A pequena depressão
Confesso que ando um bocado deprimida com a situação que atravessamos. Custa-me que tenhamos o FMI portas adentro (presumivelmente por dez anos, o que é uma vergonha) e que tenha sido possível chegarmos a este ponto. E custou-me que um capitão de Abril dissesse numa entrevista que, se soubesse que o futuro era assim, não teria lutado pela democracia. Não sei exactamente o que falhou, mas tenho a convicção de que, entre outras coisas, os responsáveis pela educação não aproveitaram a liberdade senão para, de cada vez que mudava o partido do Governo, fazer tábua rasa de tudo o que os seus oponentes haviam feito, bem ou mal. E que, por isso, há gerações que fizeram quase toda a escolaridade num caos de mudanças que em nada contribuiu para que se lesse e escrevesse melhor em Portugal. Quando ouço alguns políticos falarem, pergunto-me se já terão lido um livro inteiro, de tal forma é pobre o seu discurso. Uma vez, no Dia Mundial do Livro, entrevistaram num programa de rádio vários políticos, inquirindo-os sobre o último livro que tinham lido. Muitos responderam Os Maias – e fiquei a pensar se ainda teria sido na Escola Secundária... Como dizia Padre António Vieira: «Quem não lê, não quer saber; quem não quer saber, quer errar.»
Por vezes, tenho vergonha das minhas limitações: frequentemente, cometo erros do arco-da-velha e, por preguiça, muita coisa abordo-a pela rama. Um pouco por acaso , comecei a reler Virgílio Ferreira: quis perceber melhor essa coisa do existencialismo. Sim senhor, por isso é que ele é mesmo grande escritor: quando se começou a falar, a torto e a direito, na pedofilia , veio-me logo à ideia a Manhã Submersa. Claro que se for ao Alentejo não me ocorrerá a Aparição, mas, antes, o grande Manuel da Fonseca. Pois é, sem a Revolução do 25 de Abril, não haveria luz e se o militar está arrependido, outros o fariam ou então é porque o seu papel no movimento não terá sido assim tão relevante: antes dele muitos deram a cara e a vida, que o digam os do MPLA, PAIGC, MLST , FRELIMO, MDP CDE , PCP. O problema dos nossos dirigentes de agora é que julgam nunca errar, nem têm vergonha de assumir as suas limitações. Um deles até afirmou que nunca tem dúvidas, nem se engana...
ResponderEliminarOutro que subscrevo na íntegra!
ResponderEliminarTenho alunos na faculdade que dizem NUNCA ter lido um livro e que NUNCA lêem nem sequer jornais, nem mesmo os online. E DUVIDO até que muitos desses políticos que dizem ter lido "Os Maias" o tenham feito na edição comentada e abreviada da Europa-América...
Deprimida, sim, também eu. Que futuro podemos sonhar, com este presente envenenado? E dos políticos era suposto esperarmos o melhor, pois estão lá para servir o país, certo? Mas qual é o político que sai do poder com o mesmo nível de vida que tinha antes? Concordo que a educação tem sido a grande fraqueza deste país. Apetece perguntar: alguém beneficiará com isto?
ResponderEliminarEntretanto, pelo que li numa revista, o Capitão de Abril já veio dizer que afinal lutaria na mesma.
ResponderEliminarE apesar de tudo, agora existe um número muito maior de pessoas que sabem ler e de livros, além de escritos acessíveis na net, por exemplo, em blogues...
Não esteja, não esteja, Dra... O Miguel Real, no JL, até já lançou o Davidezinho Machado na corrida para o Prémio Saramago e tudo! Quer melhor prendinha? Olhe, se calhar o que "falhou" foi isto mesmo, demasiada "comadrice" num país tão pequeno, e tão desacarada como a do Miguelito, mas pronto, agora é tarde. Bem haja.
ResponderEliminarSó para o tranquilizar, uma vez que é a segunda vez que fala do assunto, o livro do David Machado não poderá concorrer ao prémio Saramago tão cedo, pois a próxima edição só abarca livros de 2009 e 2010. E não tenha o Miguel Real em tão má conta, que ele não merece.
EliminarAi a sua depressão é só "pequena"? Dura quanto tempo por dia? É que há por aí depressões bem grandes, Dra. Talvez fosse melhor só escrever sobre o assunto quando, digamos, dominar a matéria por experiência própria.
ResponderEliminarPequena por oposição à Grande Depressão, e solidária com os que a têm maior.
