá, por onde podemos circular e conhecer ainda coisas novas, onde estão as nossas origens… Uma grande fatia dos nossos auto-proclamados turistas nada conhecem de Trás-os-Montes ou do Alto-Minho …
    Experimentem em vez de ir sofrer essas agruras que só valem pelo carimbo, comprar o “Portugal – O sabor da Terra”, meterem-se no carro e partir à descoberta verdadeira do nosso território, paisagem e sabores! Conheço quem descreva Varadero ou Cancún à exaustão mas nunca foi ao Planalto Mirandês ou visitou Torre de Moncorvo, que nunca comeu terrincho nem pão de lól de Margaride... De caminho temos sempre tempo e oportunidade de ir passando a fronteira e visitar as fronteiriças cidades vizinhas de Espanha, de Salamanca a Trujillo!

    O turista comum não se informa sobre as características meteorológicas de onde vai e marca uma semana em plena época de furacões, entre muitas outras desgraças! As agências, hotéis e pacotes arregimentam a gente que vive a sua vida tranquila e não quer chatices, que paga para ser servida, apesar de ser tratada como gado, o que não percebe ou finge que não… e já que este é um blog de leitura, sugiro o romance Globália ” de Jean-Christophe Rufin .

    Uma curta história lapidar:
    Numa tarde de meados de Julho, saía da água ali perto do Cabo Raso e uma carrinha inglesa parou junto de mim. Eram turistas que andavam a passeio vindos de Sintra e vieram meter conversa. Um dos casais era vizinho e conhecia os meus velhos amigos Allan e Maureen Mills , este também pescador submarino e capitão da selecção inglesa, que adoram Portugal e os haviam enviado para cá!
    Estavam todavia algo decepcionados! Tinham ido para Évora (em Julho!) e quase morriam de calor… as senhoras sentiram-se mal e passavam a maior parte do dia no hotel, mal podendo passear de manhã cedo! Nem apreciaram o Alentejo, desistiram logo ao fim do segundo dia e fugiram para Cascais, onde visitaram e adoraram Sintra, mas estava vista!
    Estavam à espera dum programa da agência que os ia enviar para o Allgarve … Pois, se fugiam do calor não achei que fosse boa opção!
    Conhecendo o casal Mills questionei-os sobre objectivos e interesses… mar e praia não, pois moram junto a ele! Gostavam de história e cidades medievais, de vinhos e gastronomia (daí Évora) e agora sobretudo frescura!
    Expliquei-lhes o Allgarve e ficaram em pânico… sugeri o Minho, e, ali mesmo em cima do capot do meu carro abrimos o mapa, tracei-lhes um percurso e sugeri um passeio!
    Foram dali directos à tal agência… semanas depois recebi um mail do Allan:
    - Adoraram! E, não se cansavam de dizer que o destino me tinha posto no seu caminho… tudo porque pararam para meter conversa com um tonto que saía da água ali junto da estrada do Cabo Raso!

    E pergunto, que dizer da agência? Se calhar lucrava com a sua percentagem sobre o hotel e etc. mas ia prestar um mau serviço a 6 turistas? Afinal fui mais profissional eu, porém viajante tarimbado (passe a vaidade)…

    Comprem o "Portugal – o sabor da terra", e Boa Viagem! Poupam dinheiro e chatices e terão gratas surpresas...

    QUem goste do Verão e não queira repetir Sagres ou queira movida, acreditem que vale mais a pena ir para a zona de Cádiz , onde se é mais bem tratado, come melhor e é mais barato... que o Allgarve !

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  3. É isso mesmo. Há apenas uns aninhos, a minha filha e esposo partiram em viagem para Tahiti. Com fotos magnificas, coroas de flores na cabeça e, colares floridos. Uma maravilha. De tal forma, k até sonharam ír para lá viver, na limpidez das águas. O problema é, k tudo é muito rupestre, até os hotéis levantados sobre estancas e, as funções exercidas na capital françesa não existem. Pagaram caro para encherem a memória de azuis, flores e, velhas raízes. As jóias compradas (pérolas cinzentas), custaríam mais barato na Europa. Mar, tudo tem o seu efeito de moda!

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  4. António Luiz Pacheco28 de abril de 2011 às 07:31

    Nem de propósito... e se me permitem, a quem se interesse por viajar, ficam os meus conselhos tirados de um power-point recente que usei num work-shop sobre viagens.
    É que eu sou um fanático da recolha de informação e da pesquisa!

