As palavras de Lídia

Estive recentemente numa apresentação do último romance de Lídia Jorge, A Noite das Mulheres Cantoras, que ainda não li mas a que espero poder lançar a mão em breve. No pequeno debate que se seguiu, uma senhora referiu que os livros da escritora não raro reflectem problemáticas do nosso tempo e da nossa geografia e que é isso que os torna excepcionalmente ricos e interessantes (e Lídia, embora sem perder a habitual modéstia, pareceu concordar). Francamente, tenho dúvidas de que seja esse o motivo da riqueza literária da sua obra e, de algum modo, também duvido de que, para se fazer melhor literatura, tenha o escritor de trazer para o que escreve os dramas do presente. António José Saraiva, creio que no seu ensaio Iniciação à Literatura Portuguesa, diz que não se pode pedir ao escritor que se envolva (senão como cidadão) nos problemas sociais e políticos do seu tempo, advogando, em vez disso, que é escrevendo que cumpre a sua obrigação para com a vida. Ora, embora Lídia Jorge reflicta frequentemente sobre questões de natureza política e social nos seus romances, não é isso que faz dela a excelente escritora que é; pois temos imensa gente a dedicar-se às mesmas questões que não seria capaz de produzir a literatura intensa que nos dá. Disse a romancista na mesma sessão que o material do escritor – as palavras – é o mesmo de que toda a gente dispõe; e que devia haver uma maquineta, como as que contam os batimentos cardíacos ao longo de um dia, que registasse a quantidade de palavras que todos os seres humanos pensam (mas não dizem) pois estas seriam seguramente belíssimas. O escritor – notou então – só se distingue desses seres humanos porque não tem pudor de partilhar essas palavras que não diz. Mais uma vez, acho que foi modesta e que, se houvesse realmente a tal maquineta, Lídia Jorge podia facilmente mudar de opinião...

Comentários

  1. depende de como se escreve e quer escrever.

    há quem prefira abstrair-se do presente e também quem absorva tudo o que consegue do quotidiano.

    sem ter lido este livro, mas como leitor da Lidia, acho que ela utiliza muito a actualidade, não necessariamente do nosso presente, mas a dela, da sua geração.

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  2. Talvez tenha razão, se houvesse essa maquineta a Lídia Jorge poderia mudar de opinião. Todos disposmos da mesma matéria-prima, as palavras. Possuímo-las, em maior ou menor quantidade consoante o que estudamos ou lemos, contudo nem todos as combinam para fazer nascer horas extraordinárias, como as que qualquer um pode ter ao ler por exemplo, "O Vale da Paixão" da Lídia Jorge ou "O Canto do Vento nos Ciprestes” da Maria do Rosário Pedreira.

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  3. António Luiz Pacheco11 de abril de 2011 às 05:57

    Atrevo-me a dizer que me parece que há entre os escritores, aqueles que tendo vivido e possuindo experiência, usam isso para escrever.

    Há os que não, esses têm de ficcionar tudo, pois têm na bagagem muito pouco!

    Fora os que se inspiram em factos e lá voltamos ao romance histórico actual ou passado...

    Desta vez, ou não entendi (e desconfio que não, sendo minha a culpa certamente) ou não concordo com MRP e a sua máquina...

    O que faz de Lídia Jorge o que ela é, é por um lado a sua interpretação do Mundo e das coisas, e por outro a capacidade que recebeu em o pôr nas palavras escritas. Acho que isso não é comum a toda a gente... com nem todos somos capazes de pintar um quadro, fazer fotos, esculpir, cozinhar, compor ou simplesmente interpretar um trecho musical... correr, driblar, montar a cavalo, fazer um móvel, levantar uma parede, tosquiar uma mula, disfarçar um rasgão numas calças...

    Por mais máquinas que haja para sacar lá de dentro o que quer que seja... como a mais poderosa bomba não pode tirar água de um poço seco!

    Me perdoem a ousadia de ignorante e tenham uma boa semana!

    - PS: Boas novas, vi na internet que vão fazer uma segunda edição da boneca insuflável da Miley Cyrus ... talvez assim os tais comentários conheçam uma trégua!

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  4. Não sabia que as mulas se tosquiavam, mas a ideia dessa máquina parece-me um lugar de reflexão impressionante.

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    Respostas
    1. ah ah ah claro que se tosquiam mulas ...

      não fosse assim não andavam por aí tantos sem cabelo ... ah ah ah ...

      não se pode, ou não se deve, tosquiar ideias, palavras, sonhos .... ou será que se deve? ou será que se pode?

      e com essa "lã" tosquiada que surjam os belos poemas, os belos compêndios, os belos romances e as belas e extraordinárias horas, dias, semanas de leitura e reflexão.

      bom dia a todos.tosquiados ou não ....

      ah ah ah ....

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  5. As "palavras que todos os seres humanos pensam (mas não dizem)" - ou será antes: os sentimentos que todos os seres humanos têm, mas não admitem. Ficam recalcados, ou esquecidos, no sub-consciente. "O escritor só se distingue desses seres humanos porque não tem pudor de partilhar" esses sentimentos. Aprende a ir buscá-los e a assumi-los.

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