EliminarLá porque alguns têm necessidade de escrever, não obriga a que muitos tenham necessidade de ler.
ResponderEliminarEsta é outra frase que devia levar pessoas que julgam que cultura apenas se encontra nos livros… a terem a humildade de pensarem duas vezes antes de abrir a boca (ou no caso correr a pena).
O nosso maior exemplo de literatura é excelente livro de matemática onde o tipo passa o tempo e inventar palavras, para satisfazer a prioridade da sua métrica e da sua rima.
Ele conjugaria pé com mé, desde que tal sirva o seu propósito métrico (e tanto o pé como o mé requereriam uma reinterpretação ás três tabelas para aquilo fazer algum sentido e para o homem continuar a ostentar o titulo de génio literário num país de cegos e onde ele tinha realmente apenas um olho) .Como tal… aprendam os Lusíadas em matemática e não afastem desde tenra idade as pessoas da leitura com estas pomposas cagadas literárias.
Os Maias… ai… os Maias!!! Mais um livro de um chato que não tem nada de novo para dizer e demora quinhentas paginas a faze-lo!!!
Shakespeare escreveu tudo o que existia para escrever, depois dele apenas se rescreveu …em alguns casos com alguma graça e interesse; como Almada Negreiros e A Cena ao Ódio, mas na grande maioria das vezes em que se pega num livro a perda de tempo é infinita. Ao contrario de Oscar Wilde, que se não me tivesse cruzado com o seu Retrato de Dorian Gray em tenra idade teria fugido dos livros para sempre, pois já não podia nem com “os cinco” nem com “os sete” , os Esteiro, o Constantino ; as Serras, as Barcas e um enorme enxame de chatos. Onde não existia Príncipe Feliz que me safasse ou Rouxinol e a Rosa que me agradasse… Enfim… rescrições que acabariam por me levar ao original e á melhor frase de sempre da literatura (como para o cinema está a ultima do Casablanca “ Louis… I think this is the beginning of a beautiful friendship. “ ): “If you pick us, do we not bleed? If you tickle us, do we not laugh? If you poison us, do we not die?...
Adoro ler, mas cada vez mais leio menos aquilo
que a grande maioria dos críticos e “entendidos” recomenda.
Tirando a geração do Orfeu, pouco existe em Portugal que valha a pena ler…eu sei que o Saramago ganhou o Nobel (e sabem o lobby que se fez para ele o ganhar??? EU SEI!!!) e em comparação com muitos outros agraciados, até que não envergonha em nada. Mas a mim… é mais aquele que recusou o Nobel que interessa.
Em Portugal neste momento fujo da literatura, com a mesma velocidade com que fujo da música e do cinema e por amor de Deus… já mais me obriguem a ir ao teatro.
Onde é que está um Irvine Welsh?
Onde é que estão uns Linkin Park?
Onde é que está um Christopher Nolan?
Quanto ao teatro…vídeo kill the rádio star! (ou seja o cinema matou-o!!! Ele é que não deu por nada e continua a andar moribundo por ai ) [eu sei… que Shakespeare é teatro…pois…mas Mario Puzo também escreve, mas… não têm o Marlon Brando e é por isso que o Padrinho é cinema e por não existirem Marlons Brando a fazerem teatro ( o Alec Baldwin bem foi gritar “STELLA” para a Broadway …mas …não é a mesma coisa!!!)
Pois… e enquanto não existirem por cá uns que valha a pena referir em paralelo com os anteriores… O FMI é a nossa menor razão para depressão no que a “cultura” diz respeito.
PS. Quanto ao capitão de Abril… deixe lá isso… Esse caso único que se arrependeu da única vez que esteve certo na vida… é obra!!! Pois, até um relógio avariado está certo duas vezes por dia e têm o dobro do discernimento do pobre homem.
ResponderEliminaré de facto confrangedor, o mal que se tem feito a todos nós, mas não é só na educação.
ResponderEliminartanta incompetência a deste bloco central.
os políticos gostam sempre de responder às perguntas dos livros preferidos com clássicos.
"Os Maias" estão sempre lá. e até "Os Lusíadas"...
Minha amiga,
ResponderEliminarnesta sua crítica velada mete também as "más acções " do seu irmão aquando da sua passagem pelo ME ou não?
Conclusão Padre Antonio Vieira estava certíssimo:
ResponderEliminar" ... quem nao quer saber , quer errar."
quanto palavrório desses senhores letrados...