    Princípios Base:
    1º - A viagem começa no momento em que
    decidimos fazê-la!
    (Também o gozo, com os preparativos…)
    2º - O sucesso depende mais de factores terceiros do que de nós mesmos!
    3º - Vamos investir tempo e dinheiro, tanto mais quanto mais longínquo ou ambicioso for o nosso objectivo.

    Logo, temos de preparar tudo bem!

    O improviso deve ser um recurso e não uma prática!
    1 – Uma vez definido o objectivo e o destino, recolher o máximo de informação possível sobre esse mesmo objectivo (peixe/locais), sobretudo dos factores terceiros.
    (Factores terceiros – tudo o que nos condicione ou ao nosso destino e objectivos, que não dependa directamente de nós: transportes, meios de comunicação, geografia, meteorologia, saúde, situação politica, factores sócio-económicos , tradições, religião, usos e costumes, história e passado).

    Disto depende em grande parte o sucesso, porque nos permite prever e ultrapassar as dificuldades, deixando-nos livres para enfrentar os imprevistos:
    a) Permite-nos ir devidamente equipados e preparados
    b) Possibilita estabelecer planos ou estratégias objectivos e realistas
    c) Potencia a adaptação local e as relações humanas, que são decisivas

    Fica aqui e assim o meu modesto contributo e a opinião feita da experiência por 3 continentes e lugares remotos.

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    Respostas
    1. António Luiz... isto parece um plano dum projecto de investigação da NASA! Percebo a ideia e concordo a 100% que a viagem começa quando decidimos fazê-la, mas o improviso, o imprevisto, o súbito, o 'derepentemente' são especiarias que dão outro sabor à viagem. Não me posso queixar de falta de quilómetros, em quatro continentes, em viagens planeadas por mim e não por agências, onde já gastei vários pares de botas, mas há que deixar espaço para a viagem ter vida própria...

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    2. António Luiz Pacheco28 de abril de 2011 às 13:38

      Minha Cara Areia:

      Tem e muito românticamente a minha simpatia e concordância... mas a aventura tem custos que nem todos podem pagar, seja em tempo , dinheiro ou espírito... e daí dizer o que digo naquele workshop... é um pouco assim como "Faz o que eu digo não faças o que eu faço"... compreende?

      Como se compreende, o mesmo imprevisto na Áustria ou Croácia, numa estrada da Califórnia, é bem diferente de ser na estrada de Benguela para a Lucira, no Norte Grande do Chile... ou em pleno mar das Caraíbas entre as ilhas Margarita e los Testigos ... e é a isso que me refiro, sem de modo algum duvidar das capacidades alheias para os resolver. Só que ambos sabemos que nem todos o conseguem ultrapassar... há quem fique na estrada entre Évora e Montemor com um simples furo...

      Boa noite e grato pela sua paciência em me aturar e dar troco! É um prazer poder falar aqui e assim consigo, acredite.

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    3. "há quem fique na estrada entre Évora e Montemor com um simples furo... "
      Muito bom! Não tenho dúvidas e conheço gente assim... Mas faltou dizer uma coisa: estamos a falar de viagens, e quem as faz são Viajantes... os outros são turistas... Deus nos livre e guarde!

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  5. Tansos é a palavra exacta.

    É que tansos partem (ou partiam) diariamente às centenas, para a Rep.Dominicana , Cancun , e outros que tais para passarem uma semana na praia....na praia, nós que temos praias em toda a costa, somos ou não tansos..... tristeza...

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  6. António Luiz Pacheco28 de abril de 2011 às 08:43

    Hum... tansos? Não iria tão longe, se bem que sim e sem dúvida que estes abundam entre os turistas massificados. Mas fazem falta, porque assim poupam e me preservam outros sítios onde gosto de ir...

    Muitas vezes é antes falta de informação... e repare, não se pode ficar só por cá... há muita coisa formidável para se ir ver noutros lados, e, o devemos fazer abrindo as janelas do Mundo e da vida!

    Pena é que as pessoas se embasbaquem com o que não merece e tantas vezes sem conhecer o equivalente que por cá temos... dentro do comparável claro, que há coisas incomparáveis!

    Porém ficar fechado no nosso espaço e achar que o que temos é o máximo e único, traduz apenas o ignorar ou a pequenez da visão, face às maravilhas que a Natureza espalhou pelo Mundo e o glorificam. Creio que me entende?

    Mas concordo sem dúvida com a idéia que temos algumas praias fantásticas, entre outras coisas magníficas! Se os Andes ou a Leba me esmagaram não deixei de me extasiar com o Marão ou a Lousã... nem o Índico me tirou o gosto pelo Meco... e as Caraíbas pelos Açores.

    Tudo a seu tempo e vez... e não devemos chamar tansos aos que são vítimas da sua ignorância ou de ardis montados. Pela minha parte tenho feito o que posso! Façam o mesmo, divulguem mas pelo esclarecimento e não pela humilhação.

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  7. Por vezes o paraíso está ao nosso lado e nós não o conseguimos enxergar. Vamos então para os ditos paraísos distantes, onde brilha o sol e há marolas e palmeirinhas e coisa e tal. Depois lá, vê-se tudinho enquanto e diabo esfrega um olho, e o tempo sobra. Parece que os ponteiros do relógio não se movem e têm preguiça tal como os povos desses locais. Desesperar? Não. Antecipar o regresso a casa? Não. Bater com a cabeça na parede e achar-se um tanso por ter tido a infeliz ideia de ter ido? Nada disso. E então, o que fazer? Ora, aproveite-se o tempo para dele tirar horas extraordinárias de leitura ou então faça-se nada. Absolutamente nada. Afinal de contas o não fazer nada dá um trabalho ..... e que trabalhão!!!!


    Gosto mesmo deste blog ...

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  8. António Luiz Pacheco29 de abril de 2011 às 06:53

    Minha Cara Areia
    Tem toda a razão em fazer tal destrinça!
    Graças a Deus que tenho encontrado neste blog gente inteligente e esclarecida que é de facto um prazer ler. Espero que por osmose eu possa receber alguma...

    Convém também explicar que o texto do workshop que reproduzo se destinava aos candidatos a aventureiros, gente que viaja para lugares longínquos para ir fazer pesca submarina... parece loucura mas havia 80 formandos... ou seja tratava-se na verdade de ajudar a preparar expedições, e eu (passe a vaidade) fui convidado a participar no painel de oradores porque possuo reconhecida experiência, ganha na prática e divulgada em artigos em revistas ao longo de 30 anos destas andanças. Também óbviamente lendo e aprendendo com outros! Cabe-me agora a mim repartir com os novos aquilo que fui recolhendo.

    Foi uma vez mais um prazer e desejo-lhe um fim de semana tranquilo!

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  9. Joao Tomas Castro e Melo29 de abril de 2011 às 07:30

    Li esse livro há uns anos e adorei! Mas sinceramente não achei que fosse, de um modo geral, uma sátira aos destinos de férias paradisíacos... achei que tinha uma história algo dramática... e de alguma forma metia a religião ao barulho, o que normalmente espicaça sempre o leitor! :-)

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  10. O livro de David Lodge é amiúde citado pelo activismo antiturismo, em particular este pequeno trecho caricatural e viperino no qual as viagens e o turismo são uma espécie de grandes evasões bárbaras:

    « Os carreiros na região dos Lagos transformam-se em trincheiras. Os frescos da Capela Sistina estão a sofrer danos provocados pela respiração e pelo calor físico dos visitantes. Em cada minuto, cento e oito pessoas entram na Catedral de Notre Dame. O Mediterrâneo é uma sanita sem corrente de autoclismo e as probabilidades de apanhar uma doença para quem nele se banha são de uma em seis. Em 1987 tiveram de fechar Veneza porque estava cheia.»

    Também J.G. Ballard, no livro Gente do Milénio, parece afinar pelo mesmo diapasão, e a evasão da viagem é percepcionada como forma de alienação (peri)patética escapista:

    "O turismo é o grande soporífero. É um enorme conto do vigário e dá às pessoas a ideia perigosa de que existe alguma coisa interessante nas suas vidas."

    "Viajar é a última fantasia que o século XX nos deixou, a ilusão de que ir a algum lado nos ajuda a reinventarmo-nos."

    "Todas estas viagens? Convenhamos, são uma ilusão. Viajar de avião, toda esta coisa de Heathrow, é uma fuga colectiva da realidade. As pessoas vão até aos balcões do check-in e por uma vez nas suas vidas sabem para onde vão. Pobres bestas, está impresso nos bilhetes."


    Ora, lembrei-me agora do Lawrence Sterne de “Uma Viagem Sentimental” que, mofino, escreveu:

    “Os ociosos que deixam o país natal vão para o estrangeiro por alguma razão ou razões que se podem derivar de uma destas causas gerais –
    Enfermidade do corpo,
    Imbecilidade do espírito, ou
    Necessidade inevitável.”


    Nem mais!

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  11. António Luiz Pacheco30 de abril de 2011 às 16:29

    Hum... o que me sugere dizer que os escritores deviam escrever sobre o que sabem e não sobre o que pensam...

    Essa tirada sobre os que vão para o estrangeiro, é exemplar!


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